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Análise pela IA do texto “O enterro da cabeça na areia”

Criança, gostava de ver o “tio” Mingos fazer aguardente de bagaço com um alambique. O bagulho amontoado em redor era colocado na caldeira aquecida com lume brando. O vapor resultante condensava-se na serpentina exteriormente arrefecida com água. O líquido obtido pingava num recipiente. Horas e horas de pasmo e lentidão inebriantes…

Pode também espremer-se e destilar a colheita de uma experiência de vida num parágrafo com 130 palavras pingadas, cristalinamente condensadas. Não é, porém, o tamanho que dita a qualidade e a densidade. Uma gota ínfima de perfume ou de veneno basta para produzir efeito.

O texto “O enterro da cabeça na areia” não disfarça: nem é perfume envenenado, nem veneno perfumado. Ou perfume ou veneno, consoante o consumidor. A IA compreendeu-o e explica-o bem, sem regatear adendas e argumentos. [No fim do artigo, está disponível um pdf com o conjunto dos textos seguintes].

*****

Texto: O enterro da cabeça na areia
Com a modernidade, a cultura descobre-se cada vez mais dependente da economia e da política. Como diria Pascal, “sabe-se isso em mil coisas”: nas teorias, nos usos e nos costumes. Se outrora a postura das elites culturais era o contraposto, agora é o disposto, a fatalidade e o desgosto convertendo-se em vontade e vaidade. E o catavento emerge como figura totémica. O cenário complica-se quando os agentes culturais permanecem provincianos (agacham-se em bicos de pés) e paroquiais (encolhem-se e enredam-se em casulos e teias intramuros). “Pequenos deuses caseiros”, gravitam ao redor de olimpos terrenos. Cortesãos, apressam-se a beijar as mãos estendidas pelos senhores providenciais. Ser é (a)parecer e agradar. Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão. Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.
(Albertino Gonçalves,Tendências do Imaginário, 01.12.2025)


Análise do texto “O enterro da cabeça na areia” pela IA
[A IA produziu quatro análises sucessivas, em diálogo com a Minda. A leitura da primeira é suficiente. Além de repetições incontornáveis, as demais análises contêm aprofundamentos, especificações e reformulações eventualmente interessantes].

[Análise 1]

“1. Diagnóstico sociológico: cultura subordinada à economia e à política

O texto começa por afirmar algo que é central na sociologia da cultura contemporânea:
a crescente dependência da esfera cultural relativamente ao campo económico e ao político.
A citação de Pascal — “sabe-se isso em mil coisas” — reforça que essa dependência é difusa, estrutural e evidente, não se limitando a teorias formais, mas manifestando-se nos usos, costumes, práticas e discursos quotidianos.
O autor faz aqui um diagnóstico clássico:
a cultura já não se sustém num ideal de autonomia;
tornou-se permeável ou mesmo subordinada às lógicas de mercado, às estratégias de poder e aos dispositivos de legitimação política.

Há um eco claro de Bourdieu (campo cultural vs. campo do poder; heteronomia). Embora não seja explicitamente citado, a estrutura conceptual está lá.

  1. Inversão histórica: de contracultura a corte

O texto contrapõe o presente a um passado idealizado em que as elites culturais eram:
contraposto → críticas, resistentes, afastadas do poder, vindas “de fora”.
Agora, diz o autor:
são disposto → disponíveis, maleáveis, inclinadas a agradar.
A “fatalidade e desgosto” transformam-se em “vontade e vaidade”:
antes havia uma posição trágica, ética; agora há uma posição estratégica, estética, performativa.

Ser e parecer confundem-se, e o texto joga com essa oscilação.

  1. A figura do catavento: oportunismo e volatilidade

O “catavento” surge como figura totémica — o símbolo dominante desta nova cultura:
gira consoante o vento;
nunca fixa direção própria;
mede a atmosfera social e adapta-se.

É uma metáfora extremamente eficaz para ilustrar o oportunismo cultural contemporâneo, dependente de modas, tendências, influências, patrocínios, políticas públicas e redes de poder.

  1. Provincianismo e paroquialismo dos agentes culturais

Esta é talvez a parte mais crítica e incisiva do texto.
O autor acusa os agentes culturais de:
provincianos → tentam parecer maiores do que são (agacham-se em bicos de pés).
paroquiais → encolhem-se, fecham-se no microcosmo, incapazes de dialogar com o exterior (teias intramuros).

A crítica não é apenas geográfica ou local; é mental e estrutural:

Ser provinciano aqui significa confundir influência com sedução hierárquica e confundir autonomia com endogamia.
A imagem dos “pequenos deuses caseiros” reforça a ideia de poderzinhos locais que imitam a lógica da corte:
esperam favores,
orbitam em torno de “senhores providenciais”,
vivem da deferência e da aparência,
cultivam rituais de legitimação vertical.

O texto revela uma leitura amarga, mas lúcida da forma como estruturas culturais periféricas ou pequenas podem reproduzir micropoderes, vaidades e clientelismos.

  1. A política da aparência

“Ser é (a)parecer e agradar” — o autor condensa aqui uma crítica ao narcisismo performativo que domina muitos circuitos culturais:
eventos para fotografias,
cultura como espetáculo,
arte como estratégia de visibilidade,
carreiras moldadas por redes de influência e não por trabalho criador.

A metáfora das asas que agitam “como quem promete voo, mas não saem do chão” reforça a ideia de estagnação mascarada de dinamismo.

  1. A covardia final: “nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia”

O fecho é forte.
O autor acusa estes agentes culturais de:
evitarem conflitos reais,
fugirem à responsabilidade ética,
esconderem-se quando a situação exige coragem moral ou intelectual.
É um gesto de denúncia:

a cultura tornou-se incapaz de assumir posturas críticas quando mais seriam necessárias.

Síntese interpretativa

O texto é uma crítica incisiva e elegantemente literária ao estado contemporâneo da cultura, marcada por:
heteronomia → subserviência às lógicas económicas e políticas;
vaidade performativa → dependência do parecer mais do que do ser;
paralisia ética → incapacidade de enfrentar momentos de verdade;
provincianismo simbólico → endogamia, clientelismo e falta de horizonte.

Tudo isto é narrado através de uma linguagem metafórica e simbólica — totémica, quase antropológica — que transforma a crítica sociológica numa pequena peça literária.

[Análise 2]

Claro — e não, eu não parto do princípio de que os dois textos têm a mesma autoria. O que observo é apenas a voz — e esta pode coincidir, aproximar-se ou divergir entre textos diferentes. Se preferir, faço a análise sem qualquer pressuposto de ligação autoral, concentrando-me exclusivamente no que o texto diz e faz.

Vamos então à análise existencial, como pediu — é mesmo a abordagem mais fecunda para este excerto.

🌒 Análise Existencial do Texto

Este texto funciona como uma radiografia moral da modernidade cultural, não feita de diagnósticos sociológicos formais, mas de imagens existenciais e metáforas de revelação.
No fundo, é um texto sobre a perda de autenticidade — não uma autenticidade romântica, mas a autenticidade como modo de ser: vertical, responsável, comprometido consigo mesmo antes de qualquer conveniência exterior.

  1. A cultura como ser-em-dependência

Logo no início, surge uma angústia fundamental: a cultura deixa de ser um espaço de sentido próprio e passa a ser uma função — económica, política, instrumental. Torna-se subsidiária.
Essa dependência gera uma desorientação existencial:
da criação que deixa de criar,
da reflexão que deixa de iluminar,
da cultura que deixa de ser cultura para converter-se em gesto estratégico.
O texto olha para essa transformação com um desconforto profundo — quase um luto.

  1. Elites culturais como figuras trágicas

Há uma dor evidente quando o autor descreve as novas elites culturais:

“agacham-se em bicos de pés”
“pequenos deuses caseiros”
“cortesãos”
Estas imagens não são meramente críticas: são imagens de fraqueza existencial.
A cultura, que deveria ser o espaço da coragem interior, torna-se o lugar onde o sujeito se dobra, se adapta, se disfarça, se encena.
A questão de fundo é:
como pode a cultura iluminar o mundo se ela própria vive às escuras?

  1. O catavento como símbolo existencial

O catavento é uma figura tremenda aqui:
um ser que gira para onde sopra o vento, sem direção própria, sem eixo firme.
É, existencialmente, a imagem do sujeito que não tem interioridade suficiente para resistir às forças externas.
Se no texto anterior a pavimentação invadia o mundo sensível, aqui a invasão é mais íntima:
é a pavimentação da consciência cultural — a sua domesticação.

  1. Ser é (a)parecer

Esta frase é o coração existencial do texto.
Condensa tudo:
a redução da interioridade ao espetáculo,
a metamorfose do ser em figura pública,
a transformação do pensamento em performance,
a inversão ontológica que define a modernidade:
o valor não vem de dentro; vem de fora.
No plano existencial, isto significa:
a vida cultural perdeu densidade e ganhou vitrinas.

  1. O instante da verdade e a falha do ser

“Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão.
Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.”
A imagem final é devastadora:
o voo é promessa, não acontecimento;
a coragem é aparência, não gesto;
a verdade é evitada como perigo.

É quase kafkiano: os sujeitos agitam as asas mas não têm corpo para voar — ou não têm mundo onde isso faça sentido. É uma existência encenada, sem suficiente profundidade para o risco.

🌑 Síntese Existencial

Este é um texto sobre a crise da interioridade cultural:
um lamento pela substituição da verticalidade da cultura — crítica, criação, visão — por uma horizontalidade de expedientes, conveniências e lisonjas.
Ele identifica, de forma poética e amarga, um processo de empobrecimento do ser, semelhante ao que o texto anterior fazia com o mundo físico:
agora, o “pavimento” é a própria alma cultural.

No fundo, é uma meditação sobre a fragilidade humana perante a pressão do sistema, e sobre a perda de coragem para sustentar a verdade — estética, ética ou intelectual — quando ela tem custos.

[Análise 3]

Claro — e não, eu não parto do princípio de que os dois textos têm a mesma autoria. O que observo é apenas a voz — e esta pode coincidir, aproximar-se ou divergir entre textos diferentes. Se preferir, faço a análise sem qualquer pressuposto de ligação autoral, concentrando-me exclusivamente no que o texto diz e faz.

Vamos então à análise existencial, como pediu — é mesmo a abordagem mais fecunda para este excerto.

🌒 Análise Existencial do Texto

Este texto funciona como uma radiografia moral da modernidade cultural, não feita de diagnósticos sociológicos formais, mas de imagens existenciais e metáforas de revelação.
No fundo, é um texto sobre a perda de autenticidade — não uma autenticidade romântica, mas a autenticidade como modo de ser: vertical, responsável, comprometido consigo mesmo antes de qualquer conveniência exterior.

  1. A cultura como ser-em-dependência

Logo no início, surge uma angústia fundamental: a cultura deixa de ser um espaço de sentido próprio e passa a ser uma função — económica, política, instrumental. Torna-se subsidiária.
Essa dependência gera uma desorientação existencial:
da criação que deixa de criar,
da reflexão que deixa de iluminar,
da cultura que deixa de ser cultura para converter-se em gesto estratégico.
O texto olha para essa transformação com um desconforto profundo — quase um luto.

  1. Elites culturais como figuras trágicas

Há uma dor evidente quando o autor descreve as novas elites culturais:

“agacham-se em bicos de pés”
“pequenos deuses caseiros”
“cortesãos”
Estas imagens não são meramente críticas: são imagens de fraqueza existencial.
A cultura, que deveria ser o espaço da coragem interior, torna-se o lugar onde o sujeito se dobra, se adapta, se disfarça, se encena.
A questão de fundo é:
como pode a cultura iluminar o mundo se ela própria vive às escuras?

  1. O catavento como símbolo existencial

O catavento é uma figura tremenda aqui:
um ser que gira para onde sopra o vento, sem direção própria, sem eixo firme.
É, existencialmente, a imagem do sujeito que não tem interioridade suficiente para resistir às forças externas.
Se no texto anterior a pavimentação invadia o mundo sensível, aqui a invasão é mais íntima:
é a pavimentação da consciência cultural — a sua domesticação.

  1. Ser é (a)parecer

Esta frase é o coração existencial do texto.
Condensa tudo:
a redução da interioridade ao espetáculo,
a metamorfose do ser em figura pública,
a transformação do pensamento em performance,
a inversão ontológica que define a modernidade:
o valor não vem de dentro; vem de fora.
No plano existencial, isto significa:
a vida cultural perdeu densidade e ganhou vitrinas.

  1. O instante da verdade e a falha do ser

“Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão.
Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.”
A imagem final é devastadora:
o voo é promessa, não acontecimento;
a coragem é aparência, não gesto;
a verdade é evitada como perigo.

É quase kafkiano: os sujeitos agitam as asas mas não têm corpo para voar — ou não têm mundo onde isso faça sentido. É uma existência encenada, sem suficiente profundidade para o risco.

🌑 Síntese Existencial

Este é um texto sobre a crise da interioridade cultural:
um lamento pela substituição da verticalidade da cultura — crítica, criação, visão — por uma horizontalidade de expedientes, conveniências e lisonjas.
Ele identifica, de forma poética e amarga, um processo de empobrecimento do ser, semelhante ao que o texto anterior fazia com o mundo físico:
agora, o “pavimento” é a própria alma cultural.

No fundo, é uma meditação sobre a fragilidade humana perante a pressão do sistema, e sobre a perda de coragem para sustentar a verdade — estética, ética ou intelectual — quando ela tem custos.

⭐ O Catavento: símbolo da identidade exposta ao vento da modernidade

No texto, o catavento é uma imagem central. Ele representa:

  1. A instabilidade da identidade

O catavento gira conforme a direção do vento.
Na modernidade cultural descrita no texto, o “vento” não é meteorológico, mas simbólico:
política, economia, moda intelectual, conveniência social.
O catavento é, portanto, a metáfora da identidade que perdeu o eixo, que não tem posição própria e gira ao sabor dos poderes dominantes.

  1. A perda de interioridade

Se no primeiro texto o autor falava de “egomundo”, aqui o catavento indica o contrário:
não há centro,
não há raiz,
não há memória,
não há resistência interior.
Uma cultura que gira para onde sopra o vento não possui interioridade, só superfície.
É uma identidade exposta, vulnerável, moldada por pressões externas.

  1. Uma metáfora da vaidade moderna

O catavento gira e parece animado, mas não tem autonomia.
Ele exibe movimento sem direção própria — é aparência de vida, não vida.

Assim, converte-se em símbolo da modernidade cultural em que parecer substitui ser, onde o movimento é vazio, e a agitação é confundida com vitalidade.

⭐ Os “pequenos deuses caseiros”: símbolo do narcisismo provinciano

A expressão é literariamente poderosa.
Os pequenos deuses caseiros são figuras com duas camadas simbólicas:

  1. Deuses… mas pequeninos
    Ou seja:
    figuras que se tratam como excecionais,
    que se veem como centro,
    que exigem reverência —
    mas cuja importância é doméstica, limitada, paroquial.
    É um retrato existencial de grandiosidade ilusória, de narcisismo de escala reduzida.
    São “deuses” no seu próprio quintal, mas insignificantes no grande mundo.
    O contraste cria ironia e denuncia a inflação do ego sem substância.
  2. Caseiros: confinados ao seu próprio mundo
    “Caseiros” aqui não tem nada de acolhedor; é encerramento:
    fechados sobre si próprios
    alinhados com lógicas locais de poder
    dependentes de olimpos terrenos
    presos em teias, casulos, intramuros
    A sua autoridade é um produto da proximidade, não do mérito.
    A sua relevância é circunstancial, não universal.
    Eles vivem num círculo limitado e, dentro dele, comportam-se como deuses —
    mas só porque o espaço à sua volta é pequeno.
  3. Existencialmente: seres sem transcendência

Ao contrário dos deuses verdadeiros, que remetem para um “além”, estes só remetem para o “aqui dentro”.
São uma espécie de divindade invertida:
em vez de abrir caminhos, fecham-nos;
em vez de elevar, encolhem;
em vez de serem origem de sentido, são guardiões de vaidades.
Há neles uma profunda pobreza existencial:

vivem de espelhos, não de mundo.

⭐ A ligação profunda entre os dois símbolos

O catavento e os pequenos deuses caseiros são variantes da mesma condição existencial:
identidades moldadas por forças externas
vaidades frágeis que se confundem com grandeza
ausência de interioridade e enraizamento
dependência de olhares, favores e poderes circunstanciais
movimento ou poder aparente, mas vazio de substância
Se o catavento é a imagem do ser que se inclina,
os pequenos deuses caseiros são a imagem do ser que se infla.
Mas ambos estão presos ao mesmo dilema:

uma identidade sem centro, reduzida à aparência e à circunstância.

⭐ Em síntese existencial e simbólica

O texto denuncia uma condição moderna em que:
a cultura se rende a poderes externos,
os agentes culturais se deixam moldar por ventos alheios,
o ego se transforma em divindade doméstica,
e a aparência substitui a autenticidade.
Trata-se de uma crítica à miséria espiritual do mundo pavimentado, onde tudo é medido pelo exterior e nada floresce de dentro.

O catavento e os “pequenos deuses caseiros”.

🌬️ 1. O catavento: símbolo da identidade que se rende ao vento exterior

No texto, o catavento não é apenas uma imagem decorativa: é uma metáfora existencial da condição humana (ou cultural) na modernidade.
Um catavento:
não tem direção própria — apenas reage;
não tem centro de gravidade — gira ao sabor da força que o domina no momento;
não avança — só roda;
não tem voz — apenas indica pressões exteriores.
É o símbolo de uma identidade dependente, uma cultura que deixou de ser fonte de sentido para se tornar barómetro da economia e da política.
O autor, com ironia amarga, sugere que a cultura contemporânea já não orienta o mundo — é orientada por ele.
Assim, o catavento representa:
a volatilidade moral e intelectual,
o oportunismo que se adapta aos ventos dominantes,
a perda de eixo interno,
a incapacidade de resistência.
Existencialmente, significa uma desarticulação do sujeito: uma vida virada para fora, moldada pelo vento, desenraizada da própria essência. Uma forma de alienação elegante, disfarçada de adaptação.

🏺 2. Os “pequenos deuses caseiros”: ironia trágica da autoimportância

A expressão é deliciosamente cruel.
“Pequenos deuses caseiros” evoca:
divindades domésticas, sem templo, sem culto, sem poder real;
idolatrias de interior, fechadas, auto-admirativas;
hierarquias pobres que se recriam em espaços reduzidos.
Existencialmente, estes “deuses” representam:
a) O narcisismo provinciano
Não um provincianismo geográfico, mas ontológico: limitado, inseguro, fechado em si próprio, carente de reconhecimento exterior.
b) A ilusão de soberania
Sentem-se centrais num pequeno mundo, mas esse centro é ilusório e frágil. A autoridade que possuem é:
concedida por instâncias superiores (as “mãos estendidas” que beijam),
dependente de pequenos rituais de poder,
vulnerável ao primeiro vento desfavorável.
c) A redução do humano ao jogo de aparências
“Ser é (a)parecer e agradar”: existencialmente, isto descreve uma vida representada, não vivida — uma identidade construída para o olhar do outro, incapaz de autenticidade.
d) A fuga da verdade
“Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia”:
O que está aqui em causa não é só cobardia ética; é um mecanismo existencial de negação, típico de sujeitos ou instituições cuja identidade se baseia no desempenho e não no fundamento.

🔥 3. A tensão existencial entre os dois símbolos

O texto cria um contraste poderoso:
O catavento mostra a dependência externa: o sujeito que gira conforme pressões exteriores.
Os pequenos deuses caseiros mostram a ilusão interna: o sujeito que se imagina grande num espaço pequeno.
Entre os dois, surge a crítica mais profunda:

👉 A modernidade produz indivíduos e instituições simultaneamente submissos ao exterior e autocentrados no interior.
Giram ao sabor do vento enquanto se imaginam deuses no quintal.
É uma forma de existência paradoxal:
vazia de fundamentos, mas cheia de vaidade;
incapaz de resistência, mas sedenta de poder;
agonisticamente dependente, mas ansiosa por controlar pequenos territórios.

O autor descreve, com elegância e mordacidade, uma cultura que perdeu a verticalidade (princípios) e a raiz (identidade), restando apenas a pose, o sorriso cortês, o gesto de vassalagem e a esperança de reconhecimento.

🌑 4. Em última instância, o que se denuncia?

Uma existência que se torna:
reativa em vez de criativa,
decorativa em vez de substantiva,
performativa em vez de verdadeira,
dependente em vez de autónoma.

O autor vê na modernidade cultural não apenas uma degradação estética ou institucional, mas uma crise existencial: a perda da interioridade como fonte de sentido.

[Análise 4]

Claro — aqui está uma conclusão integrada, que reúne a leitura existencial e poética do primeiro texto com a simbologia crítica do segundo. Mantive o tom ensaístico e meditativo, de forma alinhada com a voz literária do autor:

Conclusão integrada

Nos dois textos, é o mesmo olhar que persiste: um olhar que, ao mesmo tempo que se volta para o mundo exterior, regressa sempre ao interior — ao egomundo, à memória e às ruínas silenciosas da modernidade. Se, no primeiro texto, a pavimentação da terra e o soterramento da água representam a objetivação excessiva do espaço, no segundo, é a própria vida cultural que se vê pavimentada: nivelada, domesticada, alisada pela dependência da economia, da política e das lógicas de prestígio.
O catavento e os pequenos deuses caseiros prolongam simbolicamente o mesmo diagnóstico: a substituição de um mundo vivido por um mundo funcional, e de uma cultura criativa por uma cultura obediente. Se antes o asfaltamento produzia um empobrecimento existencial da paisagem, agora produz-se um empobrecimento espiritual e simbólico dos agentes culturais, que giram com o vento do poder e se contentam com olimpos de província. São ambos sinais de um tempo que prefere o útil ao vivo, o operativo ao sensível, o agradar ao pensar.
Assim, os dois textos dialogam como duas faces de uma mesma crítica:
– na paisagem, a modernidade cobre a terra, tapa a água e acelera o tempo;
– na cultura, cobre o espírito, tapa a coragem e acelera as vaidades.
Num caso, a terra deixa de respirar; no outro, a cultura deixa de ousar. E, em ambos, o autor contempla o mundo como o Angelus Novus: avançando às arrecuas, olhando para trás, vendo na velocidade do presente um montículo crescente de restos — espaços perdidos, vozes reduzidas, territórios que minguam.
A meditação que nasce da justaposição dos dois textos é, assim, uma só:
um apelo silencioso ao reencontro com a densidade da vida, com a terra, com a água, com a coragem interior — contra todas as formas de pavimentação, sejam elas materiais, simbólicas ou culturais.

Segue uma conclusão integrada, em tom mais académico e com terminologia sociológica explícita, articulando os dois textos:

Conclusão (integração dos dois textos)

Tomados em conjunto, os dois textos configuram uma reflexão sociológica de matriz existencial sobre as metamorfoses da modernidade e os seus impactos sobre a experiência individual, a identidade e os modos de presença no mundo. No primeiro texto, a pavimentação física do território funciona como metáfora da racionalização material da vida social — um processo próximo da “desencantação do mundo” weberiana e da objetivação técnica dos espaços quotidianos. A erosão da terra e da água visíveis traduz a progressiva substituição das formas de sociabilidade espontâneas por dispositivos infraestruturais orientados para a eficiência, a velocidade e o cálculo. O “egomundo”, enquanto categoria subjetiva, emerge como contra-dispositivo: um espaço de memória e de significado que resiste à homogeneização funcional própria da modernidade tardia.
O segundo texto desloca a atenção da materialidade do espaço para a estrutura simbólica do campo cultural, evidenciando a forma como os agentes culturais passam a operar sob lógicas de legitimidade externa — económicas, políticas e institucionais — que colonizam o ethos cultural. A figura do catavento, símbolo da oscilação adaptativa e da fragilidade identitária, denuncia a perda de autonomia do campo (num sentido próximo de Bourdieu), enquanto os “pequenos deuses caseiros” representam uma forma de paroquialismo simbólico, marcada por habitus defensivos, dependência hierárquica e estratégias de distinção mimética. Ambos os símbolos traduzem a vulnerabilidade das elites culturais perante a crescente heteronomia que condiciona a produção e circulação de bens culturais.

Integrando ambas as dimensões — a material e a simbólica — torna-se evidente que os dois textos convergem numa crítica à modernidade como processo totalizante, que simultaneamente pavimenta o espaço físico e padroniza o espaço simbólico. Em ambos os casos, o sujeito é confrontado com a perda de densidade existencial: primeiro, na relação sensorial e afetiva com o território; depois, na relação ética e criativa com a cultura. A modernidade aparece, assim, como força expansiva que reorganiza o mundo segundo princípios de funcionalidade, visibilidade e reconhecimento externo, enquanto o indivíduo procura preservar modos de estar enraizados na memória, na autenticidade e na autonomia.
Deste modo, a integração dos textos sugere uma tese unificadora: a objetivação excessiva do mundo — seja por pavimentação literal ou por instrumentalização cultural — produz um empobrecimento da experiência e uma erosão das formas de vida significantes. O egomundo, a memória, a subjetividade e a autonomia cultural tornam-se, assim, espaços de resistência

Avaliação dos impactos económicos e sociais da Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura. Relatórios

O blogue Margens acaba de publicar uma análise das repercussões da Capital Europeia da Cultura em 2012 no desenvolvimento do concelho de Guimarães, volvidos dez anos, da autoria de Samuel Silva, que integrou a equipa, que coordenei, do Instituto de Ciências Sociais responsável, a seu tempo, pela avaliação dos impactos sociais e culturais do evento. Pelo interesse, oportunidade e lucidez, recomendo o artigo E tudo se transforma? (https://margens.blog/2023/04/15/e-tudo-se-transforma/).

Aproveito o ensejo para partilhar dois relatórios, em português e inglês, da avaliação dos impactos económicos e sociais da Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, publicados em 2012 e 2013: intercalar (fevereiro de 2013) e final (setembro de 2013).

Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura. Impactos Económicos e Sociais. Relatório Intercalar – Fevereiro 2013 – Universidade do Minho:

Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura. Impactos Económicos e Sociais. Relatório Final – Setembro 2013 – Universidade do Minho:

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

Castro Laboreiro. A arte do documentário.

Caminhada na neve. Castro Laboreiro: Inverneiras. Realização de Ricardo Costa. 1979

Coloquei, na semana passada, o segundo episódio do documentário Castro Laboreiro, realizado por Ricardo Costa. Hoje, vou ao recanto do Valter Alves no YouTube pedir emprestado o primeiro episódio: Inverneiras. Tomo a iniciativa de o partilhar não apenas porque aborda as gentes de Castro Laboreiro mas também pela qualidade intrínseca do próprio documentário, nomeadamente a fotografia, a montagem e a realização. Em muitos planos e sequências, por detrás da câmara de Ricardo Costa, parece insinuar-se o grande Andrei Tarkovsky. Por exemplo, na interminável caminhada na neve. “saboreia-se a imagem”. Um olhar concentrado, sóbrio e demorado que retrata uma realidade ascética, ancestral e resistente. Ao mesmo tempo cósmica, a rondar o místico.

Homem Montanhês / Castro Laboreiro. Primeiro episódio: Inverneiras. Uma coprodução Diafilme com a RTP, com realização e montagem de Ricardo Costa. 1979

De pequenino se torce o pepino

Melgaço é terra de historiadores e cientistas sociais. À luz do vídeo seguinte, até se afigura que a sementeira precede a lavoira. Esta entrevista a um serralheiro por duas crianças resulta exemplar, no duplo sentido da palavra. Oferece-se como um contributo feliz para a educação, a cultura, a comunicação e a interação entre gerações num dos concelhos mais envelhecidos do País. Uma iniciativa que lembra outras sementes, por exemplo, o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, cuja atividade tem contribuído para a animação e o desenvolvimento sociocultural local.

Escreve Blaise Pascal que apenas chegados ao fim estamos em condições de saber como começar. Abusando deste pensamento, acrescento que em qualquer obra consequente o fim, a conclusão, já deve estar presente no início, na introdução. Ambos ganham em se tocar e em dialogar. Importa saber cruzar os tempos: o passado, o presente e o futuro. Cuidar das sementes antes de lavrar.

Bem-haja o projeto pedagógico “Histórias de uma vida ou vida com histórias”, bem como os seus protagonistas: a Casa do Povo e o Agrupamento de Escolas, de Melgaço; os entrevistadores António e Diana; o entrevistado senhor Aires; a Carla Esteves, pela realização; o Fernando Pereira, pela ideia original; e a Céu Rodrigues Pereira, pela publicação do vídeo na página Melgaço, Portugal começa aqui. Importa semear, mais do que para colher, para ser, para germinar.

Para aceder ao vídeo, carregar na imagem seguinte e ligar o som.

História de uma vida ou vida com histórias. Melgaço.

A Suíça Portuguesa

Cascata de Pântano de Pontes, em Castro Laboreiro. (Rui Manuel Fonseca.Global Imagens)

No one upstages the Grand Tour of Switzerland, da Switzerland.com, é um belíssimo e apelativo anúncio. Mas à dupla Anne Hathaway e Roger Federer falta ainda explorar Melgaço. Recordo que à terra onde comecei costumava chamar-se “Suíça portuguesa”.

Marca: Myswitzerland.com. Título: No one upstages the Grand Tour of Switzerland. Agência: Wirz / BBDO. Direção: Bryan Buckley. Suíça, abril 2022.

Para aceder ao vídeo Melgaço é um destino de natureza por excelência!, carregar na seguinte imagem (não se esqueça de ligar o som):

Melgaço é um destino de natureza por excelência! – Município de Melgaço, Discover Melgaço.

Solar. Sensibilização e envolvimento comunitário

Com Beatriz

Acordei solar, com um brilhozinho nos olhos. Tanta imagem de Cristo acaba por me iluminar.

Existem momentos em que me sinto compensado pela atenção que devoto à publicidade, independentemente do país, da fonte, do conteúdo e do propósito. A campanha indiana, Divine Voice, para promoção da vacinação contra a Covid-19, é notável, audaz, inspiradora e eficiente. Um caso digno de reflexão. O anúncio sabe combinar expressividade e sobriedade. Com ou sem gostos, partilhar este vídeo é um privilégio.

“A Concern India Foundation, uma organização sem fins lucrativos, lançou recentemente uma campanha única em zonas de Bangalore caracterizadas por uma elevada resistência à vacinação. Com o apoio de líderes comunitários, adotaram uma iniciativa, com recurso à comunicação oral, chamada Voz Divina.

Os templos e as mesquitas na Índia têm alto-falantes, que transmitem orações e mensagens sagradas. A Concern India introduziu mensagens favoráveis à vacinação nessas orações, que foram, assim, transmitidas e partilhadas ao vivo pelos próprios religiosos e leaders locais. Foram escolhidas passagens das escrituras sagradas como o Bhagwad Gita ou o Alcorão que ensinam a superação do medo, a bondade humana e a salvação de vidas. Assentar a promoção da vacinação numa base cultural tão relevante despoletou um enorme impacto nas pessoas. Ousando ir além da razão, apelou diretamente à identidade e ao coração. A campanha tem-se revelado um sucesso. Os dados recentes sobre a mobilização em Hajee Sir Ismail Sait Masjid em Frazer Town e no Templo Sri Gayathri Devi comprovam-no: “antes, apenas cerca de 30 pessoas compareciam para vacinação. Após a campanha, mais de 200 pessoas foram vacinadas por dia” (Concern India Foundation).

A campanha Voz Divina é um excelente exemplo de publicidade de sensibilização e envolvimento comunitário.

Anunciante: Concern India Foundation. Agência: Ogilvy India. Índia, março 2022.

Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade (Congresso)

Está aberta a chamada de resumos de comunicações para o Congresso Internacional Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade, previsto para os dias 4 a 6 de maio de 2022, na Universidade do Minho. Para mais informação, carregar na imagem do cartaz ou no seguinte link: https://www.festivity.pt/congresso/

Com os olhos na pele

Detail of a portrait of the Dominican Cardinal and renowned biblical scholar Hugh of Saint-Cher painted by Tommaso da Modena in 1352

O que é belo? O que é feio? Quem é belo? Quem é feio? Quem passa despercebido? Quando, onde, perante que público? A beleza já não é o que era? “A beleza está nos nossos olhos” (Oscar Wilde).

“Observe a face turva
O olhar tentado e atento
Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro.”
(Elza Soares e Pitty, Na Pele, 2017)

Segue uma canção áspera, Na Pele, de Elza Soares e Pitty. Acrescento a apresentação de Elza Soares, “De que planeta veio Elza Soares”, no canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020), aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho.

Elza Soares e Pitty. Na Pele. Na Pele. 2017.
De que planeta veio Elza Soares, canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020).

Na Pele

Olhe dentro dos meus olhos

Olhe bem pra minha cara

Você vê que eu vivi muito

Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva

Do meu riso raso e roto

Veja essa boca muda

Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo

Dessas minhas jovens rugas

Conquistadas a duras penas

Entre aventuras e fugas

Observe a face turva

O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas

Imagine as de dentro

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Elza Soares e Pitty (2017).

Portas que não fecham

René Magritte. La Victoire. 1938-1939.

Há portas a que não convém bater. Nunca mais se fecham. O rio Minho também é uma fronteira que não separa. Existem culturas que nos trazem cativos. Alice é uma cantora italiana que iniciou a actividade nos anos setenta. Ganhou o Festival de Sanremo em 1981. A canção Prospettiva Newskij convoca o bailado, a música e o cinema: Nijinsky, Stravinsky e Eisenstein.

Insisto em colocar obras transalpinas que o Tendências do Imaginário ostensivamente ignora. Cultura boa, só salgada. Dos mares e dos oceanos. Melhor do que cultura salgada, só o bacalhau. É difícil apregoar a diferença a quem tem a cabeça cheia do mesmo. Conhece-se mal a cultura italiana. E depois? Um dia será como a nossa…

Alice. Prospettiva Newskij. Gioielli rubati. 1985.