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Do avesso

Assembly Anchor

Promover o leite deste jeito é, no mínimo, original. Um vídeo intertextual com imagem a preto e branco. Às vezes, parece arte. E para namorar a arte, é preciso talento.

Marca: Anchor. Título : Inside-out. Agência : Colenso BBDO (Auckland). Nova Zelândia, Abril 2017.

Riscos e rabiscos

Pompeia

Pompeia

A publicidade, por vezes, satura. O acordo ortográfico, também. Boa parte dos anúncios soam a evangelho. Uma pessoa equilibrada mandava os anúncios, por exemplo, para a ERC, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, e dedicava-se à leitura, à conversa, aos amigos, ao passeio, ao exercício físico. Mas é próprio de um aselha esmerar-se. Se a publicidade actual dá náuseas, demanda a antiga. A publicidade muda de ano para ano. Nessa vertigem, só é ultrapassada pelos tacões e pela barba. Tal como a moda, a publicidade tem ondas: ora slow motion, ora legos, ora mutantes, ora ciborgues. Encantaram-me dois anúncios cheios de grotescos e arabescos: linhas e contracurvas que desenham figuras efémeras. Tão leves, tão lindos! O primeiro, Kolibri, é de 2006; o segundo, Fantasia, de 2007.

Marca: Motley Bird. Título: Kolibri. Agência: Psyop. USA, 2006.

Marca: Gustav Paulig. Título: Fantasia. Agência: Sec & Grey Finland. Finlândia, 2007.

O espírito do surf

Corona The Flow

Em modalidades como o surf, “os desportistas controlam aparelhagens leves e flexíveis gerindo, em equilíbrio instável, as informações provenientes do ambiente (água e vento) de feição a retirar, não pela força mas graças aos reflexos e ao domínio técnico, o melhor proveito da situação” (Gonçalves, Albertino, Vertigens: Para uma sociologia da perversidade). É comum afirmar-se que em desportos como o surf o adversário é a natureza. Duvido. O surfista não joga contra a natureza; joga com a natureza, sua parceira. O surf é um desporto informacional e ecológico. Mas subsistem outros saltos no raciocínio. Encarar, por exemplo, o surf como uma experiência cósmica e quase sagrada, e a sua prática como uma espécie de oração. Proliferam as páginas da Internet que associam o surf ao sagrado. Dorian Paskowitz, surfista, médico, falecido em 2014, uma referência do surf, confirma:

“O surf é algo muito especial. Sei que cada um de vós tem uma ideia do surf – e está correto -, mas à medida que vão envelhecendo vão perceber que há algo de mágico no surf, e misterioso. É do sol que vem a energia para fazer o vento, o vento faz as ondas e nós só precisamos de surfá-las. É como surfar o sol, somos filhos das estrelas. É quase sagrado (…) É preciso o melhor de cada um de vocês. Têm de tomar conta da vossa saúde, amizades, responsabilidades. Surfar é uma prece, é a nossa forma de rezar” (Surftotal – Dorian Paskowitz: https://vimeo.com/110658972).

Acredito que muitos surfistas se reconhecem nas palavras de Dorian Paskowitz. Ao cósmico e ao quase sagrado (almost holy), convém acrescentar a estética. Estética de quem pratica e estética de quem observa. O surf é arte e espectáculo.

Edu Petta

Edu Petta. Uluwatu. Bali. Indonésia.

O anúncio Flow, da Corona, convoca estas vertentes do surf, desde a primeira onda do surfista até à comunhão final. O anúncio absorve estes traços, reais ou imaginados, envolve-os em emoção e beleza, de modo a dar corpo ao espírito do surf e, por extensão, da cerveja Corona. Se tal existe, deve ser isto a sobriedade eloquente.

Dedico este artigo ao Edu Petta, um aficionado do surf e um nómada à escala planetária. Sempre com a câmara fotográfica e a prancha na mão.

Marca: Corona. Título: Flow. Agência: Wieden + Kennedy Amsterdam. Holanda, Maio 2016.

The Memorable Doc Dorian Paskowitz. Surftotal TV.

Dvein: Imaginar a Moda

Dorna. Purity.

“Formed in Barcelona in 2007, Dvein is a collaborative collective that pushes the limits of live action and CGI storytelling, helmed by creative directors Teo Guillem and Carlos Pardo. With a background in fine art and design, the collective merges the physical with the digital world to craft sleek visual effects infused with their own distinctive, organic aesthetic. With an experimental, design-driven culture at its core, Dvein combine live action with animation to pursue a unique visual language in all their work across cinema, broadcast, music video, art and installation” (http://www.dvein.com/info/about).

Admiro o trabalho, extenso, dos Dvein. O que mais impressiona é a construção, tecnicamente apurada, de objectos e imagens disformes em compulsiva mutação. Omar Calabrese diria “monstruosidades”.

Estes três vídeos são dedicados à moda.

O primeiro, Factory, para Jean Paul Gaultier, estreado em Janeiro de 2016, comporta uma negociação entre estilos: dos Dvein e de Jean Paul Gaultier. Inovar na tradição, eis a questão.

Marca: Jean Paul Gaultier. Título; Factory. Agência: Melle nöi. Direcção: Dvein. França, Janeiro 2026.

O segundo, o anúncio Purity, para a Dorna, presta-se mais ao jeito dos Dvein, mormente a apetência pela estetização de fluídos.

Marca: Dorna. Título: Purity. Agência: Ogilvy Frankfurt. Direcção: Dvein. 2015.

O terceiro vídeo regista uma projecção de hologramas durante um desfile da Diesel (Liquid Space). O final com a imagem a entrar na garrafa é genial.

Dvein. Diesel’s Liquid Space fashion show. Florença. 2007.

Regressaremos noutros artigos à obra dos Dvein.

Mais do mesmo

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

O meu país tem uma sensibilidade estética crónica. Gosta do mesmo. Não é propenso a vanguardas, margens ou subterrâneos. O mesmo clube de futebol, na vitória e na derrota. O mesmo partido político, seja vinagre, seja vinho. Em quarenta anos de democracia, os resultados eleitorais pouco mudaram, exceptuando as legislativas de 1985, marcadas pela estreia do PRD, bolha de pouca dura. Há famílias que peregrinam todos os anos a Fátima. Cumprem o destino, a promessa e a penitência. O bolo-rei mudou de nome, mas manteve, desde o Império Romano, a fava. Ciclicamente, calha-nos a fava e emigramos em massa. Até a caricatura do povo permanece, há mais de um século, intacta: homem, rude, sofrido, com a albarda pronta para qualquer traseiro de elite. Em abono da verdade, pertenço a um povo de que os estrangeiros gostam muito.

Flor&Cultura

“C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui rend ta rose importante” (Saint-Exupéry. Le Petit Prince.1943).

maxresdefaultFlower. ps3.

Com ou sem fumo, há sinais de criatividade no mundo digital. Os videojogos são a meca da originalidade. Há jogos para todos os gostos e para todos os sonhos. Por exemplo, o Flower, desenvolvido, em 2009, pela Thatgamecompany para a Playstation 3.

Rene Magritte (1838-1967) L'invitation au voyage, 1961

R. Magritte. L’invitation au voyage, 1961

Salvador Dali. Meditative Rose, 1958

S. Dali. Meditative Rose, 1958

O Davide elegeu este videojogo para o trabalho da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura:
“Para quem está familiarizado com videojogos, mesmo ao nível mais básico, este trailer pode parecer bastante confuso. Se neste momento pedisse a você leitor, para simplesmente pensar em qualquer videojogo, imaginaria você uma temática onde se utiliza o vento para colher pétalas de flores, e revitalizar espaços verdes? Pois essa é a proposta de Flower. Kellee Santiago, a presidente de Thatgamecompany, descreve o jogo como:

“…a videogame  version of a poem. I think asks something different of the player.” (Playstation, 2009)” (Davide Gravato, Flower – Uma poesia interactiva: https://comartecultura.wordpress.com/2015/04/23/flower-uma-poesia-interativa/)”.

O videojogo Flower é sweet, com aroma a flower power. A música (Catch the Wind, 1965), também. Nos antípodas do movimento Punk, Donovan é o compositor e cantor apropriado.

Playstation 3. Flower. Trailer. 2009.

Sede

Ya juiceUma estética de sonho. Lembra Bruno Aveillan. A realizadora, Karina Taira, trabalha para a mesma agência de produção: QUAD. É bom sonhar com sumo de cereja se o pudermos beber ao acordar. “É escusado sonhar que se bebe; quando a sede aperta, é preciso acordar para beber” (Sigmund Freud).

Marca: Ya Juice. BBDO Moscow.Direcção: Karina Taira. Rússia 2012

Doenças raras

Dompé

Costumo ser céptico face à publicidade de consciencialização que se dá ares de apostolado do bem. Este anúncio da empresa farmacêutica Dompé é um caso à parte. Nem grandes causas, nem grandes públicos, nos antípodas dos exorcismos do tabaco, da droga ou do álcool, dos horrores dos acidentes rodoviários, das comiserações da exclusão social, das virtudes da contracepção ou das cruzadas para a salvação do planeta. Este anúncio alerta para uma realidade ínfima: doenças raras descuidadas, eventualmente, sem cura. Mas o anúncio é magnífico. Um hino à vida. Um corpo masculino, despojado, verdadeiro traço-de-união cósmico, relembra as potencialidades do nu masculino na comunicação estética. O anúncio despede-se de um modo notável. Estamos mais que habituados a inversões finais. Mas esta, para além de inesperada, é abrupta. Uma dobra suspensa no abismo da indiferença. “Ser um animal, e raro, é importante. Mas eu sou apenas um homem, com uma doença rara e ser raro como eu significa ser ignorado”.

Marca: Dompé. Título: The Rarest Ones. Agência: Saatchi & Saatchi Italia – Roma. Direção: Roberto Saku Cinardi. Itália, Fevereiro 2015.

Adamastor

Vitamin wellÉ tempo de recarregar, é tempo de ressurgir. Em câmara ultra lenta. Um belíssimo efeito. O recarregado é o futebolista Zlatan Ibrahimovic. É bizarro, mas esta figura vagarosamente emergente recorda-me o Adamastor.

Marca: Vitamin Well. Título: It’s time to reload. Agência:  Acne. Suécia, Janeiro 2015.

A Última Ceia

Andy Warhol. Last Supper.

Andy Warhol. Last Supper.

Vários autores espanhóis retocam A Última Ceia, de Leonardo da Vinci: Luís Buñuel (ver A ceia dos pobres ), Salvador Dali e, agora, Manuel Portillo, director do anúncio Amen, para os óculos Hawkers. A Última Ceia consta entre as obras de arte mais parodiadas de sempre. Rivaliza com A Gioconda e com O Juízo Final, de Michelangelo. A título de divertimento, seleccionei, de entre centenas, algumas versões de A Última Ceia, desde Andy Warhol até ao último restauro devoto artesanal. Um anúncio ousado e irreverente, com ambição estética, a condizer com a imagem da marca.

Marca: Hawkers. Título: Amen. Agência: Ontwice. Direcção: Manuel Portillo. Espanha, Dezembro 2014.