Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
O morto agarra-se ao vivo
“Temos de sofrer não só da parte dos vivos como ainda da parte dos mortos. Le mort saisit le vif” (Karl Marx, Le Capital, Livre 1, Préface de la première édition, 1867).
Devo esta curta-metragem ao meu rapaz mais jovem. Em boa hora! Nos primeiros passos do blogue, limitava-me a uma base de anúncios publicitários. Sobrava tempo para outros formatos, por exemplo, curtas-metragens e vídeos musicais. Hoje, acompanho uma dúzia de bases de anúncios. “É maior o passo do que a perna”.
Borrowed Time tem a chancela da Pixar. É um colecionador de prémios. Gustavo Santaolalla, vencedor de dois oscars, compôs a música. A história não podia ser mais bem contada.
Qual é o alcance de um sentimento de culpa que não tem razão de ser? Como o ultrapassar? Como desfiar o novelo da memória? Como colar os fragmentos do espelho? Que segredam os objectos? É preciso peregrinar até ao abismo da dor? Estrear um ritual único? Bater à porta do inferno para reacender a alma? Há algo de cósmico nesta curta-metragem. Abarca o mundo e a vida com um punhado de pormenores.
Borrowed Time. Pixar. Andrew Coats & Lou Hamou-Lhadj. 2015 (?)
Maneiras estúpidas de viver
As trombetas soam a culpa e expiação. Revezam-se nos ginetes os sacerdotes. Alastra um puritanismo sem ética. E as elites não param de lavar as mãos. Não há ponto cardeal que escape ao novo ajustamento. Há semanas, falei da morte risonha e da morte com bebé ao colo; estes anúncios mostram mortes parvas. O primeiro, da Metro Trains, consta entre os mais premiados da história da publicidade; o segundo, é uma paródia produzida para a Miami Ad School/ESPM.
Sente-se a falta de um Guerra Junqueiro. Escondíamos em casa uma edição censurada de A Velhice do Padre Eterno. Abundam, sem dúvida, as maneiras estúpidas de morrer, preocupam-me mais as maneiras estúpidas de viver.
Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.
Marca: Miami Ad School/ESPM. Título: Dumb ways to die. Agência: Y & R Brasil. Brasil, Abril 2014.

