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A aranha e a mosca

MM-ART. La mouche

MM-ART

Fala-se pouco das sociedades secretas, mas existem. Com proveniências e poderes diversos, as sociedades secretas conjugam efeito e proveito. Garantes da desigualdade, os seus membros dispõem de recursos que os outros concidadãos nem sonham. São redes de dependência pessoal seletivamente performativas, mais invisíveis do que as teias de aranha: “um certo modo de processamento da desigualdade” (Balandier, Georges, “Les relations de dépendance personnelle”, Cahiers d’Études Africaines, Année 1969, 35, pp. 345-349). Dan Brown dedicou-lhes vários livros. Por seu turno, a McDonnells dedica-lhes um anúncio: Chippus Currius. Entretanto, enredamo-nos como moscas tontas.

Marca: McDonnells. Título: Chippus Currius. Agência: Boys + Girls. Direcção: Chris Cottam. Irlanda, Setembro 2018.

O Tendências do Imaginário não tem nenhuma canção dos Les Compagnons de la Chanson. Uma falha.Ainda se vai a tempo. La Mouche não é um dos seus maiores sucessos, mas tem a virtude de falar, com bom humor, da nossa relação com as moscas.

Les Compagnons de la Chanson. La Mouche. Live à l’Olympia. 1983.

 

Apolo e Dionísia

monica batendo cebolinha

Turma da Mónica. Mónica bate em Cebolinha.

Videojogos, anime, bullying e artes marciais. Acresce a inversão dos papéis de género: a irmã mais nova luta pelo irmão mais velho, todo ele bondade e virtude. Estes temas são caros às novas gerações. Confluem alegoricamente num carro not more nice, o “juvenil” Nissan Micra.

O anúncio da Nissan lembra a antropóloga Ruth Benedict, que, na esteira de Friedrich Nietzsche, opõe culturas dionisíacas, mobilizadas para a guerra, e apolíneas, apostadas na paz (Padrões de Cultura, 1934). Num estudo dedicado à cultura japonesa, por encomenda do governo norte-americano durante a Segunda Grande Guerra Mundial (O Crisântemo e a Espada, 1946), Ruth Benedict retoma, de algum modo, a mesma tipologia: a sociedade japonesa é percorrida por dois modelos culturais opostos, simbolizados pelo crisântemo e pela espada.

Não será um exagero convocar Friedrich Nietzsche e Ruth Benedict a pretexto da publicidade? O anúncio ilustra a relação entre o dionisíaco e o apolíneo, num contexto de inversão das relações tradicionais de género, designadamente em termos de violência.

Marca: Nissan. Título: No more nice car. Agência: In the Compagny of Huskies (Dublin). Direcção: Dermote Malone. Irlanda, Abril 2017.

Elogio da lentidão

caracois-brincam-as-escondidas

Caracóis brincam às escondidas.

Sou apóstolo da lentidão. Nada como pescar memórias num lago pasmado. Mas há quem sulque as águas a remar sem barco rumo ao futuro. Com tanta velocidade que as memórias ficam para trás.

Indiferença, preguiça e entorpecimento, eis a trilogia da lentidão. Tem discípulos na música. Por exemplo, os Deep Purple (Lazy, 1972) ou Georges Moustaki (Le Droit à La Paresse, 1974). Escolho, porém, o irlandês Bob Geldof, promotor dos Band Aid, do Live Aid e do Live 8. Assumiu o papel de Pink, na canção Confortably Numb, no filme The Wall, dos Pink Floyd. Seguem três vídeos musicais: dois a solo (The Great Song of Indifference e I don’t like Mondays) e um terceiro com David Gilmour (Confortably Numb, ao vivo em 2002).

Bob Geldof.The Great Song of Indifference. The Vegetarians of Love. 1990.

Bob Geldof, com os Bootown Rats. I don’t like Mondays. The Fine Art of Surfing. 1979

David Gilmour feat Bob Geldof. Confortably Numb.The Meltdown Concert. 2002.

Elogio da lentidão

Bulmers

Não apresses o momento! As coisas acontecem quando devem acontecer. Devagar. A espera tece o tempo e enreda o futuro. O tempo que dança. Pensa na tartaruga, no nascer do dia, no jogo de xadrez, na poeira do deserto… Quanto tempo precisa a maçã para ser cidra? O que for preciso. O tempo certo. “Not a Moment Too Soon”, da Bulmers, é um anúncio notável, esteticamente primoroso, com imagens em belos tons de cidra, bem compassadas pela música. Tempo que se vive, tempo que se bebe.

Marca: Bulmers. Título: Not a Moment Too Soon. Agência: Publicis, Dublin. Direcção: Aoife McArdle. Irlanda, Abril 2015.

O êxtase da batata frita

Hunky DorisA erótica dos alimentos vinga na publicidade. Por exemplo, neste Bath, da Hunky Dorys, acabado de sair. No tempo de Marcel Proust, uma simples madalena inspirava uma epifania. Cem anos depois, uma simples batata frita desencadeia um orgasmo. Apesar da exuberância sensual feminina envolvente, o cúmulo do prazer é o êxtase propiciado por uma batata frita.

Marca: Hunky Dorys. Título: Bath. Agência: McCannBlue (Dublin). Direção: Ritchie Smyth. Irlanda, Setembro 2014.

 

O preto não é uma cor, é uma atitude!

Walter Crane. Neptune's Horses (detalhe). 1882.

Walter Crane. Neptune’s Horses (detalhe). 1882.

Saiu um novo anúncio da Guinness: Made of Black (Gana). Um anúncio da Guinness costuma ser um acontecimento no mundo da publicidade. Por tradição, constam entre os melhores dos melhores. Recordo Sapeurs (2014), World (2009), Tipping Point (2007), Noitulove (2005), Lava (2002) e Surfer (1999). Este último somou prémios e foi considerado, em 2002, o melhor anúncio de sempre pelo Channel 4 e pelo Sunday Times. Os rankings valem o que valem, mas não deixam de valer o que valem.

Marca: Guinness. Título: Made of Black. Agência: Abbot Mead Vickers / BBDO, London. Direção: Sam Brown. Gana, Agosto 2014.

Bon Boullogne dit l'âinée. Neptune amenant Amphitrite dans un char marin. Início séc. XVIII

Bon Boullogne dit l’âinée. Neptune amenant Amphitrite dans un char marin. Início séc. XVIII

A ideia da potência das ondas expressa por cavalos brancos não é nova: é evidente no quadro Neptune’s Horses, de Walter Crane (1892), que inspirou, assumidamente, o anúncio. Trata-se de uma entre muitas pinturas com o carro de cavalos de Neptuno. Reencontra-se esta aproximação entre cavalos e água na cena do rio do filme O Senhor dos Anéis – Irmandade do Anel (2001), com cavalos brancos a emergir da torrente mágica. O diálogo, ou duelo, entre cavalos e surfistas confere um carácter épico e místico ao anúncio.

Marca: Guinness. Título: Surfer. Agência: Abbot Mead Vickers / BBDO, London. Direção: Jonathan Glazer. UK, Março 1999.

Made of Black opta por uma sucessão de imagens muito breves, algumas em slow motion. É um formato frequente. Mas, neste anúncio, cada sequência namora a arte, numa combinação exímia de imagem, som e voz. Os últimos segundos convocam o tópico, que me é caro, da desgravitação. Sincronizar uma dezena de corpos suspensos no ar é obra notável. A Guinness é uma marca de cerveja preta irlandesa. Sofre com o preconceito de que a cerveja preta não é nem tão leve, nem tão versátil como a cerveja “loira”. O anúncio aponta para a seguinte máxima: “o preto não é uma cor, é uma atitude”. A Guinness tem, neste domínio, algum caminho a percorrer. Mas já começou.

Senhor dos Anéis – A Irmandade do Anel. 2001. Cena do rio.

À Irlandesa

Este anúncio é um caso à parte: 150 segundos de extrema qualidade. Sente-se a Irlanda, húmida, verde e cinzenta. Respira-se cultura. Amizade e separação, fé e morte, audácia e melancolia. A noiva, o muro, o whiskey e a passagem… A Parting Glass, canção tradicional, dá o tom, o compasso, a voz e a letra ao filme. Quem fez este anúncio, irlandês ou não, apaixonou-se por ele. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.

Tullamore Dew Irish Whiskey

Marca: Tullamore Dew Irish Whiskey. Título: The Other Wall. Agência: Opperman Weiss. Direcção: Laurence Dunmore. Irlanda, 2013.

Voo pesado

MeteorO voo e a leveza parecem estar de asas dadas. Mas isso nem sempre acontece. Uma borboleta e um balão são leves. Um míssil e um avião, nem por isso. Para além da aerodinâmica, precisam de motores. No artigo anterior, duas empresas de telecomunicações recorrem a balões para propiciar uma sensação de leveza.  A Meteor, uma empresa de telecomunicações irlandesa, convoca a figura de Pégaso para sugerir, em vez da leveza, a ideia de velocidade, associada à potência. De metamorfose em metamorfoses, acabamos por nos deparar com um Pégaso biomecanóide, propulsão nas patas e asas nos flancos.

Marca: Meteor. Título: Meteor Danger Zone. Agência: Rothco, Dublin. Direção: Chris Balmond. Irlanda, Outubro 2013.

Ninguenização

Que as palavras são performativas (J.L. Austin) e alimentam predições criadoras (W.I. Thomas), já se sabe. Que aqueles que nelas acreditam são os mais vulneráveis, também.  É o que recorda este anúncio da campanha “Children believe what they are told”, promovida pela ISPCC, instituição irlandesa responsável por uma Linha Criança.

Anunciante: ISPCC. Título: Stupid little bitch. Agência: Ogilvy. Direção: Kieron J. Walsh. Irlanda, Setembro 2012.

CEO Ashley Balbirnie; “Emotional abuse undermines confidence and self-worth and can have a detrimental impact on a child. To highlight this, the ISPCC have launched the ‘Children believe what they are told’ campaign. Following on from our Anti-Bullying Week, and the reaction to this from schools, parents and young people nationwide, we know that words can leave deep scars that can have a lasting negative impact on children’s self –esteem.”

As part of our campaign, with the help of our great supporters Ogilvy, we have produced an online video and TV ad which stresses the serious issue of emotional abuse suffered by children in Ireland every single day, whether it is in their family home or the school yard. The girl in our video encompasses the many stories we hear from children every day, children who experience feelings of worthlessness, who feel unloved and feel they do not deserve to be happy. The print ads reflect the words used towards children. Words that are harmful to self-esteem and feelings of self-worth, words that should never be spoken to any child.” (http://www.mediacontact.ie/mediahq/ispcc/32486/childline-launches-its-children-believe-what-they-are-told-campaign.html).