Orgia da fraqueza
Os donos do poder parecem balões cuja vocação é inchar. Sopram-lhes capacidades próprias, alheias e, até, fictícias. Como os porcos dos Pink Floyd, incham até “não lhes caber uma palha no cú”. Ao longe, perfilam-se como cabinas de um teleférico que não sabe senão subir. Em baixo, os filhos de balões menores mirram junto ao vazio. Perdem capacidades próprias, alheias e, até, fictícias. Acabam por se confinar à própria pele. Este empoleiramento resulta da cegueira de um povo pasmado frente a um espelho deformador. Nesta dinâmica da flatulência colectiva, as pessoas dispõem-se como uma Torre Eiffel e o poder como um cogumelo atómico.
Perdoem-me se erro, mas todos os dias tropeço com esta orgia da fraqueza. Sidónio Muralha desafia os “pequenos deuses caseiros” que “brincam aos temporais” (Companheira dos Homens,1950). Quanto a mim, prefiro convocar os balões do São João que sobem com a nossa chama. Desculpem o azedume, mas esta cultura de poder ultrapassa o limiar da dignidade civilizacional. O vermelho e o verde sangram… Com ou sem democracia. Tanta capoeira, tanto pavão, tanta migalha de poder, tanto respigador! Deve ser uma histerese do habitus: as reacções perduram para além das condições que as justificaram. Oito séculos mais 48 anos é muito condicionamento. Nunca mais é Abril!
Dom Caio, o Salvador
Um dia virá, envolto em nevoeiro, um alfaiate, terror das moscas. “A cavalo e sem cair”, munido de dedal e agulha, vai costurar os cortes das tesouras orçamentais e reconquistar os sete castelos aos usurários dos Mercados. Sem Dom Caio, a vida é uma Aljuderrota. Mas, no Panteão nacional, depois dos mata-moiros, dos expulsa-judeus, dos mata-frades e dos esfola-funcionários, repousarão, um dia, os mata-moscas. Entretanto, a bandeira nacional sangra, como no quadro de Manuel Casimiro (1987). Resta fechar os olhos e ver! Ver Dom Caio aos gritos, “eu caio, eu caio”, e o povo atrás em coro, “nós também, nós também”.
Dom Caio
Era um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da rua; como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir-se de valente. Vai de uma vez viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. Daí em diante não fazia senão gabar-se:
– Eu cá mato sete de uma vez!
Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio, que era o maior valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda a parte: “Eu cá mato sete de uma vez!” foram logo metê-lo no bico do rei, que se lembrou de que quem era tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio.
Veio o alfaiate à presença do rei que lhe perguntou:
– É verdade que matas sete de uma vez?
– Saberá Vossa Majestade que sim.
– Então nesse caso vais comandar as minhas tropas e atacar os inimigos que me estão cercando.
Mandou vir o fardamento de dom Caio e fê-lo vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas; depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, e ele já estava a tremer como varas verdes; assim que o cavalo sentiu as esporas botou à desfilada, e o alfaiate a gritar:
– Eu caio, eu caio!
Todos os que o ouviam por onde passava diziam:
– Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.
O cavalo, que andava acostumado às escaramuças, correu para o sítio em que se combatia, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado às crinas, a gritar como um desesperado:
– Eu caio, eu caio!
O inimigo, assim que viu o cavalo branco do general valente e ouviu o grito: “Eu caio, eu caio!”, conheceu o perigo em que estava, e disseram os soldados uns para os outros:
– Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio!
E botaram a fugir à debandada; os soldados do rei foram-lhes no encalço e mataram-nos, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: “Eu caio”.
O rei ficou muito contente com ele e, em paga da vitória, deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem.Teófilo Braga, Contos tradicionais do povo português, 1ª ed. 1883, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999, p. 215.





