Delírio ou deleite?

A publicidade pode aspirar a ser profética? Os novos tempos serão desvairados e agressivos, como no anúncio Goldilocks And The Three Trucks, da Dodge ou nem precipitados, nem furiosos, como no anúncio Not So Fast, Not So Furious, da Häagen-Dazs? Ambos os anúncios provêm de empresas norte-americanas e passaram ontem, dia 9 de fevereiro, durante o Super Bow 2025.
O delírio da dádiva

“Accepter quelque chose de quelqu’un, c’est accepter quelque chose de son essence spirituelle, de son âme / Aceitar alguma coisa de alguém é aceitar qualquer coisa da sua essência espiritual, da sua alma” (Marcel Mauss, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série, 1923-1924).
Imagem: Marcel Mauss
Os anúncios de Natal da John Lewis, maravilhosos, mágicos, sentimentais e, eventualmente, nostálgicos, marcam a abertura da publicidade da época. Este ano, a estreia aconteceu anteontem, 14 de novembro.
Desta vez, sinto que exagerei a expectativa. The Gifting Hour resulta perfeito, belo e mágico, mas quanto ao resto… Falta, sobretudo, a lentidão propícia ao desenrolar vagaroso do encantamento. Assevera-se, porventura, mais realista, mais ajustado ao afogadilho atual. Os sentimentos aparecem como flashes de uma pulsação taquicardíaca. Como se já não houvesse tempo para, como diria Marcel Mauss, a alma se sedimentar na prenda!
Dominado pelo hábito, prefiro o anúncio do ano passado, The Perfect Tree, que, na linha do estilo tradicional da marca, logra aproveitar, in crescendo, compassadamente, os quatro minutos da praxe. Mas em casa há quem, com um olhar mais fresco, seja de outra opinião.
De uma extremidade à outra

A uma amizade reencontrada
olhamos para o lado
uma criança chora
esquecida da dureza do vento
quando a terra é seca
e os cardos invadem as dunasleva no olhar o sal
nas mãos um barco de papel
asas longas
à espera de um sopro
e um bafo quente
de boca interiornão bastam as pegadas na areia
pés de planta augadaerguemos o rosto
beijamos a espuma dos dias
perguntamose se a morte não basta?
(Almerinda Van Der Giezen. Excerto de poema)
Vivemos tempos ambivalentes. Aliás, o mundo sempre foi ambivalente. A lentidão convive com a aceleração e a luxúria com a humildade. Juntas, vizinhas ou à distância. Ora devoramos, ora ruminamos. Ávidos ou resignados, “vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Pascal, Blaise, Pensamentos, Artigo XVII – Conhecimento geral do homem). Consoante o estado do mar.
Criativos e invulgares, os anúncios Dry e Second Edition, da, Zara justificam uma atenção e um olhar redobrados.
Pôr a vida a pastar
Round like a circle in a spiral, like a wheel within a wheel / Never ending or beginning on an ever spinning reel (Abbey Lincoln, Windmills of your mind).
Com mobilidade reduzida, a relação com o mundo adquire outra feição. Resulta mais lenta e mais minuciosa. Pasma-se com as aventuras da gata, desde os primeiros namoros até ao aleitamento das crias, uma preta como o pai, a outra às listas tal e qual a mãe. Acompanha-se a melra que repete cinco vezes o mesmo voo desde o comedouro dos gatos até às bocas no ninho. Até as plantas se animam: sofrem os limoeiros com as invasoras, têm sede os morangueiros nos vasos e destaca-se a primeira folha avermelhada na cerejeira. Tudo entremeado com música. Hoje, jazz. Partilho três faixas do álbum over the years, de Abbey Lincoln: Windmills of your mind; What will tomorrow bring; e Tender as a rose.
Tédio e lentidão


A um amigo que me ofereceu histórias de imagens, de Robert Walser.
A lentidão é um luxo, o tédio um tormento. Onde está a fronteira?
Regresso às “minhas” músicas; deixo os “tops of the pops” para outras oportunidades. Hoje, estive a ouvir o álbum Astral Weeks (1969), de Van Morrison. Coloco as três últimas faixas.
Como ser mais humano?

Os nossos tempos andam confusos e divididos. Ora apelam à superação, ao esforço e ao rendimento ((anúncios 1 a 3), ora sugerem a descontração, a lentidão e a sensibilidade (anúncios 4 e 5). Os nossos tempos ou nós?
Devagar, que quero amar
Muitos artigos do Tendências do Imaginário conjugam anúncios e músicas. Habitualmente, escolho primeiro o anúncio e, em seguida, uma ou várias músicas a condizer. Neste artigo, escolhi primeiro a música: S’apre Per Te Il Mio Cuor, de Camille Saint-Saens. Gosto de Saint-Saens, das suas melodias românticas. Acabei por optar pelo anúncio The Chase, da Galaxy (Dove). Um belo anúncio com um lema sábio: “corra menos para sentir mais”. A pressa impede Cupido de acertar. Devagar, para amar. Para o coração se abrir.
Camille Saint-Saens. S’apre Per Te Il Mio Cuor (versão italiana). Ópera Sansão e Dalila. 1877. Canto: Filippa Giordano.
Marca Galaxy (Dove). Título: The Chase. Agência: AMV/BBDO (UK). Direcção: Juan Cabral. Reino Unido, Fevereiro 2017.
Elogio da lentidão

Caracóis brincam às escondidas.
Sou apóstolo da lentidão. Nada como pescar memórias num lago pasmado. Mas há quem sulque as águas a remar sem barco rumo ao futuro. Com tanta velocidade que as memórias ficam para trás.
Indiferença, preguiça e entorpecimento, eis a trilogia da lentidão. Tem discípulos na música. Por exemplo, os Deep Purple (Lazy, 1972) ou Georges Moustaki (Le Droit à La Paresse, 1974). Escolho, porém, o irlandês Bob Geldof, promotor dos Band Aid, do Live Aid e do Live 8. Assumiu o papel de Pink, na canção Confortably Numb, no filme The Wall, dos Pink Floyd. Seguem três vídeos musicais: dois a solo (The Great Song of Indifference e I don’t like Mondays) e um terceiro com David Gilmour (Confortably Numb, ao vivo em 2002).
Bob Geldof.The Great Song of Indifference. The Vegetarians of Love. 1990.
Bob Geldof, com os Bootown Rats. I don’t like Mondays. The Fine Art of Surfing. 1979
David Gilmour feat Bob Geldof. Confortably Numb.The Meltdown Concert. 2002.
Elogio da lentidão
Não apresses o momento! As coisas acontecem quando devem acontecer. Devagar. A espera tece o tempo e enreda o futuro. O tempo que dança. Pensa na tartaruga, no nascer do dia, no jogo de xadrez, na poeira do deserto… Quanto tempo precisa a maçã para ser cidra? O que for preciso. O tempo certo. “Not a Moment Too Soon”, da Bulmers, é um anúncio notável, esteticamente primoroso, com imagens em belos tons de cidra, bem compassadas pela música. Tempo que se vive, tempo que se bebe.
Marca: Bulmers. Título: Not a Moment Too Soon. Agência: Publicis, Dublin. Direcção: Aoife McArdle. Irlanda, Abril 2015.



