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Filantropia

— Valha-me Deus! — exclamou Sancho — Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros? (Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, cap. VIII. 1605).

Vladimir Kush.

Se existem novidades ao nível da publicidade, a proliferação dos anúncios de sensibilização é uma delas. Anúncios de empresas dedicados a causas sociais. Respiram bondade. O que visam estes anúncios? Promover a causa ou a marca? Sancho Pança, que vê moinhos de vento, diria a marca; Don Quixote, que vê gigantes, a causa. Num mundo onde supostamente naufragaram as grandes narrativas, as narrativas de médio alcance possuem um elevado valor simbólico. O anúncio Waste, da IKEA, é um excelente exemplo de publicidade de sensibilização.

A publicidade de sensibilização promovida pelas empresas é uma prática condenável? Talvez não! A história da humanidade revela que entre a bondade ou a maldade das intenções e a bondade ou a maldade dos resultados não existe uma equação linear. Recorde-se o subtítulo do livro de Bernard Mandeville: “vícios privados, virtudes públicas (A fábula das abelhas, 1723).

Marca: IKEA Rússia. Título: Waste. Agência: Instinct BBDO. Direção: Ilya Naishuller. Rússia, novembro 2020.

Flor de laranjeira

benettonAs empresas e os empresários parecem regressar a Henri de Saint-Simon, para quem o dever dos industriais e filantropos é concorrer para a elevação material e moral dos proletários, em nome da moral. A aposta da Benetton nas boas causas não surpreende. Acumula décadas de experiência. A filantropia das marcas invade a publicidade atual. As boas causas rendem. Agora, como na Antiguidade, na Idade Média e na Idade Moderna. Este anúncio faz jus à tradição da Benetton. O quid pro quo insinua-se como uma obra-prima que baralha a nossa “definição da situação” (W. I. Thomas; H. Blumer). O anúncio estreou no dia 25 de Novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, promovido pela ONU. Importa, mesmo assim, não esquecer o Padre António Vieira:

“O pregar, que é falar, faz-se com a boca; o pregar, que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras” (Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655).

Marca: Benetton. Título: End Violence Against Women Now. Agência: Fabrica. Internacional, Novembro 2014.

Meio cheio

A filantropia parece  insinuar-se na moda. Há dias a Coca-Cola, agora a Nokia, ambas a pintar-nos como anjos aureolados de optimismo. O que não é incompatível com os ventos de crise que nos fustigam.

via Meio cheio.

Meio cheio

A filantropia parece  insinuar-se na moda. Há dias a Coca-Cola, agora a Nokia, ambas a pintar-nos como anjos aureolados de optimismo. O que não é incompatível com os ventos de crise que nos fustigam. Não, não é! Assim rezam  os oráculos: Émile Durkheim e Raymond Boudon constam entre os sociólogos que abordaram este paradoxo (por que é que há mais suicídios em períodos de crescimento económico do que em períodos de crise?). Corações ao alto! Corações abertos…

Repare-se, já agora, no protagonismo crescente das letras no desenho do ecrã.

Produto: Nokia Lumia. Título: Little Amazing Show, Berlin. EUA, Janeiro 2012.