Orientação

Como são diferentes as campanhas de saúde pública no “Oriente” e no “Ocidente”! Nas primeiras, os anúncios apostam no humor e no envolvimento, como na seguinte paródia contra o excesso de consumo de açúcar; as segundas, na severidade e na estigmatização, como, por exemplo, contra o consumo de tabaco e de álcool. Talvez seja de considerar um pouco de “orientação”.
O reverso da glória. Anatomia de um campião
O outro lado dos nossos heróis: obstinação e provação. Personalidade e risco. “Winning is not for everyone”! Dois anúncios inspirados nos jogos olímpicos.
Queda e ascensão
Este anúncio da agência brasileira Africa é impressionante. Centra-se no processo de “ressurreição” de Anderson Silva, o Spider, lutador célebre de artes marciais mistas, que, com uma perna partida no último combate, esteve afastado do “octógono”. O vídeo retrata, e glorifica, o “regresso do herói”. Inicia com o momento do acidente, culminado com uma chuva simbólica de ecrãs que o soterram no fundo de um poço. O essencial do vídeo é dedicado ao ressurgimento, ao esforço, extremo, para escalar o poço. Trata-se de um épico, bem concebido e bem realizado. As imagens são de uma escuridão lancinante.
Marca: Budweiser. Título: Be Spider. Agência: Africa. Direcção: Pedro Becker. Brasil, Dezembro 2014.
Milagre

Frei Manuel dos Reis. Visão de D. Afonso Henriques na batalha de Ourique. 1665. Museu de Alberto Sampaio
O futebol configura uma luta de titãs. Prometi alhear-me dos “anúncios do Mundial”. Mas não há modo de lhes escapar. A Nike e a Beats by Dre acabam de lançar os anúncios The Last Game e The Game Before the Game, com duração superior a 5 minutos. Ambos convocam o “etos do guerreiro”. O humano contra o inumano, mas também o humano a braços com aquilo que o divide: o cálculo e o risco, a força e a fé, a razão e o coração… No “último jogo”, os heróis, “demasiado humanos”, enfrentam a burocracia da ciência e a eficácia dos clones. O anúncio é todo ele uma glória à animação em jeito de apoteose barroca. No “jogo antes do jogo”, acompanhamos a preparação ritual do herói antes do confronto, a construção do milagre, como na prece do cavaleiro medieval antes da refrega. O anúncio mergulha numa aura trágica, com a imagem e o som a entrelaçar-se ao ritmo da pulsação.
Ambos os anúncios são herdeiros de obras mais antigas. Retenho o filme Fuga para a Vitória, de 1981, com a participação de Pelé, Ardiles, Bobby Moore e Deyna. Quase todo o filme se resume à preparação do jogo. O adversário era a máquina nazi e o futebol, o cavalo de Tróia.
Marca: Nike. Título: The Last Game. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Jon Saunders. USA, Junho 2014.
Marca: Beats by Dre. Título: The Game Before the Game. Agência: R/GA New York. Direcção: Nabil Elderkin. USA, Junho 2014.
Crianças graúdas
Apetece-me pensar leve! Como um floco de neve que se recusa a aterrar. Não conheço sociedades que não tenham heróis, ou que, pelo menos, não os sonhem. Quanto à publicidade. ela é um imenso jardim onde passeia o nosso imaginário. Dá para o sentir à distância.
Quem são os nossos heróis? Aqueles que nos empolgam? O anúncio da Toyota, My Dad My Hero, é claro: um super-herói com superpoderes, à maneira da Marvel; um cowboy; um guerreiro; e… um astronauta (vídeo 1).
Marca: Toyota. Título: My Dad My Hero. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Simon Willows. França, Agosto 2013.
A campanha Apollo, da AXE, resgata mais dois heróis: o bombeiro (http://www.youtube.com/watch?v=WWpNTNjyzr8) e o salva-vidas (http://www.youtube.com/watch?v=WWpNTNjyzr8). Não chegam, porém, aos calcanhares do… astronauta!
No anúncio da TalkTalkTV (vídeo 2), o protagonista é, de novo, um astronauta, acompanhado pela sua amada, num ternurento desenho animado itinerante, ao jeito do anúncio Graffiti, da Aides (2010).
Marca: TalTalkTV. Título: Date Night. Agência: Chi and Partners London. Reino Unido, Setembro 2013.
Em suma, quem são os nossos heróis? O astronauta, o astronauta, o astronauta, o Superman, o cowboy, o guerreiro, o bombeiro e o salva-vidas.
Estou a pensar leve demais. Os anúncios têm um toque tão infantil! Mormente, os anúncios da Toyota e da TalkTalkTv. Estes heróis são os heróis das crianças… Duvido! São os heróis das crianças que fomos. Destinam-se aos papás que compram popós e contratam operadores de televisão. São as crianças graúdas que se desodorizam para cheirar a macho. Mas estes heróis não são intemporais? Não pertencem a todas as gerações? É possível… Os cowboys caíram em desuso; os super-heróis e os guerreiros tendem a falar japonês; quanto ao Buck Rodgers, não sei por que nome o tratar na pós-modernidade.
Concluindo, quem pensa leve, escreve pesado.


