Vermelho que te quero vermelho
O poder dos símbolos é espantoso. Põem-nos o cérebro a salivar. Tanto permanecem iguais como se renovam, para sua maior eficácia e nossa maior confusão. Pense-se no Capuchinho Vermelho.
Bela e curiosa. Vermelha! Nem azul, nem verde: vermelha. Vermelha há mais de trezentos anos. Não esperou por nós, nem por Bruno Bettelheim, para saber que o capuchinho era vermelho. Vermelho cor de sangue. O sentido, a chave, desta conversa não está neste artigo, nem nos anteriores, mas no próximo. É um novo estilo inspirado nos romances de cordel.
Marca: Green & Blacks. Título: Dark, but different. Agência: Mcgarrybowen London. Direcção: Dorian & Daniel. Reino Unido, Outubro 2017.
Contos de fadas
Contos de fadas, quem os não leu? São chaves do imaginário, e da experiência humana. Atente-se na moral das fábulas de La Fontaine ou do Capuchinho Vermelho.
“Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos” (Charles Perrault, O Capuchinho Vermelho, Moralidade, 1697).
Contos de fadas sem fadas? Pouco importa, é pão que cozeu no mesmo forno. Neste anúncio, as fadas são generosas, divertidas e, claro, bonitas e vaidosas: voam sem vassoura, distribuem prendas, transformam roupas, encontram gatos, apagam os media, chamam a neve e aquecem corações. Mais, só na Marks & Spencer.
Marca: Marks & Spencer. Título: Christmas Fairies. Agência: RKCR /Y&R. Direcção: Philippe Andre. Reino Unido, 2014.
É proibido proibir
“Segundo decisão do Tribunal da Relação de Évora, os portugueses não podem publicar fotos dos filhos nas redes sociais. O tribunal recorda que as redes sociais podem ser usadas por predadores sexuais” (http://exameinformatica.sapo.pt/noticias/mercados/2015-07-21-E-proibido-publicar-fotos-de-criancas-em-redes-sociais-diz-Tribunal-de-Evora).
O lápis azul nunca nos abandonou. Apenas regressa a uma fase ostensiva.
A propósito da violação de mulheres, Kathleen Basile alerta para o risco de colocar “o ônus da prevenção nas possíveis vítimas, possivelmente obscurecendo a responsabilidade de seus autores e outros” (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2015/06/10/estudo-aponta-sucesso-em-treinar-mulheres-para-prevenir-estupros.htm). Desvia-se o olhar e o juízo do agressor para a vítima. Uma sessão de tribunal pode concentrar-se em indícios tais como a maquilhagem, altura da saia, o recorte do decote ou a decisão de sair, logo de passar pela garagem do prédio, à meia-noite. A sombra de Eva.
Se tiverem um Capuchinho Vermelho não lhe peçam para levar a cesta à avó. Devia ser proibido. A boa acção pode ter péssimo resultado! Como lembra Perrault, os lobos andam à solta!
“MORALIDADE:
Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos” (Charles Perrault).
O Chocolate e a Capuchinho Vermelho
Chocolat Lanvin, ca. 1950. Dali participou num anúncio do chocolate Lanvin.
Na erótica da alimentação, o chocolate é talvez o alimento em que a gula e a luxúria mais se namoram. Voluptuosamente. Não é de admirar que o desodorizante Axe, a fragrância do arrebatamento libidinoso, associe um produto, Dark Temptation, ao chocolate: “Axe Dark Temptation as irresistible as chocolate”. O anúncio argentino “Hombre Chocolate” não deixa margem para dúvida. Transformado em homem chocolate após uma vaporização Axe, o protagonista é salvo pela duração do anúncio: um minuto. Mais alguns segundos e ficaria eunuco. É este apelo (sex-appeal) do chocolate que convoca, para além do Ambrósio, do anúncio da Ferrero Rocher, figuras tais como o lobo mau e a capuchinho vermelho. Qual é a razão? Bruno Bettelheim propõe uma resposta.
Marca: Axe. Título: Hombre Chocolate. Agência: Vega Olmos Ponce. Direção: Tom Kuntz. Argentina, 2007.
Alice no País das Mercadorias
A publicidade inspira-se onde lhe apraz. Há, porém, domínios e temas particularmente prezados. Por exemplo, os contos: a Bela Adormecida, A Lebre e a Tartaruga, Cinderela, o Principezinho… Todos encantam a vida e o mundo! Estas figuras fantásticas são adotadas e adaptadas pela publicidade em função da imagem de marca, da campanha, dos objetivos e do público-alvo. O anúncio Believe in Magic and Sparkle, da Marks & Spencer, convoca, pelo menos, quatro contos: Alice no País das Maravilhas (a cerimónia do chá), O Capuchinho Vermelho (a fuga na floresta), Aladino (o voo no tapete) e o Feiticeiro de Oz (a estrada dos tijolos amarelos).
Marca: Marks & Spencer. Título: Believe in Magic and Sparkle. Agência: Rainey Kelly Campbell Roalfe/Y&R. Direção: Johan Renck . UK, Novembro 2013.
A Besta
Os contos tradicionais nunca acabam, na pior das hipóteses, renascem. A boca do lobo persegue Capuchinho Vermelho há muitos séculos. Os dois, Capuchinho e o lobo, compõem uma moldura que envolve o nosso imaginário. Mudam-se os tempos, mudam-se alguns detalhes. Em fuga, o capuchinho, sanguíneo, não para de se desfazer. A crer nas imagens, levará muito tempo, uma eternidade, como a fome a desaparecer ou o Cristo de Velasquez a morrer, por causa dos nossos pecados.
Anunciante: Nações Unidas. Título: Hunger is a Monster. Agência: Platige Image. Direção: Marcin Filipek. Polónia, Outubro 2013.
Capuchinho vermelho na era digital
Dantes, o capuchinho vermelho perdia-se na floresta; agora, expõe-se nas redes sociais. Já não é uma donzela campestre, mas uma “noiva electrónica”. Nem sequer os prazeres são os mesmos. No tempo de Perrault, colhia flores para meter na boca do lobo. Agora, é só posicionar o cursor, abrir o ficheiro e fazer downloads e uploads.
Anunciante: Facemoods‘ Online Safety Kit. Título: Little Red Riding Mood. EUA, 2011.
Asas de Ícaro
Segundo a agência australiana The Monkeys, este anúncio para o UBank aborda com humor as grandes questões da vida. Pelos vistos, as quedas são os melhores momentos para refazer contas à vida. E os bancos são os oráculos e o purgatório do nosso tempo, sempre dispostos a exceder-se em generosidade e a proteger-nos de lobos e abismos. Primeiro, a queda, depois, a salvação. À semelhança do caçador do conto do Capuchinho Vermelho, um bom banco não caça, resgata as criaturas carenciadas. Empresta-lhes umas belas asas de Ícaro para sobrevoar as chamas do pesadelo!
Anunciante: UBank. Título: Since Today. Agência: The Monkeys, Australia. Direção: Christopher Riggert. Austrália, Março 2012.









