À Virgem de Guadalupe

“Ex-voto”. Cidade do México. 1990.
Aproveitei a descompressão natalícia para sobrevoar ex-votos na internet. Deparei com esta devoção à Virgem de Guadalupe por parte de uma mulher que se libertou da prostituição graças à interferência de um homem. Verdadeiro ou falso? Tanto parece um ex-voto como parece um postal ilustrado. Será uma paródia de ex-voto? Procurei informação, por sinal escassa e nem sempre de fonte segura.
– O lugar mencionado no ex-voto, La Merced, é um “bairro” da cidade do México associado à prostituição.
– A assinatura do autor da imagem do ex-voto, “Vilchis”, corresponde ao “pintor del barrio” e “retablero” Alfredo Vilchis, de Minas de Cristo, em Mixcoac, na cidade do México.
– Existem referências à reprodução deste ex-voto, com mais três congéneres, no livro de Joseph Rodriguez (2006), Flesh Life: Sex in Mexico City, New York, Power House Books.
Foi tudo o que encontrei. Permanecem algumas dúvidas. Pouco importa. Se for falso, vale pela imaginação; se for verdadeiro, vale pela mensagem. Enfim, a tratar-se de um ex-voto, o realismo da imagem não surpreende. Estou, no entanto, convencido que se trata de um “retablo” de Alfredo Vilchis, mas duvido que seja um ex-voto de Marta Luna. Folk art traditions…
Libertação masculina
Multiplicam-se os anúncios que exaltam a masculinidade. Este anúncio da Renault é um exemplo. O homem liberta-se da família, do trabalho e dos compromissos. Com que propósitos? O que é, na óptica da publicidade, um homem livre? O que faz? Evade-se, vai a uma churrascaria, faz desporto, combate, procura a natureza, caça e, sobretudo, conduz um automóvel. Com que símbolos? O cão, o fogo, a espada, o cavalo, a águia e o automóvel.
A agência Publicis explica:
“La mayoría [de los hombres] tiene responsabilidades, su casa está tomada por la familia y el trabajo, todos los días los esperan con nuevos desafíos -por no decir problemas-… En este contexto, el nuevo Renault Fluence es un espacio de libertad para hacer o para ir adonde quieran, comer lo que quieran, jugar a lo que quieran, escuchar la música que quieran, atender o no el teléfono, en resumen el nuevo Renault Fluence es el símbolo de libertad masculina”.
Este anúncio associa, declaradamente, o Renault Fluence ao género masculino. E as mulheres? Não conduzem? Não compram? Espera-se que sejam atraídas pela “masculinidade” do automóvel?
Marca: Renault. Título: Símbolo de libertad Masculina. Agência: Publicis Buenos Aires. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Dezembro 2014.
A Teia
Dizem os sábios que a liberdade é um estado e a libertação, um acto. Afirmam, também, que tendemos a sentir o acto, mas não o estado. À libertação opõe-se a opressão. A liberdade aumenta com a libertação e diminui com a opressão. Na segunda metade do século XX, viveram-se momentos de libertação: a descolonização, a emancipação da mulher, a independência dos países de Leste, a queda do muro de Berlim, a fragmentação da Jugoslávia e a independência de Timor Lorosae. Nas últimas décadas, não se vislumbram sinais expressivos de libertação (a não ser que se considere a Primavera Árabe uma libertação). Ao nível global, o aumento da opressão é-nos servido diariamente na bandeja mediática. Ao nível nacional, o Estado regulador cerceia as margens de liberdade, nos actos, nas palavras e nas omissões. O seu zelo estende-se a esferas outrora consideradas privadas ou íntimas. A autonomia é condicionada pela normalização, pela programação e pelo controlo. Há quem, no início dos anos 2 000, se sinta menos livre do que há três décadas atrás. Os ímpetos libertadores dos anos sessenta enrolam-se agora numa teia sem princípio nem fim. E os computadores? E a Internet? E o tribunal de Haia? E as ONG? Na verdade, o que capacita pode não libertar.
Marca: Yves Saint Laurent. Título: Femmes Modernes. Agência: CLM & Team. França, 1973.
A arte de escolher as cadeias
“La liberté c’est l’art de choisir ses chaînes” (Pascal / Nietzsche). E cada cadeia que quebramos é um novo espaço de liberdade que conquistamos. Este pensamento acompanha-me desde a adolescência. Sinto-me, porém, menos livre que outrora. Mudou a realidade? Mudou o sentimento? Tanto mandatário da liberdade, e apenas ouço o passo das formigas no chão.
Entre a liberdade e as cadeias não há soma nula. Com o tempo, perdi cadeias e liberdade. Sobra-me a liberdade de escrever para nada. Mal se começa a escrever para algo, logo os dedos ficam entalados e as palavras se encarneiram. Pensar para nada, escrever para nada, é o privilégio do espírito livre, o cúmulo da scholé, a distância à necessidade e à urgência de que fala Pierre Bourdieu.
Vêm estes apontamentos a pretexto do anúncio da H&M e a propósito da vida. O anúncio aposta num movimento sensorial, senão sensual, de dobra e abertura, de envolvimento e liberdade, com sobressaltos de sufoco e libertação. “Sê verde, veste azul”! Eis o pão nosso da liberdade responsável.
Marca: H&M. Título: Go green. Wear Blue. Produção: New Land. Direção: Gustav Johansson. Suécia, Setembro 2014.
Um traço de giz
Há muitos patinhos feios. E poucos cisnes. O inferno mora em todo o lado. “São os outros”, diria Jean-Paul Sartre. Em casa, na escola, na rua… Mas há um traço de giz que pode marcar a diferença. Pode desenhar a ilha que nos habita. A ilha da excepção. A ilha do tesouro. A ilha da vocação. A todos o inferno, a cada um o seu pedaço de giz.
JuBaFilms. With a piece of chalk. Alemanha. 2012.
Pintemo-nos uns aos outros!
Na cidade, as cores estão proibidas. As pessoas deambulam sombrias e cabisbaixas. Não há lugar para o outro e, ainda menos, para o amor. Até que um dia, boiões de tinta irrompem de uma luta entre polícias e gangsters. Boião a boião, pessoa a pessoa, a cidade volta a colorir-se. Regressam os laços, a emoção e o amor.
Este anúncio da Dulux é uma paródia da América dos anos vinte, famosa pela Lei Seca e correspondente proliferação de gangs. Lembra, em menor grau, o filme Equilibrium: as emoções são “anestesiadas” com fármacos e a arte é severamente proibida.
Histórias como esta têm o condão de revelar alguns tópicos do nosso imaginário, por exemplo, a violência ser parteira da libertação.
Em suma, uma história bem contada num anúncio de qualidade.
Marca: Dulux. Título: Colour Prohibition. Agência: BBH London. Direcção: Patrick / Christian. UK, Fevereiro 2014.
O outro lado do muro
A publicidade é ávida por temas sociais marcantes e simbólicos. É o caso do derrube do muro como promessa de libertação. Neste anúncio, La Chute du Mur, os demolidores são citadinos bem aparentados e a libertação, um carro. Sinais dos tempos. A música, Sounds of Silence, está bem escolhida e bem aproveitada.
Marca: Renault. Título: La chute du Mur. Agência: Publicis Conseil. Direção: Ne-o. França, Março 2013.
Porque a vida é um sonho um pouco menos inconstante
“Se todas as noites sonhássemos com a mesma coisa, isso afectar-nos-ia tanto como os objectos que vemos todos os dias. E, se um artesão estivesse certo de sonhar todas as noites, durante doze horas, que era rei, creio que seria quase tão feliz como um rei que sonhasse todas as noites, durante doze horas, que era um artesão (…).
Mas, porque os sonhos são todos diferentes e um mesmo se diversifica, o que neles se vê afecta muito menos do que o que se vê acordado, por causa da continuidade, que não é, no entanto, tão contínua e igual que não mude também, mas menos bruscamente, se não raramente, como quando se viaja. E diz-se então: «Parece-me que estou a sonhar». Porque a vida é um sonho um pouco menos inconstante “ (Pascal, Blaise, Pensamentos, 386).
Pascal, um surrealista? Não, apenas um sábio.
Marca: Pelephone. Título:Dream/Speed. Agência: Adler Chomsky & Warshavsky GREY. Direção: Eli Sverdlov. Israel, 2012.
Marca: Pelephone. Título: Wedding. Agência: Adler Chomski & Warshavsky Mulla Productions. Direção: Eli Sverdlov. Israel, Março 2012.
A insustentável leveza da compra
Este anúncio encaixa-se que nem uma luva no que tenho andado a estudar: a suspensão da gravidade como levitação e libertação, ou seja, como desprendimento das amarras da vida e do mundo. A realização aposta nesta leveza eufórica, por sinal partilhada, confinando-a, porém, a uma espécie de não lugares, ao interior de bolas de neve. Que bolas de neve? Aquelas onde cabem a Nossa Senhora de Lourdes, os nossos sonhos, mas não os nossos pecados. Por exemplo, as lojas Matalan, nem mais, nem menos! O que me recorda um velho texto dedicado ao imaginário e à suspensão da experiência nos hipermercados e nos centros comerciais.
Anunciante: Matalan. Título: Christmas Advert 2011. Reino Unido, Novembro 2011.





