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Capitalismo do coração

Entramos na era do capitalismo virtuoso. Sem nos dar conta. O nosso capitalismo exala uma aura de bondade. Em politiquês correcto, é socialmente responsável. Já arranhei o assunto. Os anúncios Wind never felt better, da Budweiser, e Our flavor has no race, da Postobón ressuscitam o azedume.

Marca: Budweiser. Título: Wind never felt better. Agência: David Miami. Direcção: Adam Berg. Estados Unidos, Janeiro 2019.

Wind never felt better é um anúncio excelente. Com pouco comunica-se muito. A música de Bob Dylan não engana: estamos, duplamente, no vento. Preocupada com a ecologia, a Budweiser só consome energia eólica. E se fossem outras empresas? A energia é como os impostos. Não há cobrança com destino específico, apenas o dinheiro do orçamento. It’s the symbolic, stupid! Um parêntesis: Estamos no vento é um livro de Fernando Namora (1974) dedicado aos movimentos juvenis contestatários dos anos cinquenta e sessenta. Contribuiu para a minha vocação como sociólogo.

Marca: Postobón. Título: Our flavor has no race. Agência: Sancho BBDO. Colômbia, Janeiro 2019.

Our flavour has no race aposta na mobilização, simbólica, contra o racismo. A colombiana Postobón vende vários tipos de bebida, cada de sua cor. Para comemorar o dia de luta contra o racismo, retira o colorante às bebidas tornando-as todas iguais: transparentes como a água. Uma pergunta perversa: metáfora por metáfora, qual é o maior entorse racista? Manter as cores ou apagá-las? Convém não esquecer que uma das vertentes do racismo consiste em converter os outros para os tornar iguais a nós. Algo como uma cruzada pela mesmidade.

E pronto! Não há como uma boa dose de maledicência.

Cavalgada de imagens

Pony Malta

Vim a banhos, banhos de solidão.

O anúncio Actitud de Campeones, da Pony Malta, lembra um carrossel de imagens em corridinho. A explosão e a aceleração das sequências provocam palpitações no olhar e soluços no cérebro. Parece a Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner. Um cavalo à solta, “este corcel que não sossego à desfilada no meu peito (José Carlos Ary dos Santos). Uma “passagem para o breve, breve instante da loucura” (idem). Potência, desejo, tonificação… Aturdidos ou excitados, toma-nos a sede de vencer, a sede de beber, de beber Pony Malta, o mais milagroso dos remédios santos.

Marca: Pony Malta. Título: Actitud de Campeones. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Juan Carlos Beltrán. Colômbia, Agosto 2018.

Richard Wagner. Cavalgada das Valquírias. A Valquíria. 1856.

Fernando Tordo / Ary dos Santos. Cavalo à Solta. 1971.

Recusa

O-I glass is lifeRecusar não é propriamente o prato forte da publicidade. Recusa-se o tabaco, o álcool, a violência… Exceptuando estas recusas de eleição, pouco se recusa. Aceder, numa semana, a duas campanhas originais assentes na recusa é acontecimento digno de registo.

Os cinco spots da Opportunity International Colômbia não são completamente contra, um vez que advogam o recurso ao vidro. É difícil ser contra alguma coisa sem ser a favor de outra(s), e vice-versa. Mas estes cinco spots são frontalmente contra as embalagens em plástico e em metal. Seleccionamos dois anúncios.

Marca: O-I. Título: Glass is life. El día que el océano habló. Agência: DDB. Colômbia, Outubro 2014.

Marca: O-I. Título: Glass is life. La naturalez está tratando de decirte algo. Agência: DDB. Colômbia, Outubro 2014.

A segunda campanha merece especial apreço. São os primeiros anúncios do Cazaquistão no Tendências do Imaginário. O humor é simultaneamente lógico e absurdo. As ofertas de três pretendentes a uma mesma mulher são liminarmente recusadas por ausência de chocolate. Lembra a princesa do conto  Rei Bico de Tordo, dos irmãos Grimm.

Marca: Nestlé. Títulos: Bear / Heart / Kitten. Agência: PopKultura (Kazakhstan). Direção: Dave Merhar. Cazaquistão, Outubro 2014.

 

Terrivelmente delicioso

Peixe Leão. Colômbia
O anúncio Terribly Delicious incide sobre uma variedade de peixe que se tornou uma epidemia ambiental. Para o combater, nada como o transformar em petisco nacional. Coma-se a praga!

Por cá, também existem infestantes. Se nas águas do Pacífico prolifera o peixe leão, no nosso País, nada o peixe gato e engorda o peixe orçamento (budget fish). Falta-nos, no entanto, a voracidade colombiana. O peixe orçamento tira-nos o apetite.

Anunciante: Ministerio de Ambiente y Desarrollo. Título: Terribly Delicious. Agência: Geometry Clobal Colombia / Ogilvy & Mather. Direção: Agustin Calderon. Colômbia, Maio 2014.

Três faces e um pescoço

Para além do Cristo da Trindade (https://tendimag.com/2014/04/10/as-tres-faces-de-cristo/), cabeças com três faces aparecem em máscaras pré-colombianas, mexicanas, africanas, venezianas e orientais, em esculturas de shiva e na arte contemporânea. Há quem represente o tempo com três faces: o passado, o presente e o futuro (ver galeria). Esta pequena digressão à volta do mundo serve para encalhar na capa do primeiro cd dos Goldfrapp: dois rostos femininos laterais simétricos; na parte frontal, o capricho dos cabelos esboça a carranca de um monstro. É difícil escolher uma música do álbum Felt Mountain (2000). Segue a faixa Utopia, com a capa.

Goldfrapp. Utopia. Felt Mountain. 2000

As Três Faces de Cristo

Produzi, há tempos, um protodocumentário intitulado As Duas Faces, Imagens de Cristo (https://tendimag.com/2011/12/11/as-duas-faces-imagens-de-cristo-2/). Hoje, não vão ser duas mas três as faces de Cristo.

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Para representar a Trindade, alguns artistas retratam Cristo com três faces: uma frontal e duas laterais. A imagem mais antiga que conheço remonta a cerca de 1410: o fresco Trinità con tre volti, no Duomo de Atri (Itália) assinado por Antonio Martini de Atri.

Impressionante é também o Cristo Com Três Faces. A Trindade, da Escola Holandesa, pintado cerca de 1500.

Christ with Three Faces. The Trinity.1500, Netherlandish School. Complete

Cristo com Três Faces. A Trindade. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Resulta estranho o quadro Trinity Jesus (cerca de 1610) exposto em Schloss Hellbrunn, num castelo do séc. XVII situado em Salzburg. Um Cristo com três caras e quatro olhos, nem mais, nem menos!

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art, Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art. Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Esta representação da Trindade é bastante rara. A Igreja optou por outras soluções. Nem toda a Igreja tolerou sempre esta imagem de Cristo com três faces, com particular incidência no cristianismo colonial, da América Latina.

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de  Arte de Lima

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de Arte de Lima

À semelhança do que aconteceu com o nu durante a Reforma e a Contra-reforma, algumas imagens do Cristo com três faces foram retocadas e outras destruídas (ver https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/). Pintaram-se, por exemplo, cabelos sobre as faces laterais. O Cristo que domina a pintura Símbolo de la Trinidad (Ca. 1685), de Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos, exposta no Museo Colonial de Bogotá,  foi retocado de modo a encobrir as duas faces laterais. A imagem original, trifacial, só recentemente foi redescoberta, sendo restaurada em 1980.

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

 

Linguagem peitoral

toyota-corolla-breast-small-83935Consoante a parte anatómica mobilizada, a linguagem corporal subdivide-se em linguagens específicas, tais como a linguagem facial, a linguagem do olhar ou a linguagem peitoral. Estes três anúncios sul-americanos apostam na linguagem peitoral. Nos anúncios brasileiros, da Toyota (1999) e da Nissan (2003), a linguagem é poética; no anúncio colombiano, da Air aruba (2000), a linguagem é mais prosaica. Os três anúncios recorrem a uma linguagem minimalista. Os seios respondem, velados, ao ar condicionado, meio velados, à suspensão dos automóveis e, desvelados, ao encurtamento das distâncias entre aeroportos.

Nissan. PeitosMarca: Toyota. Título: Peitos. Ag.: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Brasil, 1999.

Marca: Nissan. Título: Peitos. Agência:  Lowe (Sao Paulo). Brasil, 2003.

Air arubaMarca: Air aruba. Título: Peitos. Ag.: McCann Erickson. Colômbia, 2000.

Um sorriso vale mil desculpas

trident-total-traffic-policeE quantas lágrimas vale? Às vezes, é de chorar a rir; outras, chora-se e ri-se ao mesmo tempo. Quantas lágrimas são precisas para secar um sorriso? E para o congelar? Há algo mais cativante e mais contagioso do que o riso? O sorriso feminino seduz mais do que o masculino? Por que é a desgraça alheia tão risível? Os anúncios piscam-nos o olho com um sorriso? O absurdo serve-se com humor.

Marca: Trident Total. Título: Traffic Police. Agência: Saatchi & Saatchi Colombia. Direção: Alejandro Carreño. Colômbia, Julho 2013.

Folhas

LIbreria Norma. Don Quijote.

Tantas folhas, senhor! E as folhas crescem nas árvores! E as árvores não são monstros! A impressão de milhões de livros do Dom Quixote, da Bíblia e do Principezinho devorou florestas inteiras. Não obstante, é possível que ainda não tenhamos devorado a dose recomendável de florestas de papel. Nesta excelente campanha, a Libreria Norma faz a apologia dos e-books. Menos árvores abatidas e um camião de livros num tablet. Mas, por que será que, no meu tablet, a maioria dos livros não tem fim? Nostalgia de virar a página? O fado do cansaço a meio do caminho? Um bocejar electrónico?

Marca: Libreria Norma. Título: Don Quijote De La Mancha. Agência: Ddb, Bogota. Direção: Reichart De Alcocer. Colombia, Abril 2013.

libreria-norma-the-holy-bible-2000-29865

Libreria Norma. The Holy Bible. Ddb, Bogota. Colombia, Abril 2013.

libreria-norma-the-little-prince-2000-12524

Libreria Norma. The Little Prince. Ddb, Bogota. Colombia, Abril 2013.