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Herdeiros da Noite

Crónica de um País Depenado, 16.10.2011

Ajudar ou assumir. O valor das palavras

Eugène Delacroix – Jeune orpheline au cimetière, ca. 1824
Não me ajudes!, 23.09.2019

Ilusionismo e controlo

Ilustração: Joelle L., in The Camera Panopticon (https://ar.al/notes/the-camera-panopticon/, acedido em 25.07.2026)

Os artigos Jogo viciado e Pós-modernidade vitoriana abordam temas recorrentes no Tendências do Imaginário: o ilusionismo social e a vigilância disciplinar.

O primeiro, algo extenso e denso, incide sobre a eufemização da dominação e das desigualdades sociais. O segundo, mais leve e breve, ilustra a censura pública. Viral, conhecido ou ignorado, o anúncio “Alexandria Morgan run strapless”, da Tom Tom, foi proibido de aparecer na TV. Por uma qualquer conveniência. Não interessa aqui qual. Todas as censuras se justificam para quem as promove e visam poupar danos aos vulneáveis, que nem sequer se dão conta de semelhante zelo. Não recordo, na história da humanidade, de tamanha abrangência, concentração e eficiência de meios de controlo e censura. Tão pouco, tanta exposição e acomodação por parte dos visados. Talvez nos tempos de maior obsessão com o diabo e suas extensões.

Bosque de medíocres

Em bosque de medíocres, resulta difícil a qualidade vingar. Se existe algo de que os incapazes são capazes é secar, derrubar ou queimar qualquer árvore que se distinga.

“El Empleo” (o Emprego) – Curta-metragem de animação com direção de Santiago ‘Bou’ Grasso & Patricio Plaza. Fondo Nacional de la Artes. Argentina, 2008

Azedume

Rafael Bordalo Pinheiro. O dia dos reis. Publicado em O António Maria, em 6 de janeiro de 1881

Não sei como, nem porquê, assombram-me, de repente, o Goya e o Bordalo Pinheiro. Seremos uma espécie de novos avatares do Zé Povinho com a mesma propensão a cavalgaduras? Importa, naturalmente, compreender, mas sem condescender, nem subestimar.

Imagem: Caricatura do Zé Povinho com o rei D. Luís a cavalo em cima dele e Mariano de Carvalho como agulheiro. Litografia de Rafael Bordalo Pinheiro, in António Maria, 9 de Setembro de 1880

Por pouca margem de manobra que tenhamos e bem-intencionados que sejamos, somos responsáveis pelas nossas escolhas e pelos nossos atos. Se, por desventura, acabarmos albardados a carregar burros pesados, aguentaremos o fa(r)do que criamos. Entrementes, as furnas dos infernos continuam a acolher vítimas ingénuas e paladinos espertos.

Imagem: Francisco de Goya. Tu que no puedes. Estampa 42 dos Caprichos, 1799

O valor do papel

O enredo [de INSIGHT] consiste na história do encontro entre uma mendiga idosa e solitária, com uma história de vida trágica, e uma menina alegre. O encontro revela vários aspetos do mundo interior da mendiga, insights sobre a sua vida e sobre o poder da esperança e do otimismo.
O filme convida os espectadores a um processo íntimo de compreensão da sociedade em que vivemos. Mostra como é importante estender a mão generosa às pessoas “transparentes”, que nos tocam, especialmente hoje, quando a tecnologia nos torna mais autocentrados e menos conscientes do que nos rodeia. Cumpre-nos lembrar que a conexão interpessoal entre os seres humanos é insubstituível – ela pode iluminar os recantos mais sombrios do coração de uma pessoa e, assim, melhorar significativamente a sua vida.

Como ilustra a curta-metragem de animação INSIGHT, uma simples folha de papel pode oferecer-se como uma mediação fulcral nas relações humanas. Dobrada ou escrita, dádiva ou contra dádiva.

Sempre cultivei alguma devoção pelo papel. É certo que o digital o está a ultrapassar, numa espécie de viragem civilizacional, viragem que me suscita cada vez mais reservas, menos pelas potencialidades de universalidade, democracia e liberdade e mais pelas realidades de concentração, oligarquia e controlo.

Imagem: Jacques-Louis David. La Mort de Marat,1793

INSIGHT – תובנה: A Short Animation Film. Realização: Salvador Simo. Música: Menni Even – Haim. Orquestra: The Israeli Netanya Kibbutz Orchestra. Israel, colocado em dezembro 2014  

Jejum guloso

Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.

Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530

O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…

E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!

José Peixoto & Sofia Vitória – Belo Manto. Belo Manto — Música para Poesia Luso-Árabe e Poesia Medieval Portuguesa. 2017
Amália Rodrigues – Hortelã Mourisca. 1977
Madredeus – O Pastor. Existir. 1990. Ao vivo, O Pastor, seguido de A Vaca de Fogo e Os Senhores da Guerra, no Palais des Beaux-Arts, Bruxelas, Bélgica, 24 de abril de 1995

Eunucos e vampiros

Se descrês da bondade humana, pouco te pode chocar. Talvez, ver quem tem o poder abusar dele e as vítimas a pedir mais. Ninguém como o José Afonso para o traduzir em poema e cantar.

José Afonso – Os Eunucos (No Reino da Etiópia). Traz Outro Amigo Também. 1970
José Afonso- Os Vampiros. Baladas de Coimbra. 1963

Desorientação

Os contrapoderes andam agitados, incisivos e imaginativos. Das pulgas fazem elefantes. Com a arte da comichão e do coçar.

Distinguem-se várias propensões, umas, por exemplo, apostadas na correção e no resgate, outras na transgressão e na renovação. Para onde oscilamos? Coexistindo, algumas tendência podem dominar as demais. A dominação torna-se hegemónica quando os dominados adotam a linguagem dos dominantes. Em que estado estamos? Enfim, poderão os contrapoderes aspirar à hegemonia?

Convido, a despropósito, ao confronto de algumas músicas de duas bandas britânicas com registos divergentes: energia, senão entusiasmo, dos Orchestral Manoeuvres In The Dark, dos anos 1980, e apelo, senão súplica, dos London Grammar, dos anos 2010.

Imagem: René Magritte. Reprodução proíbida. 1937

Orchestral Manoeuvres In The Dark. Electricity. Orchestral Manoeuvres in the Dark. 1980
Orchestral Manoeuvres In The Dark. Enola Gay. Organisation. 1980
London Grammar. Nightcall. If You Wait. 2013
London Grammar. Hey Now. If You Wait. 2013

Notável e notório. A formiga e a cigarra, o galo e a galinha

Moledo, domingo. Proporciona-se um mergulho no adubo humano.

Notável é aquilo que é “digno de nota”, “merecedor de consideração e apreço”; notório, o que é notado, “conhecido por um grande número de pessoas”. Pode-se ser notável sem ser notório; e notório, mas não notável. Numa sociedade da imagem, da rede e do artifício, prevalece o notório. Chegados a esta encruzilhada, apetece reequacionar a fábula de La Fontaine: hoje, quem morre de fome não é a cigarra, notória, mas a, a formiga, notável. A cigarra polariza o reconhecimento. Sendo esta a verdade mundana, importa refundar as pragmáticas, as éticas e as teodiceias.

A propósito da cigarra e da formiga, acode-me a relação entre o galo e a galinha, cantada, com inspiração e humor, por Sérgio Godinho.

Sérgio Godinho. O Galo é o Dono dos Ovos. Pano-Cru. 1978. Ao vivo no Centro Cultural de Belém.

Publiquei, em 2011, uma fábula no ComUm, boletim da Universidade do Minho, com o título “Fábula comUM” (contemplada no Tendências do Imaginário com o título “Fábula das formigas sabichonas”). A Universidade tinha a virtude da homeopatia: sabia digerir o “mal”, a adversidade, expondo-se à crítica mordaz e sarcástica. É certo que as farpas se afogavam na gordura académica. Destilada e delirante, a escrita enferma de um vício que não me larga: discorrer sem explicitar o assunto. O leitor que adivinhe e o resto reverbere. O “segredo” remetia para a implementação da política dos rácios alunos/docentes consoante os cursos, depressa extrapolada, abusivamente, para os departamentos. Um veneno que as universidades, em particular a do Minho, devoraram. Este desvio de uma fórmula de financiamento para uma forma de governo desvirtuou o mundo académico, resultando numa legitimação e num reforço dos interesses e privilégios instalados ou em vias de instalação. Uma deformação que, a par do controverso processo de Bolonha, contribuiu estruturalmente para o atual desequilíbrio institucional das universidades portuguesas.

Para aceder à “Fábula das formigas sabichonas”, carregar na imagem seguinte ou no endereço https://tendimag.com/2011/11/13/fabula-das-formigas-sabichonas/

Desequilíbrio fórmico