Tag Archive | Hieronymus Bosch

Michel Foucault e a Nave dos Loucos

01 Stultifera Navis (A Nave dos Loucos), de Sebastian Brant. 1594.

01 Stultifera Navis (A Nave dos Loucos), de Sebastian Brant. 1494.

Acontece-me querer mostrar mas não (d)escrever. Um subterfúgio é recorrer a um texto alheio. Sobre o tema da Nave dos Loucos, o primeiro capítulo (Stultifera navis) da  História da Loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault, vem a talhe de foice. Seleccionei três longos excertos ilustrados com  imagens provenientes de quatro fontes de finais do séc. XV: Stultifera Navis (1494), de Sebastian Brant; Navicula stulterum mulierum (1498), de Josse Bade; La Nef des Folles (c. 1500), de Jehan Drouyn; e a pintura de Hieronymus Bosch (c. 1500).

02 Sebastian Brant. A Nave dos Loucos, 1494.

02 Sebastian Brant. A Nave dos Loucos, 1494.

“Ao final da Idade Média, a lepra desaparece do mundo ocidental. Às margens da comunidade, às portas das cidades, abrem-se como que grandes praias que esse mal deixou de assombrar, mas que também deixou estéreis e inabitáveis durante longo tempo. Durante séculos, essas extensões pertencerão ao desumano. Do século XIV ao XVII, vão esperar e solicitar, através de estranhas encantações, uma nova encarnação do mal, um outro esgar do medo, mágicas renovadas de purificação e exclusão” (Foucault, História da Loucura, pág. 7).

“Esse fenômeno é a loucura. Mas será necessário um longo momento de latência, quase dois séculos, para que esse novo espantalho, que sucede à lepra nos medos seculares, suscite como ela reações de divisão, de exclusão, de purificação que no entanto lhe são aparentadas de uma maneira bem evidente. Antes de a loucura ser dominada, por volta da metade do século XVII, antes que se ressuscitem, em seu favor, velhos ritos, ela tinha estado ligada, obstinadamente, a todas as experiências maiores da Renascença.

03 A Nave dos Loucos, de Sebastian Brant CXB. Gravura em madeira atribuida a Albrecht Durer. 1494.

03 A Nave dos Loucos, de Sebastian Brant CXB. Gravura em madeira atribuida a Albrecht Durer. 1494.

É esta presença, e algumas de suas figuras essenciais, que é preciso agora recordar de um modo bem rápido.
Comecemos pela mais simples dessas figuras, e também a mais simbólica.
Um objeto novo acaba de fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da Renascença; e nela, logo ocupará lugar privilegiado: é a Nau dos Loucos, estranho barco que desliza ao longo dos calmos rios da Renânia e dos canais flamengos” (Foucault, História da Loucura, pp. 12-13).

“Compreende-se melhor agora a curiosa sobrecarga que afeta a navegação dos loucos e que lhe dá sem dúvida seu prestígio. Por um lado, não se deve reduzir a parte de uma eficácia prática incontestável: confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é torná-lo prisioneiro de sua própria partida.

04 Josse Bade. Navicula stulterum mulierum. 1498.

04 Josse Bade. Navicula stulterum mulierum. 1498.

Mas a isso a água acrescenta a massa obscura de seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais que isso, ela purifica. Além do mais, a navegação entrega o homem à incerteza da sorte: nela, cada um é confiado a seu próprio destino, todo embarque é, potencialmente, o último. É para o outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca.

05 A Nave da Visão, Jehan Drouyn. La Nef des Folles. Paris, c. 1500.

05 A Nave da Visão, Jehan Drouyn. La Nef des Folles. Paris, c. 1500.

06 A Nave de Eva, Jehan Drouyn. La nef des folles, Paris, c.1500.

06 A Nave de Eva, Jehan Drouyn. La nef des folles, Paris, c.1500.

Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a Passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que desenvolver, ao longo de uma geografia semi-real, semi­imaginária, a situação liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval — situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. Postura altamente simbólica e que permanecerá sem dúvida a sua até nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo de nossa consciência.

07 A Nave em Chamas. Atribuído a Hieronymus Bosch (1450-1516,

07 A Nave em Chamas. Atribuído a Hieronymus Bosch (1450-1516,

A água e a navegação têm realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem.

08 Hieronymus Bosch. A Nave dos Loucos. 1490-1500.

08 Hieronymus Bosch. A Nave dos Loucos. 1490-1500.

E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer. É esse ritual que, por esses valores, está na origem do longo parentesco imaginário que se pode traçar ao longo de toda a cultura ocidental? Ou, inversamente, é esse parentesco que, da noite dos tempos, exigiu e em seguida fixou o rito do embarque? Uma coisa pelo menos é certa: a água e a loucura estarão ligadas por muito tempo nos sonhos do homem europeu” (Foucault, História da Loucura, pp. 15-17).

09. A Nave dos Loucos a caminho do País dos Tolos. Gravura em madeira, de 1549.

09. A Nave dos Loucos a caminho do País dos Tolos. Gravura em madeira, de 1549.

Referência bibliográfica:
Foucault, Michel (1978), História da Loucura na Idade Clássica, São Paulo, Editora Perspectiva, 1ª ed. 1961.

O Delírio da Disformidade. O Corpo no Imaginário Grotesco

Na disciplina de Sociologia da Arte, estamos a estudar Hieronymus Bosch, nomeadamente o tríptico O Jardim das Delícias (1503-1504). Este texto, publicado em 2002, na revista Comunicação e Sociedade, pode ser útil como complemento.

O Delírio da Disformidade. O corpo no imaginário grotesco.pdf

Galeria de imagens:

OVMI (Objecto Voador Mal Identificado)

À memória de Raphael Pividal

Por estranho que pareça, na Idade Média a sexualidade era mais liberta, menos inibida e menos censurada do que nos nossos dias.

“Entre a maneira de falar sobre relações sexuais representada por Erasmo e a representada aqui por Von Raumer, é visível uma curva de civilização semelhante à mostrada em mais detalhe na manifestação de outros impulsos. No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás de cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. Mesmo entre adultos é referida apenas com cautela e circunlóquios” (Norbert Elias, O processo civilizador, vol. I, Rio de Janheiro, Zahard Ed., 1994, p. 180).

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Os manuscritos e as imagens medievais evidenciam esta “curva civilizacional” ao nível do controlo e da expressão da sexualidade. As aventuras de Panurgo no Pantagruel, de François Rabelais, fornecem uma amostra. Nas iluminuras, multiplicam-se, explícitas, as cenas de sexualidade, ora realistas, ora caricatas: árvores que dão falos, coitos, exibicionismos, sodomia… Não as mostro porque estamos no século XXI e este blogue é para todas as idades. A maioria pertence a cópias do Romance da Rosa (1230-1280).  Subsiste, no entanto, uma imagem que não resisto a partilhar. Considero-a a mais extraordinária. Pintada entre 1340 e 1345, representa um objeto voador mal identificado (OVMI).

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão.  Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão. Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Será um peixe voador como aqueles que Hieronymus Bosch pintou 150 anos mais tarde no tríptico de Lisboa (As Tentações de Santo Antão, entre 1495 e 1500)? Ambos transportam pessoas, mas ao OVMI, o que falta em barbatanas sobra em orelhas. Ressalve-se a existência de uma associação simbólica entre o peixe e o OVMI, por exemplo, na mitologia maia (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982).

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Será o OVMI uma vassoura montada por uma bruxa? A nudez confere, mas o dispositivo voador pode ter cabo, mas não tem feixe para varrer. Ora, as bruxas eram muito ciosas das suas vassouras… Não varriam e ainda menos voavam em vassouras amputadas.

Será um pão, um cacete, como o “pão catalão” de Salvador Dali (1932)? Um pão voador? Nada de pasmar, há vários registos do fenómeno. Um restaurante em Singapura chama-se The Flying Bread. Tratar-se-ia, neste caso, de um OVMI pasteleiro surrealista.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

O peixe, a vassoura e o pão constituem três hipóteses plausíveis. Acrescento uma quarta: o OVMI é o fruto de uma faleira que tem como propriedade levar o homem e a mulher a cavalgar um peixe voador.

Subsistem, contudo, muitas dúvidas e algumas insuficiências metodológicas. Quer-me parecer que tamanho enigma só pode ser resolvido mediante uma investigação sistemática e aprofundada, conduzida por uma equipa interdisciplinar internacional, com acesso a alta tecnologia, apoiada por uma ou várias fundações mecenas, com publicação dos resultados numa revista estrangeira com factor de impacto.

O Perfume Filosofal

A pedra filosofal liquefaz-se e desfaz-se no ar. Descobriu-se uma fragrância que “transforma um rapaz em homem, as raparigas em namoradas,  e as mães em criaturas aflitas”. O nome do prodígio é Old Spice, o perfume do delírio. As criaturas do anúncio são tão estranhas que lembram os infernos do Alto Renascimento. A continuar deste jeito, a Old Spice tornar-se-á numa espécie de Hieronymus Bosch da publicidade.

Marca: Old Spice. Título: Mom Song: 60. USA, Janeiro 2014.

Invocar os infernos e Hieronymus Bosch é um exagero. Certo é que muitos anúncios de perfumes exalam tentação e pecado. Por outro lado, se há  infernos dantescos, também há, segundo outros testemunhos, infernos aprazíveis. Se Deus recompensa os justos, por que haveria Lúcifer de castigar os pecadores? Atente-se nesta episódio do livro Pantagruel, de François Rabelais (1532).

Na refrega contra os gigantes, Epistémão, amigo de Pantagruel, foi decapitado. Panurgo consegue, porém, “chamá-lo à vida”:

“De repente, Epistémão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva (…) Desatou então a falar e contou que tinha visto os diabos, falara sem cerimónias com Lúcifer, fora muito bem tratado no inferno e nos Campos Elísios, a todos garantindo que os diabos fazem boa companhia. Quanto às almas danadas, explicou que muito aborrecido se sentia por Panurgo ter sido tão rápido a chamá-lo à vida.
– Porque olhá-las (disse ele) é um singular entretenimento.
– Então porquê? – quis Pantagruel saber.
– Não as tratam tão mal como pensais (disse Epistémão), embora o seu estado se altere de estranha forma. Sim, porque vi Alexandre o Grande remendar calças velhas para ganhar a sua pobre vida.
Xerxes apregoar mostarda
Rómulo era vendedor de sal
Numa fazia pregos…”

(François Rabelais, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, 2006, p. 168-170).

 Segue-se uma centena de nomes de figuras históricas (François Rabelais é um caso extremo da vertigem das listas de que se ocupa Umberto Eco). Em suma, o inferno trata bem os condenados, “embora lhes altere o seu estado de estranha forma”. Opera uma inversão social: Quem era poderoso na terra, é humilde no inferno. Assim o ilustra a gravura de Gustave Doré.

Gustave Doré. Ilustração do Pantagruel, de François Rabelais

Gustave Doré: “Não as tratam tão mal como pensais (disse Epistémão), embora o seu estado se altere de estranha forma”. Oeuvres de François Rabelais, Paris, J. Bry Ainé Libraire Éditeur, 1854, p. 137.

Eva no Jardim das Delícias

Hieronymus Bosch é um dos pintores com maior notoriedade na criação audiovisual. Existem vários anúncios e vídeos musicais que são adaptações de Hieronymus Bosch. Por sua vez, Deus criou Adão e Eva. E Adão e Eva criaram a humanidade. E a humanidade criou o automóvel.

Mercedes. Bosco.

Mercedes. Bosco.

O Pecado na Publicidade

Séculos de cultura judaico-cristã habituaram-nos a associar o prazer e o desejo ao pecado. Tradição que a publicidade reinterpreta num novo triângulo infernal: a mercadoria é pecado, o consumidor desejo e o anúncio tentação. Muitos anúncios, como o célebre Bouteille, da Perrier (1976), convocam o pecado (ver http://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Acrescentemos dois casos:

O primeiro, Don Patillo, das massas Panzani, é uma paródia da saga do cinema Don Camilo. Um padre de aldeia não resiste, anúncio após anúncio, ao sabor das massas Panzani. Deus admoesta-o, mas compreende.

Marca: Pâtes Panzani. Título: Don Patillo. França. 1975?

O segundo caso diz respeito ao anúncio Les  p+echés capitaux, da Mercedes (1998). Seis pecados envolvem, sucessivamente, o automóvel: a inveja; a luxúria; a ira; a preguiça; o orgulho; a avareza. Só falta a gula (do Don Patillo). Como ressalta a voz-off, “ do 13 ao 16 de Setembro, os novos mercedes são um convite ao pecado”. Trata-se, de algum modo, de uma atualização da roda dos Sete Pecados Mortais de Hieronymus Bosch (1500).

Marca: Mercedes Benz. Título: Les péchés capitaux. Agência: FCB. França, 1996.

A publicidade é uma feira que não vende indulgências mas antes lenha para a fogueira. O pecado na publicidade, eis um tema de investigação interessante.

Hieronymus Bosch, The Seven Deadly Sins. 1500.

A modernidade líquida explicada às crianças

Poucos anúncios se aproximam tanto da obra de Hieronymus Bosch, da confusão de corpos, monstros, híbridos e instrumentos musicais, patente em O Inferno, de O Jardim das Delícias. Uma antiguidade sulfurosa. Nada, porém, que se compare a um belo par de asas feito com harpas!

Corcundas

Primeiro os bailarinos, agora os corcundas. Jacques Callot gravou,  em 1620-1622, 20 estampas com corcundas (Les Gobbi) a jogar, a tocar e a fazer outras habilidades. Não é de estranhar esta escolha de Jacques Callot. Mais não seja, os corcundas, segundo o imaginário popular, dão sorte. Mas Callot desenha saltimbancos e desgraçados, tal como, alguns anos antes, Hieronymus Bosch e Pieter Brueghel desenharam e pintaram indigentes, aleijados e cegos. Estas figuras caracterizavam a vivência e a cultura da praça pública, bem retratadas por Mikhail Bakhtin a propósito da obra de François Rabelais.