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Banho a dois

SakuraTantos anúncios publicitários vejo todos os dias e, no entanto, um ou outro acaba por me surpreender. Por exemplo, este anúncio chinês a uma caldeira deixa-me sem palavras.

Marca: Sakura. Título: Sakura Water Heater. Agência: JWT Shangai. Direcção: She Tiejun. China, 2015.

Duelo de línguas

MentosHá iniciativas de humor simples, criativo e contagioso, como o anúncio Tongue Twister. Em 30 segundos de boa expressão corporal, coloca o excesso, um impossível visualizado, na ponta da língua. É, também, um caso em que a criatividade constrangida, com metas e comercial, rivaliza, em arte e originalidade, com a criatividade sem amarras, livre e independente. Por último, uma falsa pergunta: será que os gestos, e respectiva interpretação, variam consoante as culturas? O anúncio Tongue Twister pode provir, com igual probabilidade, de qualquer parte do mundo? Num texto intitulado “Les techniques du corps” (Journal de Psychologie, XXXII, nº 3-4, 1936), Marcel Mauss aborda “a forma como os homens, sociedade a sociedade, de um modo tradicional, sabem servir-se dos seus corpos”. Aponta o exemplo dos soldados britânicos e franceses. A marchar juntos, não acertam passo. Separados, mas com música alheia, também não.

Marca: Mentos. Título: Tongue Twister. Agência: BBH Shangai. Direcção: Simon Pang. China, 2008.

Aspirações

Dirt Devil

“Expliquemos previamente a natureza complexa do riso carnavalesco. É, antes de mais, um riso festivo. Não é, portanto, uma reacção individual diante de um ou outro fato “cómico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar património do povo (esse carácter, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge a todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cómico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre, cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (Bakhtin, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, São Paulo, Hucitec, 1077,  p.10).

No grotesco, todos riem de tudo e de todos. Tudo é risível, nomeadamente o sagrado e o poder político. Nada permanece estável, o riso grotesco é um agitador e um baralhador do mundo. O alto é rebaixado. Tudo o que se mostra fixo é deslocado para os lugares mais inesperados. O detergente Cif no Cristo Redentor, do Rio do Janeiro, um aspirador associado a um exorcismo, outro a uma tentativa de suicídio, uma pastilha elástica liberta a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque.

Primeiro, os aspiradores, máquinas anormalmente intrusas. Amanhã, as estátuas.

Marca: Electolux. Título: Suicide. Agência: Lowe (Shangai). Direcção: Liang Quing Song. China, 2006.

Marca: Dirt Devil. Título: The Exorcist. Produçao: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Direcção: Andreas Roth. Alemanha, 2011.

Coca-cola: A garrafa, a guerra e o sexo

Shapeways. Printed Coca-cola Bottles. 2015.

Shapeways. Printed Coca-cola Bottles. 2015.

A garrafa de coca-cola, não há mais famosa o mundo! Pelo conteúdo, pelas formas e pelas proezas. Quem consegue suspender uma batalha de que é o pomo da discórdia? Só um jovem e uma garrafa (vídeo 1)! Quem diz guerra, diz sexo. Tanatos e Eros. A garrafa é tão sensual! As curvas alongam-se, de fragmento em fragmento. Um toque a vidro fresco com gotículas de excitação (vídeo 2). Não sei se é isto o sex appeal do inorgânico de que fala Mario Perniola, mas é o sex appeal de que eu falo. A coca-cola não é, porém, um caso isolado. Com o devido respeito, é um caso retardado. Em 1976, a erecção de uma garrafa de Perrier culmina num simulacro de orgasmo (http://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Em 2004, a Megapack excede-se com um strip tease frutado (http://tendimag.com/2014/09/10/pornografia-alimentar/). O mundo é garrafal!

Marca: Coca-cola. Título: Battlefield. Agência: McCann China. China, Julho 2015.

Marca: Coca-cola, Título: Curves. Agência: Wieden+Kennedy. USA, Fevereiro 2015.

O papel dos videojogos

ChangyouQuando o senso comum se torna ciência e a ciência, senso comum, todos os argumentos são verosímeis. Estes anúncios chineses explicam, a pais e a filhos,que quando existem problemas comportamentais em casa, a razão pode não decorrer dos videojogos.

Marca: Changyou. Título: Mother. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nico Perez Veiga. China, Maio 2015.

Marca: Changyou. Título: Little Girl. Agência: Saatchi & Saatchi Greater China. Direcção: Nici Perez Veiga. China, Maio 2015.

Vertigens a baixa altitude

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Há muito que namoro o tema da levitação e não há modo de ir ao altar. Existem diversas soluções para sugerir a ausência de gravidade: captar um momento de suspensão, filmar em câmara lenta um movimento de desprendimento ou multiplicar os planos de gravidade (e.g, E.M. Escher, na gravura, e Philip Halsman, na fotografia).

O anúncio chinês OK Go, da Red Star Macalline, desmonta várias ilusões de perspectiva e multiplica os planos de gravidade, provocando uma sensação de vertigem.

O anúncio neozelandês Muscle, da Anchor, recorre ao slow motion para criar uma sensação de flutuação no espaço e no tempo. Em câmara lenta, os movimentos de dança logram um efeito estético apreciável.

Marca: Red Star Macalline. Título: OK Go. Agência: 25hours Xangai. Direcção: Damian Kulash JR. China, Março 2015.

Marca: Anchor. Título: Muscle. Agência: Colenso BBDO. Direcção: James Solomon. Nova Zelândia, Março 2015.

Interacção entre gerações

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As partes baixas do corpo são o húmus do grotesco, um redemoinho fecundo. Tudo amortalham e tudo regeneram. Quanto mais distante estiver a entidade rebaixada maior tende a ser o efeito grotesco. A cabeça, o trono e o céu são alvos de eleição. Compensa mais rebaixar o nariz do que o umbigo, o rei do que o servo, o santo do que o peregrino. Acrescente-se uma segunda tendência: Quanto mais familiar for a entidade estranhada maior é o efeito grotesco. Neste caso, um ancião senta-se no chão, conjugando dois tópicos baixos: do corpo e da sala. O carro de brincar do neto, o rebento da família, acerta, veloz, nos genitais do avô, o tronco da família. Em termos de humor grotesco, nada de novo, tanto mais que a Volkswagen tem vindo a enveredar por este registo desconcertante e irreverente.

Marca: Volkswagen. Título: Acceleration. Agência: Tribal Worldwide, Beijing. Direcção: Angle Garcia. China, Dezembro 2014.

Sinais de trânsito, sinais de vida

Human Traffic SignsA publicidade chinesa está sub-representada no Tendências do Imaginário. Um novo anúncio é bem-vindo. Este recorre a um procedimento que aprecio pouco: a encenação com vítimas, o que se traduz por uma encenação das vítimas. Parafraseando Lenine, é o pecado infantil da publicidade de consciencialização. Lembra os circos, as feiras e as galerias de monstros e aberrações em voga no século XIX (rever O Homem-Elefante de David Lynch). Neste caso, não me perturba a encenação. Para evidenciar a necessidade de respeitar a sinalização rodoviária, várias pessoas seguram sinais de trânsito ignorados no próprio local onde foram vítimas de acidente. A exposição da desgraça em carne e osso por irresponsabilidade alheia. Neste anúncio, existe criatividade, ajustamento e performance. Segue o anúncio mais o making of.

Anunciante: Buick of Shanghai General Motors. Título: Human Traffic Signs. Agência: Lowe China. China, Fevereiro 2014.

Making of: Buick. Human Traffic Sign. China, 2014.

Silêncio

CCTV_A-Silent-World_homeimageÉ tempo de regressar à publicidade. Com um anúncio da cadeia de televisão chinesa CCTV. Vários anúncios anteriores habituaram-nos  a encarar os orientais como excelentes contadores de histórias. Por acréscimo, neste anúncio, a história rima com uma causa social, o apoio à surdez, acabando por enfatizar o papel das relações humanas.

Anunciante: CCTV. Título: The Silent World. Agência: Saatchi & Saatchi Beijing. China, Janeiro 2014.

As minhas calças falam!

Levi's. Experience the BenefitsEstão na moda as calças justas. Pois, a Levi’s propõe umas calças ainda mais justas, mais versáteis e mais confortáveis. Assentam, salvo seja, que nem luvas de cirurgia. Embora avesso às formas (eg, as modelos), o corpo é cada vez mais forma, e a roupa, contorno. Algo como uma escultura e o respectivo oxidante. “Let your body do the talking”. No livro The Silent Language (1959), Edward T. Hall intitula o capítulo 9 “Time talks” e o 10, “Space speaks”. Pela mesma altura, Ray Birdwhistell, tal como Hall, membro da Escola de Palo Alto, investiga a linguagem corporal (Introduction to Kinesics, 1952). Tudo fala! Segundo o axioma de Paul Watzlawick, da mesma escola, não se pode não comunicar (com Janet Beavin e Don Jackson, Une Logique de la Communication, 1ª ed. 1967). Em suma, as calças Levi’s são umas tagarelas! E, por incrível que pareça, as calças falam por ti. Tanto aqui como na China.

Marca: Levi’s. Título: Experience the benefits. Agência: Wieden + Kennedy, Shanghai. Direção: Gustav Johansson. China, Agosto 2013.