Surreal: o homem piano
Encontrei no sapatinho das maravilhas este anúncio do Banff Center for Arts and Creativity, do Canadá. Estranho e delirante, vibra nos meus sentidos com uma invulgar ternura surreal. Discute-se nas redes sociais se é ou não arte. Afirma-se mais original, criativo e impactante do que muita arte que tive o privilégio de observar. Mas, se é ou não arte, que o ponderem os juízes da estética. Lembra-me arte. Arte da melhor! Por exemplo, Hieronymus Bosch (ver https://tendimag.com/2016/12/19/hieronymus-bosch-death-metal/) ou François Desprez (ver https://tendimag.com/2012/04/21/criaturas-pantagruelicas-1/).
A lembrança é amiga da vadiagem do espírito. Lembrei-me dos Ban (Irreal Social, Surrealizar, 1988). Conquistaram um apreciável sucesso nacional no final dos anos oitenta. É um grupo com música identificável. Uma das qualidades para ser digno de memória. No Tendências do Imaginário, os visitantes portugueses estão em minoria. Não admira. O blogue fala do mundo em língua portuguesa. Podia falar de Portugal, ou do mundo, em língua estrangeira. Sempre seria mais friendly! Seja como for, Portugal, embora nem sempre pareça, faz parte do mundo. Venham os Ban! Pim-Pam-Pum!
Marca: Banff Center. Título: Things you can’t unthink. Agência: Cossette Toronto. Direcção: Rodrigo García Saiz. Canadá, Abril 2017.
Hieronymus Bosch. Jardim das Delícias. Instrumentos musicais.




Hieronymus Bosch. Jardim das delícias. Inferno. Detalhes. 1503-1504.
François Desprez. Songes Drolatiques. Homens instrumentos musicais.



François Desprez. Songes Drolatiques. 1565.
Ban, Irreal Social, Surrealizar, 1988.
Grandville: Disfarces e Metamorfoses
Jean-Jacques Grandville (1803-1847) é um ilustrador e caricaturista francês da primeira metade do século XIX. Adquiriu fama com as suas metamorfoses envolvendo homens, animais, vegetais e objectos.
Conhecido como o “avô do surrealismo”, Grandvielle convoca o maneirismo, nomeadamente Giovanni Battista Braccelli e Lorenz Stoer (ver figuras 07 e 12). Algumas gravuras antecipam M.C. Escher (ver figuras 1, 7, 8, 9 e 19). Os Queen recorreram aos desenhos de Grandville para as capas do álbum Innuendo (1991) e respectivos singles (figuras 11 a 14.1).
Exceptuando as figuras 1 e 10, ambas de 1847, todas as imagens deste artigo foram extraídas directamente do livro Un Autre Monde, publicado em 1844. Grandville ilustrou vários livros, tais como as Fábulas, de La Fontaine, o Don Quixote, de Cervantes, as Viagens de Gulliver, de Swift, ou Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.
Segue a música Innuendo, dos Queen (1991) e uma galeria com imagens de Grandville e do álbum Innuendo, dos Queen.
Galeria de imagens: J.J. Grandville e Innuendo dos Queen.
A técnica e a arte
Na era da aceleração técnica, o projecto tecnológico aproxima-se da obra de arte. Não porque a técnica se converta aos cânones da arte (não faz pinturas, esculturas ou instalações), mas porque a própria técnica se assume como arte, apostando na forma tanto quanto na função. O maneirismo que envolve nos anúncios os objectos técnicos é um sinal claro dessa tendência. Tendência que não se cinge à publicidade. Atente-se nos mistos de arquitectura e técnica que albergam museus, fundações e outras construções congéneres. A forma abraça a função. O edifício rivaliza com a colecção ou a exposição. É arte sobre arte. O público assim o entende, demandando os novos roteiros das maravilhas estéticas da técnica. Falar da técnica como arte é insensato e imprudente. É certo que o assunto se entrevê nas páginas do livro de Jürgen Habermas: A Técnica e a Ciência como “Ideologia” (1968). O que não impede que Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Georg Lukacs ou Lucien Goldmann se indignem no paraíso. Paciência! Se Deus morreu, não é o intelectual que o vai substituir.
O anúncio italiano Mechatronic Harmonies, da Wittenstein, é um exemplo desta aspiração estética. Depurado, estilizado, a marca só no fim aparece discreta e fugidia. Lembra E.C. Escher, Wenzel Jamnitzer e outros gravuristas maneiristas dos séculos XVI e XVII. Estranho? Nem por isso. A inovação e o arcaísmo costumam encontrar-se nas dobras do destino.
Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Marca: Wittenstein. Título: Mechatronic Harmonies. Agência: Negrini & Varetto. Direcção: Luigi Pane. Itália, Janeiro 2016.
Almas danadas
Volta e meia, cruzo-me com autores maneiristas, de Agnolo Bronzino (1503-1572) a Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), passando por Francisco de Holanda (1517-1585) e Wenzel Jamnitzer (1507-1585).Calhou a vez a Marten de Vos (1532-1603), pintor de Antuérpia.
O inferno do Juízo Final (1570), de Marten de Vos, é impressionante: fogo, demónios e condenados formam uma corrente rumo à boca do inferno. Os corpos, com os seus movimentos, contorcem-se como labaredas. Trata-se de um fluxo onde não há parte sem todo. Este dinamismo lembra a queda no abismo, no inferno do Juízo Final (1467) de Hans Memling. (1430-1494).
Reencontramos as figuras fantásticas, demoníacas e grotescas na Tentação de Santo Antão (1591-1594), que lembra, por sua vez, a Tentação de Santo Antão, quer de Hieronymus Bosch (1502), quer de Mathias Grunewald (1512-1516). Todos juntos lembram o surrealismo.
Para terminar, uma nota curiosa: o “dinossauro” pintado, antes da data, na parte inferior direita da Tentação de Santo Antão, de Marten de Vos. E Pronto! Quando a vista se regala, a língua cala.
Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista: Lorenz Stoer
Lorenz Stoer (c.1537-c.1621) nasceu em Nuremberga, mas fez carreira em Augsburgo. Parte da sua obra aproxima-o de Wenzel Jamnitzer (http://tendimag.com/2012/03/26/perspectivas-wenzel-jamnitzer-e-m-c-escher/).
“Tudo indica que os estudos académicos dedicados a Stoer se resumem a um par de textos datados de meados do século XX que o associam a dois ourives de Nuremberga – Hans Lencker [ver Figura 2] e Wenzel Jamnitzer- compondo um trio de artistas maneiristas interessados pelo desenho geométrico e pela perspectiva” (http://bibliodyssey.blogspot.pt/2009/09/geometric-landscape.html).
Uma série de gravuras de Lorenz Stoer foram compiladas na obra Geometria et Perspectiva, publicada em 1567, no mesmo ano que a Perspectiva Literaria, de Hans Lencker, e um ano antes da edição da Perspectiva Corporum Regularium, de Wenzel Jamnitzer. Três obras de “geometria fantástica”, todas publicadas em Nuremberga, com a diferença de um ano. É certo que Stoer desenvolveu uma técnica própria de desenhar poliedros, mas a sua originalidade radica, principalmente, nas gravuras de paisagens geométricas, com figuras minuciosa e caprichosamente dispostas, que antecipam várias práticas artísticas contemporâneas.
“A justaposição de figuras geométricas e cenários de ruínas traz à mente tanto Escher como Piranesi, um anacronismo tornado mais estranho e exacerbado pelas formas elaboradamente decorativas nos primeiros planos de algumas gravuras, que, como George Hart observou, poderiam passar por esculturas abstractas do séc. XX” (http://www.spamula.net/blog/2003/07/geometry_perspective.html).
É difícil percorrer a obra de Stoer sem convocar M. C. Escher (1898-1972), o surrealismo e, porventura, algumas correstes de arte contemporânea.
Greensleeves to a Ground, a música que acompanha o vídeo com as gravuras de Lorenz Stoer, é da autoria de um anónimo do séc. XVI. A interpretação, próxima do original e com instrumentos da época, é de Jordi Savall, com Hesperion XXI (Ostinato, 2001).
Para melhorar a qualidade da visualização do vídeo Paisagens Geométricas, carregar em HD no ângulo superior direito.
Galeria com gravuras de Lorenz Stoer:
Braccelli. À maneira surrealista
Giovanni Battista Braccelli publicou, em 1624, o livro Bizzarie di varie figure composto por cinquenta gravuras. Alguns dos seus desenhos lembram a obra pioneira de Arcimboldo. Veja-se, por exemplo, os desenhos das páginas 4, 5 e 39. Mas não é a ligação ao passado que distingue Braccelli. É, antes, a sua projeção no futuro. Muitos consideram Braccelli uma espécie de surrealista avant la lettre. Não o foi, evidentemente: não se pertence a um movimento antes de este ser criado. Foi, outrossim, um expoente do maneirismo. É, porém, verdade que as suas gravuras lembram artistas do século XX. Por exemplo, Fernand Léger, Giorgio de Chirico, Georg Grosz ou Maurits C. Escher. Ao seu jeito, Salvador Dali também marcou presença. Segue uma selecção de gravuras do livro de Braccelli, acompanhada por alguns quadros de pintores do séc. XX.
- Braccelli p 01
- Braccelli p 04
- Braccelli p 05
- Braccelli p 09
- Braccelli p 11
- Braccelli p 12
- Braccelli p 14
- Braccelli p 17
- Braccelli p 19
- Braccelli p 22
- Braccelli p 23
- Braccelli p 25
- Braccelli p 27
- Braccelli p 28
- Braccelli p 29
- Braccelli p 33
- Braccelli p 35
- Braccelli p 39
- Braccelli p 42
- Braccelli p 44
- Braccelli p 45
- Braccelli p 46
- Braccelli p 48
- Braccelli p 49
- Braccelli p 50
- Fernand Leger. Mechanical compositions.1923
- Fernand Leger. Seated Woman. 1913
- George Grosz. Autómatos Republicanos. 1920
- George Grosz. Sem título. 1920
- Giorgio de Chirico. La commedia e la tragedia. 1926
- Giorgio de Chirico. Le Rêve transformé. 1913
- Giorgio de Chirico. The Disturbing Muses, 1918
- Giorgio di Chirico. Hector and Andromache. 1917
- M.C. Escher, Ring. 1955
- M.C. Escher. Bond of Union. 1956
- Salvador Dali. Salvador Dali. ‘Braccelli’ the Warrior with a Corpse. Torero Series. 1985
Perspetivas 2: Galeria de imagens
Pelo eventual interesse, segue a galeria com as imagens utilizadas no vídeo do artigo precedente: Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e Mauritis C. Escher.
- 01. Jost Amman. Retrato de Wentzel Jamnitzer. 1568
- 09. M.C. Escher. Spirals. 1953
- 29. Perspectiva Corporum Regularium. Wenzel Jamnitzer. 1568
- 30. M.C. Escher. Stars. 1948
Francisco de Holanda. Gravuras
Francisco de Holanda (1517-1585), humanista, pintor, arquitecto e ensaísta, é uma das grandes figuras da história de Portugal. Com reputação europeia, discípulo de Miguel Ângelo, Francisco de Holanda foi pioneiro do maneirismo em Portugal. As imagens que seguem representam uma amostra das gravuras constantes no livro De Aetatibus Mundi Imagines (1543-1573), que pode ser visualizado no site da Biblioteca Digital Hispánica.
Grotesco maneirista: Christophe Jamnitzer
“Já no maneirismo, o mundo às avessas se manifesta com frequência na desorientação dos labirintos, de modo que, nesse ponto, o grotesco maneirista se aproxima do romântico, visto que se pauta pela confusão da perspectiva e falta de referência apresentados pelo olhar do indivíduo inserido em um mundo incerto, aberto ao hostil e cujos suportes parecem desmoronar” (Santos, Fabiano Rodrigo da Silva, Considerações sobre aspectos do grotesco na poesia de Bernardo Guimarães e Cruz e Sousa, São Paulo, Editora UNESP, 2009, p. 122).
O livro de gravuras (Neuw Grottessken Buch, 1610) do ourives alemão Christophe Jamnitzer (1563-1618) constitui um bom exemplo de grotesco maneirista. As linhas curvas desdobram-se instáveis, tensas, em movimento. A criatividade subjectiva exacerba-se numa artificialidade sofisticada. Os fenómenos mais desencontrados cruzam-se e abraçam-se, como ocorre no sonho e na loucura. E a ausência de enquadramento concorre para dispensar a perspectiva e suspender a gravidade.
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 1
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 2
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 3
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 4
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 5
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 6
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 7
- Christoph Jamnitzer, Neuw Grottessken Buch 8





























































































































































