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Feliz Natal!

Recebo poucos anúncios italianos. Não há como procurar. Encontram-se relíquias como este anúncio ao queijo “parmigiano”. Uma dança da alegria, com música original. Aproveito para desejar um feliz e generoso Natal.

Marca: Parmigiano Reggiano. Agência: Max International. Agência de produção: DIAVIVA. Direcção: Sebastian Grousset. Itália.

Espelhos deformadores

Flat distorting mirrors

Atardo-me por terras de Islândia. Emiliana Torrini é islandesa. Tornou-se conhecida pela sua participação no Senhor dos Anéis (Gollum’s Song; As Duas Torres, 2002) e pela canção Jungle Drum (Me And Armini, 2008). Gosto do álbum Love In The Time Of Science (1999), especialmente da canção Baby Blue. Uma canção bem cantada encanta a dobrar.
O pai de Emiliana Torrini é italiano. Tenho um apreço enorme pela Itália. O que é um desconsolo. Tenho várias portas abertas para o mundo e a Itália quase nunca aparece. Aliás, a Espanha, a Grécia, Portugal e, em menor grau, a França parece que deram sumiço. Cinco países com um lastro histórico e cultural ímpar, que num par de décadas caíram do sétimo andar até às catacumbas. Não acredito que a produção cultural tenha entrado em colapso, mesmo com a “crise do petróleo” e as “novas tecnologias”. Na verdade, o mundo é uma feira popular com espelhos deformadores. E a Internet é uma enorme galeria de espelhos. Uma parte vale pelo todo e as outras partes carecem de uma lupa. O nosso mundo pode ser global, líquido, pós-moderno, pós-materialista, pós-humano, pós-urbano, pós-industrial, pós-colonial, pós-pipoca, não deixa de ser, como no romance de Camilo José Cela (A Colmeia, 1951), uma colmeia com vários enxames num cortiço político-financeiro. Talvez as abelhas humanas sejam menos propensas ao equilíbrio do aquilo que Bernard de Mandeville vaticinava (Fábula das Abelhas, 1705). Mas, sublinhe-se, todos contribuimos para as hegemonias culturais. Não fossem hegemonias…

Emiliana Torrini. Baby Blue. Love In The Time Of Science. 1999.

Miserere.

Hoje, fui ao Mosteiro de Tibães. Vi cogumelos brancos, amarelos, castanhos e vermelhos com pintas brancas. Não é que os cogumelos cantam! Hoje, voltei do Mosteiro de Tibães com os cogumelos nos olhos e o Miserere de Allegri nos ouvidos.

Cogumelos no Mosteiro de Tibães. 2018.

Gregorio Allegri. Miserere. 1638. Interpretação: The Choir of Claire College, Cambridge, Timothy Brown. 1995.

RespirAr-te

Respirare_(Subsonica)

Acabei de dar uma aula sobre a relação entre o maneirismo e o surrealismo. Chegado a casa, vejo, como costume, uma selecção de vídeos “frescos”. Deparo-me com o videoclip Respirare, do grupo italiano Subsonica. Não podia vir mais a propósito esta agradável surpresa. Respirare é um vídeo marcado pela criatividade e pela intertextualidade. Convoca várias obras de arte, mormente surrealistas. O mundo gira, naturalmente, mas qual é o eixo?

Grupo: Subsonica. Título: Respirare. Direcção: Donato Sasone. Director de fotografia: Davide De Martis “DeFuntis”. Itália, Novembro 2018.

Apagar o inferno

Warframe

Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda da estética e do imaginário contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.

We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.

Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).

Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.

Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.

Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.

Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.

Ler também cansa

Ennio Morricone
Ennio Morricone

Ler, ler, ler… Não o que apetece, mas o que se impõe. Prefiro ouvir, por exemplo, Ennio Morricone, uma arca sem fundo, onde se encontra, normalmente, a emoção que se procura. Fez 88 anos. Em 2016, ganhou o Óscar pela banda sonora do filme Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que inclui a música Ester. Ennio Morricone dirige, em 2007, a música Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, na praça de São Marcos, em Veneza. Um espectáculo como só os italianos! O diálogo entre os instrumentos de sopro é simples mas sublime.

Ennio Morricone . Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo. Concerto em Veneza. 10.11.2007.

Ennio Morricone. Ester – La Piovra 4 / Parte 4. Série de TV italiana, transmitida entre 1984 e 2001. [Restaurado em 11.07.2021]

Transparências

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Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A brincadeira não tem idade. Apetece uma bricolagem. Um videozinho. Ando com duas músicas do Bach no ouvido. Gostava de encontrar imagens para as acompanhar. Acudiu-me substituir a banda sonora de anúncios em slow motion. Fantásticos! Não ganhavam nada com a música de Bach, nem esta com os anúncios. Uma dupla estragação. Entretanto, ocorreram-me as imagens das esculturas veladas de Antonio Corradini (1688-1752) e de Giuseppe Sanmartino (1720-1793). O último capítulo do livro A morte na Arte é sobre as esculturas veladas. Comecei há quatro meses e já escrevi 20 linhas! Mas as músicas de Bach, versão piano, não batiam certo com as imagens, demasiado sedosas e pungentes para as teclas de um minueto. Acabei por optar pelo que não queria: uma das obras mais célebres de Bach: a Ária na corda sol. As voltas que uma bricolagem não dá!

Segue o videozinho, parco em comentários, mais as duas músicas de Bach.

Transparências. Esculturas  Veladas. Albertino Gonçalves, 2018.

J. S. Bach. Jesu, joy of man’s desiring.

J. S. Bach. Anna Magdalena Notenbuch: Minuet in G major, BWV Anh 114.

O superpoder do homem banal

 

Gigliola

Gigliola Cinquetti

Os artigos anteriores pecam por excesso de pretensão intelectualóide. Costuma curar-se com uma pitada de humor, se possível, brejeiro, acompanhada por um dedo de música ligeira. É um excelente oxigenante cerebral.

O anúncio Power of the Crunch, da Doritos, convoca a magia e o superpoder. Como a poção mágica do Asterix ou os espinafres do Popeye. Uma dentada num dorito e o maravilhoso acontece. Uma “mulher objeto” fica toda despida, excepto a lingerie; a caixa do multibanco tem uma disenteria de dinheiro; o polícia fica reduzido a um macaco. O que passa pela cabeça de um homem quando come um dorito? O mesmo de sempre: sexo, dinheiro e poder! Apenas falta a desmancha-prazeres do costume: a morte num autocarro. Mas, para uma vida de prazer, a morte é pequeno estorvo.

Marca: Doritos. Título: Power of the crunch. Direcção: Eric Heimbold. Estados Unidos, Janeiro 2009.

“Sexo, dinheiro e poder”. Não resisto a recordar a canção espanhola “Salud, dinero y amor”. A saúde, a padroeira do século, no lugar do poder! A versão original data de 1967 e é interpretada por Cristina y los Stop (https://www.youtube.com/watch?v=q6VapvI_uv0). Opto pela interpretação de Gigliola Cinquetti (1968), tão fresca e tão bonita! Não é a primeira vez que coloco uma canção de Gigliola Cinquetti; aproveito para acrescentar a canção Dio come ti amo, de 1966.

Gigliola Cinquetti y El Trío Los Panchos. Salud, Dinero y Amor. 1968.

Gigliola Cinquetti. Dio, Come Ti Amo. Filme Dio, Come Ti Amo. 1966.

Opera Prima

Claudio Monteverdi. L'Orfeo. Folheto. 1609.

Claudio Monteverdi. L’Orfeo. Folheto. 1609.

A alegoria, a fábula e o virtuosismo pautam a música barroca. La Poule (1728), de Jean-Philippe Rameau e Le Coucou (1735), de Louis-Claude Daquin são alegorias transbordantes de virtuosismo para divertimento palaciano (ouvir em Com um burro às costas: música com humor). Boa parte da música barroca foi composta para patronos (reis, nobres, clérigos e burgueses empregadores”). Assim acontece com L’ Orfeo (1607), de Claudio Monteverdi, obra que, segundo os entendidos, inaugurou o género “ópera”. Monteverdi chamou-lhe:

“favola in musica, isto é, uma história fantasiosa (afinal, estamos a lidar com o mito de Orfeu) envolvida em música. Ela estreou a 24 de fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, numa performance privada para o duque Vincenzo Gonzaga, empregador de Monteverdi, acontecendo a estreia pública dias depois” (Bernardo Mariano, O Orfeo de Monteverdi, a ópera que fundou a ópera, hoje no CCB, Diário de Notícias, 16 de Setembro de 2017).

Para uma abordagem original do mundo da ópera, recomendo a obra de Philippe-Joseph Salazar: Idéologies de l’opéra, Paris, Presses Universitaires de France, 1980).

Segue um excerto da ópera L’Orfeo, sob a direcção de Jordi Savall.

Claudio Monteverdi. L’ Orfeo. La Capella Reial de Catalunya. Direcção: Jordi Savall. Gran Teatre del Liceu Barcelona. Excerto: abertura.

Uma história batida

Wind bee

O anúncio The Bee, da Wind Mobile, conta uma história batida: uma criança socorre um animal, afeiçoam-se, mas o animal acaba por libertado para junto dos seus. Neste caso, a escolha do animal faz diferença. A abelha é caracterizada por um processo de comunicação particularmente desenvolvido: chegadas à colmeia são capazes de transmitir às outras, com exactidão, o local onde existe comida. Muito aquém, porém, da linguagem humana. Emil Benveniste (1952, “Communication animale et langage humain”, in Problèmes de linguistique générale T1, Paris, Gallimard) conclui que a comunicação das abelhas, embora notável, está longe das potencialidades da linguagem humana. Falta, por exemplo, a “dupla articulação” (Martinet, André, 1965. Linguistique synchronique, Paris, PUF). Moral da história: o discurso académico nem sempre ajuda a comunicação.

Marca: Wind Mobile. Título: The Bee. Agência: Ogilvy & Mather Milan. Direcção: Giuseppe Capotondi. Itália, Setembro 2017.