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Chuva, ruído e beleza

A chuva e as obras na casa ao lado não dão descanso. Marteladas, furos, charcos e pingos… Nem sequer a boa música os faz esquecer. Já encomendei uns headphones com cancelamento de ruído. Vale, entretanto, a beleza. Por sinal, com lentes novas!

Gosto bstante da cabtora irlandesa Imelda May. De tudo: rosto, penteado, corpo, apresentação, estilo, música, voz e interpretação.

Imelda May – When it’s my time. Live In Session.© 2017
Imelda May – How bad can be a girl. Life Love Flesh Blood, 2017
Imelda May & The Dubliners – I Wish I Had Someone To Love Me. Live. Colocado em 23212.2016
Imelda May – Wicked Game (cover). Tribal, 2014. Ao vivo. Sala “Joy Eslava”. Radio Gladys Palmera. 2015
Levellers (feat Imelda May) – Beautiful Day. Official Music Video. 2014

Extravagância

Está a chegar a hora de deitar. O álbum O’Stravaganza – Vivaldi in Ireland é um bom preâmbulo. Publicado pelo músico francês Hughes de Courson, em 2001, é todo ele uma pérola. Segue a canção “Berceuse de Grinne pour Diamait”.

Hughes de Courson – Berceuse de Gráinne pour Diarmait (After Vivaldi’s Nisi Dominus, RV 608). O’Stravaganza – Vivaldi in Ireland, 2001

Música refrescante

Em Melgaço, estava um calor insuportável. No regresso a Braga, ainda foi pior: vinte minutos a torrar para percorrer 1 km. Em casa, apeteceu arejar. As janelas não bastavam. Recostei-me, imaginei-me na Irlanda enquanto ouvia as bandas sonoras de três filmes dos anos oitenta, todas compostas por Mark Knopfler. Segue uma amostra.

Mark Knopfler – Going Home. The Local Hero, 1983. Ao vivo na BBC, em abril de 1996
Mark Knopfler – The Long Road. Cal, 1985
Mark Knopfler – Once Upon A Time / Storybook Love. The Princess Bride, 1987

Incomparável. Sinéad O’Connor

Tenho o hábito, por vezes disfórico, de acompanhar a carreira dos artistas que, a um dado momento, me surpreenderam e marcaram. Sinéad O’Connor compunha músicas e tinha uma voz de sonho; contudo, desde a infância, a sua vida, instável e atribulada, frisou frequentemente o pesadelo. Foi encontrada morta em 26 de julho de 2023 na sua residência em Londres, com 56 anos de idade, devido a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica).

Seguem cinco canções da Sinéad: Drink Before the War (1987); Feel So Different (1990); The Last Day of Our Acquaintance (1990); Something Beautiful (2007); e, por último, Nothing Compares 2 You (1990).

Sinéad O’Connor – Drink Before the War. The Lion and the Cobra. 1987
Sinéad O’Connor – Feel So Different. I Do Not Want What I Haven’t Got. 1990
Sinéad O’Connor – The Last Day Of Our Acquaintance. I Do Not Want What I Haven’t Got. 1990. Live in Rotterdam. 1990
Sinead O’Connor – Something Beautiful. Theology. 2007
Sinéad O’Connor – Nothing Compares 2 U (Live). I Do Not Want What I Haven’t Got. 1990. Live in Rotterdam. 1990

Canto profundo

Uma versão, com voz profunda, ventríloqua, da canção If I Had a Heart, de Fever Ray, pelo irlandês Colm R. McGuinness. Estranha! Lembra o heavy metal mongol (ver https://tendimag.com/2020/04/10/heavy-metal-mongol/). Acrescento a canção original.

Fernando e Albertino

If I Had A Heart (Norse Version) – Fever Ray/Vikings. Cover by Colm R. McGuinness. 2021.
Vikings Theme song – If I had a heart by Fever Ray. 2009.

Na tua cabeça

Samsung Galaxy. Alpaca. 2019.

Quand on est couronné,
On a toujours le nez bien fait ( Charles Perrault, Les souhaits ridicules. Contes de ma Mère l’Oye (1697).

A Samsung (Galaxy) aprecia pescoços altos. Gosta, também, de penas e de pelos fofos. No anúncio O Voo do Avestruz, de 2017, um avestruz consegue voar graças à realidade aumentada (ver https://tendimag.com/2017/04/04/o-voo-do-avestruz/ ). No anúncio recente Alpaca, as alpacas, tosquiadas, estilizadas e coloridas pela mão da moda, conquistam as passerelles e andam nas cabeças do mundo.

El encuentro casual de una mujer con las hermosas (y ciertamente tontas) criaturas durante un viaje a Sudamérica le inspira una decisión precipitada. De esta manera se empieza a producir una extraña combinación de moda, arte y cría de animales, dando como resultado un fenómeno global.
Para permitir su visión creativa, esta artista emprendedora utiliza todas las funciones convenientes de su teléfono y su stylus: tomar fotos, grabar videos, dibujar maquetas y crear un plan de negocios (Adlatina, https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-bbh-nueva-york-y-samsung-pasaron-de-los-avestruces-a-las-alpacas-sudamericanas).

Voar é a nossa ambição; uma coroa na cabeça, a nossa perdição. Dois anúncios da Samsung, dois delírios, duas palmas de ouro do Tendências do Imaginário. Um bom pretexto para recordar a música Zombie, dos Cranberries. Because it’s in your head.

Samsung – Galaxy note 10. Título: Alpaca. Agência: BBH New York. Nicolai Fuglsig. Estados Unidos, Setembro 2019.
Music video by The Cranberries performing Zombie. No Need to Argue. 1994.

A aranha e a mosca

MM-ART. La mouche

MM-ART

Fala-se pouco das sociedades secretas, mas existem. Com proveniências e poderes diversos, as sociedades secretas conjugam efeito e proveito. Garantes da desigualdade, os seus membros dispõem de recursos que os outros concidadãos nem sonham. São redes de dependência pessoal seletivamente performativas, mais invisíveis do que as teias de aranha: “um certo modo de processamento da desigualdade” (Balandier, Georges, “Les relations de dépendance personnelle”, Cahiers d’Études Africaines, Année 1969, 35, pp. 345-349). Dan Brown dedicou-lhes vários livros. Por seu turno, a McDonnells dedica-lhes um anúncio: Chippus Currius. Entretanto, enredamo-nos como moscas tontas.

Marca: McDonnells. Título: Chippus Currius. Agência: Boys + Girls. Direcção: Chris Cottam. Irlanda, Setembro 2018.

O Tendências do Imaginário não tem nenhuma canção dos Les Compagnons de la Chanson. Uma falha.Ainda se vai a tempo. La Mouche não é um dos seus maiores sucessos, mas tem a virtude de falar, com bom humor, da nossa relação com as moscas.

Les Compagnons de la Chanson. La Mouche. Live à l’Olympia. 1983.

 

Apolo e Dionísia

monica batendo cebolinha

Turma da Mónica. Mónica bate em Cebolinha.

Videojogos, anime, bullying e artes marciais. Acresce a inversão dos papéis de género: a irmã mais nova luta pelo irmão mais velho, todo ele bondade e virtude. Estes temas são caros às novas gerações. Confluem alegoricamente num carro not more nice, o “juvenil” Nissan Micra.

O anúncio da Nissan lembra a antropóloga Ruth Benedict, que, na esteira de Friedrich Nietzsche, opõe culturas dionisíacas, mobilizadas para a guerra, e apolíneas, apostadas na paz (Padrões de Cultura, 1934). Num estudo dedicado à cultura japonesa, por encomenda do governo norte-americano durante a Segunda Grande Guerra Mundial (O Crisântemo e a Espada, 1946), Ruth Benedict retoma, de algum modo, a mesma tipologia: a sociedade japonesa é percorrida por dois modelos culturais opostos, simbolizados pelo crisântemo e pela espada.

Não será um exagero convocar Friedrich Nietzsche e Ruth Benedict a pretexto da publicidade? O anúncio ilustra a relação entre o dionisíaco e o apolíneo, num contexto de inversão das relações tradicionais de género, designadamente em termos de violência.

Marca: Nissan. Título: No more nice car. Agência: In the Compagny of Huskies (Dublin). Direcção: Dermote Malone. Irlanda, Abril 2017.

Elogio da lentidão

caracois-brincam-as-escondidas

Caracóis brincam às escondidas.

Sou apóstolo da lentidão. Nada como pescar memórias num lago pasmado. Mas há quem sulque as águas a remar sem barco rumo ao futuro. Com tanta velocidade que as memórias ficam para trás.

Indiferença, preguiça e entorpecimento, eis a trilogia da lentidão. Tem discípulos na música. Por exemplo, os Deep Purple (Lazy, 1972) ou Georges Moustaki (Le Droit à La Paresse, 1974). Escolho, porém, o irlandês Bob Geldof, promotor dos Band Aid, do Live Aid e do Live 8. Assumiu o papel de Pink, na canção Confortably Numb, no filme The Wall, dos Pink Floyd. Seguem três vídeos musicais: dois a solo (The Great Song of Indifference e I don’t like Mondays) e um terceiro com David Gilmour (Confortably Numb, ao vivo em 2002).

Bob Geldof.The Great Song of Indifference. The Vegetarians of Love. 1990.

Bob Geldof, com os Bootown Rats. I don’t like Mondays. The Fine Art of Surfing. 1979

David Gilmour feat Bob Geldof. Confortably Numb.The Meltdown Concert. 2002.

Elogio da lentidão

Bulmers

Não apresses o momento! As coisas acontecem quando devem acontecer. Devagar. A espera tece o tempo e enreda o futuro. O tempo que dança. Pensa na tartaruga, no nascer do dia, no jogo de xadrez, na poeira do deserto… Quanto tempo precisa a maçã para ser cidra? O que for preciso. O tempo certo. “Not a Moment Too Soon”, da Bulmers, é um anúncio notável, esteticamente primoroso, com imagens em belos tons de cidra, bem compassadas pela música. Tempo que se vive, tempo que se bebe.

Marca: Bulmers. Título: Not a Moment Too Soon. Agência: Publicis, Dublin. Direcção: Aoife McArdle. Irlanda, Abril 2015.