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Confinamento desconfinado

Gustave Courbet. Les Cribleuses de Blé. 1854.

Confinamento desconfinado. Uma peneira esburacada. Estas palavras turvam-me o pensamento. Há dias publiquei um gráfico que comparava o número de infetados por 100 000 habitantes nos países da Europa. Portugal estava numa posição delicada. Volvidos poucos dias, a situação piorou: Portugal é o país com mais casos por milhão de habitantes a nível mundial. Avoluma-se o número de infetados, de hospitalizados e de mortos. Que incómodos rivalizam com o internamento nos cuidados intensivos ou a agonia nas instituições de idosos? Que efeitos colaterais rivalizam com a doença? Com as filas de ambulâncias às portas das urgências? Os mortos não sofrem traumas pedagógicos, assimétricos ou identitários. A morte não é reversível. Para os mortos, não há futuro perdido. Não admira que num confinamento desconfinado, o essencial pareça depender de cada um e de todos nós. Decretos coletivos com responsabilidade individual. A avaliação das consequências é uma arte, a arte de decidir.

The Beatles. Don’t Let Me Down. Hey Jude. 1970.
The Beatles. Come Together. Abbey Road. 1969.

Uma regra rígida e uma prática mole (Alexis de Tocqueville)

Alexis de Tocqueville

Alexis de Tocqueville

O artigo O Triunfo das Salsichas abre com uma citação de Alexis de Tocqueville (1805-1859). Atendendo às frases seguintes, sabe a pouco. Tocqueville é um dos grandes autores da sociologia e da ciência política. Século e meio depois, a sua obra permanece actual. Neste excerto de O Antigo Regime e a Revolução, Tocqueville desmonta as formas de governo do Antigo Regime e dos países da Europa do Sul.

“Vê-se que a história é uma galeria de quadros com poucas obras originais e muitas cópias.

Aliás é preciso admitir que na França o governo central jamais imita os governos do sul da Europa, que dão a impressão de só se terem apoderado de tudo para deixar tudo estéril. Aqui demonstra muitas vezes uma grande inteligência na execução de sua tarefa e sempre uma grande atividade. Mas esta actividade pode tornar­-se improdutiva e até nociva porque quer às vezes realizar coisas que ultrapassam suas forças ou então faz coisas que ninguém controla.

Poucas coisas inovam e chegam a abandonar as reformas as mais necessárias, cujo êxito exigiria uma energia perseverante, e muda sem cessar algum regulamento ou alguma lei. Nada permanece por algum tempo como está na esfera em que manda. Novas regras sucedem-se com uma rapidez tão singular que os agentes obrigados a obedecer a tantas ordens sucessivas muitas vezes não conseguem descobrir de que maneira é possível fazê-lo. Funcionários municipais queixam-se ao controlador geral da extrema mobilidade da legislação secundária. Dizem que “a variação dos decretos sobre as finanças é tamanha que não dá tempo a um funcionário municipal, mesmo inamovível, de se dedicar a outra coisa que ao estudo dos novos decretos à medida que surgem e que tanto o ocupam que tem de descuidar de todo o resto”.

Mesmo quando uma lei não mudava, a maneira de aplicá-la variava. Quem não teve a oportunidade de observar o funcionamento da administração do antigo regime através da leitura dos documentos secretos que deixou não pode ter uma idéia do desprezo que a lei acaba despertando até mesmo no espírito daqueles que a aplicam, quando não existem mais nem assembléias políticas, nem jornais para freiar a atividade caprichosa e o humor arbitrário e volúvel dos ministros e de seus assessores.

Raras são as decisões do Conselho que não se referem a leis anteriores, às vezes recentes, que foram decretadas mas jamais executadas. Não existem editais ou declarações do rei nem cartas patentes solenemente registradas que não tenham sofrido mil alterações na prática. As cartas dos controladores gerais e dos intendentes mostram que o governo sempre permite exceções. Raramente desobedece à lei, mas dobra-a em todos os sentidos conforme casos particulares e para a maior facilidade dos negócios.

O intendente escreve ao ministro sobre o caso de um direito de outorga ao qual um adjudicador das obras públicas queria esquivar-se: “É evidente que a estrita obediência aos editais e decretos que acabo de citar não permite que isentemos pessoa alguma destes direitos. Mas quem conhece bem os negócios sabe que existem meios de tratar estes dispositivos imperiosos da mesma maneira que as penas que impõem e que, apesar de encontrá-los em quase todos os decretos, declarações e editais referentes à criação de impostos, isto jamais impediu que houvesse exceções.”

Eis todo o antigo regime e toda sua caracterização: uma regra rígida e uma prática mole” (Alexis de Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução, 1856; Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1997, pp. 97-98).

Volta ao mundo

Jeep_BeautifulLands15Fui espreitar a nuvem de tags do Tendências do Imaginário. Destacam-se as palavras: absurdo, animação, arte, automóvel, corpo, futebol, grotesco, humor, mulher, música, paródia, sensibilização e sexo. Empreendedorismo, ajustamento e internacionalização não aparecem. Irritam-me! É a vesícula.
O empreendedorismo absorve uma fatia enorme dos fundos comunitários. Palavra mestre e palavra-chave. Chave mestra! Duvido que alguma vez uma ideologia tenha sido tão bem paga. Alguém anda a empreender connosco.
O ajustamento é o pão nosso de cada dia. O governo ajusta-nos e nós também nos ajustamos. O vento sopra de feição para os nutricionistas e os peritos em falências. As opções do governo e as práticas dos cidadãos tendem a corresponder-se. Tudo se ajusta na minha terra, tudo menos o desemprego.
Internacionalização é palavra que soa a leilão nacional. Gosto do mundo, real e imaginado, mas a internacionalização como desígnio incomoda-me. Intrigam-me as internacionalizações com fundos e resultados domésticos. O público deste blogue é 80% estrangeiro, nem por isso deixa de ser um blogue nacional. Internacionalizem-se! A internacionalização é uma palavra pródiga em privilégios. Num jogo do ganso provinciano.
Empreendedorismo, ajustamento e internacionalização são palavras solares. Fecundam-nos todos os dias!

O anúncio da Jeep não é responsável por esta descarga biliar, embora o conteúdo seja assumidamente internacional, uma ementa gourmet para os “devoradores de paisagens” (Krippendorf Jost., Les dévoreurs de paysages, Lausanne, Editions 24 Heures, 1977). Quanto à música, uma excelente versão de My land is your land.

Marca: Jeep. Título: Beautiful lands. USA, Janeiro 2015.

Chove na Natalidade

Evolução da taxa de natalidade em Portugal

E a natalidade, senhores? E a natalidade? Não conta? Então… Acham que este Daddy vai contribuir para a sementeira humana? Logo agora que o governo português incentiva a natalidade… Quarenta anos depois de o problema se colocar! Aguardámos que amadurecesse. Agora, está maduro. Portugal teve, em 2013, a taxa bruta de natalidade mais baixa da União Europeia (7,9 ‰). A França adoptou medidas sistemáticas há mais de 30 anos: se o valor da taxa de natalidade não se inverteu, estabilizou, desde os anos noventa, em torno dos 13 ‰. Em 2013, a França (12,3 ‰) tinha, a seguir à Irlanda (15,0 ‰) e à Islândia (13,4 ‰), o terceiro valor mais elevado da União Europeia. Que me recorde, as resoluções francesas eram claras e directas: por exemplo, um prémio ao nascimento e um subsídio mensal durante um período alargado de tempo. A proposta portuguesa aposta num leque variado de medidas: alargamento da licença parental, redução do horário de trabalho, vantagens no IRS, no IMI e no Imposto sobre veículos, ajustamentos na educação e na saúde, compromissos com as autarquias… Oxalá este bombardeamento de partículas funcione! Pelos meus netos. Gostava que um dia nascessem e em Portugal.

Marca: Citroen. Título: Daddy. Agência: Les Gaulois. Direcção: Steve Rogers. França, Junho 2014.

Tecnocracia assertiva

Pais fumadores vão ter cadastro

Governo quer mudar lei do tabaco. Cadastrar os pais que fumam é uma das decisões mais polémicas.

No próximo ano, os hábitos tabagisticos dos pais devem passar a ficar registados por escrito no Serviço Nacional de Saúde e no boletim infantil das crianças. Saber se os pais fumam em casa, no carro e quantos cigarros por dia são algumas das questões que vão ser colocadas, numa nova orientação defendida por vários especialistas em saúde pública.

Segundo o semanário Expresso, outros médicos consideram estas propostas muito radicais por responsabilizarem os pais pelas doenças dos filhos. A par do cadastro, diz o jornal, o Governo decidiu que as campanhas publicitárias sobre os ‘perigos’ de fumar em casa ou no carro vão ser muito mais assertivas (Diários de Notícias, 23.11.13).

Há masoquistas que ajudam quem os persegue. O governo da República prepara-se para cadastrar os pais fumadores no Serviço Nacional de Saúde. Uma medida profilática que só peca por tardia! Sobretudo quando, em Portugal, a mortalidade infantil aumentou de 2,5 em 2010 para 3,1 em 2011. Cadastrar é pouco! Obriguem-se os pais fumadores a andar com uma beata luminosa ao peito! Houve casos semelhantes na história da humanidade. Estigma por estigma… O mais ajustado seria exterminá-los! Em câmaras de fumo… Os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória.

A Comunidade Europeia é o primeiro espaço de cidadania em que a tecnocracia substituiu a política. Portugal integra a Comunidade Europeia, em bicos de pés e com a corda ao pescoço, bom aluno entre os piores. Importa contribuir com euros e com ideias. Junto um anúncio de sensibilização Plain Packaging, do Cancer Research UK. Falha inadvertidamente o alvo: visa as tabaqueiras e as embalagens em vez dos pais fumadores. Nem tudo pode ser perfeito. A cada um os seus santos e os seus demónios. Invade-me uma melancolia às avessas: voltam os velhos espectros…

Anunciante: Cancer Research UK. Título: Packaging. Agência: BBDO. Direção: Rob Chiu. UK, Novembro 2013.

Virando o bico ao prego

Quando escrevi que “os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória” não estava a ser irónico. Poucas decisões são mais estúpidas do que começar ou continuar a fumar. Pouco se ganha e perde-se imenso. Trata-se de um suicídio lento com um fim provavelmente doloroso. Um fumador sente-se a morrer aos poucos. Vai perdendo faculdades e somando problemas. Nas nossas sociedades, o fumo de cigarro tornou-se efetivamente incómodo. Biológica, psicológica e socialmente. Comporta riscos de saúde pública. O primeiro cigarro começa, muitas vezes, como um ritual de adesão a uma tribo de pares. Neste momento, afasta as pessoas. Dificulta a interação social. É repelente, centrífugo. Em casa, no trabalho e na rua. Incómodo transversal, cola-se como uma segunda pele. Trata-se de um hábito caro, que empobrece o fumador, a família, a sociedade e o Estado. O fumador é uma miniatura contemporânea do imperador Nero: à sua escala, queima riqueza e esfuma saúde.

Não sei por que escrevinhei este parágrafo. Toda a gente sabe! Escrever o que toda a gente sabe é tontice ou vaidade. Detesto desperdiçar letras. Se calhar, trata-se de um variante de penitência. Só tamanho acto de contrição pode demover a família do propósito de comprar uma grua para me pendurar a fumar nas alturas.