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Regressão

Chairs. Photography. Black & White.

Olho para um lado, cadeiras vazias. Para o outro, mais cadeiras vazias. As cadeiras em que gostava de me sentar ao colo.

Don McLean. Empty chairs. American Pie. 1971.
Léo Ferré. Avec le temps. Avec le Temps. 1972.

Caras de pau

Wooden Tree Sculpture: Close-up of Faces Carved in Wood, Handmade.

As mulheres da minha aldeia estendiam criteriosamente a roupa lavada sobre a erva. “Corava ao sol”. Vestidos com roupa corada, corávamos também. Bastava uma palavra, uma anedota, uma imagem, um namoro, um olhar, um mau pensamento… Agora, as máquinas lavam, secam e engomam. A roupa não cora. E as pessoas, deslavam-se? Quer-me parecer que somos cada vez mais caras de pau. Reviramos a pele como quem muda de roupa. Ainda existe quem core, mas aproxima-se de uma espécie em vias de extinção. Surpreender alguém a corar releva de uma epifania , uma graça abençoada. Quase não coramos! E torna-se complicado distinguir a emoção rosada de um cosmético revigorante. Há vasos sanguíneos que caíram em desuso. Como, a seu modo, os pelos, os dentes tortos, as rugas, a transpiração ou a saliva.

Giorgio de Chirico. “Mélancolie hermétique”. Huile sur toile. 1919.

Nestas coisas do pensamento, sou como um cão. Quando encontro um osso, não o largo. O que me ofusca. Na dúvida, recorri a um “grupo de foco”. Nos mundos dos participantes, as pessoas coram, coram, por exemplo, os professores e os alunos nas escolas. Até as personagens dos anime coram. Cora-se, porventura, menos no meu mundo. Rostos serenos e pálidos, a lembrar São Sebastião. A ninguém interessa corar. Um colega com vergonha é como um coxo a andar para trás. E na publicidade? Nos anúncios, não se cora. Mas quem lucra com a comunicação da vergonha?

Caras de pau ou não, eis a questão? Órfão de uma nova intuição, deixo-me embalar pela melancolia. Há melancólicos que descansam a cabeça e fitam o infinito. Não se sabe se esperam ou desesperam. Eu oiço música e escrevo. Procuro nas palavras alento para continuar.

Léo Ferré. La melancolie. La melancolie. 1965.

A multidão solitária

Misha Gordin New Crowd. 1999-2000.

Misha Gordin. New Crowd. 1999-2000.

“Na solidão, o solitário corrói o seu coração; na multitude, é a multidão que lho corrói”
(Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado humano, 1878-1879).

“Sofrer de solidão, mal sinal; até agora, só sofri de multitude”
(Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra, 1893).

Misha Gordin. Newcrowd 54. 2001

Misha Gordin. New Crowd 54. 2001

O livro A Multidão Solitária (The Lonely Crowd), de David Riesman, publicado em 1950, foi um dos primeiros best-sellers da Sociologia. Com recurso a noções tais como inner directed e other directed, Riesman sugere que as pessoas “perdem liberdade e autonomia individual ao tentar ser como as outras”. Esta é mais uma obra clássica posta em pousio pela sociologia avançada.

Misha Gordin, Crowd #37. 1999-2000.

Misha Gordin. Crowd #37. 1999-2000.

Leo_Ferre_la_solitudeLa solitude (1971) é uma canção francesa da autoria de Léo Ferré. Que me perdoe, mas opto pela versão italiana. Por um motivo: o vídeo, com fotografias de  Misha Gordin (Letônia, 1946), é extraordinário. Interpela-nos desvelando várias faces da Multidão Solitária.


Léo Ferré. La Solitudine. Gravado em Maio e Junho de 1972. Fotografias de Misha Gordin.

Todo o mundo à porta; ninguém à janela.

Passa tanta gente à minha porta. E a solidão cá dentro.

A canção francesa, em tempos universal, está em vias de relocalização. Regressa às caves do Boulevard Saint Germain. Entretanto, uma língua e três ou quatro culturas particulares universalizam-se. O resto relocaliza-se, inventaria-se, resiste ou desiste. Hoje, (re)produz-se à moda dos coelhos: vai ser tão bom, não foi? Com tamanha velocidade não há lugar para a solidão. Não? E, contudo… Nos resíduos dos quatro cantos, toca o sino de Wall Street. Sempre há quem se pendure nas calças dos gigantes; e os abutres indígenas, omnívoros, atiram-se a qualquer porcaria com molho de cifrão. A solidão acompanha a dança; faça-se de conta que não é connosco.
O tema da solidão é caro à canção francesa. Escute-se, por exemplo, Georges Moustaki e Léo Ferré.

Georges Moustaki. Ma Solitude. 1969

Léo Ferré. La Solitude. 1971.