A Pega
Criança, partilhei com o Álvaro uma pega amestrada. Era, como se costumava dizer, mansa, muito mansinha.Vinha quando chamada, pousava no braço e acordava-nos com bicadas na janela. Com ela empoleirada no ombro, parecíamos um Rolls-Royce. Tinha os seus vícios. Adorava ir ao café. O pouso predilecto era o chapéu do padre. Escorripichava tudo quanto era copo de vinho distraído. Na aldeia, todos estavam prevenidos: convinha resguardar tudo quanto fosse miudeza reluzente. Era genético: pegava e escondia. Sempre receámos que um dia lhe desse para levantar voo e não voltar… Não foi bem assim: um caixeiro-viajante raptou-a. Levou-a para o Porto. Em dois dias, a pega morreu. Era uma pega livre, se era! Estava apenas presa pelo coração.
A pega mais conhecida é, provavelmente, La Gazza Ladra (A Pega Ladra), de Gioachino Rossini (1817). Mas atendendo aos menos pacientes, começo com a versão abreviada incluída na banda sonora do filme A Laranja Mecânica (1971).
The Thieving Magpie. The Clockwork Orange. 1971.
Gioachino Rossini. La Gazza Ladra. 1817.
O pneu, a pornografia e a liberdade
A 7 Up encontrou uma alternativa às pin ups dos calendários Pirelli: os camionistas. Uma paródia. Em 2002, a desinibição respirava outros ares. Menos filtrados. Comprova-se a onda neste e noutros anúncios. Entretanto, parece ter-se instalado uma nuvem de puritanismo pós-moderno. Pergunto-me se, para além das contas públicas, não está a aumentar o défice da liberdade quotidiana. De directiva em directiva, de rectificação em rectificação, de salvaguarda em salvaguarda, acabamos mais dirigidos e mais correctos. Acabamos tolhidos. Tolhidos…
Marca: 7 Up. Título: Calendar. Agência: Young & Rubican. USA, 2002.
Só sobe o que tem peso
Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos.
A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão.
A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso.
Santiago ‘Bou’ Grasso é um realizador argentino admirável. Não falta quem escreva poemas com imagens. Simultaneamente, sóbrios e generosos, são obra rara. A primeira curta-metragem é dedicada à leveza; a segunda, ao peso de chumbo da existência. As nossas vidas em poesia e em prosa.
Santiago ‘Bou’ Grasso. El Pájaro e el Hombre. Argentina, 2005
Santiago Bou Grasso. El Empleo. Argentina, 2011
Liberdade debaixo de água
Versículos, livros, caricaturas, esculturas, palavras, gestos… Tudo acode à memória. Liberdade, “por muito tempo guardei-te como uma pérola rara”, cantava Georges Moustaki. Será que a liberdade também se afoga?
O mergulho sufocante do anúncio da MTV (Hero Final) e do vídeo de Chris Cunningham (Only You) lembram coisas esquecidas: uma “chuva dissolvente” a alagar um caldeirão enxofrado. “Nas narinas da democracia ainda se respira o cheiro da intolerância”.
Marca: MTV. Título: Hero Final. Agência: Carbon VFX. Direção: Patrick Cummings. EUA, Maio 2013.
Portishead. Only Your. Dirigido por Chris Cunningam, 1998.
Chove na liberdade
“Il peure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville » (Paul Verlaine – 1844-1896). Chove no meu País, chove na liberdade. E é inverno. Existem, felizmente, iniciativas que dão asas à vontade e à imaginação. Por exemplo, este genérico, dos anos 1970, de fecho de emissão da Antenne 2. A imagem é do pintor belga Jean-Michel Folon, falecido em 2005, e a música do francês Michel Colombier, falecido em 2004. Seguem o genérico de fecho de emissão da Antenne 2 e a música Wings, de Michel Colombier, interpretada por Toots Thielemans. Não deixem que a liberdade se constipe!
A liberdade é poder escolher as amarras
Quando o cansaço mental apanha o corpo, o melhor é dormir ou ouvir música. Mas há músicas que não deixam descansar. Não param de dançar com a memória. É o caso de “Ma liberté”, cantada quer por George Moustaki, quer por Serge Reggiani. A liberdade é poder escolher as amarras. Por isso, lhe somos tão infiéis.
O Dicionário da Liberdade
A Mafalda (publicada desde 1964) e o Gastão da Bronca (desde 1957) são duas figuras rebeldes e inconformadas da BD dos anos sessenta. Nos anos sessenta, nasceu também a Amnistia Internacional (1961). O Freedom Dictionary é uma iniciativa que a Amnistia Internacional Portugal acaba de lançar.



