Tag Archive | Jacques Brel

Um par de cabeças

Postal humorístico antigo. Kirou Ado. L’âge d’or de la carte postale, Paris, Éditions André Balland. 1966.

Venez danser
Copain copain copain copain copain copain
Venez danser
Ça danse les yeux dans les seins

Jacques Brel

Segundo Bergson, o riso está associado à observação desprendida de situações e comportamentos desajeitados (Charlot), inexpressivos (Buster Keaton), desviados (Don Quixote), desastrados (Mr. Hulot) ou desregrados (Mr. Bean). Mas quando o humor é criativo, quem fica sem jeito, desconcertado, é o próprio observador, que se sente deslocado para jogos que ultrapassam a razão desprendida. Tem cócegas no cérebro.

Jacques Brel. Les paumés du petit matin. Les bourgeois. 1962.

Hierarquias na horizontal

Hierarquias na horizontalidade.

Hierarquias na horizontalidade. Montagem de Fernando Gonçalves. Julho 2018.

“Só aqueles que tentam o absurdo conseguem realizar o impossível” (M.C. Escher).

Com o calor, os neurónios entram em efervescência. Algumas bolhas trazem ideias. Hierarquias verticalmente semelhantes podem ter desempenhos distintos consoante a disposição horizontal.

Quando a hierarquia vertical (de cima para baixo) se replica na horizontal (da frente para trás) apenas o chefe acede à visão exterior (por exemplo, a Estátua da Liberdade). Os demais membros imaginam-na através dos olhos do chefe.

Quando a hierarquia horizontal inverte a hierarquia vertical, todos os membros conseguem ver a realidade desejada. Nesta disposição (B), a abertura ao exterior é maior. Todos os membros, do mais alto ao mais baixo, conseguem verificar, por exemplo, se a mão esquerda da Estátua de Liberdade segura a Tabula Ansata ou um tablet, bem como se, na mão direita, a tocha foi substituída pelo passarinho do Twitter.

As organizações tendem a replicar um mesmo princípio, normalmente simples e óbvio, de hierarquização. A mesma ordem preside à elegibilidade, às comissões, aos júris, às avaliações, à carreira, aos lugares, às posições e aos desfiles. Com uma ressalva: o pódio em que o primeiro é o último a subir, sobrepondo-se aos demais. Este tipo de hierarquia lembra um fractal. Possui um ADN, ou um gene, persistente. Seja qual for a circunstância, o código pré-existe. Nem sempre oportuno. Imagine que se pretende constituir uma comissão eleitoral. Nomeados os membros, falta designar o presidente. A escolha do presidente está pré-decidida: é o membro que possui a categoria mais elevada. Pouco importa se é o menos experiente, o menos indicado ou o menos disponível. Nada resiste ao código aristocrático em organizações que se apresentam como democráticas: o escolhido é, irrevogavelmente, o mais “categorizado”. Sempre o mesmo gene, sempre a mesma falácia, já sinalizada por Vilfredo Pareto (Traité de Sociologie Générale, 1917): acreditar que quem é bom numa dimensão é bom em todas as outras. Parafraseando René Descartes, Nada no mundo está mais bem repartido do que a omnisciência: toda a gente está convencida de que a tem de sobra. Mas hierarquias há muitas! Algumas, porventura menos fractais, menos fatais e menos triviais. E, também, menos infalíveis

Quando escrevo um artigo acontece-me sentir bater à porta da minha espelunca mental. Desta vez, é uma canção que quer entrar: Au suivant, de Jacques Brel. Não encontraria outra mais apropriada.

Eu e o meu rapaz mais novo dedicamos este artigo ao meu rapaz mais velho, que está no plat pays de Brel. É um apreciador da teoria dos jogos e dos esquemas de interacção.

Jacques Brel. Au suivant. Olympia, 1964.

Au suivant (Jacques Brel,
Tout nu dans ma serviette qui me servait de pagne
J’avais le rouge au front et le savon à la main
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et nous étions cent vingt
A être le suivant de celui qu’on suivait
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et je me déniaisais
Au bordel ambulant d’une armée en campagne
Au suivant, au suivant
Moi j’aurais bien aimé un peu plus de tendresse
Ou alors un sourire ou bien avoir le temps
Mais au suivant, au suivant
Ce n’fut pas Waterloo mais ce n’fut pas Arcole
Ce fut l’heure où l’on regrette d’avoir manqué l’école
Au suivant, au suivant
Mais je jure que d’entendre cet adjudant d’mes fesses
C’est des coups à vous faire des armées d’impuissants
Au suivant, au suivant
Je jure sur la tête de ma première vérole
Que cette voix depuis je l’entends tout le temps
Au suivant, au suivant
Cette voix qui sentait l’ail et le mauvais alcool
C’est la voix des nations et c’est la voix du sang
Au suivant, au suivant
Et depuis chaque femme à l’heure de succomber
Entre mes bras trop maigres semble me murmurer
“Au suivant, au suivant”
Tous les suivants du monde devraient s’donner la main
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant
Et quand je n’délire pas, j’en arrive à me dire
Qu’il est plus humiliant d’être suivi que suivant
Au suivant, au suivant
Un jour je m’ferai cul-de-jatte ou bonne sœur ou pendu
Enfin un d’ces machins où je n’serai jamais plus
Le suivant, le suivant
Compositor: Jacques Brel.

Prazer

“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.

Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).

Pascal escreve sobre o prazer e o amor. A tapeçaria do Museu de Cluny exibe um breviário de prazeres: o banho, a nudez, a música, as jóias, as iguarias…  A iluminura do Codex Manesse versa sobre o prazer que Pascal mais enaltece: o amor. Jacques Brel canta um paradoxo: “Quando só nos restar o amor, teremos o mundo inteiro nas mãos”.
Gosto de Pascal, da arte medieval e de Jacques Brel. E tu?

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.

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Jacques BrelJacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957).

Sociologia sem palavras 6: Envelhecimento

Cornelius Baba. The fear (Homage to Francisco Goya). 1987.

Cornelius Baba. The fear (Homage to Francisco Goya). 1987.

Os fracos a ajudar os fortes é espectáculo corrente. Em contrapartida, quando os fortes ajudam os fracos é motivo para primeira página com foto-reportagem no interior. Pode não ser verdade, mas parece. Parece, também, que a balança do Senhor está estragada!

O sexto episódio da série Sociologia sem palavras é dedicado ao envelhecimento. Não resisto a acrescentar a canção Les vieux (1963), de Jacques Brel.

Jaques Tati. Mon Oncle. França, 1958. Excerto.

Jacques Brel. Les Vieux. 1963.

O Poder

Jacques Brel. Les Bourgeois

Post rápido:

Quanto mais lido com o poder, mais lhe sinto o veneno.
E não há retórica que o elimine.

Jacques Brel. Les Bourgeois.