Agarrar o vento e sentar-se ao sol

Cativar o sol e o vento é arte antiga. Arquimedes engenhou, durante o cerco romano a Siracusa, um espelho côncavo cujos raios solares incendiaram os barcos inimigos. O vento soprava nas velas romanas e o sol grego queimava os cascos.
O anúncio The Collectors, da Energy Upgrade California, propõe múltiplas formas, efetivas ou poéticas, de capturar o vento e o sol. Brilhante e original. Belas imagens, bom ritmo, boa música. Um oásis de prazer nas dunas da Internet! Sejam louvadas as energias eólica e solar!
As moscas e os pescoços de borracha

Em convalescença, rendo-me ao apelo da televisão. Uma massagem à cabeça! Afigura-se-me que embarco num país de moscas, moscas que zumbem, pousam e remexem nos “assuntos”. Somos um país de moscas? Quero acreditar que não. Por um lado, Portugal não cabe no ecrã. Há muito País para além do ecrã. Por outro lado, a minha medicação pode provocar alucinações. O ecrã das moscas é, provavelmente, um delírio pessoal. Acresce que a leitura dos media requer literacia. No que respeita à televisão, faltam-me as skills necessárias. Sou incompetente em moscas e em televisão. Os pescoços de borracha (rubberneckers) são moscas especializadas em mapear a informação. Seguem duas músicas: Rubberneckin’, de Elvis Presley; e Rubbernecker, de Murray Head. Duas relíquias. As cirurgias têm efeitos insólitos. Uns ficam doridos, outros combalidos, outros mimados, eu torno-me bilioso. Uma mosca execrável que não despega do ecrã. Dêem-me um desconto.
Um milhão de visualizações
As recordações são as nossas forças (Victor Hugo).

Existem números e números. Por exemplo, os números redondos, especialmente aqueles que coincidem com o acréscimo de um dígito: uma dezena, uma centena, um milhar, um milhão… Mas existem outros. Alguns parecem deter uma espécie de hegemonia simbólica. Por exemplo, o número três. Afirma-se decisivo na visão tripartida do mundo dos indo-europeus (Georges Dumézil. 1968. Mythe et épopée – L’Idéologie des trois fonctions dans les épopées des peuples Indo-européens. Paris: Gallimard ). Georg Simmel sustenta que a tríade representa, mais do que a díade, a equação efetiva da sociedade (Soziologie, 1908). Destaco a Santíssima Trindade, as três ordens feudais, os três poderes da organização política, os três porquinhos, os três mosqueteiros que, afinal, eram quatro… Enfim, a conta que Deus fez.
Mas regressemos aos números redondos. O Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar um milhão de visualizações. A comemoração é arbitrária. Certo é que esperei uma década por este momento. Vou colocar os Queen, abrir uma cerveja e acender um cigarro. E agradecer as visitas.

Um milhão (1 000 028) de visualizações; 331 670 visitas. Três visualizações por visita. Cinco países concentram mais de quatro quintos (83%) das visualizações: Brasil, 40%; Portugal, 24%; Estados-Unidos, 8%; Espanha, 7%; e França, 4% (ver Tabela 1). Mas a componente mais excessiva do Tendências do Imaginário reside nos artigos: 3 267. Quase um artigo por dia (0.95). No topo das visualizações, destacam-se, curiosamente, os mais extensos e densos, porventura, os mais originais (ver tabela 2).

O que começou como capricho transformou-se num vício. Nos últimos dez anos, artigo a artigo, o Tendências do Imaginário tornou-se o blogue do meu envelhecimento. O inverno do meu ensimesmamento.
Escrever no Tendências do Imaginário é uma experiência estranha, senão perversa: o autor escreve para centenas de pessoas que, literalmente, desconhece. Uma massa incógnita. A tentação é de o escritor e o leitor se confundirem, com a mediação numérica e abstrata do “público”. Um excesso de solidão e de reflexividade. Um excesso de ilusão. Eremitério digital.
Podia escolher um anúncio, um vídeo ou uma imagem marcante do Tendências do Imaginário para assinalar o momento. Interessa, porém, prosseguir caminho, embora com os olhos no retrovisor. Acender velas na memória. A vela de hoje é Judy Collins. Duas canções: Send in the clowns e, com Leonard Cohen, Suzanne. Nem tudo são rosas: o pai de Judy Collins era cego e o filho único suicidou-se. Acendo velas na memória, com os olhos cansados, cansados do fogo-de-artifício pós-moderno. Vou festejar! Com o rato, o teclado e o caixote do lixo. Uma orgia biomecanóide.
Descubra as diferenças

O mundo e o seu mistério nunca se refazem, não existe modelo que baste copiar (René Magritte).
Saiu um anúncio com a assinatura de Dan Brown: No Less Lethal, da Rubber Bullets. Balas perfuram e destroem vários objetos. Praticamente o mesmo perfil que um anúncio de 2007: Stop the bullet Kill the gun, da Choice FM. Descubra as diferenças.
Com o coração

Gosto da Lizz Wright, em particular do álbum The Orchard (2008).Um dos álbuns “recentes” que mais me cativou. Interpretações ao vivo impecáveis. O Tendências do Imaginário já contempla duas canções, por sinal, as mais populares, Coming Home e I Idolize You (https://tendimag.com/2016/08/16/greve-da-escrita/). Seguem mais duas: Speak Your Heart e Hit The Ground.
Pomplamoose e Django Reinhardt

Pomplamoose é um grupo musical, um duo elástico, norte-americano. Publicou músicas próprias mas também cover, com arranjos e interpretações notáveis. A música Les Yeux Noirs inspira-se na música homónima (1940) de Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano pioneiro do estilo Gipsy Jazz. Segue a reinterpretação dos Pomplamoose e o original de Django Reinhardt.
Sem máscara

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.
O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.
Não sei que fazer de mim

Vamos mudar de disco. Para uma banda norte-americana composta por duas pessoas: a baterista, Meg White, e o resto, Jack White. São os The White Stripes. Segue a canção, ao vivo, I Just Dont Know What To Do With Myself.
A pátria dos super-heróis

O Egipto é terra de faraós; a China, de imperadores; o Japão, de samurais; a Grécia, de deuses; a Escandinávia, de vikings; Portugal, de descobridores. E os Estados-Unidos? Os Estados-Unidos são terra de super-heróis. Da Marvel, de Hollywood, do desporto ou de outro domínio que se proporcione. Os Estados-Unidos são um manancial de super-heróis, manancial que transborda para o mundo. A publicidade da Nike destaca-se como uma forja internacional de super-heróis. O presente anúncio, da Nike China, consiste numa homenagem a Kobe, uma estrela do basquetebol norte-americano, falecido num acidente de helicóptero.
Os Punk e as aulas não presenciais

Este semestre dou aulas por teleconferência. Sou uma imagem digital. Os alunos moram algures do outro lado do ecrã. Não ligam as câmaras. Televisão versus rádio. É este o retorno. A participação dos alunos é mínima. Exceto no intervalo. Digo disparates e eles verdades. Recomeçada a aula, arrefece a comunicação. Para a próxima, a aula vai ser toda um intervalo.
Hoje, durante a aula, abordámos o imaginário grotesco. Deu-se o exemplo dos punk. Lembrei-me da banda The Offspring. Seguem três vídeos. O segundo é um caso sério de grotesco.
