Trabalhar até doer a vontade

Estou a pensar na reforma. Ando a sentir náuseas. Admito que não sejam laborais; talvez esteja grávido. Vou investir numa tasquinha com música global e produtos regionais. Convido o Jordi Savall e o Ensemble Musica Narrans para tocar cravo, violino e viola de arco e provar bife de presunto e lampreia escalada, mais umas roscas de Monção e uns charutos dos Arcos. A reforma, se passarem as náuseas, vai ser um regalo, uma folia.
Música antiga

Há muito homem para aquém da pós-modernidade. Outros mundos, outras narrativas, outros delírios. O homem nunca foi culturalmente raquítico. À margem das “feiras e das festas medievais” em voga, gosto da música dita antiga.

Jordi Savall, catalão, compositor, director e instrumentista de viola de gamba, é um dos expoentes da interpretação de músicas antigas originais. Criou, em 1974, com a esposa Monserrat Figueras, o Ensemble Hespèrion XXI. É uma tentação acolher a obra de Jordi Savall no Tendências do Imaginário. “Los Set Gotsx” e “Stella Splendens” integram as dez composições, todas anónimas, compiladas no Liibre Vermeil de Monserrat, um manuscrito iluminado de finais do séc. XIV, guardado no Mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona . Não obstante a “cantilena” do poeta Sebastião da Gama e do cantor Francisco Fanhais, ainda não cortaram o bico ao rouxinol (ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/). Às vezes, faz bem sentir o outro no nosso harmónio, escapulir desta nossa maravilha de fim dos tempos.
Opera Prima
A alegoria, a fábula e o virtuosismo pautam a música barroca. La Poule (1728), de Jean-Philippe Rameau e Le Coucou (1735), de Louis-Claude Daquin são alegorias transbordantes de virtuosismo para divertimento palaciano (ouvir em Com um burro às costas: música com humor). Boa parte da música barroca foi composta para patronos (reis, nobres, clérigos e burgueses empregadores”). Assim acontece com L’ Orfeo (1607), de Claudio Monteverdi, obra que, segundo os entendidos, inaugurou o género “ópera”. Monteverdi chamou-lhe:
“favola in musica, isto é, uma história fantasiosa (afinal, estamos a lidar com o mito de Orfeu) envolvida em música. Ela estreou a 24 de fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, numa performance privada para o duque Vincenzo Gonzaga, empregador de Monteverdi, acontecendo a estreia pública dias depois” (Bernardo Mariano, O Orfeo de Monteverdi, a ópera que fundou a ópera, hoje no CCB, Diário de Notícias, 16 de Setembro de 2017).
Para uma abordagem original do mundo da ópera, recomendo a obra de Philippe-Joseph Salazar: Idéologies de l’opéra, Paris, Presses Universitaires de France, 1980).
Segue um excerto da ópera L’Orfeo, sob a direcção de Jordi Savall.
Claudio Monteverdi. L’ Orfeo. La Capella Reial de Catalunya. Direcção: Jordi Savall. Gran Teatre del Liceu Barcelona. Excerto: abertura.
Oscilações do gosto
Ontem, convocámos os tomates de François Rabelais e de Jeanne La Folle (séculos XV e XVI), hoje, propomos um cântico sagrado bizantino do século IX. Não nos fixamos, nem resvalamos para o centro. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Blaise Pascal, Pensamentos). Não há pantocrator que nos acuda. “Vogar sempre incertos e flutuantes” pode agoniar, mas também pode encantar.
Stavroteotokia é uma música bizantina com mais de mil anos. O tempo passa, inexoravelmente. O tempo é o grande destilador da humanidade. Um alambique alquímico. Também é uma enorme compostagem. Compare-se a Stavroteotokia, do século IX, com um dos sucessos musicais da era digital, Cigu Bugule.
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O Stavroteotokia. La Capella Reial de Catalunya – Grupe Sufi Al-Darwish – Hespèrion XXI – Jordi Savall, dir. Imagem: Sacramentário de Charles le Chauve, 869-879.


