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O banquete

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Victor Hugo.

“Se eu fosse Homero ou Rabelais, diria: Esta cozinha é um mundo cuja chaminé é o sol.
É, de facto, um mundo. Um mundo onde se movimenta toda uma república de homens, de mulheres e de animais. Os rapazes, as criadas, os cozinheiros, os carros de mercadorias dispostos nas mesas, os tachos nos fogões, as caçarolas que cacarejam, os fritos que gemem, os cachimbos, as cartas, as crianças que brincam, e os gatos, e os cães e o dono da casa que vigia. Mens agitat molem [O espírito move a matéria]” (Victor Hugo. Le Rhin. Lettres à un ami. Tome I. Bruxelles, Société des Bibliophiles Belges, 1842, p. 30).

Minha mestre e companheira enviou-me este anúncio canadiano da President’s Choice: EatTogether. Parece-me um desafio não confesso: um anúncio a transbordar de tão boas intenções não cabe nas minhas palavras (sarcásticas, irónicas, negativas, críticas).

Se me perguntarem qual é a forma de reunião humana mais marcante, hesito entre a festa, a celebração religiosa, o desporto, a guerra e o banquete.

“Esta cozinha é um mundo cuja chaminé é o sol”. Como sugere Victor Hugo o banquete é cósmico, uma troca com o mundo. Come-se o que se trabalha, por exemplo, o que se cultiva. “Devora-se o devorador”, por exemplo, a caça. Confraterniza-se, solta-se a língua, bebe-se em honra de Dionísio. Os corpos excedem-se, tocam-se, ouvem-se, cheiram-se, desejam-se, partilham-se. O banquete é um acelerador da intercorporalidade. Comer, beber e outros trânsitos orgânicos convocam o baixo material e corporal que tudo transforma e regenera. O banquete é político: serve para significar e cultivar relações e conhecimentos. O banquete é comunicação e comunhão. Encena uma utopia festiva da abundância, da universalidade e da igualdade. Tanto quanto me afiança a memória, este é um resumo do pensamento de Mikhail Bakhtin acerca do banquete (ver Bakhtin, Mikhail, 1987, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, Capítulo 4, S. Paulo, Ed. HUCITEC).

A magnitude social do banquete evidencia-se no modo como compassa os ciclos e os percursos de vida. Banquetes de São Miguel, de São Martinho, da matança do porco, do Natal, do Carnaval, do santo padroeiro e dos santos populares. Banquetes de baptismo, de comunhão, de casamento, de bodas, de grupos, de reencontros, de sucessos… Os momentos altos da vida celebram-se com um banquete.

“When we eat together, good things happen. Whether it’s poutine, pad thai, paella, or pemmican. Nothing brings us together like eating together” (http://eattogether.presidentschoice.ca/).

Mas um banquete é mais do que sentar umas tantas pessoas à volta da mesa, da comida e da bebida. A isso, costuma chamar-se uma refeição.

Marca : President’s Choice. Título : Eat Together. Agência: Jonh st. Direcção: Michael Clowater. Canadá, Dezembro 2016.

Sem legendas

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Primeira Guerra Mundial. Trincheiras. Repouso.

O anúncio War, da Berlitz, destina-se ao público canadiano. Visa converter os franco-canadianos às vantagens do inglês. Desconheço a situação das nacionalidades no Canadá, mas ainda há algumas décadas, o Québec reclamava a independência. Em 1967, em Montréal, num discurso célebre, Charles Degaulle  proclama “Vive le Québec libre”. O anúncio War subentende uma relação de poder. Dedicado aos franco-canadianos, percorre o mundo. As insignificâncias do poder costumam tornar-se virais. A língua é o âmago da cultura e da identidade. Ferdinand de Saussure já sublinhava que uma língua é uma visão do mundo. A língua constrói-nos e com a língua construímos o mundo. A língua é o que temos de mais precioso. O essencial da indústria cinematográfica é norte-americano. Importa aprender inglês para ver os filmes sem ler as legendas. O predomínio de Hollywood não é recente. Vem, pelo menos, desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, nos anos sessenta, os filmes norte-americanos não assoberbavam as salas de cinema nem os canais de televisão europeus. Entretanto, o que sucedeu? O mesmo que noutros sectores como, por exemplo, a música ou a ciência: o predomínio anglo-saxónico. Mas também é de admitir a perda de capacidade de resposta por parte dos países europeus. Assisti à crise, ou declínio, do cinema francês nos anos setenta. Um dos principais motivos radicava na alteração da distribuição, decisiva no sector. De qualquer modo, continua a cavar-se o fosso entre os países que fazem o que lhes interessa e os países que fazem o que podem. Se quiser ver filmes de Hollywood sem legendas, fale inglês. Se pretender ler Fernando Pessoa sem dicionário, fale português. A desvalorização das línguas do continente europeu é uma desvalorização da sua cultura e da sua identidade, uma perda de poder. Caminhamos para um mundo monolingue, uma aberração na história cultural da humanidade. Em suma, um anúncio bem concebido, criativo e eficaz, que toma o garantido como certo.

Marca: Berlitz. Título: Sous-titres War. Agência: Rethink. Direcção: Jean-Marc Piché – Quatre Zéro Un. Canadá, Dezembro 2016.

Nunca é tarde

Telus World of Science. Vancôver. Canadá.

Telus World of Science. Vancôver. Canadá.

A Science World, de Vancôver, no Canadá, publicou, no âmbito de uma campanha em curso, intitulada Now You Know, o anúncio Coffin. A ideia é facultar factos puros e duros. Um anúncio de consciencialização? Pelo sim, pelo não, vou registar a informação e programá-la para o momento oportuno.

Anunciante: Science World at Telus World of Science. Título: Coffin. Agência: Rethink. Direcção: Rob Tarry. Canadá, 2016.

E depois do adeus

Giuseppe Arcimboldo. Vanitas. Séc. XVI.

Dualidade: Giuseppe Arcimboldo. Vanitas. Séc. XVI.

Pare de fumar

Pare de Fumar.

Não se brinca com o fogo, com Deus, com os sentimentos, com a sombra… E com a morte? Num anúncio recente, uma viúva bebe chá com as cinzas do marido defunto (O cão que sabia demais). Neste anúncio, um cadáver é alvo de cosmética inconveniente. Sempre se brincou com a morte, realidade demasiado séria. Em tempos, não se brincou tanto quanto parece: as imagens medievais que, agora, consideramos engraçadas, como as danças da morte, não tinham, então, graça nenhuma. A relação actual com a morte é ambígua. Oscila entre o limpo e o sujo: a morte asséptica convive com a morte poluída. Por exemplo, a cremação de um morto e a exibição de cadáveres nos maços de cigarros.

Marca: National Jazz Awards. Título: Death becomes you. Agência: DDB Toronto. Direcção: Josefina Nadurata / James Davis / Jen Walker. Canadá, 2005.

O Velho com um Coração de Ouro

Neil Young. Harvest.Nas ciências sociais, quando se diz Erving Goffman diz-se Marshall McLuhan. Na música, quando se diz Leonard Cohen diz-se Neil Young. São todos canadianos. Leonard Cohen e Neil Young são dois resistentes, activos desde os anos 1950 e 1960, respectivamente. O último álbum de Leonard Cohen data de 2014 (Popular Problems); o último álbum a solo de Neil Young data de 2014 (Storystone). São músicos resistentes. Mas não são os únicos. Por exemplo, Iggy Pop acaba de lançar Post Pop Depression (2016) e David Bowie persistiu até ao fim (Black Star, 2015).

Escolher duas músicas de Neil Young é tarefa ingrata. Daí, a opção pelo óbvio: duas canções do álbum Harvest (1972), interpretadas ao vivo: uma, Old Man, em 1971, a outra, Heart of Gold, em 1985.

Neil Young. Old Man. BBC. 1971.

Neil Young. Heart of Gold. Live at Farm Aid 1985.

Fetichismo

Moledo presta-se à asneira. Sobra tempo. A asneira requer mais dedicação do que a conveniência.

Um grupo de alunos está a fazer um trabalho sobre a roupa interior na publicidade. Duvido que abordem o tema do fetichismo. O fetichismo sexual é abordado, desde Freud, pela psicanálise. O marxismo romântico também desenvolve, desde Georg Lukacs, um conceito próximo: a reificação. Em que consiste o fetichismo ou a reificação? Em sobrevalorizar a mediação face à entidade mediada, por exemplo, o soutien, ou o detalhe, por exemplo, o pé ou o cabelo, face ao todo que é o corpo. A lingerie é propícia a estes “desvios”.

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Marca: Nearly Naked. Título: Hold Up. Agência: Parmer Jarvis DDB. Canadá 2000.

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Marca: Agent provocateur. Título: La Vitrine. Agência: Bst/BDDP. Direcção: Eugene MC KING. Reino Unido, 1996.

Somos bestiais

E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
“Há mais fé e há mais verdade,
 Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!…”
(Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno. Poema: O Melro)

Mais um vídeo focado, com humor, nas semelhanças entre os seres humanos e os animais. Assenta no lema: não basta empenhar-se  em criar a vida, importa protegê-la! Aprender a “ouvir a natureza” (Victor Hugo).
Para visionar o anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=Q8GtYrf9Sz0.

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Marca: WWF. Título: Une planète pour tous. Agência: John St. Canadá, Novembro 2015.

O cronómetro da morte

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Cronometrar o tempo que nos sobra de vida, prever tecnicamente o momento da morte, é assunto de ficção científica. Assunto contíguo da programação da vida, desde o primeiro grito até ao último suspiro. Há autómatos fabricados com morte marcada. Recorde-se o filme Blade Runner. Vem a propósito o controverso Céline: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento; outras começam a morrer e a ocupar-se da morte vinte anos antes e, às vezes, até mais. São os infelizes da terra” (Viagem ao fim da noite, 1932). Quem lê Céline até parece que, para afastar a morte, as pessoas amortalham a vida. Não é verdade! As pessoas são sensatas: não lutam contra a morte, mas contra o envelhecimento, esperando que depois de um dia venha outro (Séneca).

Este é um anúncio a uma agência funerária. Há “produtos” difíceis. Por exemplo, o papel higiénico, os slips, as sanitas, os preservativos… E, no entanto, têm dado azo a anúncios memoráveis. A adversidade pode espicaçar a criatividade.

Marca: Mount Pleasant Group. Título: Quitbit. Agência: Union Advertising Canada LP. Direcção: Matt Atkinson. Canadá, Setembro 2015.

Jesus Cristo Superstar

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Um excelente anúncio, bem concebido, bem realizado e bem humorado, pela e para a companhia de produção canadiana 1One Production, que opta por um tema original: Jesus Cristo reúne com os apóstolos para promover a sua imagem de marca.

Marca: 1One Production. Título: Jésus. Agência: Lg2. Produção: 1One Production. Direção: Pierre Dalpe. Canadá, Fevereiro 2015.

Segundo Mikhail Bakhtin, nada escapa ao riso grotesco, nem o político, nem o sagrado. Acrescente-se que também nada escapa à publicidade. Nada? Talvez os símbolos que mordem… Não é o caso do papa nem de Jesus Cristo. Este anúncio é ousado? Ousado seria, certamente, há quatro séculos atrás, a braços com a Inquisição! Longe de mim censurar o anúncio. Mas, embora não crente, arranha-me alguns valores. Hoje, repito, é fácil parodiar Jesus Cristo, inclusivamente estupidificá-lo e, por tabela, estupidificar alguns de nós. Alguma ousadia exigiria, porém, parodiar outras figuras religiosas. A publicidade ri-se de tudo? Não, tem tabus e escapa-lhe metade do globo. A estupidez de Cristo foi pregar o amor, estupidez que persiste 2 000 anos depois.

Cristo vende e alguém anda a vender Cristo, por uns dinheiros. Mas não é Judas. Guerra Junqueiro enganou-se ao pensar que só os parasitas da Igreja vendiam a imagem de Jesus.

Leal da Câmara. A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.

Leal da Câmara. A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.

Volta e meia, ensimesma-nos a remover sedimentos. Não gostamos, por isso, que os pisem. A Velhice do Padre Eterno era um dos livros predilectos de meu tio. Meu avô recitava de cor o poema O Melro (18 páginas). Gente com qualidade. Possuo a edição da Livraria Lello & Irmão de 1926, ilustrada por Leal da Câmara. Digitalizei a imagem correspondente ao poema Parasitas. Guerra Junqueiro, “vencido da vida”, era um patriota. Incomodava-o a crise económica, mas, sobretudo, a crise da dignidade. Subscrevo, com os olhos postos na actualidade.

PARASITAS

No meio d’uma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima d’um jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hypocritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos taes ciganos;
Deram esmola até mendigos quasi nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz.
Que andaes pelo universo há mil e tantos annos
Exhibindo, explorando o corpo de Jesus.

Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, 1885.

Humor frutado

3_-_cancer_now_available_print_strawberry_aotwL’homme n’est ni ange ni bête, et le malheur veut que qui veut faire l’ange fait la bête” (Blaise Pascal, Pensées).

“O homem nem é anjo nem é besta, e o infortúnio dita que quem quer fazer de anjo faz de besta”.

Humor macabro destilado nos alambiques da consciencialização rumo a uma prevenção provavelmente eficaz entre os humanos. Qual será a opinião dos vermes?

Anunciante: Canadian Cancer Society. Título: Operating room. Agência: Rethink. Direcção: Michael Schmidt. Canadá, Janeiro 2015.