Jornada. Por e contra D. Quixote

Há mais de meia dúzia de anos que não falava duas horas em pé e com expressão gestual desenvolta. O Alfredo Machado captou o momento. Este reparo peca provavelmente por vaidade, mas vaidade humilde e, pesem as voltas da vida, agradecida.
Um pouco de quixotismo pode ajudar a sonhar, tentar e perseverar (desde que com a companhia do Sancho Pança). Jacques Brel sublinha-o na canção “La Quête”. Já Manuel Freire grita, a contramão da “Pedra Filosofal, “Abaixo D. Quixote”.
[Carregar nas imagens para as aumentar e aceder às respetivas legendas].








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A Busca
La quête
(Jacques Brel)
Sonhar um sonho impossível
Rêver un impossible rêveCarregar a tristeza das partidas
Porter le chagrin des départsQueimar com uma febre possível
Brûler d’une possible fièvreIr aonde ninguém vai
Partir où personne ne partAmar até o dilaceramento
Aimer jusqu’à la déchirureAmar, até demais, até mal
Aimer, même trop, même malTentar, sem força e sem armadura
Tenter, sans force et sans armureAlcançar a inacessível estrela
D’atteindre l’inaccessible étoileEsta é a minha busca
Telle est ma quêteSeguir a estrela
Suivre l’étoilePouco me importa a minha sorte
Peu m’importent ma chancePouco me importa o tempo
Peu m’importe le tempsOu minha desesperança
Ou ma désespéranceE, depois, lutar sempre
Et puis lutter toujoursSem perguntas, nem descanso
Sans questions ni reposDanar-se
Se damnerPelo ouro de uma palavra de amor
Pour l’or d’un mot d’amourNão sei se serei esse herói
Je ne sais si je serai ce hérosMas, meu coração estaria tranquilo
Mais mon coeur serait tranquilleE as cidades se salpicariam de azul
Et les villes s’éclabousseraient de bleuPorque um infeliz
Parce qu’un malheureuxAinda arde, apesar de ter queimado tudo
Brûle encore, bien qu’ayant tout brûléAinda arde, até demais, até mal
Brûle encore, même trop, même malPara alcançar até se esquartejar
Pour atteindre à s’en écartelerPara alcançar a inacessível estrela
Pour atteindre l’inaccessible étoile
Como vento na areia

Gosto das canções do Manuel Freire. Da voz e dos poemas. Envolvem, abalam e embalam. Ressalvando “Pedra Filosofal” e “Livre”, poucas visualizações colhem na Internet. O Tendências do Imaginário contempla seis canções do Manuel Freire. Acrescento quatro: “Pedro Soldado”, “Poema da Malta das Naus”, “Canção” e “Dulcineia”). Aproveito para enxertar algumas figurinhas populares do polaco Tadeusz Kacalak (imagem).











A roda da vida
“As três grandes épocas da humanidade são a idade da pedra, a idade do bronze e a idade da reforma” (Jean-Charles, La foire aux cancres, 1962).
O tempo passa. De fio a pavio. Coloquei recentemente canções sobre o entardecer da vida, em francês e em espanhol. Abundam, também, em língua portuguesa. Segue uma meia dúzia, direta ou indiretamente, de um ou de outro modo, dedicadas ao avanço da vida.
Instintos

Volvidos 50 anos, continuo convencido que nem a democracia é instintiva nem as ditaduras contranatura. Os cravos, frágeis, querem-se cuidados, como a rosa do Principezinho. Recoloco 4 canções, antigas, sem ilusões: Cantilena, de Francisco Fanhais (1969); Os Eunucos, de José Afonso (1970); Que Força É Essa?, de Sérgio Godinho (1972); e Pequenos Deuses Caseiros, de Manuel Freire (1973).
Celeste Martins Caeiro a distribuir cravos
Música sobre a emigração

Fotografia rasgada. Metade ficava em Portugal, a outra regressaria mais tarde.
Sem eira, nem beira
Sem Pátria onde albergar
Estrangeiro em terra alheia
Estranho no meu lugar
(Letra de uma canção sobre a emigração).
Um grupo de alunos propôs-se fazer um vídeo sobre a emigração. Felicito-os pela ideia e pela vontade. Quatro músicas sobre a emigração são incontornáveis: Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia; Eles (1968), de Manuel Freire; Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira; e O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.
Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia.
Eles (1968), de Manuel Freire.
Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira.
O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.
Não há machado que corte a raiz ao pensamento
How real is real (Paul Watzlawick)? Com a linguagem. How to do things with words (J. L. Austin)? Com o poder.
A ciência tem poder e é uma linguagem. A ciência é polifónica. Fala com várias vozes. É dialógica e polémica. Confrontam-se vários discursos. Por enquanto, não é totalitária.
A ciência mede-se e hierarquiza-se. Observa-se uma tendência para confundir o que é medido com a medida, o indicador, com o indicado. Em jargão académico, chama-se a esta falácia “reificação”. No meu dialecto, chama-se parvoíce e embuste. A avaliação da ciência recorre à arte rupestre de contar. Um cientista que se preze passa a vida a contar os seus próprios indicadores, bem como os indicadores dos outros. Um conto desgraçado. Trata-se de uma realidade de 3º ou 4º grau, uma nova forma de alquimia. A avaliação substantiva e a avaliação qualitativa vão ficando pelo caminho.
Na ciência, embora não se aceleram partículas, como no CERN, acelera-se a investigação e a divulgação. A velocidade é uma dimensão importante do cientista moderno. É o efeito Speedy Gonzalez. À semelhança dos electrões, um cientista não deve estar parado. O cientista é a formiga do milénio. Só lhe falta ser ubíquo. Talvez com a ajuda de um sucessor da videoconferência. Por este andar, o cientista ainda se vai dedicar mais à divulgação do que à produção de resultados.
Aprecio pouco a noção de “indústria cultural” de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas utilizo-a e, até, a extrapolo: a ciência parece, cada vez mais, uma “indústria científica”. Se aos olhos da Escola de Frankfurt, a industria cultural é nefasta, a meus olhos, a indústria científica também não é grande maná.
Quando preencho os relatórios de actividade científica tenho propensão para o desabafo. É mais avisado ouvir música. Por exemplo, Livre, de Manuel Freire, com letra de Carlos Oliveira, ou o Coro dos Escravos Hebreus, de Giuseppe Verdi. Uma brisa de liberdade refresca o espírito.
Manuel Freire. Livre. 1968
Giuseppe Verdi. Coro dos escravos hebreus. Nabucco. 1841
Manuel Freire / Carlos Oliveira: Livre
(Não há machado que corte
a raíz ao pensamento) [bis]
(não há morte para o vento
não há morte) [bis]
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão
Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre
A Menina Bexigosa
São raras as canções que abordam a discriminação estética. A Menina Bexigosa (1973), de Manuel Freire, consta entre as excepções. Nunca, como hoje, a fealdade foi tamanho fardo e a beleza tanto capital. Numa sociedade rendida à aparência, a beleza é a primeira e a mais eloquente carta de recomendação. No Discurso Sobre as Paixões do Amor (1652-1653), Blaise Pascal constata que “há um século para as loiras, outro para as morenas (…) A própria moda e os países regulam aquilo que se chama beleza”. A moda passa, mas permanece. A beleza justifica uma violência simbólica exacerbada. Os ismos e os pós ismos, tão cheios de razão, têm ignorado esta desigualdade. Não há nada a fazer? Talvez ver com outros olhos, o que não se resume aos óculos.
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem (Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520-1525).

Manuel Freire. A Menina Bexigosa. 1973.
A Menina Bexigosa
A menina bexigosa viu-se ao espelho
soltou-se do vestido e viu-se nua
está agora vestida de vermelho,
inerte, no passeio da ruaAntes fora alegria e alvoroço
mas num baile ninguém a foi buscar
morreu o sonho no seu corpo moço
passou a noite a chorarTanto chorou que lhe chamaram louca
cada qual lhe levava o seu conselho
mas ninguém ninguém ninguém lhe beijou a boca
e a menina bexigosa viu-se ao espelhoDepois, fecharam a janela
vieram os vizinhos: ´Pobre mãe…´
vieram os amigos: ´Pobre dela…´
era tão boa e simples tão honesta,
… portava-se tão bem´
E dão-lhe beijos na testa
beijos correctos pois ninguém, ninguém
soube em vida matar a sua sede´A menina bexigosa portava-se tão bem´
O espelho continua na parede.Sidónio Muralha
Nascer em Portugal é um pau de dois bicos
Nascer em Portugal não é bom nem é mau. Depende. Para uns é uma sorte, para outros, um azar. Alguns fora daqui não são nada, muitos só lá fora são alguém. Nascer em Portugal é um pau de dois bicos. Quem canta bem este fado é o Manuel Freire (o José Afonso e o Adriano Correia de Oliveira ficam para amanhã).
Manuel Freire. Pequenos deuses caseiros. 1973.
Manuel Freire. Eles. Trova do Emigrante. 1971.
Crónica de um País Depenado
Depois de tanto prenúncio e tanto sofisma, Portugal acorda trágico. Não é uma mera reincidência da tragédia do fado ou da tragédia sebastiânica, trata-se de uma tragédia da acção, que nos faz e desfaz todos os dias. Não há, agora, guitarra ou nevoeiro que nos valha. Nem Castela ou Inglaterra que nos indigne. Cumpre-nos escolher sem chaves, apostar convictos numa travessia incerta. Não somos heróis, nem cretinos, transportamos apenas, à imagem do Zé Povinho, um peso que nos verga sem promessa de alívio. Mas, está escrito, a nossa alma não é pequena. Portugal é, sem dúvida, um país depenado, onde em cada esquina encontramos um Pedro Só (ver trailer e canção) dominado por “pequenos deuses caseiros”. Mesmo assim, indo além da “Cantilena” de Francisco Fanhais, conseguiremos cantar sem bico e voar sem asas, porque somos herdeiros da noite!
Trailer do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa (1972); canção homónima de Manuel Freire.
Francisco Fanhais, Cantilena, 1969.





