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“A (re)construção da figura do emigrante”

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José Malhoa. O emigrante. 1918.

O jornal Público de hoje (05.03.2017; online 04.03.2017) inclui o artigo “A (re)construção da figura do emigrante”, da autoria de Ana Cristina Pereira. Também estou na fotografia. Ninguém como a Ana Cristina Pereira para nos estimular a falar. É uma jornalista amiga do tempo. As coisas acontecem quando estão prontas para acontecer. Mais do que discorrer sobre pessoas, gosta de aprender com as pessoas, de as sentir no mundo. O resultado traduz-se em livros e artigos inconfundíveis.

Para aceder ao artigo, carregar no seguinte endereço: https://www.publico.pt/2017/03/04/sociedade/noticia/a-re-construcao-da-figura-do-emigrante-1763881.

 

Querido mês de Agosto

Emigrantes portugueses no alojamento, em França. Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Emigrantes portugueses no alojamento, em França. Espaço Memória e Fronteira. Melgaço. O rádio, o vinho e as cartas pornográficas: uma trilogia lúdica.

O querido mês de Agosto, ponto alto do ciclo anual da emigração, está a terminar; apertam-se corações (ver Maria da Conceição Gonçalves, Em busca do berço perdido, dissertação de mestrado em Sociologia, Universidade do Minho, 2002). Os emigrantes em França, dos anos sessenta e setenta, apreciavam ouvir música. Era uma fonte importante de prazer. Quase todos possuíam um gira-discos ou um rádio. Nos anos setenta, um banco português promoveu em França uma campanha de sucesso que consistiu em oferecer aos clientes um disco de 45 rotações.

Compilei oito canções dos anos sessenta. Canções populares, ao gosto dos franceses e dos emigrantes.

Adamo. Tombe la neige. 1963.

Allain Barrière. Elle était si jolie. 1963.

Charles Aznavour. La bohême. 1965.

Christophe. Aline. 1965.

Claude-François. Comme d’habitude. 1967.

Françoise Hardi. Tous les garçons et les filles. 1962.

Hervé Villard. Capri c’est fini. 1966.

Hugues Aufray. Céline. 1966.

 

 

A Emigração e os Mistérios do Macabro

György Ligeti.

György Ligeti.

A Marta enviou, para me animar, esta interpretação, pela soprano canadiana Barbara Hannigan, da obra Mysteries of the Macabre, do húngaro Györgi Ligeti (1974–77, edição revista de 1996). Música inspirada no macabro é uma tentação. Se for música contemporânea, maior o pecado. Admiro a competência desenvolta e a excelência jovial. Atributos que países com pouca terra e muito mar se esquecem de cultivar, pescam. Com Barbara Hannigan e a Orquestra Sinfónica de Londres, tudo parece fácil.

Barbara Hannigan

Barbara Hannigan.

Há sinais de que as universidades estão a sintonizar-se com o mercado de emprego. Mercado internacional, naturalmente. Não devem, porém, ignorar o próprio mercado. Não só atender aos alunos que “coloca”, mas também aos alunos que “recruta”. Importa, quando existe, não esquecer a vocação: o ensino superior. Há tendências preocupantes. Por exemplo, a proporção de pessoas formadas em música e nas artes que demandam o estrangeiro, para aprofundar, complementar ou especializar a formação e a carreira. E para trabalhar, também.

A Marta é uma actriz de teatro com um currículo notável. Exportou-se, o ano passado, para Londres. Há países que enxofram, adubam e enterram os talentos como se fossem batatas, na expectativa de que nasçam, algures, aos magotes, profissionais virtuosos, empreendedores exemplares e símbolos nacionais. A exportação de portugueses comporta vantagens e inconvenientes. Paradoxalmente, muitos fazem falta no País. Às vezes, ocorre-me que um país sem almas é o resultado de um país sem alma. Graças a Deus, temos muitas alminhas. Andamos com uma lanterna à procura, mas não é do homem. E acomodamo-nos! Tanto e tão depressa que não chega a ser “dor a dor que deveras (se) sente.”

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

LigetiGyörgy Ligeti. Mysteries of the Macabre. 2015.

Imagens e Clivagens

Imagens e ClivagensO livro Imagens e Clivagens – Os Residentes face aos Emigrantes foi publicado, pela Afrontamento, em 1996. Há quase vinte anos. Esqueço-me dele, como, aliás, dos outros, mas tenho-lhe profundo respeito. Foi um bico de obra, como mais nenhum. Empenhado em sustentar o seguinte pensamento de Jean-Paul Richter (1763-1825): “O homem não revela melhor o seu próprio carácter do que ao descrever o carácter do outro” (Jean-Paul Richter, 1763-1825).

Disponibilizo estes excertos,sobretudo, para acesso por parte dos alunos. A paginação do capítulo 8 deixa a desejar.

Imagens e clivagens. Índice
Imagens e clivagens. Introdução
Imagens e clivagens. Capítulo 8
Imagens e Clivagens. Quadro LXI

Emigrar

Emigrantes portugueses no alojamento, em França. Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Emigrantes portugueses no alojamento, em França. Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Não evoluo, vindimo os anos. Pasmo, como o rei Filipe II de Portugal, na sátira de Gonzalo Torrente Ballester. Basta comparar dois pequenos textos sobre a emigração, um publicado em 1991 (“Uma vida entre parênteses. Tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”, Cadernos do Noroeste, vol. 4 (6-7), 1991, pp. 147-158) e o outro publicado este verão (“A viagem do silêncio: o salto” in Filmes do Homem 2015. Festival Internacional de Documentários de Melgaço, Ao Norte/Câmara Municipal de Melgaço, 2015, pp. 14-17). Qual rasga a realidade e qual a enrola? Segue a ligação em pdf:

A. Gonçalves. Uma vida entre Parênteses.
A. Gonçalves. A Viagem do Silêncio.

O assunto que realmente motiva este artigo é a canção Manolo Mio, da Brigada Victor Jara, grupo fundado em Coimbra, no ano de 1975. Também versa sobre a emigração. A cantar também se aprende. Lembro-me de comprar o álbum (Eito Fora, 1977) numa cooperativa (creio eu) junto à Fonte dos Leões, no Porto. Vamos ouvir!

Brigada Victor Jara. Manolo Mio. Eito Fora. 1977.

Mais do mesmo

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

O meu país tem uma sensibilidade estética crónica. Gosta do mesmo. Não é propenso a vanguardas, margens ou subterrâneos. O mesmo clube de futebol, na vitória e na derrota. O mesmo partido político, seja vinagre, seja vinho. Em quarenta anos de democracia, os resultados eleitorais pouco mudaram, exceptuando as legislativas de 1985, marcadas pela estreia do PRD, bolha de pouca dura. Há famílias que peregrinam todos os anos a Fátima. Cumprem o destino, a promessa e a penitência. O bolo-rei mudou de nome, mas manteve, desde o Império Romano, a fava. Ciclicamente, calha-nos a fava e emigramos em massa. Até a caricatura do povo permanece, há mais de um século, intacta: homem, rude, sofrido, com a albarda pronta para qualquer traseiro de elite. Em abono da verdade, pertenço a um povo de que os estrangeiros gostam muito.

Humanidade

O Salto 2

O papel da dor, das decepções e dos pensamentos sombrios não é de nos amargar, de nos fazer perder o nosso valor e a nossa dignidade, mas de nos amadurecer e de nos purificar (Hermann Hesse, Peter Camenzind, 1904).

Tendemos a associar o miserável e o doloroso ao desumano. Não é evidente! A emigração clandestina para França representou uma provação física e moral enorme, o que não impediu gestos de solidariedade e humanidade assinaláveis. Os primeiros tempos em terra alheia foram, frequentemente, marcados pelo desânimo. Nem por isso a humanidade desertou os contentores dos estaleiros (chantiers), os hotéis superlotados ou os bairros da lata (http://tendimag.com/2011/09/07/tina-a-menina-do-bairro-de-lata-de-paris/).

Emigrante a fazer a barba um estaleiro (chantier)

Emigrante a fazer a barba num estaleiro (chantier). Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

É, no entanto, nas ruas da cidade que mais paira a sombra do desencontro e da solidão O emigrante deambula por todo o lado, mas pouco ou nada reconhece; olha para toda a gente, ninguém o vê. Um estranhamento desamparado. Christian de Chalonge filma este sentimento de invisibilidade no filme O Salto (1967).

Uma pausa no trabalho. Diário de um emigrante. Notícia no jornal regional. Painel do Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Uma pausa no trabalho. Diário de um emigrante. Notícia de jornal regional. Painel do Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Não se pense, porém, que a dignidade humana prefere os corredores atapetados do poder aos caminhos enlameados do bairro de lata. A humanidade é uma dádiva. Sem dono, nem lugar cativo, não se decreta, nem se negoceia, acontece.

Vale a pena visitar o Espaço Memória e Fronteira, museu da emigração e do contrabando, em Melgaço.

Os Filmes do Homem e as fotografias de Gérald Bloncourt

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Mencionei num artigo recente (http://tendimag.com/2014/12/18/factor-de-impacto/) a iniciativa Filmes do Homem – Festival de Documentário de Melgaço, dedicada, este ano, à emigração (http://filmesdohomem.pt/), e a exposição Por Uma Vida Melhor, na Casa de Cultura de Melgaço, com 106 fotografias de Gerald Bloncourt (http://www.bloncourt.net/). Ocorreram ambas em Melgaço no mês de Agosto de 2014. Foram, entretanto, disponibilizadas fotografias de ambos os eventos (no Castelo, no Museu do Cinema, na Casa da Cultura de Melgaço, no Espaço Memória e Fronteira e no Auditório da Porta de Lamas de Mouro). A imagem que segue merece um apontamento. Reúne Gérald Bloncourt e Conceição Tina, o fotógrafo e a “menina” fotografada em 1966, no Bairro de St Denis, em Paris (http://tendimag.com/2011/09/07/tina-a-menina-do-bairro-de-lata-de-paris/). Há momentos assim!

Para aceder às fotografias, carregar na imagem.

Gérald Bloncourt e Conceição Tina, a menina da imagem. Melgaço, Agosto 2014.

Gérald Bloncourt e Conceição Tina, a menina da imagem. Melgaço, Agosto 2014.

 

Não são páginas, são vidas

01. Castelo de Castro Laboreiro, indexado monumento nacional em 1944

Castelo de Castro Laboreiro, indexado monumento nacional em 1944

Às vezes, abuso deste blogue. Transformo-o numa ferramenta de e-learning. Seguem, para eventual download, dois artigos:

Emigração e envelhecimento num concelho do Minho Interior(in Migrações: História, Economia e Encontro de Culturas, Actas das Quintas Jornadas de História Local, Câmara Municipal de Fafe, 2004, pp. 61-71);

Envelhecimento e saúde no concelho de Melgaço” (Boletim Cultural, nº4, 2005, Câmara Municipal de Melgaço, pp. 91-104).

Nas aulas de análise de dados, importa frisar que mais importante do que as técnicas são as ideias e os modos. Estes dois artigos ilustram como os resultados se alcançam graças às técnicas, mas também para além delas.

Castelo de Castro Laboreiro. A entrada das alturas é estreita e íngreme

Castelo de Castro Laboreiro. A entrada principal

Ambos os artigos estão associados à implementação da Rede Social no concelho de Melgaço. Contribuíram para a elaboração do Diagnóstico Social e do Plano de Desenvolvimento Social. Foi eleito como eixo principal o envelhecimento. Quem ler os artigos percebe o motivo. Em 2003, foi promovido um inquérito, mediante amostragem aleatória simples, a um quarto da população residente com 60 e mais anos de idade. Foram entrevistadas 866 pessoas. Os resultados, alguns vertidos nestes artigos, concorreram para o desenvolvimento de uma política, financeiramente sustentada, de apoio aos idosos. Uma investigação-acção com consequências positivas. Parafraseando a Rainha Santa Isabel: não são páginas, senhor, são vidas!

Castelo de Castro Laboreiro: As escadas rumo ao topo

Castelo de Castro Laboreiro: Escadas rumo ao topo

Os artigos foram publicados no sítio certo, no momento certo, com alvo certo. O primeiro integrou uma obra coletiva editada pela Câmara Municipal de Fafe. Um pequeno passo na cooperação entre Melgaço e Fafe, concelhos com espaços museológicos dedicados à emigração. Torna-se grato surpreender Melgaço e Fafe a organizar uma exposição conjunta em Viana do Castelo, por ocasião da Comemoração dos 50 anos da Emigração para França, em Novembro de 2011. Acresce a exposição sobre o fotógrafo Gérard Bloncourt, facultada por Fafe, a pretexto do evento Filmes do Homem 2014: Festival de Documentários de Melgaço.

 

Castelo de Castro Laboreiro. Muralha.

Castelo de Castro Laboreiro. Muralha.

Estes artigos têm efeitos que outros que publiquei em revistas indexadas nem sequer sonham! Condizem com aquilo que estimo ser a missão do sociólogo e do professor universitário.

Estes artigos não foram indexados. Se calhar, valia a pena tentar. Os temas prestam-se: envelhecimento, emigração e saúde; e os resultados são minimamente originais. Só faltavam umas sessões para aprender a escrever artigos para revistas indexadas e, naturalmente, um voo de cuco sobre ninhos de excelência. A vida é estranhamente irónica. Os artigos decorrentes da atividade junto das redes sociais locais não foram indexados. Mas eu quase fui. Por causa destas matérias, andei de cadeira em cadeira, incluindo em reuniões da União Europeia.

Castelo de Castro Laboreiro. Deste lado, os locais; do outro, os cosmopolitas .

Castelo de Castro Laboreiro. Deste lado, os locais; do outro, os cosmopolitas .

À luz da nova nomenclatura, estes artigos não prestam. São lixo sem asas. Nada de novo, nem de admirável. Robert K. Merton (1910-2003) é um autor clássico da sociologia. Com ampla projeção internacional, dominou, com Talcott Parsons e Paul Lazarsfeld, a sociologia norte-americana dos anos quarenta e cinquenta. Um dos seus estudos intitula-se “Types of Influentials: The Local and the Cosmopolitan” (Social Theory and Social Structure, 1968, New York, The Free Press, pp. 447-474). O texto tem mais de meio século, mas vem mesmo a calhar. Vale a pena ler, para se rever. Quanto ao resto, que se indexe. Vou mas é subir ao Castelo de Castro Laboreiro.

 

Filmes do Homem – Melgaço

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FILMES DO HOMEM – Festival de Documentário de Melgaço é um evento organizado pela Câmara Municipal de Melgaço e pela Associação AO NORTE. Trata-se de uma iniciativa bem concebida e bem programada, que estreia este fim-de-semana.

Segue o endereço da página do evento (http://filmesdohomem.pt/index.php), bem como do e-book com o catálogo (http://filmesdohomem.pt/doc/Filmes-do-Homem-Ebook.pdf).