Envolvimento e ternura
Gozar com coisas sérias

Peço desculpa por abusar do vosso tempo e da vossa atenção, mas existem dias em que me custa deixar alguns artigos a marinar até ao próximo ano. Por exemplo, os quatro seguintes.
Dei-me ao cuidade de recuperar os respetivos anúncios e gravar três deles. Podem não acreditar, mas representa algum trabalho. No caso de um deles, não hesitei um segundo. Conseguem adivinhar qual?
Sociologia sem palavras 4. À americana (retoma)

Há Festa na Aldeia é o primeiro filme de Jacques Tati (1949). Com a festa, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. As pessoas mergulham numa metamorfose efémera. O carteiro é, neste filme, um caso extremo. Ludibriado por dois malandros, com a cumplicidade dos conterrâneos, o carteiro persegue a ilusão de ser carteiro à americana, num filme pautado pela diversidade de tempos e de ritmos sociais.
Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.
Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…
Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.
Entre o Céu e a Terra

Hoje, sexta, vou fazer uma comunicação em Cabeceiras de Basto. Volvidos dez anos de um estudo, regresso à abordagem de quatro festas locais: Santa Senhorinha, São Bartolomeu de Cavez, São Sebastião das Papas e São Tiago das Bichas. Regresso, mas não repito. Prevejo uma conversa literária. Proponho-me imaginar imaginários. Receio falar pouco das festas e muito doutros assuntos. Vou falar demasiado e abusar das imagens. Noite de sexta-feira 13! Entre o Céu e o Inferno.
Apresentação de dois livros: Festas de São João de Sobrado / Mosteiro de Tibães
Sexta, dia 15 de março de 2024, pelas 21H00 no Centro de Documentação da Bugiada e Mouriscada, em Sobrado, Valongo, decorrerá a apresentação do livro “São João De Sobrado: A Festa da Bugiada e Mouriscada”, da autoria de Rita Ribeiro, Manuel Pinto, Albertino Gonçalves, Alberto Fernandes, Luís Cunha e Luís António Santos. Os promotores são a Comissão de Festas do São João de Sobrado 2017 e a Associação São João de Sobrado.

Sábado, dia 16 de março de 2024, às 15 h, na Sala do Capítulo do Mosteiro de Tibães, decorrerá, promovida pelo Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães, GAMT, a apresentação do livro “Para uma interpretação do mosteiro: Tibães do espaço à vivência, da materialidade à simbólica”. A publicação será apresentada pelo Professor José Carlos Miranda, da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (UCP – Braga).

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Existem anúncios publicitários que se estranha como o anúncio Mi Gran Noche, da J&B. Não sei se depois também se entranham como a coca-cola do anúncio da autoria de Fernando Pessoa. Acerca da não publicação deste anúncio e da interdição da bebida em Portugal, consultar o artigo Primeiro estranha-se, depois entranha-se, da Quali.pt.
Imagem: Júlio Pomar. Fernando Pessoa. 1983
Serão e Noite dos Medos em Melgaço – 20 e 28 de outubro
No mês de outubro, em Melgaço, a noite é dos medos. Na próxima sexta, dia 20, ocorre uma nova sessão, a segunda, dos Serões dos Medos, numa cozinha antiga de uma casa incrível mas acolhedora de que sou uma espécie de anfitrião. No sábado, dia 28, será a noite propriamente dita dos medos: uma dramatização coletiva fabulosa pelas ruas e no castelo. É de aproveitar, que só acontece uma vez por ano, num tempo de comunhão entre mortos e vivos. Para ver o programa, carregar na imagem do cartaz ou no seguinte link: https://www.cm-melgaco.pt/noite-dos-medos/.

A principal referência de comunhão entre os vivos e os mortos é a celebração mexicana da Santa Muerte e do Día de Muertos, em que os falecidos regressam para visitar os familiares e os amigos vivos. Entre as muitas canções relacionadas, selecionei três , todas de 2022, para pré-aquecimento das noites de Melgaço: La Bruja, La Martiniana; e La Sandunga.
Comparsas

Simplesmente diferentes, incondicionais da cerveja Borsodi, paladinos da frescura alheios à boçalidade alheia.
Aproveito para sugerir a visita a dois artigos: Quando o vigiado se torna vigilante e Albert Camus: sinónimo de liberdade.
Queima-santos

Ontem à noite vi o filme Diamantino (2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, que uma colega amiga, a Isabel Macedo, teve a gentileza de me proporcionar. Mais um caso em que o humor e a fantasia se insinuam como via de acesso à realidade! Quase premonitório.
No rescaldo do Mundial de Katar, surpreendi-me a cogitar sobre o poder do pontapé. Um único pontapé é capaz de consagrar ou humilhar, de promover um jogador, ou uma equipa, a herói divino ou reduzi-lo a figurante desgraçado. No Mundial, foram muitos, demasiados, os jogos decididos por desempate por grandes penalidades. Até a final! Manifesta-se assombroso o alcance planetário de um simples pontapé! Pontapé na bola; pontapé no mundo! Resulta resplendor ou apagamento, anjo ou besta. Fenómeno pouco lógico, porventura mágico-religioso. Em verdade vos digo, a sensatez humana não vale um tostão.
Eutirox é um medicamento incómodo. Tomado de manhã em jejum, convém aguardar meia hora até ao pequeno almoço. No intervalo, acontece recostar-me a ouvir música e voltar a adormecer. Momento propício a sonhos que o acordar costuma recordar.
Hoje, em sonho, regressei à infância, irritado com a nomeada de queima-santos atribuída aos residentes de Prado (São Lourenço), minha terra natal. Desviado o olhar para o mapa, os limites da freguesia começam a expandir-se até coincidir com o País, Portugal (Santa Maria), agora travestido de “mátria” de queima-santos! Novo salto até à Alumiada a S. Tomé, na freguesia de Penso, em Melgaço. Fachos de palha de centeio incendeiam a noite (ver vídeo 3). Os participantes acabam por se juntar numa fogueira colossal (vídeo). Mas, em vez de São Tomé, aparecem São Cristiano e São Fernando, consumidos pelas chamas como o boneco, também de palha, do “entroido” de Castro Laboreiro. Tomados por uma fé avessa a falhas (pecados? traições?), atentos aos profetas da comunicação social, os queima-santos sentam-se à volta da fogueira, à espera de novas epifanias, novos êxtases e novas santificações.
Acordei envergonhado com o meu subconsciente.
Há vinte anos escrevi um artigo dedicado ao futebol. Desde então muita água correu; o texto permaneceu enxuto. Permito-me recolocá-lo.

