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Ressurreição digital

Joaquin Oliver, de origem venezuelana, foi uma das dezassete vítimas de um tiroteio indiscriminado numa escola de Parkland, na Florida, em 2018 Tinha 17 anos de idade. A campanha The Unfinished Votes é apoiada pela Change the Ref, instituição que “visa formar futuros líderes, facultando aos jovens as ferramentas de que necessitam para introduzir mudanças em questões críticas que afetam a nação, por meio de educação, conversação e ativismo”. No anúncio, aparecem os pais de Joaquin Oliver, bem como o próprio Joaquin, regressado à vida por artes digitais. Criticam a política relativa às armas e apelam ao voto.

Estranho, muito estranho. Nenhum anúncio me provocou tamanha estranheza.

Anunciante: Change the Ref. Título: Unfinished Votes. Agência: McCann Health NY / Lightfarm Studios. Estados-Unidos, Outubro 2020.

ADN e relações internacionais

México. Fronteira. Muro.

Como sublinhava Claude Lévi-Strauss (L’Identité, 1977), a identidade forja-se face aos outros. Frequentemente, é conflitual (Georges Balandier, Sens et Puissance, 1971). A relação entre o México e os Estados-Unidos tem sido problemática. Os anúncios da AeroMexico comprovam-no. Quando os teus vizinhos são preconceituosos, aproxima-os e dá-lhes um desconto (vídeo1). Quando são uma ameaça, firma posição e denuncia (vídeo 2). Dois anúncios geniais.

Marca: AeroMexico. Título: “Descuentos de ADN, no hay fronteras entre nosotros”. Agência: Ogilvy Colombia y Ogilvy México. México, Janeiro 2019.
Marca: AeroMexico. Título: Fronteras. Agência: Ogilvy & Mather Mexico. Edição: David Arruga. México, 2016.

O luxo do subterrâneo

Janis Joplin.

Uma realidade puxa outra, que entra sem pedir licença. A associação espontânea é um dos processos mentais que menos controlamos. Ana Popovic lembrou-me Janis Joplin. Por quê? À partida, não sei. Talvez o blues feminino. Talvez a raiva de cantar. Não sei! Lembrou, e isso é que interessa. Não se trata de uma comparação. É uma centelha na bonança. Um relâmpago de sentido. Tudo me lembra alguma coisa. O luxo do subterrâneo.

Janis Joplin. Ball and Chain. Cheap Thrills. 1968. Ao vivo em Monterey (1968).

Por outro lado

Red Hot Chili Peppers. Otherside. 1999.

Ando há cinco meses com uma espécie de rinite. As ideias não saem arejadas. De tromboflebite em tromboflebite, também não têm pernas para andar. Com as ideias entupidas e sentadas, pasta-se e pasma-se na memória. O vídeo musical Otherside, dos Red Hot Chili Peppers, é fantástico. Selecionei-o para projeção na exposição Vertigens do Barroco, que teve lugar em 2007 no Mosteiro de Tibães (ver https://tendimag.com/2015/06/10/vertigens-do-barroco/). O vídeo Otherside ultrapassa 500 milhões de visualizações na Internet! Não resisto a estender os outros lugares ao Break On Through (To The Other Side), dos The Doors.

Red Hot Chili Peppers. The Otherside. Californication, 1999.
The Doors. Break On Through (To The Other Side. The Doors. 1967. [Recuperado em 02.10.2026]

Dividir o ecrã, aproximar os contrários

Nike. You can’t stop us. 2020.

John Ferreira, amigo de juventude, envia-me o anúncio You can’t stop us, da Nike (vídeo 1). Um split screen impecável, com um enorme sucesso. A marca Nike e a agência Wieden + kennedy costumam rondar a perfeição. Têm um quase nada que produz um não sei quê ofuscante. Proclama-se, por exemplo, que “o anúncio da Nike une os contrários”. Nos outros anúncios congéneres são os contrários que se unem? Lembro um anúncio muito expressivo que culmina com a interposição de um braço para defesa de uma bola. Está algures no Tendências do Imaginário, mas não o encontro. Em 2007, já se faziam anúncios com split screen. É o caso do anúncio francês Double Energie, da Total (vídeo 2). Noutro domínio, o vídeo musical Go Up, de Cassius, com direcção de Alex Courtès, revela-se, porventura, mais ousado e mais criativo (vídeo 3). Nenhum destes vídeos atingirá os 58 milhões de visualizações entretanto ultrapassados pelo anúncio da Nike. Às vezes, parece que quando há fogo-de-artifício hegemónico, o resto do mundo pode apagar-se.

Marca: Nike. Título: You can’t stop us. Agência: Wieden + Kennedy. Estados-Unidos, Setembro 2020. [Recuperado em 27.09.2026]

Marca: Total. Título: Double énergie. França, 2007.
Cassius – Go Up (com Pharrell Williams e Cat Power), 2016. Direção: Alexandre Courtès. [Recuperado em 27.09.2026]

Sem salvação

Em tempo de epidemia, as empresas sofrem. O anúncio Survive, do facebook, é um requiem ao Coogan’s, pub irlandês da Broadway (ver acima carta de despedida). Um pub acolhedor, que lembra o bar da série Cheers (ver vídeo 2). O facebook encara a falência do Coogan’s como uma perda coletiva, expressa num memorial de três minutos e meio. O facebook parece estar de luto.

Marca: Facebook. Título: Survive – Coogan’s. Agência: Droga 5, New York. Direção: Miles Jay. Estados-Unidos, Setembro 2020. [Recuperado em 23.09.2026]
Intro song to the tv show Cheers ( 1983-1992); Where everybody knows your name, by Gary Portnoy (1982).

Masculinidades. Toxicidades.

O homem oscila entre o mole e o duro, percorrendo toda a escala de Mohs. Depende dos momentos e das perspectivas. Os anúncios We Believe: The Best Men Can Be, da Gillette, e What is a man? A response to Gillette, da Egard Watches, constituem casos ilustrativos. O primeiro compraz-se com o lado negativo do homem, o segundo, com o lado positivo. Que lhes preste! Afigura-se-me que a ambos falta ironia, a faculdade de estar dentro e de estar fora, de falar sabendo que se pode estar calado.

Marca: Gillette. Título: We Believe: The Best Men Can Be. Estados-Unidos, Janeiro 2019.
Marca: Egard Watches. Título: What is a man? A response to Gillette. Estados-Unidos, Janeiro 2019.

Magia e exuberância

Phtoshop. 2020.

Várias camadas, com muitas cores e feitios, mais movimento, arabescos, metamorfoses e fantasias. O mundo esplendoroso do Phtoshop.

Marca: Adobe/Photoshop. Título: Take a fantastic voyage with Photoshop. Agência: 72andSunny, Los Angeles. Direcção: Bardou-Jacquet. Estados-Unidos, Agosto 2020.

Wilco, de Chicago

Wilco é um grupo rock alternativo de Chicago. Ganhou dois Grammy Awards pelo álbum A Ghost is Born (1994). Lembram os Spain (ver https://tendimag.com/2012/02/05/spain-im-still-free/). Ouvi Wilco todo o dia. Duvido, porém, que a selecção das canções seja a melhor.

Wilco. Before us. Ode to joy. 2019.
Wilco. How to fight loneliness. Summerteeth. 1999.
Wilco – At Least That’s What You Said. A ghost is born. 1994. Ao vivo em Barcelona em 2014.

Pelo lado de fora

Pintura japonesa

Guardo as músicas de que gosto numa pasta chamada “À espera”. Algumas esperam décadas. É o caso da canção Walk on the Wild Side, de Lou Reed, que dedico ao meu rapaz mais novo.

Lou Reed. Walk on the Wild Side. Transformer. 1972.