Nascer em Portugal é um pau de dois bicos
Nascer em Portugal não é bom nem é mau. Depende. Para uns é uma sorte, para outros, um azar. Alguns fora daqui não são nada, muitos só lá fora são alguém. Nascer em Portugal é um pau de dois bicos. Quem canta bem este fado é o Manuel Freire (o José Afonso e o Adriano Correia de Oliveira ficam para amanhã).
Manuel Freire. Pequenos deuses caseiros. 1973.
Manuel Freire. Eles. Trova do Emigrante. 1971.
Crónica de um País Depenado
Depois de tanto prenúncio e tanto sofisma, Portugal acorda trágico. Não é uma mera reincidência da tragédia do fado ou da tragédia sebastiânica, trata-se de uma tragédia da acção, que nos faz e desfaz todos os dias. Não há, agora, guitarra ou nevoeiro que nos valha. Nem Castela ou Inglaterra que nos indigne. Cumpre-nos escolher sem chaves, apostar convictos numa travessia incerta. Não somos heróis, nem cretinos, transportamos apenas, à imagem do Zé Povinho, um peso que nos verga sem promessa de alívio. Mas, está escrito, a nossa alma não é pequena. Portugal é, sem dúvida, um país depenado, onde em cada esquina encontramos um Pedro Só (ver trailer e canção) dominado por “pequenos deuses caseiros”. Mesmo assim, indo além da “Cantilena” de Francisco Fanhais, conseguiremos cantar sem bico e voar sem asas, porque somos herdeiros da noite!
Trailer do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa (1972); canção homónima de Manuel Freire.
Francisco Fanhais, Cantilena, 1969.
