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Virtualidades

Antonio Corradini. La femme voilée (La foi). 1743-1844. Musée du Louvre

Os véus das esculturas de Antonio Corradini resguardam virtudes e castidades. Os lenços da Red Riding insinuam, qual dança do ventre, o encanto da mulher. Nas esculturas de Corradini, as virgens portam véus; no anúncio da Red Riding, os lenços portam mulheres. Em ambos os casos, desprende-se um toque de erotismo.

Marca: Red Riding. Título: I’m my fairytake. Produção Yaanus Films. Direcção: Ranadeep Bhattacharyya & Judhajit Bagchi. Índia, 2017.

Lembrei-me, a destempo e meio a propósito, de uma canção de Luís Cília: Canção para uma virgem (Espanha, 1973).

Luís Cília. Canção para uma virgem. Gravada em França em 1969, publicada em Espanha em 1973.

Canção para uma virgem (Luís Cília).

Menina de escuro
Figurinha mansa
Teu calmo olhar puro
No longe descansa

Porque a figurinha
De cera e cetim
Feneces sozinha
No roxo jardim

E vestes de escuro
Já é Primavera
Não olhes o muro
Com ar de quem espera

Acaso a tua alma
Ficou-se na infância
Não há nessa calma
Qualquer febre ou ânsia

Não tens namorado
Ninguém te beijou
Beijar é pecado
Quem ama pecou

Mas olha que a vida
Não é um jardim
Menina vestida
De negro cetim

O sucesso do talento

HP. Faro

“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras” (Heráclito de Éfeso). Heráclito não leu o Principezinho, caso contrário saberia que a água que se afeiçoa a uma ponte não procura outra.

Alguém, porventura uma criança, tem um talento, presumivelmente por geração espontânea, um talento desconhecido. Alguém, habitualmente um professor, um padre, um assistente social ou um psicólogo, um “especialista do humano”, descobre, quase sempre acidentalmente, o talento. Os especialistas do humano costumam ser mediadores: comunicam a descoberta ao poder. O poder consagra e o público venera. Esta narrativa do sucesso é amplamente partilhada. Uma partilha ingénua.

Marca: Hewlett Packard. Título: Paro. Agência: HP Studios. Direcção: Oni Sen. Índia, Março 2018.

Para além da luz

samsung-india

A Samsung iniciou um serviço de apoio técnico ao domicílio na Índia. Iniciativa que justifica este anúncio. Publicado há duas semanas, com actores efectivamente cegos e quatro minutos de duração, já obteve perto de quarenta milhões de visualizações. Um anúncio para ver e sentir devagar.

Marca: Samsung. Título: We will take care of you, wherever you are. Agência: Cheil India. Índia, Dezembro 2016.

Preparar a morte

 

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Le go est le jeu du mensonge.On encercle l’ennemi de chimères pour cette seule vérité qu’est la mort (Shan Sa, La Joueuse de go, Paris, Folio, 2001, p. 294).

Há quem prepare a morte, a “única certeza”! Mas a morte é uma certeza incerta. Sabemos que morremos, mas não sabemos nem quando, nem como. Preparar a morte é cuidar da vida.

No Smoking Campaign: Sunny Leone é um anúncio da World Health Organization. Sou alérgico a anúncios anti tabaco, mas simpatizo com este. Original, criativo, agradável. É extenso, mas passa depressa. O argumento é pedagógico: se fumas, não fornicas! Se fumasses menos, conhecias o paraíso antes de morrer. Trocaste Eva por uma beata. Até o último pedido se esfumou. O moribundo não preparou a morte. Não programou a vida para a morte. Um cigarro a mais, onze minutos de vida a menos, segundo a suposta sabedoria da ciência de serviço. Mais fumo, menos vida e menos sexo. Um anúncio contundente!

O anúncio está falado em hindi. Para uma versão com legendas em francês, pode aceder ao seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/world-health-organization-anti-tabac-11-minutes/.

Anunciante: World Health Organization. Título: No Smoking Campaign: Sunny Leone. Direcção: Vibhu Puri. Índia, 2016.

 

À prova de fantasmas

HathiTenho andado à volta da figura dos fantasmas. Ainda estou nos primeiros passos. Encontram-se coisas engraçadas, como, por exemplo, este anúncio indiano da Hathi Cement. Um espírito deprimido entusiasma-se e morre pela segunda vez. Pelo meio, temos direito a uma paródia do muito parodiado Odyssey, da Levi’s (ver https://tendimag.com/2011/09/16/libertacao/).

Marca: Hathi Cement. Título: Run. Agênccia: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Prasoon Pandey. Índia, 2007.

Carpideiras

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

Qual é o efeito das novas tecnologias ao nível da tradição? Se fosse romântico, diria que é lamentável; se fosse futurista, diria que é promissor. A comunicação multimédia proporciona à tradição uma notoriedade nunca antes navegada. E como encarar os híbridos que baralham tradição e (hiper)modernidade (ver Balandier, George, Sens et Puissance, 1971)?
Muda a embalagem? Ao mudar a forma muda o conteúdo… E depois? Vivemos tempos de pós-tradição? Que interessa que uma prática ou um vestígio sejam ou não tradição quando o sábio, o político, o comissário ou o curador assim o entendem? Vertiginoso e efervescente, o presente é herdeiro de curta memória e alta reciclagem. A tradição é, como sempre, hóspede do presente.

O anúncio indiano Rudali, da Radio Mirch, é uma paródia, ou uma parábola, que mostra como uma tradição tão arreigada como o choro ritual das carpideiras é ameaçada, e vencida, pela música de uma estação de rádio. Em compasso lento, o filme regista como as carpideiras, contanto pagas, deixam de chorar. Preferem ouvir rádio (vídeo 1)! O prazer do ouvido substitui o simulacro da dor. Até a anciã adere.

Michel Giacometti filmou uma carpideira no Soajo. O documentário foi realizado para o programa “Povo que canta”, da RTP, em 1970 (vídeo 2).

Marca: Radio Mirch. Título: Rudali. Agência: McCann Erickson Mumbai. Índia, Dezembro 2015.

A Carpideira (lugar da Várzea, Soajo, Arcos de Valdevez). Autor: Michel Giacometti. Programa “Povo que canta”, RTP, 1970.

Renascimento mecânico

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Alguns profetas proclamaram o fim das narrativas. Entretanto, as narrativas continuam, algumas colossais, tais como o (neo)liberalismo e o terrorismo. Este anúncio indiano é uma narrativa de morte e renascimento, cujos protagonistas são objectos técnicos. O equivalente dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann. O heróico porta-aviões Vikrant renasce, por transmutação, no motociclo Bajaj V. A aura dos símbolos também se transfere.

Marca: Bajaj V. Título: Rebirth. Agência: Leo Burnett. Direcção: Rajesh Saathi. Índia, Fevereiro 2016.

Descomplicar

O Anúncio Simple makes sense, da Aegon Life Insurance, não é simples, mas faz sentido. Alinha, uma a uma, várias ilusões ao jeito de Escher e Arcimboldo. Mas ilusões descomplicadas. O anúncio aposta numa equação inversa à usual: não desconstrói uma realidade para construir uma irrealidade, desconstrói uma irrealidade para construir uma realidade (ver https://tendimag.com/2013/11/24/nao-ha-dois-sem-tres/). Cada ilusão alude a uma vertente simplificadora do acesso à Aegon Life Insurance: o labirinto, por exemplo, deixa de ser um labirinto para os funcionários da seguradora: “Simple says you don’t have to care about insurance, your insurance should care about you”.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Labirinto segurosMarca: Aegon Life Insurance. Título: Simple makes sense. Agência: DDB Mudra Group. Direcção: Arun Gopalan. Índia, Janeiro 2016.

Levantar uma tempestade

Estava com saudades de uma boa imagem congelada. A técnica, frozen, esteve em moda mas tornou-se rara. Este anúncio indiano é uma ilustração de um movimento humano típico: acelerar, parar, retroceder e recomeçar, para ver devagar.

Um motorista atravessa a multidão festiva a uma velocidade extrema. Com que discernimento as imagens com comportamentos potencialmente perigosos são para as altas autoridades ora um risco ora uma vacina?

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pulsar-rs200-raise-a-storm-600-94975Marca: Pulsar RS200. Título: Raise a storm. Agência: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Vijay Sawant. Índia, Janeiro 2016.

Rituais

A falsidade de uma crença não lhe retira eficácia. Como diria Vilfredo Pareto, uma coisa é a acção, orientada para a utilidade, outra, a ciência, orientada para a verdade.

Seguem dois anúncios da Lifebuoy, empresa de sabonetes antibacterianos. No primeiro, um homem percorre apoiado apenas nas mãos o caminho entre a casa e o templo. Agradece aos deuses o quinto aniversário do filho. No segundo, uma mulher cuida “maternalmente” de uma árvore. É tradição local plantar uma árvore quando um filho nasce. A árvore tem cinco anos; o filho, não!
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Lifebuoy-Pai

Marca: Lifebuoy. Título: Help a child reach 5. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Direcção: Amit Charma. Índia, 2013.

Lifebuoy tree

Marca: Lifebuoy. Título: Tree of Life. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Índia, 2014.