Tag Archive | Jordi Savall

Trabalhar até doer a vontade

Jordi Savall.

Estou a pensar na reforma. Ando a sentir náuseas. Admito que não sejam laborais; talvez esteja grávido. Vou investir numa tasquinha com música global e produtos regionais. Convido o Jordi Savall e o Ensemble Musica Narrans para tocar cravo, violino e viola de arco e provar bife de presunto e lampreia escalada, mais umas roscas de Monção e uns charutos dos Arcos. A reforma, se passarem as náuseas, vai ser um regalo, uma folia.

Ensemble MUSICA NARRANS. Folia – Variations by Arcangelo Corelli, Alessandro Scarlatti and Marin Marais. 2014.
Jordi Savall. Folias de España. Festival de Lanvellec en el año 2002.

Música antiga

Mosteiro de Monserrat. Barcelona. Catalunha. Espanha.

Há muito homem para aquém da pós-modernidade. Outros mundos, outras narrativas, outros delírios. O homem nunca foi culturalmente raquítico. À margem das “feiras e das festas medievais” em voga, gosto da música dita antiga.

Llibre Vermell. Original. Pág. 6. Ca. 1399.

Jordi Savall, catalão, compositor, director e instrumentista de viola de gamba, é um dos expoentes da interpretação de músicas antigas originais. Criou, em 1974, com a esposa Monserrat Figueras, o Ensemble Hespèrion XXI. É uma tentação acolher a obra de Jordi Savall no Tendências do Imaginário. “Los Set Gotsx”  e “Stella Splendens” integram as dez composições, todas anónimas, compiladas no Liibre Vermeil de Monserrat, um manuscrito iluminado de finais do séc. XIV, guardado no Mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona . Não obstante a “cantilena” do poeta Sebastião da Gama e do cantor Francisco Fanhais, ainda não cortaram o bico ao rouxinol (ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/). Às vezes, faz bem sentir o outro no nosso harmónio, escapulir desta nossa maravilha de fim dos tempos.

Anónimo. Los Set Gotsx. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.
Anónimo. Stella Splendens. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.

Opera Prima

Claudio Monteverdi. L'Orfeo. Folheto. 1609.

Claudio Monteverdi. L’Orfeo. Folheto. 1609.

A alegoria, a fábula e o virtuosismo pautam a música barroca. La Poule (1728), de Jean-Philippe Rameau e Le Coucou (1735), de Louis-Claude Daquin são alegorias transbordantes de virtuosismo para divertimento palaciano (ouvir em Com um burro às costas: música com humor). Boa parte da música barroca foi composta para patronos (reis, nobres, clérigos e burgueses empregadores”). Assim acontece com L’ Orfeo (1607), de Claudio Monteverdi, obra que, segundo os entendidos, inaugurou o género “ópera”. Monteverdi chamou-lhe:

favola in musica, isto é, uma história fantasiosa (afinal, estamos a lidar com o mito de Orfeu) envolvida em música. Ela estreou a 24 de fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, numa performance privada para o duque Vincenzo Gonzaga, empregador de Monteverdi, acontecendo a estreia pública dias depois” (Bernardo Mariano, O Orfeo de Monteverdi, a ópera que fundou a ópera, hoje no CCB, Diário de Notícias, 16 de Setembro de 2017).

Para uma abordagem original do mundo da ópera, recomendo a obra de Philippe-Joseph Salazar: Idéologies de l’opéra, Paris, Presses Universitaires de France, 1980).

Segue um excerto da ópera L’Orfeo, sob a direcção de Jordi Savall.

Claudio Monteverdi. L’ Orfeo. La Capella Reial de Catalunya. Direcção: Jordi Savall. Gran Teatre del Liceu Barcelona. Excerto: abertura.

Oscilações do gosto

Ontem, convocámos os tomates de François Rabelais e de Jeanne La Folle (séculos XV e XVI), hoje, propomos um cântico sagrado bizantino do século IX. Não nos fixamos, nem resvalamos para o centro. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Blaise Pascal, Pensamentos). Não há pantocrator que nos acuda. “Vogar sempre incertos e flutuantes” pode agoniar, mas também pode encantar.

Stavroteotokia é uma música bizantina com mais de mil anos. O tempo passa, inexoravelmente. O tempo é o grande destilador da humanidade. Um alambique alquímico. Também é uma enorme compostagem. Compare-se a Stavroteotokia, do século IX, com um dos sucessos musicais da era digital, Cigu Bugule.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Sacramentário de Charles le Chauve. Século IX.Stavroteotokia. La Capella Reial de Catalunya – Grupe Sufi Al-Darwish – Hespèrion XXI – Jordi Savall, dir. Imagem: Sacramentário de Charles le Chauve, 869-879.

img-cigubigulewigglewiggletinerciversiyon-846Cigu Bugule