Tag Archive | Jacques Brel

Diagonalização do Poder

Padrãodo Descobrimentos com identificação das figuras. Lado Leste. Por Walrasiad

Le rire est une bouée de sauvetage / O riso é uma bóia de salvação (Michel Serrault)
Le rire libère l’homme de la peur / O riso liberta o homem do medo (Dario Fo)

O artigo Hierarquias na horizontal, colocado no Tendências do Imaginário no dia 14 de julho de 2018 inspira-se no maneirismo seiscentista. Como diriam os medievais francófonos, é uma drôlerie (gracejo), um sintoma, talvez, de quem tem muito tempo no presente e pouco pela frente.

Padrão dos Descobrimentos com identificação das figuras. Lado Oeste

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Michel Sardou – Le France. Michel Sardou, 1976

Jornada. Por e contra D. Quixote

Na conferência Com o Filho no Colo 1. 28.11.2025. Fotografia: Alfredo Machado

Há mais de meia dúzia de anos que não falava duas horas em pé e com expressão gestual desenvolta. O Alfredo Machado captou o momento. Este reparo peca provavelmente por vaidade, mas vaidade humilde e, pesem as voltas da vida, agradecida.
Um pouco de quixotismo pode ajudar a sonhar, tentar e perseverar (desde que com a companhia do Sancho Pança). Jacques Brel sublinha-o na canção “La Quête”. Já Manuel Freire grita, a contramão da “Pedra Filosofal, “Abaixo D. Quixote”.

[Carregar nas imagens para as aumentar e aceder às respetivas legendas].

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Jacques Brel – La Quête. 15 ans d’amour, 1968
Manuel Freire – Abaixo D. Quixote. Pedra Filosofal, 1993. Original: EP de 1973. Poema de José Gomes Ferreira
Manuel Freire – “Pedra Filosofal” (primeira versão) do disco single ZipZip. 1970. Poema de António Gedeão

A Busca
La quête

(Jacques Brel)

Sonhar um sonho impossível
Rêver un impossible rêve

Carregar a tristeza das partidas
Porter le chagrin des départs

Queimar com uma febre possível
Brûler d’une possible fièvre

Ir aonde ninguém vai
Partir où personne ne part

Amar até o dilaceramento
Aimer jusqu’à la déchirure

Amar, até demais, até mal
Aimer, même trop, même mal

Tentar, sem força e sem armadura
Tenter, sans force et sans armure

Alcançar a inacessível estrela
D’atteindre l’inaccessible étoile

Esta é a minha busca
Telle est ma quête

Seguir a estrela
Suivre l’étoile

Pouco me importa a minha sorte
Peu m’importent ma chance

Pouco me importa o tempo
Peu m’importe le temps

Ou minha desesperança
Ou ma désespérance

E, depois, lutar sempre
Et puis lutter toujours

Sem perguntas, nem descanso
Sans questions ni repos

Danar-se
Se damner

Pelo ouro de uma palavra de amor
Pour l’or d’un mot d’amour

Não sei se serei esse herói
Je ne sais si je serai ce héros

Mas, meu coração estaria tranquilo
Mais mon coeur serait tranquille

E as cidades se salpicariam de azul
Et les villes s’éclabousseraient de bleu

Porque um infeliz
Parce qu’un malheureux

Ainda arde, apesar de ter queimado tudo
Brûle encore, bien qu’ayant tout brûlé

Ainda arde, até demais, até mal
Brûle encore, même trop, même mal

Para alcançar até se esquartejar
Pour atteindre à s’en écarteler

Para alcançar a inacessível estrela
Pour atteindre l’inaccessible étoile

O Prazer e os Seis Sentidos

No dia 19 de outubro, o Tendências do Imaginário alcançou 460 visualizações. O artigo Prazer surge em sétimo lugar. Bastante jovial, retomo-o, juntando, como anexo, Os seis sentidos.

O PRAZER (Dezembro 21, 2015)

Vida senhorial. Mulher banhando-se rodeada por assistentes. Tapeçaria. Escola francesa. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris

“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.

Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.
Jacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957)

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OS SEIS SENTIDOS (Outubro 22, 2025)

La Dame à la licorne (A Dama e o unicórnio), exposta no Museu de Cluny, em Paris, é composta por seis tapeçarias, tecidas, provavelmente, na Flandres em finais do século XV. Destacam-se como uma obra-prima da arte medieval.

Galeria: La Dame à la licorne (A Dama e o unicórnio). Serie de apeçarias. Ca. 1500. Museu de Cluny

La Dame à la licorne (A Dama e o unicórnio). Série de apeçarias. Ca. 1500. Museu de Cluny

  1. Le toucher (o tacto). A Dama agarra com a mão esquerda o corno do unicórnio e com a direita o mastro de um estandarte;
  2. Le goût (o paladar). A Dama pega um confeito de uma taça e oferece-o a uma ave;
  3. L’odorat (o cheiro). Um macaco aspira o perfume de uma flor;
  4. L’ouïe (o ouvido). A Dama toca órgão;
  5. La vue (a vista). O unicórnio contempla-se num espelho segurado pela Dama;
  6. “À mon seul désir” (“ao meu único desejo”). A Dama tira o colar que coloca num baú.

A sexta tapeçaria, a do sexto sentido, só pode ser interpretada por dedução da hipótese dos cinco sentidos. Nela pode-se ler, emoldurada pelas iniciais A e V, a frase «Ao meu único desejo» no topo de uma tenda azul. (…) Nesta sexta tapeçaria, a senhora tira o colar que usava nas outras tapeçarias. (…) Num artigo escrito em 1977, Alain Erlande-Brandenburg, levanta a hipótese de que a sexta tapeçaria poderia simbolizar a renúncia aos sentidos (…) Para Jean-Patrice Boudet, esta tapeçaria seria uma alegoria do coração, o sexto sentido (…) O historiador de arte britânico Michael Camille (en) observa que a dama desta última tapeçaria é a única a ter cabelo curto” (Wikipedia, La dame à la licorne, 22.10.2025).

Tratar-se-ia, portanto, de uma espécie de despojamento material, de uma relação distinta com o mundo, mais aberta ao sentir do coração, o dito “sexto sentido”, próximo da acepção de Blaise Pascal (“Conhecemos a verdade, não apenas pela razão, mas também pelo coração”: Pensamentos, artigo XXII) ou de Antoine de Saint-Exupéry (“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”: O Pequeno Príncipe, cap. XVII ).

Nem Shakespeare, nem Molière

Não há Shakespeare, nem Molière, que resista! Ultrapassou-se, ao mesmo tempo, a tragédia e a comédia.

José Afonso – Os Eunucos. Traz Outro Amigo Também, 1970
Georges Brassens – Le temps n’a rien à faire. Le temps ne fait rien à l’affaire, 1961
Jacques Brel – Au suivant. Les Bombons, 1964

História de Amor com Arroz de Frango

Admito gostar, com uma certa ingenuidade, da publicidade tailandesa. Tenho-o repetido tantas vezes que fiquei sem palavras.

Há mais de cinquenta anos, comprei um dos meus primeiros singles (45 rotações): do lado A, “Love Story (Where do I begin)”, por Andy Williams; do lado B, “Seasons in the sun”, por Terry Jacks.

O que tem a ver o anúncio da KFC com a música composta por Francis Lai? Porventura, a imaginação do amor.

Marca: KFC Thailand. Título: Ror Real?. Agência: Wolf BKK. Tailândia, janeiro 2025
Andy Williams – (Where do I begin) Love Story. Love Story. 1971
Terry Jacks – Seasons in the sun (cover de Jacques Brel, 1961). Single, 1973
Francis Lai – Theme from Love Story. Love Story. 1970
Jacques Brel – Le moribond. Marieke (Vol.5). 1961

A valsa de Brel em Paris e de Karenina em São Petersburgo

O “bailado digital” funciona. Na sequência do artigo “Passinhos de dança” (https://tendimag.com/2024/05/24/passinhos-de-danca/), Luís Bastos, administrador do blogue Azorean Torpor (https://azoreantorpor.wordpress.com/), partilhou o vídeo oficial da canção “La valse à mille temps”, de Jacques Brel. Uma delícia ternurenta que convoca Brel, Paris e a valsa. Pares de sensibilidade sem idades em vertiginoso rodopio. Que mais desejar?

Porventura a “Valsa nº 2”, composta por Dmitri Shostakovich e dirigida por André Rieu, com imagens do filme “Anna Karenina” (2012).

Jacques Brel – La valse à mille temps (Clip Officiel). La valse à mille temps. 1959
Dmitri Shostakovich – Second Waltz, Op . 99a, pela Johann Strauss Orchestra, com direção de André Rieu. Edição: 2019. Imagens do filme “Anna Karenina”, 2012

A lupa e o telescópio. O tango das escalas

Giuseppe Arcimboldo. Vertumnus (1591) e Flora (c. 1589). Montagem.

“Lorsqu’on change d’échelle les phénomènes changent non seulement de grandeur mais aussi de nature / Quando se muda de escala os fenómenos mudam não só de dimensão mas também de natureza” (Olivier Dollfus, L’espace géographique, Paris, P.U.F., 1970, p. 22)

Importa cruzar escalas: observar de perto, para sentir, senão partilhar, o que as pessoas fazem; e com algum recuo, para saber, senão estranhar, o que se está a fazer.

Procissão, de Jean Villaret, e Amsterdam, de Jacques Brell, possuem a virtude de oscilar entre o pormenor e o conjunto, o ato e o resultado, os participantes e uma realidade coletiva, a procissão, os marinheiros e a cidade, Amsterdão. São, certamente, diferentes, mas a diferença não constitui, necessariamente, um problema.

Procissão (1956), poema de António Lopes Ribeiro, declamado por João Villaret. RTP, década de 50.
Jacques Brel. Amsterdam. 1964. ORTF, 10/11/1966.

Flor de cheiro

Jacques Brel

Há tufos de plantas aromáticas que dominam olfativamente o jardim. Existe um poder do cheiro. De quem as plantas aromáticas não gostam é das abelhas. Não têm o sentido das hierarquias. Pousam onde há pólen, independentemente do cheiro. Pousam sem vénias. Esta fidalguia do cheiro lembra algumas organizações e associações, órgãos da verdade, do sentimento, da reputação e da água benta. Críticos incriticáveis prenhes de direitos. São os anjos da modernidade. Inevitáveis, ronronam no regaço do Estado.

Passei a tarde a ouvir Jacques Brel. Admiro-o com prazer. O Tendências do Imaginário inclui sete canções de Jacques Brel. Acrescento três.

Jacques Brel. Le Plat Pays. C’est comme ça. 1962.
Jacquel Brel. La Chanson des Vieux Amants. Jacques Brel 67. 1967
Jacques Brel. Orly. Les Marquises. 1977.

À força de falar de amor, apaixonamo-nos

M.C. Escher. Bond of Union. 1956.

Uma versão antiga da “predição criadora”, de W.I. Thomas: “À força de falar de amor, apaixonamo-nos” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour, 1652-1653).

Sou um algoritmo básico: resumo-me a duas sub-rotinas com contador infinito: quando penso, desaguo no Blaise Pascal: no que respeita à música, no Jacques Brel. Se quero pensar, penso com eles; se quero sentir, sinto com eles. São as duas pontas de Ariana do meu labirinto identitário. O resto é variação. Dizem que os olhos são as janelas da alma. Quando ouço Jacques Brel, fecho os olhos para franquear a entrada a anjos e demónios.

M.C. Escher. Circle Limit IV (Heaven and Hell). 1960.

Jacques Brel canta, como ninguém, a miséria humana. Tão bem que o ouvimos com prazer. Gosto de La ville s’endormait. Ne me quitte pas é universal. Coloco as versões estúdio e ao vivo, que, no caso de Jacques Brel, não se substituem. Uma voz e uma performance.

Jacques Brel. La ville s’endormait. Les marquises. 1977.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. La valse à mille temps. 1959.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. Ao vivo na Radio France. 1966.

Condição de felicidade. O efeito de idade.

Hans Baldung. As Sete Idades da Mulher. Início do séc. XVI.

Que tenho contra os velhos? Nada. Dispenso, porém, pedir às crianças para ser adultas, aos adultos, crianças e aos jovens, velhos. Também prescindo pedir aos velhos para ser jovens. Existem ”idades da vida” (ver: https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). Nenhuma fase da vida tem o monopólio da importância ou da felicidade. Mas as “condições de felicidade” (Erving Goffman) são distintas.

Marca: Heineken. Título: Father & Son. Agência: Publicis (Itália). Direcção: Martin Werner. Itália, Fevereiro 2020.
Jacques Brel. Les Vieux. Les Bigotes. 1963. Ao vivo, Olympia, 1966.