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Libertação masculina

Renault-Fluence_mp43_front_closeup_wallpaperMultiplicam-se os anúncios que exaltam a masculinidade. Este anúncio da Renault é um exemplo. O homem liberta-se da família, do trabalho e dos compromissos. Com que propósitos? O que é, na óptica da publicidade, um homem livre? O que faz? Evade-se, vai a uma churrascaria, faz desporto, combate, procura a natureza, caça e, sobretudo, conduz um automóvel. Com que símbolos? O cão, o fogo, a espada, o cavalo, a águia e o automóvel.

A agência Publicis explica:

“La mayoría [de los hombres] tiene responsabilidades, su casa está tomada por la familia y el trabajo, todos los días los esperan con nuevos desafíos -por no decir problemas-… En este contexto, el nuevo Renault Fluence es un espacio de libertad para hacer o para ir adonde quieran, comer lo que quieran, jugar a lo que quieran, escuchar la música que quieran, atender o no el teléfono, en resumen el nuevo Renault Fluence es el símbolo de libertad masculina”.

Este anúncio associa, declaradamente, o Renault Fluence ao género masculino. E as mulheres? Não conduzem? Não compram? Espera-se que sejam atraídas pela “masculinidade” do automóvel?

Marca: Renault. Título: Símbolo de libertad Masculina. Agência: Publicis Buenos Aires. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Dezembro 2014.

A Paixão das Mulheres

Alto Palermo. Mais lindasÀs mulheres, dava jeito um par de mãos suplementar. Vale-lhes o Alto Palermo, um shopping em Buenos Aires. A maioria dos anúncios argentinos destaca-se pela expressividade. Mesmo quando enveredam pela oralidade, os anúncios tendem a sobrepor a ilustração à forma e à retórica. A chave do anúncio é ciosamente adiada para os últimos segundos. Entramos antes de abrir a porta; só com a porta aberta, sabemos onde entrámos.

Marca: Alto Palermo. Título: HandMa. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Dezembro 2013.

Para alívio das mulheres, os homens são descartáveis. Uma libertação! A vocação dos homens consiste em ser ex. Por acréscimo, são fáceis de substituir. Abundam, com garantia de qualidade, em locais como o Alto Palermo, “pasión de mujeres”. Um número crescente de marcas prefigura novos tempos em que os homens se convertem em Adónis a tempo parcial, “galateios” à medida e gigolos baratos.

Marca: Alto Palermo. Título: Ex. Agência: Young & Rubicam. Direção: Brian & Nico. Argentina, Dezembro 2013.

O lado feminino do homem

Granja del SolPanar alguns preconceitos de género e fritá-los com desenvoltura. O masculino agradecerá ao feminino. Eis uma receita corrente mas não antiga: nem sempre se assumiu que o masculino tem um lado feminino.

Marca: Granja del Sol. Título: Lado Feminino. Agência: Cravero (Buenos Aires). Direção: Javier Garrido. Argentina, 2013.

Discriminação de género

Dove Men +Care. Slow.Transferir um atributo típico de uma figura para outra de que é atípico representa uma solução clássica de humor. Por exemplo, o cabelo da mulher para o homem. Mas, para além da confusão de género, estamos perante um anúncio a um shampoo “masculino” que parodia e caricatura os anúncios a shampoos “femininos”. Para salvaguarda da masculinidade…

Marca: Dove. Título: Slow. Agência: Ogilvy. Direção: Carlão Busato. Brasil, Março 2013.

A Mulher, o Homem, o Carro e a Bebida

As relações de género, como todas as relações, conhecem fases e oscilações. Várias figuras podem ser revisitadas no espaço e no tempo. No anúncio da Hiunday, o efeito Axe passa dos desodorizantes para os automóveis. A mulher, tendência Eva, é desejo e tentação a um passo do pecado (ligar HD). No anúncio da William Lawson’s, a mulher, tendência Maria, serva do lar vestida de noiva, é afastada por uma fratria masculina de bebedores de Whisky. Mudam-se os tempos, renovam-se as vontades.

Marca: Hyundai. Título: Upskirt. Agência: Fitzroy, Amsterdam. Holanda, Setembro 2012.

Marca: William Lawson’s. Título: Wedding. Agência: Famous, Brussels. Direção: Koen Mortier. Bélgica, Setembro 2012.

Masculinidades

Havia povos onde existia uma “casa dos homens”. Homens e mais homens a fazer, entre homens, coisas de homens. Jagermeister, uma bebida de origem alemã, “was invented by a passionate hunter as a strong drink to toast achievements and seal bonds amongst strong men”. Poder-se-á falar em ressurgimento dos valores da masculinidade na publicidade? Aliás, estes alguma vez desapareceram? Deixaram de ser ostensivos? Foram, porventura, eufemizados? Este anúncio é como o algodão, não engana: resume-se a “homens e mais homens a fazer, entre homens, coisas de homens” para agradar a homens e a mulheres.

Marca: Jagermeister. Título: A Seat at the Table. Agência: Mistress Prettybird. Direção: Albert Hughes. EUA, Maio 2012.

Igualismo autocentrado

Um aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura enviou-me este anúncio, recente, legendado em português (ver: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=n9Fl_6C4zDs#!). Trata-se, como é habitual na publicidade, de uma paródia, designadamente, de filmes. Trata-se também, o que é menos habitual, de uma reciclagem de anúncios anteriores, nomeadamente do Battle do jornal Mail on Sunday (ver vídeo 2). Em ambos os casos, estamos perante uma “guerra dos sexos” que culmina numa trégua, num saboroso momento de “igualismo”. Como tem sido recebido este anúncio? “Do ponto de vista do público argentino, em geral estão acontecendo duas maneiras de recepção para esta campanha:  A primeira gosta do comercial, gosta da ideia da sacada/brincadeira de usar uma guerra literalmente para opor homens e mulheres. A segunda é de que as mulheres pensam que o comercial é extremamente machista e se apoiam em uma fala de uma moça que diz que aceita lavar a roupa do seu par e, dessa maneira, estimulando publicamente o conformismo da mulher para que aceite suas tarefas domésticas” (Artur Fernando Ziguratt: http://psvsite.com/?p=2687). Duas achas suplementares: o anúncio ostenta uma capa demasiado épica para lograr um efeito de realidade, o que é normal na publicidade. Por outro lado, o igualismo encenado é um igualismo inclinado. Os discursos centram-se principalmente nos homens. Se é verdade que dialogam homens e mulheres, todos falam, essencialmente, do mesmo, os homens. Os homens é que são o pomo da discórdia. Fica “o sabor do encontro”.

Marca: Quilmes: Título: Igualismo. A guerra dos sexos. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Janeiro 2012.

Marca: Mail on Sunday. Título: Battle. Agência: Bartle bogle Hegarty. Direção: Traktor. Reino Unido, Maio de 2007.

O homem não vale uma pasta de chocolate

Estes dois anúncios ilustram a arte argentina de contar pequenas histórias eventualmente chocantes. São concentrados de género explícito: um homem é um homem, uma mulher é uma mulher e o tango é o tango. Por muito querido que seja, um homem não vale uma pasta de chocolate (vídeo 1). Estaciona a anos-luz da alma gémea incompreendida. Egoísta, autocentrado e estúpido até meter dó, o homem é a peça mais defeituosa da criação divina. Se determinado homem chumba no teste do chocolate, a Cadbury propõe um sortido masculino (vídeo 2). Talvez assim desfrute do efeito Cadbury: a via láctea para o prazer!

Produto: Cadbury Chocolates. Título: You’re Right. Agência: Del Campo/Nazca & Saatchi & Saatchi Buenos Aires. Direção: Nico&Martin. Argentina, Julho 2009.

Produto: Cadbury Chocolates. Título: No nos importa el fútbol: Llorón. Argentina, 2010. 2ª versão.

A cerveja vai à ópera

A relação dos homens com a cultura deixa, por vezes, a desejar. Quem se lembra de beber cerveja com ópera? Ainda por cima, na companhia de mulheres? Só podia dar confusão.

Produto: Bud Light Beer. Título: Opera Wave. Agência: DDB Chicago. Direção: Erich Joiner. EUA, 2007.

O desencontro entre os homens vem, pelos vistos, de longe. A ópera teima em ser um quebra-prazeres.

Exorcismos de machos

Um grupo de alunos de sociologia está a iniciar um estudo sobre a evolução recente da imagem da masculinidade na publicidade. Tropecei neste anúncio e dei-me conta de quão difícil poderá vir a ser a sua missão. O mundo da publicidade é imenso e, à semelhança de um albergue espanhol, nele pode caber quase tudo, incluindo o inesperado. Por exemplo, esta publicidade por parte da Snickers, marca cujos anúncios são reputados pela aposta na virilidade!

Marca: Snickers Bar. Título: Mechanics. Agência: Tbwa New York. Direção: Ulf Johansson. EUA. Fevereiro 2007.