Pernas cruzadas

Pasmei perante a escultura romana de uma jovem mulher sentada (imagem 1). Presumivelmente, uma cópia de um original grego do século IV a. D. Até as botas são um encanto. Tem as pernas cruzadas acima dos joelhos (para uma estátua, com as pernas cruzadas abaixo do joelho, ver imagem 2). Parece estar à espera. Do nosso olhar? Na minha ignorância, desconhecia este tipo de representação. Na realidade, existem outros exemplares. Ao olhar para a escultura, insinua-se uma sensação de equilíbrio tenso. O corpo apoia-se num segmento de reta que une o braço e a cadeira. Lembra o estilo clássico. O resto do corpo desdobra-se em pregas de emoção. A cabeça curvada desprende uma aura de melancolia. Não fosse pecado anacrónico, diria que lembra o estilo “barroco”. O equilíbrio tenso transforma-se em desequilíbrio ancorado.

Existem várias figuras gregas e romanas com uma mulher que cruza as pernas. Mas Penélope sobressai: “Penelope is presented as sitting, with her chest turned towards the observer, her legs crossed, and her chin or her cheek resting on one of her hands” (Capettini, Emilio, Charicleia the Bachante, in Emilio, Cueva, Edmund et alii, Re-Writing The Ancient Novel – Volume 1: Greek Novels,Groningen, Barkhis & Groningen University Library, 2018, pp. 195-220, p. 207). Calculei que as pernas cruzadas exprimissem resguardo e castidade, o que condiz com a resistência de Penélope aos pretendentes. Não foram necessárias muitas leituras para o comprovar. “The only iconographic element entirely peculiar of Penelope are the crossed legs, which indicate her emotional and sexual unavailiability” (Capettini, Emilio, Ibid, p. 207). A Penélope do Vaticano ergue-se como uma obra emblemática (Imagem 3)

« Dans les épigrammes funéraires grecques, qui reflètent les valeurs dominantes de la société grecque, les références implicites ou explicites à Pénélope sont extrêmement nombreuses : la majorité des défuntes sont présentées comme des épouses et mères modèles, et elles sont comparées à Pénélope en termes de sagesse, de retenue et de travail domestique » (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%A9lope).

Na arte funerária grega, Penélope é uma referência positiva.” A maioria das mulheres defuntas eram (…) comparadas a Penélope em termos de sabedoria, compostura e trabalho doméstico”. A escultura da jovem mulher sentada onde se inscreve?

Passados dois milénios, constata-se alguma continuidade na escultura de Penélope (imagem 5). É uma perdição observar a evolução dos significados de um gesto. Hoje, as pernas cruzadas falam outra língua. Um pouco mais de sedução e um pouco menos de contenção.
O violino, o génio e o virtuoso

Niccolò Paganini (1782-1840), o “violinista demoníaco”, compositor e intérprete, é considerado por muitos “o melhor violinista de todos os tempos”. Culmina uma tradição de séculos de violino italiano: Marini, Corelli, Vivaldi, Tartini… O russo Leonid Kogan (1924-1982) foi um dos melhores violinistas do século XX. Assistir, contanto em vídeo, a Leonid Kogan a interpretar Niccolò Paganini é um privilégio. Nel cor più non mi sento é uma composição de Paganini particularmente difícil de interpretar.
Albertino e Fernando
Virar costas a Castela

Virar costas à latinidade não traz bom vento. Insensatez de Estado, cenoura do povo e oportunismo do resto.
Conhece Angelo Branduardi? Não? E a Billie Eilish? A cereja no bolo do terceiro milénio é a avaliação assente na ignorância electronicamente ruidosa. O Angelo Branduardi é uma espécie de José Afonso da Itália. Ao prestar-lhe atenção, paramos, por um momento, de coçar o mainstream. Boiar na corrente é cómodo, mas nada pessoal. Sem cabeça, coração e estômago, com raízes gastas, sob uma tempestade de gadgets e emblemas, arriscamos o excesso semiótico e o distúrbio gastro-identitário.
Viramos costas à latinidade com o freio nos dentes. Afigura-se estúpido desvalorizar o que somos.
Água velada: o fascismo e a fonte

A Fonte dos Quatro Continentes (1751-1754), em Trieste, obra do escultor Giovanni Battista Mazzoleni, lembra a Fonte dos Quatro Rios (1648-1651), de Gian Lorenzo Bernini, na Praça Navona, em Roma. Tem um pormenor e uma história interessantes.
A escultura associada ao continente africano está com o rosto velado. Por se desconhecer, à época, a nascente do rio Nilo (apenas no século XIX se viria a descobrir a nascente do Nilo no lago Vitória). Sábia sabedoria! Quem desconhece a origem anda com o rosto tapado. Quando votamos também devíamos portar um véu espesso: sabemos, eventualmente, a origem, mas ignoramos o destino.

Com o tempo, a fonte foi votada ao abandono. Em 1925, o Conselho Comunal manifestou a intenção de a desmontar. O que virá a suceder em Setembro de 1938, “in occasione del Comizio che Benito Mussolini avrebbe condotto annunciando la promulgazione delle leggi razziali” (https://artplace.io/discover/2113/fontana+dei+quattro+continenti). Foi reconstruída em 1970 noutra posição. Regressou ao lugar de origem no ano 2000.
As pedras falam! A água canta.
A igualdade de género nos anúncios de automóveis

Um grupo de alunos do curso da licenciatura em Sociologia apresentou um trabalho dedicado à Desigualdade de Género na Publicidade Automóvel* (DGPA). Os protagonismos e os papéis de género mudaram nos anúncios de automóveis das últimas décadas? É um privilégio aprender com os alunos. Vou replicar estudo alargando-o a um conjunto de anúncios recentes da Fiat.
No anúncio “Dolce Vita” (5/7/2019), do Fiat 500, cabe ao homem conduzir. Mas, curiosamente, o homem quase não aparece. Os protagonistas, devidamente estetizados, são o carro e a mulher. O condutor, masculino, resume-se a um acessório residual.
No anúncio “Driven by dreams since 1899” (5/3/2019), do Fiat 500, a mulher é condutora, protagonista e utilizadora. Acompanha-a uma segunda mulher. Os homens aparecem por vias travessas: um como “sedutor não-verbal” e os outros dois como “emplastros”.
A intertextualidade reina na publicidade. Proponho um exercício. No anúncio Driven by dreams, temos os seguintes apontamentos:
- Relevância da música;
- A protagonista não para de “dançar”;
- Dois carros parados lado a lado num semáforo;
- Comunicação não-verbal entre os dois condutores, homem e mulher; um quase assédio.
- Aparição, do nada, de dois homens no banco de trás (Let Shaggy e Sting).
Observe-se, agora, o anúncio italiano Staying Alive (2008), da Kenwood:
Relevância da música;
A protagonista não para de “dançar”;
Dois carros parados lado a lado num semáforo;
Comunicação não-verbal entre os dois condutores, homem e mulher; um quase assédio.
Aparição, do nada, de um morto (vivo) no banco de trás (Let Shaggy e Sting).
Há coincidências! Certo é que o anúncio Driven by dreams, do Fiat 500, incorre em discriminação de género: valoriza a mulher em detrimento do homem. Mas não faltam formas de assegurar a igualdade de género na publicidade.
Uma forma, corrente, de respeitar a igualdade de género consiste em não incluir nem homens nem mulheres. O anúncio do Fiat Toro 2020 é um bom exemplo. Recorda o provérbio segundo o qual, para escândalo do Padre António Vieira, “os peixes grandes comem os pequenos”. Ressalvando a filosofia, nenhuma sombra de presença humana, masculina ou feminina.
Um modo de igualar homens e mulheres nos anúncios de automóveis consiste em compensar os símbolos e os desempenhos de género: agora conduz o homem, logo conduz a mulher, com protagonismos idênticos. É o caso do anúncio Quality Time, do Mercedes-Benz SL-Class.
Estas tentativas arriscam-se a conter falhas e vícios susceptíveis de a imparcialidade de género. Assim o entende o grupo de alunos:
“Neste vídeo publicitário, do automóvel de classe SL da marca Mercedes-Benz de 2017, tem duração de 1 minuto e 44 segundos e pode dividir-se em dois momentos, aquele que acontece de dia, até o sol se por, e aquele que é gravado de noite. No primeiro momento, o protagonista e única pessoa presente em cena é um homem e o automóvel seleccionado é de cor azul. O homem entra no automóvel e inicia uma longa viagem, por extensas estradas que passam por zonas naturais, onde não há casas, ou seja, zonas não urbanas, e que presenteiam a quem vê o vídeo paisagens encantadoras. Esta cena termina com o amanhecer, o homem está dentro do automóvel que se encontra parado, num lugar onde é possível observar o pôr-do-sol.
O segundo momento é protagonizado por uma mulher, que também é única a viajar no automóvel que desta vez é da cor branca. Este momento ocorre à noite e, ao contrário da viagem protagonizada pelo homem, esta viagem acontece numa zona citadina. São captadas algumas cenas com o carro em movimento, até que este chega a uma zona alta e estaciona para apreciar a paisagem nocturna da cidade.
Todo o momento protagonizado pelo homem consome 1 minuto e 11 segundos dos totais 1 minuto e 44 segundos do vídeo. O momento protagonizado pela mulher dura somente 33 segundos. Esta é talvez a principal diferença entre as cenas em que as personagens principais são, respectivamente, um homem e uma mulher. Outra diferença que poder ser realçada é a troca de cores do veículo. Quando é o homem a conduzir, o automóvel é azul. Quando é a mulher a conduzir, este é branco. Para além disto, as cenas onde está inserido o homem foram gravadas de dia, num local natural, sem grande intervenção do homem, tirando a própria estrada onde este viaja, e as cenas onde a mulher é a condutora foram gravadas numa cidade, durante a noite” (DGPA, págs. 26-27).
Mas é concebível um anúncio aproximar-se milimetricamente da igualdade de género, mediante a aposta na simetria rigorosa dos papéis e dos desempenhos masculinos e femininos. É o caso do anúncio Instinct de Séduction, do Renault Clio.
Recorro, novamente, à generosidade do comentário dos alunos:
“Nesta publicidade, o slogan é perfeitamente capaz de traduzir todo o conteúdo que nela está implícito (“Instinct de séduction”- Instinto de sedução). São utilizados dois automóveis iguais, mas de cores diferentes, apelando à participação do género feminino e masculino. A mulher conduz o automóvel vermelho e o homem conduz o automóvel branco. Durante a campanha, é possível verificar que o objectivo da mesma é criar um charme e uma conexão entre os dois géneros, é importante criar um elo de ligação através dos olhares que trocam. No momento em que os automóveis se cruzam, o nível de aceleração dos automóveis acompanham-se não existindo relações de superioridade. Assim, homem e mulher estão ao mesmo nível, possuindo ambos a capacidade de fazer jus a um automóvel moderno, actual e único. A imagem feminina em momento algum se mostra receosa ou com pouca confiança. A assertividade e a certeza do que está a fazer não abrem margem para duvidar das suas habilidades” (DGPA, pág. 19).
Em suma, um pequeno sobressalto mental: quais destes seis anúncios nos incentivam a equacionar as relações de género na vida quotidiana?
*Cristiana Maria Faria Leitão; Daniela Filipa Borges Oliveira; Duarte Machado Gonçalves Abreu; Luísa Maria Cunha Ribeiro; Maria Carolina Silva Carvalho, Desigualdade de Género na Publicidade Automóvel, Relatório da Unidade Curricular de Projecto e Prática em Sociologia. Tutor: Joel Felizes. Licenciatura em Sociologia. Universidade do Minho. Janeiro 2019.
Sem sombras

Há mais de uma centena de músicos cegos célebres (ver um inventário em https://en.wikipedia.org/wiki/Category:Blind_musicians). Ray Charles, Stevie Wonder, José Feliciano e Andrea Bocelli constituem alguns exemplos. É admirável, mas sem pasmar. Como diria Vilfredo Pareto, o cego ouve e fala. Mais espantoso é um surdo compor uma sinfonia. Ou talvez não! Cego mesmo cego é o “que não vê com o coração”.

Cego não é invisual, invisual é aquilo que não se vê; invisual não é quem não vê. Assim como um cego não é um invisual, um velho não é um idoso, um sénior ou um terceiro idoso. Um velho é um velho! Os trapos são trapos! Irritam-me os reformadores de palavras empenhados em enfeitar artificialmente a língua.
Deu-me para colocar duas músicas com intérpretes cegos. De preferência, em dueto, para observar a interacção no palco. Optei por José Feliciano e Andrea Bocelli. José Feliciano fez, em 1968, um cover da canção Light my fire, dos Doors. Canta com Minnie Riperton um novo cover (1979). Pares não faltam a Andrea Bocelli. Hesitei entre a canção Time to say goodbye, com Sarah Brightman, e Dare to live, com Laura Pausini. Seja Laura Pausini.
Andrea Bocelli & Laura Pausini. Dare to live. Ao vivo no Teatro Del Silenzio. Itália, 2007.
Para aceder ao vídeo com o José Feliciano e a Minnie Riperton, carregar na imagem seguinte ou neste link: https://www.youtube.com/watch?v=RMttEWdVj7k.

Sem palavras

O anúncio italiano Every people matters, da ONG Emergency, é uma história sem palavras fácil de entender. Um refugiado vende rosas. Ninguém compra. À porta de um restaurante, inteira-se que um cliente é vítima de um ataque cardíaco. Consegue socorrê-lo. Será médico? É um ser à parte, ora desvalorizado, ora ignorado. Não há migrações sem consequências. É possível aproveitá-las, mas é mais fácil deixá-las degradar.
Dizem que o Natal é todos os dias. Nunca acaba. Não há festa tão elástica. Abre semanas antes com a incontinência das compras, acaba semanas depois sem dinheiro para os saldos. Prefiro o São João. Seis meses antes do Natal, começa e acaba de um dia para o outro, sem tempo para dívidas. Comparadas com a lareira do Natal, as fogueiras de São João ardem mais em menos tempo.
A imaginação ao poder

Encontrar conteúdos italianos nem sempre é fácil. Quando se sabe o que procura, a Internet transforma-se, às vezes, numa mulher caprichosa. Conheço o anúncio Vineyard, da Sky. Não o encontrei no YouTube. Tropecei com ele numa página remota. Com a gravura (Figura 1) de uma mulher a brotar de uma flor, o resultado foi semelhante. Tenho a imagem nos labirintos do computador, dar com ela era tarefa ingrata. A busca na Internet foi precisa: encontrei três entradas, todas do Tendências do Imaginário.

O anúncio Vineyard, da Sky, é um prodígio. Os heróis do futebol nascem numa vinha algures em Itália. São vindimados, transportados, seleccionados, prensados e armazenados. Obviamente, com un bel pezzo di ragazza a acompanhar o processo. A ideia de que os futebolistas nascem de plantas (videiras) é espantosa mas não é original. Os livros de horas medievais e os grotescos renascentistas apresentam seres humanos que irrompem de ramos, flores e frutos (ver figuras 1 e 2).
Para aceder ao anúncio, carregar na imagem seguinte ou no link https://www.behance.net/gallery/17620551/SKY-Vineyard-(TVC)



