Tag Archive | Índia

Descomplicar

O Anúncio Simple makes sense, da Aegon Life Insurance, não é simples, mas faz sentido. Alinha, uma a uma, várias ilusões ao jeito de Escher e Arcimboldo. Mas ilusões descomplicadas. O anúncio aposta numa equação inversa à usual: não desconstrói uma realidade para construir uma irrealidade, desconstrói uma irrealidade para construir uma realidade (ver https://tendimag.com/2013/11/24/nao-ha-dois-sem-tres/). Cada ilusão alude a uma vertente simplificadora do acesso à Aegon Life Insurance: o labirinto, por exemplo, deixa de ser um labirinto para os funcionários da seguradora: “Simple says you don’t have to care about insurance, your insurance should care about you”.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Labirinto segurosMarca: Aegon Life Insurance. Título: Simple makes sense. Agência: DDB Mudra Group. Direcção: Arun Gopalan. Índia, Janeiro 2016.

Levantar uma tempestade

Estava com saudades de uma boa imagem congelada. A técnica, frozen, esteve em moda mas tornou-se rara. Este anúncio indiano é uma ilustração de um movimento humano típico: acelerar, parar, retroceder e recomeçar, para ver devagar.

Um motorista atravessa a multidão festiva a uma velocidade extrema. Com que discernimento as imagens com comportamentos potencialmente perigosos são para as altas autoridades ora um risco ora uma vacina?

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

pulsar-rs200-raise-a-storm-600-94975Marca: Pulsar RS200. Título: Raise a storm. Agência: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Vijay Sawant. Índia, Janeiro 2016.

Rituais

A falsidade de uma crença não lhe retira eficácia. Como diria Vilfredo Pareto, uma coisa é a acção, orientada para a utilidade, outra, a ciência, orientada para a verdade.

Seguem dois anúncios da Lifebuoy, empresa de sabonetes antibacterianos. No primeiro, um homem percorre apoiado apenas nas mãos o caminho entre a casa e o templo. Agradece aos deuses o quinto aniversário do filho. No segundo, uma mulher cuida “maternalmente” de uma árvore. É tradição local plantar uma árvore quando um filho nasce. A árvore tem cinco anos; o filho, não!
Carregar nas imagens para aceder aos respectivos anúncios.

Lifebuoy-Pai

Marca: Lifebuoy. Título: Help a child reach 5. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Direcção: Amit Charma. Índia, 2013.

Lifebuoy tree

Marca: Lifebuoy. Título: Tree of Life. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Índia, 2014.

De monstro e de louco, todos temos um pouco

Sneagle

Gollum

    Existe um carácter específico na teratosfera moderna. Os novos monstros, longe de se adaptarem a quaisquer homologações das categorias de valor, suspendem-nas, anulam-nas, neutralizam-nas. Apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987).

O anormal fascina o normal. Quasimodo, Frankenstein e o Homem Elefante são exemplos de uma anormalidade cativante que remonta, aliás, às calendas gregas. Na actualidade, a relação homem máquina abre a porta a um “novo” bestiário (ver Albertino Gonçalves, O Delírio da Disformidade. O corpo no imaginário grotesco.pdf). Dantes, incomodava-me a exposição de aberrações nos encontros científicos, nos circos e nas feiras. Negócio, espectáculo e público deploráveis. Entretanto, reconsiderei: sem monstros, o mundo fica deserto. Todos abrigamos um Alien, um RoboCop, um Hulk, uma Fiona, um Yoda, uma Catwoman, um E.T., um Doctor Mabuse, uma feiticeira, um Hynkel, um Gollum ou outra Coisa qualquer.

Ambuja Cement aposta no excesso para significar, com humor, a resistência do respectivo cimento. O protagonista do anúncio, Khali, é mais alto e mais forte do que seria de esperar. Vive inadaptado. Não há casa, parede ou soalho que o aguente. Um desastre! Um dia muda para uma casa construída com Ambuja Cement. A casa é agora mais forte do que o residente. E Khali passa a ter dores de cabeça. A publicidade indiana tem uma imaginação fértil.

Marca: Ambuja Cement. Título: Khali. Agência: Publicis Mumbai. Direcção: Ayappa. Índia, Outubro 2015.

Visto de cima

O astronauta. Nazca. Perú.

Figura 1. O astronauta. Nazca. Perú.

A publicidade excede-se. Não há nicho ou alvo que escape. O anúncio indiano ao filme Baahubali (figura 2) mede 4 794 m2 e é recordista do Guinness. O anúncio da BMW, junto ao aeroporto de Frankfürt, mede 30 075 m2, sem homologação pelo Guinness (Figura 3).

Global United Media Company. em Kochi, India, 27 de junho de 2015. 4794 m2.

Figura 2. Global United Media Company. em Kochi, India, 27 de junho de 2015. 4794 m2.

Importa atender aos olhares das alturas, como no caso dos geoglifos do deserto de Nazca, no Perú (ver galeria de imagens no fim do artigo). Os publicitários louvam o consumidor, outros, o sagrado. Se calhar, como anda tudo baralhado, a diferença não é muita.

BMW. Anúncio gigante. Frankfürt. Alemanha. 30 075 m2. Do 14 ao 27 de Setembro.

Figura 3. BMW. Anúncio gigante. Frankfürt. Alemanha. 30 075 m2. Do 14 ao 27 de Setembro.

Vem a propósito a canção Eye in the sky (1982) dos Alan Parsons Project, inserindo-a no enfiamento do artigo dedicado aos Pink Floyd (https://tendimag.com/2015/09/22/caes-porcos-e-carneiros/). Ambos convocam George Orwell: os Pink Floyd, Animal Farm, Alan Parsons Project, 1984. Acresce que Alan Parsons foi engenheiro de som dos Pink Floyd em The Dark Side of the Moon. A canção Eye in the Sky está um pouco datada. Como eu.

Alan Parsons Project. Sirius/Eye in the sky. Eye in the sky. 1982.

Mas não é apenas com pedras, terra e placas que se constroem figuras gigantescas. Também se desenham e animam imagens compostas por pessoas para condor ver. Por exemplo, na abertura dos jogos olímpicos ou dos campeonatos mundiais de futebol.

Pyongyang, North Korea. 2015.

Figura 4. Pyongyang, North Korea.

Os ditadores têm particular apetência por estas “coreografias” (Figura 4). Muitos anúncios publicitários entregam-se a estas configurações com humanos. Um dos mais célebres, por sinal em movimento, é a Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2012/09/08/o-grande-bebedor/).

Galeria de imagens: Geoglifos. Nazca. Perú.

Desfiguração

“Das coisas cuja visão é penosa temos prazer em contemplar a imagem quanto mais perfeita; por exemplo, as formas dos bichos mais desprezíveis e dos cadáveres” (Aristóteles, Arte Poética).

Reshma, before she was attacked with sulphuric acid

Reshma, before she was attacked with sulphuric acid

Na arte, a história do feio é antiga, tal como a história da interação entre o belo e o feio. As artes convocam o feio como polo oposto do belo. O feio entra no atelier do artista pela mão do belo. E se o polo do feio se reforça? E se o belo passa a polo do feio? E se o belo começar a entrar no atelier do artista pela mão do feio? E se a estética do feio rivalizar, enfim, com a estética do belo? Quem diz feio, diz horror, violência…

Beauty tips by Reshma: How to get perfect red lips, da organização indiana Make love not scars, é um anúncio de consciencialização impressionante. A desfiguração apodera-se, sem tréguas, do ecrã e do olhar. Reshma, 18 anos, vítima, na cidade de Mumbai, em 2014, de um ataque com ácido sulfúrico, conclui que “é tão fácil comprar ácido concentrado como bâton para os lábios”.

Anunciante: Make love not scars. Título: Beauty tips by Reshma: How to get perfect red lips. Agência: Ogilvy & Matter. Índia, Agosto 2015.

Desencanto

Suzie 1

Este anúncio indiano é invulgar. Como diria o Principezinho, “o essencial é invisível aos olhos”. Uma das graças que o Criador nos concedeu consiste em pintar o mundo com as cores do desejo. Quando, invisuais ou não, vemos a princesa que sonhamos, ela dá-nos a mão para pintar o mundo.

Para além das cores do desejo, o Criador dotou-nos, também, com o “apanágio do riso”. O anúncio inscreve-se, com sucesso, num registo cómico. Um jovem com deficiência visual toma a cadela por namorada. Mas um dia, um novo par de óculos desfaz o encanto.

Esta aposta no disparate como detonador exacerba o riso, num cocktail absurdo, insólito e extravagante, concentrado num único momento, o momento que fecha o anúncio.

Acontece aos normais rir-se a um espelho invertido; dos deficientes, dos corcundas, dos surdos, dos cegos, dos coxos, dos feios e demais aberrações. Faz parte da nossa “natureza imbecil” (Blaise Pascal). Não é o caso deste anúncio. Seria má pontaria. Não seria?

Marca: Lenskart.com. Título: Suzie. Agência: Enormous, Ashish Khazanchi. Direcção:  Shirsha Guha Thakurta. Índia, Julho 2015.

O parto na Modernidade Avançada

Frida Kahlo. Henry Ford Hospital. 1932.

Frida Kahlo. Henry Ford Hospital. 1932.

A comunicação audiovisual é para a actualidade aquilo que as iluminuras foram para a Idade Média. Umas e outras compõem a nossa paisagem sensorial e simbólica, convocam a vida e constroem a realidade. Comparando as imagens do parto medieval com os vídeos actuais, constata-se uma mudança do olhar. As iluminuras medievais são sérias e realistas, os vídeos são fictícios e cómicos. Na Idade Média, o parto não dava vontade de rir. O parto bem-disposto é apanágio da Modernidade Avançada. Contanto que o homem medieval fosse mestre na arte do riso e do absurdo. Os gracejos (droleries) nas margens dos manuscritos (marginália), bem como as festas tresloucadas, rivalizam com as fábricas de humor dos nossos dias. Na Idade Média, tinha-se medo de não ter filhos e temia-se a morte durante o parto. Na modernidade, tem-se receio de ter filhos e os riscos de mortalidade durante o parto são ínfimos. Uma característica une, no entanto, a Baixa Idade Média e a Modernidade Avançada: constituem dois picos históricos de propagação da imagem.

Marca: Volkswagen. Título: Delivery. Agência: Red Urban. Direcção: Curtis Wehrfritz. Alemanha, 2013.

Concentremo-nos na representação do parto na Modernidade Avançada. Selecionei quatro anúncios, que dizem pouco sobre o parto e muito sobre a nossa bússola semiótica.

Marca: XBOX. Titulo: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2002.

Autores como Paul Virilio e David Harvey consideram a “velocidade” e a “compressão do espaço e do tempo” expressões-chave do nosso modo de ser e de estar no mundo. No anúncio da Volkswagen, graças ao poder de aceleração do automóvel, o trabalho de parto é quase instantâneo. Dispensa tempo e espaço. No anúncio da Xbox, o bebé passa, em 45 segundos, do ventre da mãe para a sepultura, num processo de envelhecimento vertiginoso. No anúncio da MTS, a criança tem um crescimento físico e intelectual acelerado. No anúncio da B!, da Compal, o pai grávido dá à luz uma filha já adolescente.

Marca: MTS. Título: Internet Baby. Agência: Creativeland Asia. Índia, 2014.

A dependência das máquinas constitui outro traço relevante da Modernidade Avançada. No anúncio da Volkswagen, a parteira é o automóvel. No anúncio da XBOX, a mãe lembra um canhão e o filho, um projétil. No anúncio da MTS, as máquinas digitais recebem um bebé viciado em comunicação e Internet.

A desmaterialização fascina-nos. No anúncio da Volkswagen, o parto resulta virtual. No anúncio da MTS, só falta substituir o cordão umbilical por um dispositivo sem fios.

Marca: B! Abacaxi. Título: É uma menina. Agência: Brandia Central(Lisboa). Portugal, 2007.

Estes anúncios têm um ar barroco a descair para o grotesco. Tudo se oferece estranho e excessivo: o parto assistido pelo automóvel; o disparo do bebé que voa em direcção à morte; o bebé que nasce viciado em Internet. E, por último, o anúncio português, grotesco e barroco até não poder mais. Um anúncio profuso! Tal como a sociedade. E se a sociedade, para além de líquida, hipermoderna, hiper-real, pós-moderna, acelerada e desmaterializada, também se configurasse como uma sociedade da profusão? Profusão de bens, de cenários, de símbolos, de desejos, de identidades, de contradições e de frustrações. Mais que uma sociedade de consumo, do espectáculo ou da abundância, participamos numa sociedade da profusão! Ou talvez não. Ouvi falar de um reino que visa poupar nos partos e no apoio às crianças. Para além da poupança com tantos jovens e adultos que vão criar os filhos além fronteiras.

Atraso

CadburysQual a razão para um vídeo levar algum tempo a iniciar? Este anúncio indiano explica. Um dos motivos tem a ver com os chocolates Cadbury 5 Star! Humor altamente absurdo. Lembra o anúncio Head, da PlayStation 2 (https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/).

Marca: Cadbury 5 Star. Título: Buffering. Agência: O&M, Bumbai. Direcção: Ayappa. Índia, Janeiro 2015.

Sicofância: A arte dos lambe cus

the-times-of-india-the-great-indian-chamcha-600-56443

Publicado pelo The Times of India, o vídeo The Great Indian Chamcha (sycophant ) é

“uma sátira à forma como as pessoas se colam ao poder a fim de obter sucesso e favores. Há muitas maneiras de subir as escadas corporativas e políticas. A segunda mais rápida é Chamchagiri (termo indiano para bajulice, lambe botas ou lambe cus). Conheça estas belas artes pelas mãos dos seus próprios mestres: The Great Indian Chamcha (sycophant). Se a untuosidade raiar o sagrado, então os protagonistas são divinos.” “The Great Indian Chamcha é uma ode à cultura da sicofância que percorre profundamente a política mas que também integra a vida quotidiana do mundo corporativo, do mundo do cinema, etc” (The Times of India; tradução livre).

Este é o primeiro vídeo que vejo criticar frontalmente a bajulice e o parasitismo social. Até incomoda! Como os elefantes. São coisas da índia, não são? Por cá, nem sequer se conhece a palavra “sicofância”! Nem para nome de um grupo de death metal, não é?

Anunciante: The Times of India: Título: The Great Indian Chamcha. Agência: Flying Saucer 101Indica.com. Direcção: Pushpendra Misra. Índia, Novembro 2014.