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Amores humanos e lugares sagrados

O Canadá é um berço ímpar de intérpretes musicais: Neil Young, Leonard Cohen, Diana Krall, Celine Dion, Alanis Morissette… Chantal Chamberland destaca-se como um desses talentos. Ousa dar um toque pessoal, com um muito ligeiro sotaque québequois, a canções que nos convencemos ser indissociáveis das celebridades que as imortalizaram, tais como Joséphine Baker, Charles Trenet, Jacques Brel ou Yves Montand.

Imagem: No Mosteiro de Tibães. Fotografia de Maria Fátima Machado Martins

Guimarães também é berço. Da Nação e de excelentes artistas visuais.

Antigo emigrante em França, adoro entreter-me a faire des bricoles. Desta vez, deu-me para sobrepor duas séries relativamente extensas: uma lista com canções interpretadas pela Chantal Chamberland e uma galeria com fotografias da Maria Fátima Machado Martins. Preguiçoso, confinei a seleção às fotografias partilhadas que tirou no Mosteiro de Tibães, um recanto privilegiado para atividade e retiro. A Chantal Chamberland tanto canta em inglês como em francês. Por agora, abracei a segunda língua. Condiz mais com a minha cara. Quando se produz um regalo, importa assiná-lo!

A cada fotografia corresponde uma canção, identificada na respetiva legenda. Insinua-se uma certa dissonância entre ambas: as canções prendem-se com amores humanos e as fotografias com lugares sagrados. Na verdade, amores humanos e lugares sagrados não são de todo incompatíveis.

Chantal Chamberland – J’ai deux amours (Joséphine Baker, 1930). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Que reste-t-il de nos amours? (Charles Trenet, 1943) Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Les feuilles mortes (Yves Montand, 1949). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Dis moi (The Beatles, 1966). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Je l’aime à mourir (Francis Cabrel, 1979). Autobiography, 2015. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Mon mec à moi (Patricia Kaas, 1988). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins

O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 3

Com estas três parcerias de 2024, concluo este devaneio domingueiro acompanhado pela voz de Ekaterina. Desejo uma boa semana de trabalho, que, segundo alguns entendidos, o trabalho configura uma potencialidade do ser humano. Mudando de assunto, que este oferece-se resvaladiço, porventura mais consensual, a minha bisavó não se cansava de repetir: se perseguires o belo, talvez encontres o prazer!

Na canção e no vídeo “Stand Still”, vocacionada para uma conexão com a natureza, ela é o vento e ele a árvore.

Ekaterina Shelehova & Thom’Art Raidho – Stand Still. Stand Still, 2024

Ekaterina Shelehova, Vian Izak & RØRE – Glow in the Dark. Where do we end up when life goes on?, 2024
Ekaterina Shelehova, Nathan Pacheco & Leo Z – L’Assenza. L’Assenza, 2024

O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 2

A primeira é a preferida do Fernando; a segunda, minha; a terceira, não sei!

Ekaterina Shelehova – Savage Daughter. Cover. Sauvage Daugter, 2023
Ekaterina Shelehova – Vlad the Vamp. Composição: Luca Morelli. Vlad the Vamp (Original Soundtrack), 2022
Ekaterina Shelehova – Alla Luna. Moonlight, 2014

O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 1

À São, à Beatriz, à Minda,
à Paula e à Fátima,
estrelas deste deserto

Quando tudo é belo e sublime, a intérprete, a voz e a execução, convém sentir mais do que ser. Ekaterina Shelehova, canadiana, de origem russa, a viver em Itália, revelou-se durante o Got Talent de 2022 búlgaro. Desde então, de en-canto em en-canto, abraçou uma carreira de merecido, embora não ofuscante, sucesso.

Sur-preso por uma promessa incomensurável de prazer, que fazer? Tornar-se, como diria Pascal, infinitamente pequeno e infinitamente grande, microchip e parabólica, para sentir concentrado, intensamente, e aberto, extensamente. Depois, agradecer e partilhar alegre e humildemente.

Proponho-me dedicar três artigos a Ekaterina: o primeiro realça a qualidade da voz e da interpretação; o segundo retém algumas canções preferidas; o terceiro contempla parcerias.

Ekaterina Shelehova – Awakening. Awakening, 2023
Ekaterina Shelehova – За Тихой Рекою (Beyond The Quiet River). Cover. Studio version, 2022
Ekaterina Shelehova – Vacanze Romane. Cover. Studio version, 2022
Ekaterina Shelehova – At The Dawn (canção popular russa). Cover. At The Dawn, 2023

Friend of a Friend. A estranha beleza da vida

Ainda vai a tempo de dedicar cinco dedos de música ao orgulho do mês. Com a compositora e cantora contralto Michelle Gurevich, nascida em Toronto, no Canadá, filha de imigrantes russos judeus. Partilha com Rodrigo Leão a canção Friend of a Friend (A Estranha Beleza da Vida, 2021).

Imagem: Parmigianino. Autorretrato em espelho convexo.1523-1524

Michelle Gurevich.  Blue Eyes Unchanged. Let’s Part in Style. 2014
Michelle Gurevich. Fatalist Love. Exciting Times. 2018
Michelle Gurevich. Woman is still a woman. Woman Is Still A Woman (Ralph Ghayad Remix). 2018
Michelle Gurevich. Love from a distance. Ecstasy in the Shadow of Ecstasy. 2020
Rodrigo Leão. Friend of a Friend feat. Michelle Gurevich. A estranha beleza da vida. 2021

Um passarão numa gaiolinha

Patrick Watson

Troco, naturalmente, dicas. Uma amiga perguntou-me, hoje, se conhecia Patrick Watson, o intérprete e a banda, do Canadá, em particular as músicas “Je te laisserai des mots” (2010) e “The great escape” (2006). Tomara conhecimento através da filha  [uma geração que aprende com a seguinte]. Claro, até está no Tendências. Mesmo assim, verifiquei. Nada… Mas nos marcadores, sobravam cinco canções para, como é hábito, colocar três. Esqueci-me! Acontece com tanta frequência que nem sequer relevo. Explica, por exemplo, por que, em doze anos e 3 896 artigos, os Coldplay só aparecem uma única vez, por sinal, à boleia do Claude Debussy (https://tendimag.com/2021/04/18/arabescos/). Mas nunca é tarde para reparar. Seguem as outras três canções: “Lighthouse”, “Here Comes The River” e “Big Bird in a Small Cage”. Acresce “Can’t Stop Staring At The Sun,” pela originalidade sonora, pela qualidade da coreografia e por ser um bom exemplo de vídeo musical surrealizado.

Patrick Watson – Lighthouse. Adventures in Your Own Backyard. 2012
Patrick Watson – Here Comes The River. Wave. 2019
Patrick Watson – Big Bird in a Small Cage. Wooden Arms. 2009. CBC Music’s First Play Live
Patrick Watson – Can’t Stop Staring At The Sun. A Mermaid in Lisbon. 2021

Neil Young. Old Man

Mais música, outro “dinossauro”: Neil Young. Resulta estimulante vê-lo a interpretar “Ohio”, com 73 anos, no concerto Farm Aid de 2018. Não menos impressionante a performance a solo, sem qualquer acompanhamento, oito anos antes, no Farm Aid de 2010. Para concluir, um recuo a 1971: “Old man”, ao vivo na BBC, com 26 anos.

Neil Young. Ohio. 1984. Solo Trans. Ao vivo no Farm Aid 2018
Neil Young. Ohio. Solo Trans. 1984. Ao vivo no Farm Aid 2010
Neil Young. Old man. Harvest. 1972. Ao vivo na BBC, em 1971

Harmonium: Histórias sem palavras | Como um tolo

Harmonium (1972-1978)

Tenho uma memória instantânea de grilo ou, se se preferir, de galinha. Em contrapartida, não me queixo da memória que apelido subterrânea, arqueológica. Os fantasmas do mais recôndito purgatório do passado acodem-me à consciência como pirilampos, emergindo sem convite nem cerimónia.

Acaba de acontecer com os Harmonium, um grupo francófono do Québec (Canadá), criado em 1972 e ativo até 1978. Publicaram três álbuns de estúdio: Harmonium (1974); Si on avait besoin d’une cinquième saison (1975); e L’Heptade (1976). O rock progressivo dos Harmonium aproxima-os de bandas tais como os Camel ou os Renaissance, mas com muito menos reconhecimento. À semelhança de outras bandas, reuniram-se cerca de quarenta anos depois, já mais amadurecidos, para reeditar álbuns e tocar em concertos ao vivo. Seguem: 1) um pequeno excerto do concerto sinfónico Harmonium Symphonique, publicado em 2021; 2) a interpretação integral ao vivo, em 2017, da música Histoires sans paroles (original de 1975); e 3) a canção Comme un fou, remasterizada, do álbum L’Heptade (1976).

Muito poucos conhecerão a música dos Harmonium. Passados tantos anos, reconheço-me nela. Acredito que nos identificamos menos pelo que comungamos e mais pelo que nos distingue.

Histoires sans paroles (excerto). Harmonium Symphonique / Histoire sans paroles, 2 CD, 2021.
Harmonium. Histoires sans paroles. Si on avait besoin d’une cinquième saison. 1975. Ao vivo em St. Hilaire, 2017.
Harmonium. Comme un fou (remasterisé). L’Heptade. 1976.

Demolidor

Van Gogh, Starry Night. 1889.

Este sábado recuperei da estante o álbum Kaputt, dos Destroyer, um grupo canadiano, discreto, ativo desde 1995. Publicou 13 álbuns, a revisitar ou descobrir. Uma das suas principais caraterísticas é, porventura, a sua originalidade assentar num nada de incaraterístico, de uniformidade.

Idiossincráticos, os Destroyer saltam de estilo de disco para disco e de faixa para faixa. Lembram, entre outros, James Taylor, Serge Gainsbourg ou Devendra Banhart. Em alguns casos, pode-se falar de intertextualidade. Nas canções Sky’s Grey e Bay of Pigs, dos álbuns Ken (2017) e Kapput (2011), ecoa, por exemplo, a sombra de Roger Waters.

Destroyer. Sky’s Grey. Ken. 2017. Ao vivo no estúdio KEXP em 2018.
Destroyer. Bay of Pigs. Ken. 2011.

Dia da Terra

Jour de la Terre 2021 – Prenons soin de la planète. 2021

O ser humano é imprevisível. Logo programado. Há dias para tudo: Educação, Leguminosas, Rádio, Discriminação O, Vida Selvagem, Mulher, Felicidade, Meteorologia, Saúde, Voo Espacial, Jovens Mulheres nas TIC, Jazz, Atum, Abelha, Sem Tabaco, Pais, Bicicleta, Trabalho Infantil, Viúvas, Juventude…

A humanidade entrega-se a surtos intermitentes de sensibilização. Agora a Felicidade, ora as Leguminosas, ora a Abelha, ora a Bicicleta. Uma extensa agenda do espírito. No dia 22 de abril, comemora-se o dia da Terra. Seguem dois anúncios.

Anunciante: Jour de la Terre. Título: Tic, toc. Agência: Lg2 Québec. Canadá, abril 2019.
Anunciante: Jour de la Terre. Título: Prenons soin de la planète. França, abril 2021.