Bosque de medíocres

Em bosque de medíocres, resulta difícil a qualidade vingar. Se existe algo de que os incapazes são capazes é secar, derrubar ou queimar qualquer árvore que se distinga.
O valor do papel
O enredo [de INSIGHT] consiste na história do encontro entre uma mendiga idosa e solitária, com uma história de vida trágica, e uma menina alegre. O encontro revela vários aspetos do mundo interior da mendiga, insights sobre a sua vida e sobre o poder da esperança e do otimismo.
O filme convida os espectadores a um processo íntimo de compreensão da sociedade em que vivemos. Mostra como é importante estender a mão generosa às pessoas “transparentes”, que nos tocam, especialmente hoje, quando a tecnologia nos torna mais autocentrados e menos conscientes do que nos rodeia. Cumpre-nos lembrar que a conexão interpessoal entre os seres humanos é insubstituível – ela pode iluminar os recantos mais sombrios do coração de uma pessoa e, assim, melhorar significativamente a sua vida.
Como ilustra a curta-metragem de animação INSIGHT, uma simples folha de papel pode oferecer-se como uma mediação fulcral nas relações humanas. Dobrada ou escrita, dádiva ou contra dádiva.

Sempre cultivei alguma devoção pelo papel. É certo que o digital o está a ultrapassar, numa espécie de viragem civilizacional, viragem que me suscita cada vez mais reservas, menos pelas potencialidades de universalidade, democracia e liberdade e mais pelas realidades de concentração, oligarquia e controlo.
Imagem: Jacques-Louis David. La Mort de Marat,1793
Jejum guloso
Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.
Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530
O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…
E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!
Eunucos e vampiros

Se descrês da bondade humana, pouco te pode chocar. Talvez, ver quem tem o poder abusar dele e as vítimas a pedir mais. Ninguém como o José Afonso para o traduzir em poema e cantar.
Desorientação
Os contrapoderes andam agitados, incisivos e imaginativos. Das pulgas fazem elefantes. Com a arte da comichão e do coçar.
Distinguem-se várias propensões, umas, por exemplo, apostadas na correção e no resgate, outras na transgressão e na renovação. Para onde oscilamos? Coexistindo, algumas tendência podem dominar as demais. A dominação torna-se hegemónica quando os dominados adotam a linguagem dos dominantes. Em que estado estamos? Enfim, poderão os contrapoderes aspirar à hegemonia?

Convido, a despropósito, ao confronto de algumas músicas de duas bandas britânicas com registos divergentes: energia, senão entusiasmo, dos Orchestral Manoeuvres In The Dark, dos anos 1980, e apelo, senão súplica, dos London Grammar, dos anos 2010.
Imagem: René Magritte. Reprodução proíbida. 1937








