Desilusão a conta gotas / Carta de Pierre Bourdieu

Há dias, submetive-me a uma plataforma “administrativa”. Foi complicado provar quem era e de onde vinha. Não o fazia há décadas. Não encontrei nem diploma de doutoramento nem certidão de agregação. A maior parte dos papéis dormiam em caixotes por motivo de obras em casa e não me dispus a acordá-os. Encontrei um certificado do doutoramento e desisti de ser agregado.
Há males que vêm por bem! Tive a fortuna de deparar com uma carta tresmalhada do Pierre Bourdieu, que anexo. Compensou, mas também ensimesmou. Não consegui evitar uma pergunta recorrente:
O que me motivou, em 1982, a regressar a Braga para marinar profissionalmente durante 39 anos numa desilusão a conta gotas?

Convidado em 1981, resisti. Em Paris, tinha emprego, estava a fazer doutoramento e acalentava boas perspetivas.
Em 1982, acabei por seguir as pegadas de centenas de milhares de compatriotas. Mas esta resposta genérica não me satisfaz. Cada um é um caso e existem nadas que fazem grandes diferenças: os tais “efeitos borboleta”. Por exemplo, desamores lá e amizades cá.

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Dois pequenos cupidos ou vinte dedos pueris

Os anúncios “Ten Little Fingers” (Nas mãos de uma criança, 17.07.2013) e “Is Mankind?” (Revolução Digital, 17.07.2015) conseguem uma combinação rara de singeleza e encanto. Com dedos de bebés. Das mãos e dos pés. Quando penso em mãos, acodem-me Miguel Ângelo, Albrecht Dürer, Auguste Rodin e, agora, Bruno Aveillan. Quanto aos pezinhos, do anúncio da Airbnb, cito o comentário da iSpot:
No anúncio da nova campanha global da Airbnb, vemos um bebé a dar os seus adoráveis passinhos com as pernas arqueadas pelo corredor da sua casa, até à porta da frente. À medida que ele percorre esse caminho, ouvimos a voz off a fazer-nos perguntas reveladoras, como se o ser humano é bondoso e se nós somos boas pessoas. À medida que o bebé se aproxima da porta com janela e é envolvido por uma luz mais intensa, somos encorajados a sair para o mundo e a descobrir as respostas por nós próprios. Somos convidados a ir, ver e descobrir até que ponto a humanidade pode ser amável” (https://www.ispot.tv/ad/7vs6/airbnb-is-mankind. Consultado em 17.07.2026).
Jornada. Por e contra D. Quixote

Há mais de meia dúzia de anos que não falava duas horas em pé e com expressão gestual desenvolta. O Alfredo Machado captou o momento. Este reparo peca provavelmente por vaidade, mas vaidade humilde e, pesem as voltas da vida, agradecida.
Um pouco de quixotismo pode ajudar a sonhar, tentar e perseverar (desde que com a companhia do Sancho Pança). Jacques Brel sublinha-o na canção “La Quête”. Já Manuel Freire grita, a contramão da “Pedra Filosofal, “Abaixo D. Quixote”.
[Carregar nas imagens para as aumentar e aceder às respetivas legendas].








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A Busca
La quête
(Jacques Brel)
Sonhar um sonho impossível
Rêver un impossible rêveCarregar a tristeza das partidas
Porter le chagrin des départsQueimar com uma febre possível
Brûler d’une possible fièvreIr aonde ninguém vai
Partir où personne ne partAmar até o dilaceramento
Aimer jusqu’à la déchirureAmar, até demais, até mal
Aimer, même trop, même malTentar, sem força e sem armadura
Tenter, sans force et sans armureAlcançar a inacessível estrela
D’atteindre l’inaccessible étoileEsta é a minha busca
Telle est ma quêteSeguir a estrela
Suivre l’étoilePouco me importa a minha sorte
Peu m’importent ma chancePouco me importa o tempo
Peu m’importe le tempsOu minha desesperança
Ou ma désespéranceE, depois, lutar sempre
Et puis lutter toujoursSem perguntas, nem descanso
Sans questions ni reposDanar-se
Se damnerPelo ouro de uma palavra de amor
Pour l’or d’un mot d’amourNão sei se serei esse herói
Je ne sais si je serai ce hérosMas, meu coração estaria tranquilo
Mais mon coeur serait tranquilleE as cidades se salpicariam de azul
Et les villes s’éclabousseraient de bleuPorque um infeliz
Parce qu’un malheureuxAinda arde, apesar de ter queimado tudo
Brûle encore, bien qu’ayant tout brûléAinda arde, até demais, até mal
Brûle encore, même trop, même malPara alcançar até se esquartejar
Pour atteindre à s’en écartelerPara alcançar a inacessível estrela
Pour atteindre l’inaccessible étoile
Como vento na areia

Gosto das canções do Manuel Freire. Da voz e dos poemas. Envolvem, abalam e embalam. Ressalvando “Pedra Filosofal” e “Livre”, poucas visualizações colhem na Internet. O Tendências do Imaginário contempla seis canções do Manuel Freire. Acrescento quatro: “Pedro Soldado”, “Poema da Malta das Naus”, “Canção” e “Dulcineia”). Aproveito para enxertar algumas figurinhas populares do polaco Tadeusz Kacalak (imagem).











A roda da vida
“As três grandes épocas da humanidade são a idade da pedra, a idade do bronze e a idade da reforma” (Jean-Charles, La foire aux cancres, 1962).
O tempo passa. De fio a pavio. Coloquei recentemente canções sobre o entardecer da vida, em francês e em espanhol. Abundam, também, em língua portuguesa. Segue uma meia dúzia, direta ou indiretamente, de um ou de outro modo, dedicadas ao avanço da vida.
Instintos

Volvidos 50 anos, continuo convencido que nem a democracia é instintiva nem as ditaduras contranatura. Os cravos, frágeis, querem-se cuidados, como a rosa do Principezinho. Recoloco 4 canções, antigas, sem ilusões: Cantilena, de Francisco Fanhais (1969); Os Eunucos, de José Afonso (1970); Que Força É Essa?, de Sérgio Godinho (1972); e Pequenos Deuses Caseiros, de Manuel Freire (1973).
Celeste Martins Caeiro a distribuir cravos
Música sobre a emigração

Fotografia rasgada. Metade ficava em Portugal, a outra regressaria mais tarde.
Sem eira, nem beira
Sem Pátria onde albergar
Estrangeiro em terra alheia
Estranho no meu lugar
(Letra de uma canção sobre a emigração).
Um grupo de alunos propôs-se fazer um vídeo sobre a emigração. Felicito-os pela ideia e pela vontade. Quatro músicas sobre a emigração são incontornáveis: Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia; Eles (1968), de Manuel Freire; Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira; e O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.
Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia.
Eles (1968), de Manuel Freire.
Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira.
O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.
Não há machado que corte a raiz ao pensamento
How real is real (Paul Watzlawick)? Com a linguagem. How to do things with words (J. L. Austin)? Com o poder.
A ciência tem poder e é uma linguagem. A ciência é polifónica. Fala com várias vozes. É dialógica e polémica. Confrontam-se vários discursos. Por enquanto, não é totalitária.
A ciência mede-se e hierarquiza-se. Observa-se uma tendência para confundir o que é medido com a medida, o indicador, com o indicado. Em jargão académico, chama-se a esta falácia “reificação”. No meu dialecto, chama-se parvoíce e embuste. A avaliação da ciência recorre à arte rupestre de contar. Um cientista que se preze passa a vida a contar os seus próprios indicadores, bem como os indicadores dos outros. Um conto desgraçado. Trata-se de uma realidade de 3º ou 4º grau, uma nova forma de alquimia. A avaliação substantiva e a avaliação qualitativa vão ficando pelo caminho.
Na ciência, embora não se aceleram partículas, como no CERN, acelera-se a investigação e a divulgação. A velocidade é uma dimensão importante do cientista moderno. É o efeito Speedy Gonzalez. À semelhança dos electrões, um cientista não deve estar parado. O cientista é a formiga do milénio. Só lhe falta ser ubíquo. Talvez com a ajuda de um sucessor da videoconferência. Por este andar, o cientista ainda se vai dedicar mais à divulgação do que à produção de resultados.
Aprecio pouco a noção de “indústria cultural” de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas utilizo-a e, até, a extrapolo: a ciência parece, cada vez mais, uma “indústria científica”. Se aos olhos da Escola de Frankfurt, a industria cultural é nefasta, a meus olhos, a indústria científica também não é grande maná.
Quando preencho os relatórios de actividade científica tenho propensão para o desabafo. É mais avisado ouvir música. Por exemplo, Livre, de Manuel Freire, com letra de Carlos Oliveira, ou o Coro dos Escravos Hebreus, de Giuseppe Verdi. Uma brisa de liberdade refresca o espírito.
Manuel Freire. Livre. 1968
Giuseppe Verdi. Coro dos escravos hebreus. Nabucco. 1841
Manuel Freire / Carlos Oliveira: Livre
(Não há machado que corte
a raíz ao pensamento) [bis]
(não há morte para o vento
não há morte) [bis]
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão
Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre
A Menina Bexigosa
São raras as canções que abordam a discriminação estética. A Menina Bexigosa (1973), de Manuel Freire, consta entre as excepções. Nunca, como hoje, a fealdade foi tamanho fardo e a beleza tanto capital. Numa sociedade rendida à aparência, a beleza é a primeira e a mais eloquente carta de recomendação. No Discurso Sobre as Paixões do Amor (1652-1653), Blaise Pascal constata que “há um século para as loiras, outro para as morenas (…) A própria moda e os países regulam aquilo que se chama beleza”. A moda passa, mas permanece. A beleza justifica uma violência simbólica exacerbada. Os ismos e os pós ismos, tão cheios de razão, têm ignorado esta desigualdade. Não há nada a fazer? Talvez ver com outros olhos, o que não se resume aos óculos.
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem (Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520-1525).

Manuel Freire. A Menina Bexigosa. 1973.
A Menina Bexigosa
A menina bexigosa viu-se ao espelho
soltou-se do vestido e viu-se nua
está agora vestida de vermelho,
inerte, no passeio da ruaAntes fora alegria e alvoroço
mas num baile ninguém a foi buscar
morreu o sonho no seu corpo moço
passou a noite a chorarTanto chorou que lhe chamaram louca
cada qual lhe levava o seu conselho
mas ninguém ninguém ninguém lhe beijou a boca
e a menina bexigosa viu-se ao espelhoDepois, fecharam a janela
vieram os vizinhos: ´Pobre mãe…´
vieram os amigos: ´Pobre dela…´
era tão boa e simples tão honesta,
… portava-se tão bem´
E dão-lhe beijos na testa
beijos correctos pois ninguém, ninguém
soube em vida matar a sua sede´A menina bexigosa portava-se tão bem´
O espelho continua na parede.Sidónio Muralha





