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Para além da luz

samsung-india

A Samsung iniciou um serviço de apoio técnico ao domicílio na Índia. Iniciativa que justifica este anúncio. Publicado há duas semanas, com actores efectivamente cegos e quatro minutos de duração, já obteve perto de quarenta milhões de visualizações. Um anúncio para ver e sentir devagar.

Marca: Samsung. Título: We will take care of you, wherever you are. Agência: Cheil India. Índia, Dezembro 2016.

Preparar a morte

 

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Le go est le jeu du mensonge.On encercle l’ennemi de chimères pour cette seule vérité qu’est la mort (Shan Sa, La Joueuse de go, Paris, Folio, 2001, p. 294).

Há quem prepare a morte, a “única certeza”! Mas a morte é uma certeza incerta. Sabemos que morremos, mas não sabemos nem quando, nem como. Preparar a morte é cuidar da vida.

No Smoking Campaign: Sunny Leone é um anúncio da World Health Organization. Sou alérgico a anúncios anti tabaco, mas simpatizo com este. Original, criativo, agradável. É extenso, mas passa depressa. O argumento é pedagógico: se fumas, não fornicas! Se fumasses menos, conhecias o paraíso antes de morrer. Trocaste Eva por uma beata. Até o último pedido se esfumou. O moribundo não preparou a morte. Não programou a vida para a morte. Um cigarro a mais, onze minutos de vida a menos, segundo a suposta sabedoria da ciência de serviço. Mais fumo, menos vida e menos sexo. Um anúncio contundente!

O anúncio está falado em hindi. Para uma versão com legendas em francês, pode aceder ao seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/world-health-organization-anti-tabac-11-minutes/.

Anunciante: World Health Organization. Título: No Smoking Campaign: Sunny Leone. Direcção: Vibhu Puri. Índia, 2016.

 

À prova de fantasmas

HathiTenho andado à volta da figura dos fantasmas. Ainda estou nos primeiros passos. Encontram-se coisas engraçadas, como, por exemplo, este anúncio indiano da Hathi Cement. Um espírito deprimido entusiasma-se e morre pela segunda vez. Pelo meio, temos direito a uma paródia do muito parodiado Odyssey, da Levi’s (ver https://tendimag.com/2011/09/16/libertacao/).

Marca: Hathi Cement. Título: Run. Agênccia: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Prasoon Pandey. Índia, 2007.

Carpideiras

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

Qual é o efeito das novas tecnologias ao nível da tradição? Se fosse romântico, diria que é lamentável; se fosse futurista, diria que é promissor. A comunicação multimédia proporciona à tradição uma notoriedade nunca antes navegada. E como encarar os híbridos que baralham tradição e (hiper)modernidade (ver Balandier, George, Sens et Puissance, 1971)?
Muda a embalagem? Ao mudar a forma muda o conteúdo… E depois? Vivemos tempos de pós-tradição? Que interessa que uma prática ou um vestígio sejam ou não tradição quando o sábio, o político, o comissário ou o curador assim o entendem? Vertiginoso e efervescente, o presente é herdeiro de curta memória e alta reciclagem. A tradição é, como sempre, hóspede do presente.

O anúncio indiano Rudali, da Radio Mirch, é uma paródia, ou uma parábola, que mostra como uma tradição tão arreigada como o choro ritual das carpideiras é ameaçada, e vencida, pela música de uma estação de rádio. Em compasso lento, o filme regista como as carpideiras, contanto pagas, deixam de chorar. Preferem ouvir rádio (vídeo 1)! O prazer do ouvido substitui o simulacro da dor. Até a anciã adere.

Michel Giacometti filmou uma carpideira no Soajo. O documentário foi realizado para o programa “Povo que canta”, da RTP, em 1970 (vídeo 2).

Marca: Radio Mirch. Título: Rudali. Agência: McCann Erickson Mumbai. Índia, Dezembro 2015.

A Carpideira (lugar da Várzea, Soajo, Arcos de Valdevez). Autor: Michel Giacometti. Programa “Povo que canta”, RTP, 1970.

Renascimento mecânico

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Alguns profetas proclamaram o fim das narrativas. Entretanto, as narrativas continuam, algumas colossais, tais como o (neo)liberalismo e o terrorismo. Este anúncio indiano é uma narrativa de morte e renascimento, cujos protagonistas são objectos técnicos. O equivalente dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann. O heróico porta-aviões Vikrant renasce, por transmutação, no motociclo Bajaj V. A aura dos símbolos também se transfere.

Marca: Bajaj V. Título: Rebirth. Agência: Leo Burnett. Direcção: Rajesh Saathi. Índia, Fevereiro 2016.

Descomplicar

O Anúncio Simple makes sense, da Aegon Life Insurance, não é simples, mas faz sentido. Alinha, uma a uma, várias ilusões ao jeito de Escher e Arcimboldo. Mas ilusões descomplicadas. O anúncio aposta numa equação inversa à usual: não desconstrói uma realidade para construir uma irrealidade, desconstrói uma irrealidade para construir uma realidade (ver https://tendimag.com/2013/11/24/nao-ha-dois-sem-tres/). Cada ilusão alude a uma vertente simplificadora do acesso à Aegon Life Insurance: o labirinto, por exemplo, deixa de ser um labirinto para os funcionários da seguradora: “Simple says you don’t have to care about insurance, your insurance should care about you”.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Labirinto segurosMarca: Aegon Life Insurance. Título: Simple makes sense. Agência: DDB Mudra Group. Direcção: Arun Gopalan. Índia, Janeiro 2016.

Levantar uma tempestade

Estava com saudades de uma boa imagem congelada. A técnica, frozen, esteve em moda mas tornou-se rara. Este anúncio indiano é uma ilustração de um movimento humano típico: acelerar, parar, retroceder e recomeçar, para ver devagar.

Um motorista atravessa a multidão festiva a uma velocidade extrema. Com que discernimento as imagens com comportamentos potencialmente perigosos são para as altas autoridades ora um risco ora uma vacina?

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

pulsar-rs200-raise-a-storm-600-94975Marca: Pulsar RS200. Título: Raise a storm. Agência: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Vijay Sawant. Índia, Janeiro 2016.

Rituais

A falsidade de uma crença não lhe retira eficácia. Como diria Vilfredo Pareto, uma coisa é a acção, orientada para a utilidade, outra, a ciência, orientada para a verdade.

Seguem dois anúncios da Lifebuoy, empresa de sabonetes antibacterianos. No primeiro, um homem percorre apoiado apenas nas mãos o caminho entre a casa e o templo. Agradece aos deuses o quinto aniversário do filho. No segundo, uma mulher cuida “maternalmente” de uma árvore. É tradição local plantar uma árvore quando um filho nasce. A árvore tem cinco anos; o filho, não!
Carregar nas imagens para aceder aos respectivos anúncios.

Lifebuoy-Pai

Marca: Lifebuoy. Título: Help a child reach 5. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Direcção: Amit Charma. Índia, 2013.

Lifebuoy tree

Marca: Lifebuoy. Título: Tree of Life. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Índia, 2014.

De monstro e de louco, todos temos um pouco

Sneagle

Gollum

    Existe um carácter específico na teratosfera moderna. Os novos monstros, longe de se adaptarem a quaisquer homologações das categorias de valor, suspendem-nas, anulam-nas, neutralizam-nas. Apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987).

O anormal fascina o normal. Quasimodo, Frankenstein e o Homem Elefante são exemplos de uma anormalidade cativante que remonta, aliás, às calendas gregas. Na actualidade, a relação homem máquina abre a porta a um “novo” bestiário (ver Albertino Gonçalves, O Delírio da Disformidade. O corpo no imaginário grotesco.pdf). Dantes, incomodava-me a exposição de aberrações nos encontros científicos, nos circos e nas feiras. Negócio, espectáculo e público deploráveis. Entretanto, reconsiderei: sem monstros, o mundo fica deserto. Todos abrigamos um Alien, um RoboCop, um Hulk, uma Fiona, um Yoda, uma Catwoman, um E.T., um Doctor Mabuse, uma feiticeira, um Hynkel, um Gollum ou outra Coisa qualquer.

Ambuja Cement aposta no excesso para significar, com humor, a resistência do respectivo cimento. O protagonista do anúncio, Khali, é mais alto e mais forte do que seria de esperar. Vive inadaptado. Não há casa, parede ou soalho que o aguente. Um desastre! Um dia muda para uma casa construída com Ambuja Cement. A casa é agora mais forte do que o residente. E Khali passa a ter dores de cabeça. A publicidade indiana tem uma imaginação fértil.

Marca: Ambuja Cement. Título: Khali. Agência: Publicis Mumbai. Direcção: Ayappa. Índia, Outubro 2015.

Visto de cima

O astronauta. Nazca. Perú.

Figura 1. O astronauta. Nazca. Perú.

A publicidade excede-se. Não há nicho ou alvo que escape. O anúncio indiano ao filme Baahubali (figura 2) mede 4 794 m2 e é recordista do Guinness. O anúncio da BMW, junto ao aeroporto de Frankfürt, mede 30 075 m2, sem homologação pelo Guinness (Figura 3).

Global United Media Company. em Kochi, India, 27 de junho de 2015. 4794 m2.

Figura 2. Global United Media Company. em Kochi, India, 27 de junho de 2015. 4794 m2.

Importa atender aos olhares das alturas, como no caso dos geoglifos do deserto de Nazca, no Perú (ver galeria de imagens no fim do artigo). Os publicitários louvam o consumidor, outros, o sagrado. Se calhar, como anda tudo baralhado, a diferença não é muita.

BMW. Anúncio gigante. Frankfürt. Alemanha. 30 075 m2. Do 14 ao 27 de Setembro.

Figura 3. BMW. Anúncio gigante. Frankfürt. Alemanha. 30 075 m2. Do 14 ao 27 de Setembro.

Vem a propósito a canção Eye in the sky (1982) dos Alan Parsons Project, inserindo-a no enfiamento do artigo dedicado aos Pink Floyd (https://tendimag.com/2015/09/22/caes-porcos-e-carneiros/). Ambos convocam George Orwell: os Pink Floyd, Animal Farm, Alan Parsons Project, 1984. Acresce que Alan Parsons foi engenheiro de som dos Pink Floyd em The Dark Side of the Moon. A canção Eye in the Sky está um pouco datada. Como eu.

Alan Parsons Project. Sirius/Eye in the sky. Eye in the sky. 1982.

Mas não é apenas com pedras, terra e placas que se constroem figuras gigantescas. Também se desenham e animam imagens compostas por pessoas para condor ver. Por exemplo, na abertura dos jogos olímpicos ou dos campeonatos mundiais de futebol.

Pyongyang, North Korea. 2015.

Figura 4. Pyongyang, North Korea.

Os ditadores têm particular apetência por estas “coreografias” (Figura 4). Muitos anúncios publicitários entregam-se a estas configurações com humanos. Um dos mais célebres, por sinal em movimento, é a Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2012/09/08/o-grande-bebedor/).

Galeria de imagens: Geoglifos. Nazca. Perú.