À maneira do sociólogo. Os públicos da arte


No âmbito da avaliação de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, coordenei dezenas de inquéritos locais. Muitos dos resultados permanecem por explorar.
Segue uma breve reflexão caraterística do sociólogo que cada vez me esforço menos por parecer.
Comer com os olhos na cama de Shakespeare

Tenho que ser mais comedido na recolocação de artigos antigos. Vou passar a fazer uma seleção da seleção. Hoje, cinco artigos merecem resgate. Retenho apenas dois, ambos de julho de 2014. Os restantes ficam à espera de ser, eventualmente, colocados em 2027, se os deuses quiserem! Os anúncios “Adventure awaits”, da Lurpak, no artigo Comer com os olhos, e ” There’s no bed like home”, da IKEA, no artigo A cama de Shakespeare, são ambos espetaculares, sobretudo do ponto de vista estético.
Farsa trágico-marítima

Se o dia 11 de julho foi fértil em artigos memoráveis, o 12 mostra-se avaro. É preciso recuar mais de uma década. Inicio com Caravelas do século XXI, de 2013. Ácido, discorre sobre a conjunção “se” como alavanca ou muleta do pensamento. Conjetura ainda se não somos exímios na arte de urdir teias para enredar as nossas próprias caravelas. Naquele dia, devo ter tomado fel ao pequeno almoço. Valem os Pink Floyd.
Pássaros de aço

“Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango (…) Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.” Aos pássaros de aço, de “O peso das coisas” (2016), acrescento “O Pássaro de Fogo” (excerto), conduzido pelo próprio Stravinsky.
Inspirações e coincidências

Escrever artigos no blogue é um vício prazeroso, mas revê-los não deixa de ser uma alternativa, no pior dos casos, um placebo. Recuemos, pois, uma dúzia de anos [ainda estava no fruto da idade]. O triunfo das salsichas contempla quatro anúncios: um par (“Sausage” e “La Saucisse”) parece inspirado no outro (“Baleia” e “Rave Party”). Será mera coincidência?
René Magritte – La reproduction interdite, 1937
Desmascarar o mérito

Muita autoconfiança deve ter uma marca para ousar anunciar que os seus produtos são dispensáveis, ver desejavelmente dispensáveis. A identificação com a marca L’Oréal é induzida pela identificação com a atriz Kate Winslet, com o seu gesto e o seu discurso? Uma aura de autenticidade por contágio? Merecemos…
Beleza interior

Alguém disse que era bonito por dentro. A beleza interior costuma “compensar” a falta de beleza exterior. A beleza interior não é acessível às endoscopias, colonoscopias e outras “viagens ao interior do corpo”. Não é palpável. Assim como a música não se vê mas ouve-se, a beleza interior não se vê mas verbaliza-se. Como bons católicos, todos temos um anjo da guarda, a graça e beleza interior. Este parágrafo pretende ser um longo mot d’esprit.
O humor, o riso e o mot d’esprit eram apreciados nas cortes dos séculos XVII e XVIII. Havia profissionais para o efeito: os bobos. E muitos amadores. Algumas pessoas ficaram célebres pela qualidade dos seus mots d’esprit. Além dos mots d’esprit, os nobres prezavam os banquetes, a arte efémera, a música, a dança e a água de rosas.
Luigi Boccherini foi compositor e violoncelista. Nasceu em Itália em 1743 mas veio para Espanha, para a corte de Carlos III, com cerca de 26 anos. Permanecerá em Espanha até à morte (1805). O seguinte episódio ilustra o nível de autonomia de um compositor no século XVIII. Carlos III mostra desagrado por uma passagem de uma composição. Molestado pela intrusão, Boccherini, em vez de eliminar, dobrou a passagem. Carlos III despediu-o.
Boccherini produziu uma obra considerável, designadamente quartetos e quintetos para cordas. A influência da música espanhola é óbvia. À semelhança de Antonio Vivaldi, acabou a vida na miséria e a sua obra foi menosprezada durante dois séculos, tendo sido “redescoberta” nos anos trinta. Vale a pena “assistir” a dois excertos, um fandango e um minueto, de música clássica para cordas, com acompanhamento de castanholas.
Jogo viciado
“As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra” (Italo Calvino, Les villes invisibles, 1972).
Retomo o anúncio Un jeu de société, incluído no artigo As Regras do Jogo (https://tendimag.com/2017/04/30/as-regras-do-jogo/), para ver se consigo reequilibrá-lo.
Anunciante: Observatoire des Inégalités. Título: A Social Board Game. Agência : Hérèzie. Direcção: Remy Barreyat. França, Abril 2017.
“O anúncio Un jeu de société (Observatoire des Inégalités, França) é didáctico. Mostra como a competição social se assemelha a um jogo de Monopólio com regras viciadas. Mas no jogo dos destinos sociais conta menos a parcialidade das regras e mais a desigualdade das condições. As regras até podem ser iguais para todos, o problema reside nos recursos e, por conseguinte, na probabilidade dos desempenhos. Como diria Pierre Bourdieu, falar em igualdade de oportunidades com desigualdade de condições é um logro. Uns estão como peixes na água, outros como aves num aquário” (As regras do jogo).
Na maratona da vida, (con)correm pessoas descalças, com havaianas e com sapatilhas. Os recursos influenciam os percursos. Focalizado nesta desigualdade de condições, o texto subestima o poder das regras. Na realidade, as regras não são decorativas. São interessadas. Constrangem. Abençoam e amaldiçoam os actores e as práticas. Legitimam arbitrariedades. Produtos do poder, consagram o poder. Sustentam-no. As regras são uma realidade que faz a realidade. São espartilhos que moldam o ser. Dizem o que é e o que deve ser. As regras não precisam de ser verdadeiras, basta parecê-lo. Alucinadas, alucinam as pessoas e o mundo.

Até como águias carregamos os príncipes. Detalhe da miniatura dos Cinco Príncipes Justos em cima da águia da justiça. Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.
Propicia-se uma pitada de absurdo ao jeito surrealista. Numa localidade, inaugura-se um túnel. Limita-se a circulação a pessoas com mais de um metro de altura. O túnel é proibido a anões. Presume-se que a sua presença no túnel provoca correntes de ar. Correntes de ar que podem constipar os carros. A discriminação da regra cauciona vários corolários. As correntes de ar dos anões não dão pontos, não têm valor. A ciência ultrapassa-se a si mesma: os “anões” tornam-se um preditor: no airflow, no dwarf . Descobre-se, por último, a confirmação da regra: os anões são, afinal, alérgicos a túneis. Desembocamos num dos maiores requintes das regras. Se os anões não entram no túnel por quê proibi-los? Trata-se de uma histerese: a regra perdura para além do seu fundamento. Configura mais do que uma histerese. O objectivo da regra não reside em proibir os anões de entrar no túnel, mas em inferiorizar os anões. A regra continua a garantir a sua função latente, porventura a mais decisiva.
Esta fábula dos anões é bizarra. Mas respeita a lógica das regras. As regras são quadradas, como quadrado se desenha o mundo.
Jogadores, trapaceiros, cúmplices e tansos. O mundo é um casino.
Algumas regras vestem atavios matemáticos e científicos: categorias, indicadores, índices, variáveis, coeficientes, ponderações, fórmulas, modelos e rankings. Sem esquecer a folha de Excel. Para duas categorias profissionais com igual desempenho, as contas podem ditar que o desempenho de uma vale o dobro do desempenho da outra. Dois produtos idênticos podem ter cotações diferentes. Estamos confrontados com uma aritmética pós-Einstein. Estas discriminações arbitrárias assentam em racionalidades movidas por interesses. Quanto mais desfasada é uma regra, maior a intolerância e o zelo que suscita. A alquimia das regras apropria-se do todo e das partes. Não existe instituição, situação ou interacção social que lhe escape. Haverá “jogos de sociedade” no Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Na vertente Ciência e Tecnologia? Na vertente Ensino Superior? Por entre rácios, grelhas e ponderações, nunca se sabe. Perguntar não ofende… Poder, se calhar, podia, mas acolher regras alquimistas no santuário da razão representa um paradoxo demasiado esdrúxulo. Quando muito, labirintos de poderes “abensonhados” (Mia Couto).
“Je voudrais vous parler d’elle sans la nommer” (Georges Moustaki). Também gostava de falar de algumas realidades sem as nomear. Neste Portugal de Abril, temos uma constituição que os entendidos dizem ser das melhores da Europa. Temos, também, um regime democrático consolidado. Ainda continuamos a ter desigualdades por decreto!
As anedotas são umas intrometidas. Acabei de me lembrar de uma malcriada e de mau gosto. Imprópria para um professor. Mas não é o professor que a conta mas o rapaz que que a aprendeu.
“Um inglês desce a avenida dos Aliados. De repente, vê uma viscosidade castanha no passeio.
– Isto parecer merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva faz um primeiro teste.
– Isto ser mole como merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega numa amostra e cheira.
– Isto cheirar a merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega noutra amostra e prova.
– Isto ser mesmo merda! Ainda bem que não pisei.
Georges Moustaki – Portugal – ( Fado Tropical )
Sublimação da pedra
Chove! As ideias pingam. Acontece-me desconversar:
– Devíamos fazer mais exames médicos. Conhecíamo-nos melhor. Se ando meio torto, não é por causa do computador, mas por causa da pedra na vesícula. Inclina-me para a direita.
Reacção pronta do meu rapaz mais novo:
– A tua sorte é não fazeres exames à cabeça!
Só uma música invulgar dos anos setenta me pode recuperar.
Steve Harley & Cockney Rebel. Sebastian. The Human Menagerie. 1973. A montagem do vídeo não é da minha autoria.



