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O peso das coisas

Pega no presente e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se inventa como o vento e as marés (João Negreiros. O Manual da Felicidade. 2015).

René Magitte. Chateau des Pyrenées. 1959.

René Magitte. Chateau des Pyrenées. 1959.

Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango. Fácil de dizer, mas difícil de ilustrar. Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.

A carrinha Ford aguenta a violência dos gorilas, mas é um brinquedo na sua mão. A Toyota enfrenta a fúria do mar, mas flutua como uma boia de pesca. A Dodge perfura o planeta, num voo caído, sem fundo.

No anúncio da General Motors, os automóveis, pesados, levitam. Não existe uma via única para conjugar leveza e levitação. Até as ilhas levitam ou voam, como nas viagens de Gulliver, nas pinturas de Magritte ou nos vídeos dos Gorillaz. Na Idade Média, gordos e magros desafiaram a gravidade. Gostava de te sussurrar ao ouvido que para voar não é preciso ter asas, mas peso. Para voar, importa começar. E não te esqueças de fazer um sinal, “um bom sinal, um sinal de que não estamos fixos” (ao jeito de Jacques Prévert). Estende-me um tapete e descolarei, como São Bento, rumo aos céus.

Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.

Marca Toyota Tacoma. Título: Tide. Agência: Saatchi & Saatchi (Los Angeles). Direcção: Baker Smith. USA, 2006.

Marca: Daimler Chrysler Dodge Nitro. Título: Planet. Agência: BBDO (New York). Direcção:  Acne. USA, 2006.

Marca: General Motors. Título: Elevation. Agência: Deutsch (Los Angeles). Direcção: Phil Joanou. USA, 2007.

As botas de Gulliver. Magritte em Chicago

Há dias, abordei numa comunicação a questão das barreiras e das distâncias  entre os espaços culturais e determinados segmentos da população.

Relatório final Guimarães

Para a avaliação do impacto de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, foram realizados 19 inquéritos noutros tantos eventos (para aceder ao pdf do relatório final, carregar na imagem ou no linkImpactos Económicos e Sociais. Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura).

Os resultados revelam que a frequência de recintos abertos é relativamente mais elevada entre as pessoas com menos habilitações literárias (Gráfico 1). Cerca de metade  dos licenciados pelo ensino superior foram a eventos em recintos fechados (45,2%). Este valor desce para um quinto nas pessoas com ensino básico (20,2% e 22,1%).

Fonte: Inquérito a 19 eventos de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura
Fonte: Inquérito ao eventos de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura

Estes resultados não surpreendem. Pierre Bourdieu e Alain Darbel chamaram, há meio século, a atenção para esta desigualdade em termos de cultura legítima (L’Amour de l’art. Les Musées et leur public, Paris, Minuit, 1966). Em suma, nos eventos, a natureza do espaço é socialmente discriminante. Ao contrário da ponte, que une, a porta separa ou filtra mundos. Os nossos e os dos outros. Se a ponte remete para a passagem, a porta pode funcionar como barreira, que abre ou fecha consoante a origem e a condição social. Apesar da generosidade do apelo dos espaços sociais, nem todos os visados se sentem chamados.

Visitas 3
Fonte: Inquérito aos residentes no concelho de Guimarães. 2012.

A reserva face aos recintos fechados por parte da população menos escolarizada reaparece nos resultados de outro estudo promovido para a Capital Europeia da Cultura: um inquérito aos residentes no concelho. O gráfico 2 contempla as respostas respeitantes à visita aos espaços culturais locais. Quatro espaços foram visitados, pelo menos uma vez, por mais de 90% dos vimaranenses: Penha (99%), Centro Histórico (97%), Castelo (95%) e Parque da Cidade (92%). Em contrapartida, as visitas situam-se aquém dos 70% no Centro Cultural de Vila Flor (69%), na Citânia de Briteiros (67%), no Museu Alberto Sampaio (66%) e no Museu Martins Sarmento (63%).

Museu Alberto Sampaio
Museu Alberto Sampaio

Entre os espaços culturais mais visitados pelos vimaranenses, predominam os recintos abertos; e entre os menos visitados, os recintos fechados. As excepções fazem sentido. O Paço dos Duques é, dos espaços museológicos sob a alçada da Direcção Regional da Cultura do Norte, o mais visitado do Norte de Portugal: 137 402 visitas no primeiro semestre de 2015. Neste, como noutros casos, é mais adequado falar em fluxo, capaz de se sobrepor à ponte e à porta. Quanto ao Pavilhão Multiusos, há portas que abrem mais do que fecham: aproximam as pessoas e sintonizam mundos (neste domínio, os centros comerciais surgem como um exemplo extremo (ver Albertino Gonçalves. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado).

A abertura dos espaços culturais a novos públicos é um desafio antigo, que se agudizou com o advento do triângulo virtuoso da sustentabilidade, que submete os espaços culturais a três pressões algo desencontradas: redução do orçamento por parte do Estado, incremento das verbas próprias e aumento da afluência de visitantes. Neste cenário, dificuldades, empenho e empreendedorismo não têm faltado.

Unthink Magritte. Exposição no Instituto de Arte de Chicago. Leo Burnett. Chicago. 2014. [Recuperado e gravado em 07.08.2026]

O vídeo sobre a exposição de René Magritte no Instituto de Arte de Chicago evidencia algumas destas preocupações. Primeiro, a preocupação com a eliminação de barreiras entre o museu e os públicos, bem como com a promoção da participação dos visitantes. Segundo, a eficiência e a atractividade da exposição, com recurso a novas tecnologias, incluindo uma aplicação para tablets e telemóveis. Terceiro, uma campanha de envolvimento, disseminada por diversos locais de Chicago. É certo que as portas do Instituto de Chicago se abrem. Mas, neste caso, abrem-se para sair, para cativar públicos; informação nos telemóveis, cartazes nas ruas e botas na praia. Sobre o efeito no número de entradas,  pouco se sabe. Pressupõe-se….

Montagem a partir de René Magritte pelo Instituto de Arte de Chicago
Montagem a partir de René Magritte pelo Instituto de Arte de Chicago
René Magritte. The Red Model. 1934
René Magritte. The Red Model. 1934

Subsiste um problema. Tão velho quanto a sociologia da arte. As portas e as pontes mais decisivas são interiores, estão na cabeça das pessoas. Aquém e além das tecnologias. São vidas. Não obstante a qualidade da campanha, muitas pessoas não vão porque não lhes interessa. Pressentem que não vão gostar.Como diria Pierre Bourdieu, é difícil gostar de uma obra de arte quando não se dominam os códigos que possibilitam o acesso ao seu valor. As diferenças e as hierarquias culturais são as principais barreiras à democratização da cultura e ao alargamento dos públicos.

Papoilas

René Magritte. Golconda, 1953.

René Magritte. Golconda, 1953.

Graças a um toque de fada, as papoilas de um jardim subaquático ascendem aos céus de Paris. “Para um mundo mais belo”. Onírico e divertido, como um quadro de Magritte, o perfume deste anúncio não é o Opium de Yves Saint Laurent, mas o Flower de Kenzo.

Marca: Kenzo. Título: Flower by Kenzo. Agência: Kenzo. Direcção: Patrick Guedj. França, 2013.

Ilusão e nonsense

Regina Spektor FarFui à cave revisitar relíquias com sintomas de arte. No sótão, não há nada. É tão apertadinho que nem a inteligência cabe. Anda sem abrigo. Encontrei alguns videoclips apostados na ilusão e no nonsense. Por exemplo, Regina Spektor e a sua simpatia por Escher e Magritte. Atente-se neste “Laughing With” (2009).

 

A Cama de Shakespeare

Ikea. Beds

Omnipresentes neste anúncio da IKEA, o sonho e o voo não nos largam. Quedas em cascata, de cama em cama suspensas nas nuvens. As imagens parecem sair de uma pintura de René Magritte. Mas o golpe de génio reside na récita de Shakespeare. “Somos feitos da matéria dos sonhos”!

“Os nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão-de sumir-se, como se deu com essa visão ténue, sem deixar vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono.” (William Shakespeare (1610-1611), A Tempestade, Próspero, Acto IV, Cena I).

Marca: Ikea. Título: There’s no bed like home. Agência: Mother London. Direcção: Juan Cabral. UK, Julho 2014.

Caravelas do século XXI

René Magritte. The Pleasure Principle, Portrait of Edward James. 1937.

René Magritte. The Pleasure Principle, Portrait of Edward James. 1937.

Este país pondera pouco. A palavra parece um arcaísmo eclipsado por estrangeirismos garbosos como o benchmarking ou o empreendedorismo. Portugal espreita para cima e estatela-se em baixo, saltando abruptamente de arqueísmo em neologismo, e de neologismo em neologismo. Ora sai bem, ora sai mal, ora sai péssimo. Entalada entre a lentidão pasmada e a catástrofe inevitável, a mudança é mais esperada do que preparada. Existem, é certo, casos de espécie: a tartaruga da justiça em praia reservada; a lebre da educação em catástrofe permanente. “Se” é uma palavra intrínseca à ponderação. Com duas letras apenas, mas decisiva: “se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da Terra teria mudado” (Blaise Pascal). O “se” é o sal da ponderação. Tirando o bacalhau, o meu país anda insosso. Não basta atender às condições e mobilizar vontades, importa sondar possibilidades e probabilidades. O “se” não é obstáculo, é, antes, um ingrediente para seguir em frente. Num país onde os timoneiros nunca se enganam e raramente têm dúvidas, o se ou é um pária ou é um furúnculo. País que pouco conjectura e ainda menos pondera é um ramo de oliveira no mar da palha, atulhado em metas, directivas, milestones e ajustamentos. Qualquer pirata sabe que, pior do que navegar segundo uma cartilha, só navegar segundo uma cartilha estrangeira que se esqueceu das estrelas. “À barca, à barca, boa gente, que queremos dar à vela” (Gil Vicente). A melancolia é uma salada azeda, disjuntiva e labiríntica. Que tal reler Rudyard Kipling? Ou repetir um Pink Floyd bem velhinho (If, Atom Heart Mother, 1970)? À barca, à barca, que o inferno ainda não está cheio. Costumo estar cansado, hoje estou intragável.

Pink Floyd. If. Atom Heart Mother. 1970. Vídeo não oficial.

Guarda-chuva

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Magritte. Les Vacances de Hegel. 1958.

Magritte. Les Vacances de Hegel. 1958.

O guarda-chuva não é um objecto qualquer. Consagrado por René Magritte, o guarda-chuva é bom para a imagem e para o imaginário: protege-nos dos céus.

Muitos anúncios recorrem à figura do guarda-chuva, nomeadamente no âmbito de coreografias. É o caso deste novo anúncio da Yoplait.

Tanto guarda-chuva e nenhum preto! Black is the color of my true love’s hair.

 

Marca: Yoplait. Título: Umbrellas. Agência:  Saatchi & Saatchi New York. Direção: Eli Sverdlov. EUA, Setembro 2012.