Varas há muitas

“Segundo uma tradição antiga, depois da morte de São Joaquim, Maria teria chegado à idade de casar. Os pretendentes teriam sido chamados ao Templo, levando cada um uma vara. A vara de José teria milagrosamente florescido, enquanto as outras permaneceram secas. Esse prodígio teria sido interpretado como sinal da escolha divina de José para esposo de Maria. Daí vem a representação de São José com uma vara ou cajado florido, normalmente com flores brancas.
Imagem: Josefa de Óbidos – São José e o Menino, 1670. Museu Nacional de Arte Antiga
Em Portugal, a flor pode aparecer identificada com a açucena/lírio, símbolo de pureza e castidade (…) Com o passar do tempo, a vara florida tornou-se praticamente um atributo iconográfico de São José. O lírio branco passou a representar a sua pureza, mas também a sua dignidade e santidade. Por isso é frequente encontrar São José representado com o Menino Jesus num braço e uma vara florida na outra mão. (ChatGPT, 16.08.2026).
Mas nas pinturas contempaladas no artigo A vara do noivo, colocado no dia 16 de agosto de 2014, a vara aparece com uma pomba branca. Porquê?
A separação do amor

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?




Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.
Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos. Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.
Um abraço à divindade: São Bernardo de Claraval
“A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida” (Bernardo de Claraval, 1090-1153).
Sobre a evolução das imagens de Cristo do séc. V ao séc. XVI, escrevi: “A imagem de Cristo Pantocrator é aquela que predomina no primeiro milénio. Criador de todas as coisas, omnipotente, Cristo senta-se num trono em pose imperial, com o Livro da Lei na mão esquerda. Situa-se em locais altos de onde tudo vê: nas cúpulas, por cima das portas, na abside. Já nos crucifixos e nas pietás, com Cristo na condição de julgado, as imagens descem das alturas, aproximando-se dos crentes” (http://tendimag.com/?s=duas+faces). A humanização do divino e a sua aproximação ao humano atingiram um clímax nos séculos que se seguiram ao Renascimento do séc. XII, multiplicando-se as imagens de Cristo crucificado, da Pietá e de Nossa Senhora do Leite.
As aparições a São Bernardo de Claraval constituem um bom exemplo desta aproximação do divino ao humano. São Bernardo (1090-1153), abade de Claraval, santo e doutor da Igreja, é a figura mais influente da Ordem de Cister. Numa aparição, Cristo desceu da cruz para o abraçar (figuras 1 a 3). Noutra aparição, Nossa Senhora contemplou-o com um esguicho de leite em direcção à sua boca (figuras 4 a 12). Na galeria, dois quadros com a lactação de São Bernardo são da autoria de Josefa (de Óbidos) Ayalla, pintora dada a temas místicos.












