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Liberdade sem freio

Quino. Gente en su sitio. 1986.

Numa sociedade que se diz avessa a grandes narrativas, proliferam grandes teorias omnívoras. Temos profetas! Profetas como, a seu tempo e a seu modo, Karl Marx ou Auguste Comte. Só não falam o mesmo idioma. Trata-se de um negócio intelectual interessante: vendem-nos armaduras como se fossem t-shirts (Albertino Gonçalves).

O escocês Alexander Sutherland Neill (1883-1973) foi um escritor e educador visionário. Entendia que os alunos deviam ser livres e responsáveis. Livres de aprender o que, quando e como desejassem e responsáveis do seu destino, participando ativamente nas decisões da escola. Estava convencido que a falta de liberdade e de responsabilidade é atrofiadora. À semelhança de alguns utopistas do século XIX, passou da teoria à prática, realizou a ideia. Criou uma escola pioneira; Summerhill. O livro, publicado em 1960, advoga esta Liberdade sem medo (Summerhill: A Radical Approach to Child Rearing). Curiosamente, o prefácio foi escrito por Erich Fromm, autor do livro O Medo à Liberdade (Escape from freedom, 1941).

O livro Liberdade sem Medo acertou na minha costela anarcoide. Quando leio um poema de Jacques Prévert, vejo um filme do Jacques Tati, percorro as tiras da Mafalda ou oiço o Another Brick in the Wall dos Pink Floyd, penso no Alexander S. Neill.

Uma criança, um aluno, não é uma tábua-rasa, para retomar o termo de Émile Durkheim.

“A educação tem como objetivo sobrepor ao ser individual e associal que somos ao nascer um ser inteiramente novo. Deve conduzir-nos a ultrapassar a nossa natureza inicial: é nesta condição que a criança se tornará um homem” (Émile Durkheim, Éducation et Sociologie, 1911).

A criança não é papel mata-borrão. A sua vocação não se resume ao processamento de informação. Quer-me parecer que nos últimos tempos temos cultivado essa falácia. Muito modelo, muita multiplicação.

“Uma educação capaz de desenvolver o julgamento e a vontade é perfeita, quaisquer que sejam as matérias ensinadas. Com estas qualidades, o homem sabe orientar o seu destino. Vale mais compreender do que aprender » (Gustave Le Bon. Hier et demain: pensées brèves. Paris, Flammarion, 1918).

Por falar em Jacques Tati, junto um vídeo com alguns excertos do filme Les Vacances de Monsieur Hulot (1953).

Jacques Tati. Les Vacances de Monsieur Hulot. 1953. Excertos.

O triunfo das salsichas

“Vê-se que a história é uma galeria de quadros com poucas obras originais e muitas cópias” (Alexis de Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução. 1856)

SalsichaAs salsichas, se não estão a caminho de Hollywood, vingam, pelo menos, em Cannes. Moles e flexíveis, de animais marinhos a fãs de raves, as salsichas têm mil rostos.
Deparar com anúncios publicitários parecidos é uma surpresa corrente. No anúncio, surrealista, da BestDay (Sausage, 2015), uma salsicha gigante encalhada na praia é resgatada por um grupo de pessoas. Algumas sequências lembram, porém, o anúncio português Whale (Optimus, 2004): https://tendimag.com/2012/01/03/a-tribo-da-baleia/.

Marca: BestDay.com. Título: Sausage. Agência: McCann Mexico. Direcção: Gonzalo Oliveró. México, Junho 2015.

Os anúncios La Saucisse (Orangina, 2000) e Rave Party (Vizzavi, início dos anos 2000) parecem sósias. Os anúncios publicitários adoptam, assim, a citação sem aspas. De qualquer modo, um anúncio (Rave Party) que convoca a voz e a música dos filmes de Jacques Tati aproxima-se de uma citação que frisa a originalidade eterna.

Marca: Orangina. Título: La Saucisse. Direcção: Alain Lambert. França, 2000.

Marca: Vizzavi. Título: Rave Party. Produção: Wanda. Direcção: Pierre Coffin. França, início dos anos 2000.

Sociologia sem palavras 6: Envelhecimento

Cornelius Baba. The fear (Homage to Francisco Goya). 1987.

Cornelius Baba. The fear (Homage to Francisco Goya). 1987.

Os fracos a ajudar os fortes é espectáculo corrente. Em contrapartida, quando os fortes ajudam os fracos é motivo para primeira página com foto-reportagem no interior. Pode não ser verdade, mas parece. Parece, também, que a balança do Senhor está estragada!

O sexto episódio da série Sociologia sem palavras é dedicado ao envelhecimento. Não resisto a acrescentar a canção Les vieux (1963), de Jacques Brel.

Jaques Tati. Mon Oncle. França, 1958. Excerto.

Jacques Brel. Les Vieux. 1963.

Sociologia sem palavras 5: Brincadeira

Mon Oncle

Brincadeiras, quem as não teve? O lúdico sobressai como uma componente matricial das sociedades (Johan Huizinga, Homo Ludens, 1938; Alberto Nídio Silva, Jogos, Brinquedos e Brincadeiras, dissertação de doutoramento, Universidade do Minho, 2010). Basta mencionar os jogos e as brincadeiras da infância para um sorriso se pasmar no rosto. Momentos de inocência? Crianças pueris? Estes angelismos são fábulas de adulto.  Na realidade, as brincadeiras e os jogos de crianças encerram dimensões perversas.

Jacques Tati capricha em dar tempo ao humor. Um riso sem elipses nem pressas. O sentido do detalhe nos filmes de Jacques Tati lembra os romances de Marcel Proust. Jacques Tati não é ingénuo. Ri dos nossos gestos mais naturais. No filme Mon Oncle, as brincadeiras e os jogos de crianças são claramente endiabrados.

A brincadeira é o tópico principal do quinto episódio da série Sociologia sem palavras. No vídeo, carregar em HD.

Jacques Tati. Mon Oncle. 1958. Versão italiana.

Sociologia sem palavras 4. À americana

jour-de-fete-a23

Há Festa na Aldeia é o primeiro filme de Jacques Tati (1949). Com a festa, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. As pessoas mergulham numa metamorfose efémera. O carteiro é, neste filme, um caso extremo. Ludibriado por dois malandros, com a cumplicidade dos conterrâneos, o carteiro persegue a ilusão de ser carteiro à americana, num filme pautado pela diversidade de tempos e de ritmos sociais.
Jacques Tati promove, com subtileza, uma crítica acutilante à sociedade moderna. A última cena do vídeo é uma farpa feroz à irracionalidade da racionalidade técnica: um homem está no fundo de um poço; o carteiro envia-lhe a carta num balde; e prossegue o giro…
O filme dedica vinte minutos ao giro do carteiro à americana. A alucinação acaba com um mergulho em profunda água fria. Foi-se o “sonho americano”, resta “todo o tempo do mundo”, um tempo plural, descontraído e distraído.
Uma pequena nota: a estreia do filme foi adiada quase um ano devido aos protestos dos carteiros franceses.

Jacques Tati. Jour de Fête. França. 1949.