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A festa da Bugiada e Mouriscada de S. João de Sobrado

Sobrará, ainda em férias, alguma disponibilidade para dar uma vista de olhos a um documentário extenso?

Fiz parte da equipa do projeto Festivity, coordenado pela Rita Ribeiro, que concretizou, em 2023, um livro e, em 2024, um documentário, ambos dedicados à festa da Bugiada e Mouriscada, que ocorre na véspera do S. João, na freguesia de Sobrado, concelho de Valongo. Trata-se de uma festa grandiosa e incrível, ímpar do ponto de vista estético e da adesão popular.

Seguem o documentário Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz e o capítulo “Os serviços da tarde na Festa de S. João de Sobrado: A bênção escatológica num mundo às avessas”, do livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada.

Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz. Silvana Torricella. Projeto Festivity do CECS da Universidade do Minho. Janeiro 2024

A dança das máscaras

Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado. Valongo

Conversa parva:

No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.

As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.

Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133

Dead Can Dance. ACT II: The Invocation. Dionysus, 2018.
Dead Can Dance. Kiko. Anastasis. 2012. Imagens do filme Samsara (2011), realizado por Ron Fricke

Equidade fiscal. Os filhos da nação

O cobrador de impostos. Festa da Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado

Ai estes são os filhos da nação / Adultos para sempre / Ansiosos por saber / Se a cruz é salvação (Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994).

Surpresa! Os fumadores são os ricos da nação. O imposto sobre o tabaco volta a aumentar. Para bem da equidade. Existe alguma razão específica? Invocar a prevenção avizinha-se de uma fraude. Há décadas que, ano após ano, o imposto sobre o tabaco aumenta e a prevalência do tabaco não desce:

“Entre 2005/06 e 2014, a proporção de fumadores de ambos os sexos diminuiu 1 ponto percentual (…) sendo de 20% em 2014” (Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017).

Aprecio relatórios. São informativos. O Relatório da Direcção-Geral da Saúde é parcimonioso:

“As prevalências de consumo mais elevadas observaram-se no grupo com a escolaridade secundária: mais de um quarto das pessoas com ensino secundário fumava (26,0%)”. Nada a acrescentar sobre os outros grupos de escolaridade… Não existem dados? Nada sobre os níveis de rendimento, tão pouco sobre as categorias socioprofissionais. Mas fica-se a saber que “na população desempregada, mais de um terço fumava (35,9%)”. Assim esclarecido, arrisco conjecturar: a maior prevalência do tabaco incide sobre as classes populares e as categorias sociais mais pobres.

Adriaen van Ostade. A Peasant in a Red Beret Smoking a Pipe, 1646

Às vezes, as vias da misericórdia são insondáveis. Desenha-se uma nova teoria da prevenção sanitária: quanto menos dinheiro tiver uma população, mais saudável é. Com esta arte, se trata da saúde dos outros. Convém desfazer o nó do encantamento profilático: o governo precisa deste dinheiro e não tem coragem de taxar outros segmentos da população. Um em cada três desempregados é contemplado por este sapatinho de Natal. Louvado sejas!

Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994

Lama, excrementos e porcos (revisto)

Hieronymus Bosch. Temptations of St. Anthony. Detail. Ca. 1510-1520. The Nelson-Atkins Museum of Art. Kansas City.
Hieronymus Bosch. Temptations of St. Anthony. Detail. Ca. 1510-1520. The Nelson-Atkins Museum of Art. Kansas City.

Acontece desejar esquecer-me. De mim, claro! Rumo a um grau zero de reflexividade. Com o esplendor da técnica, há tanta mezinha para alívio da consciência interior. Mas é sonho impossível! Há sempre quem se lembre que existo, faço, penso, sinto e quero. Apetece mandar estes despertadores da subjectividade alheia chafurdar no charco da Dança do Cego, da Bugiada de Sobrado, em Valongo. Ou pegar “porcos bravos” no redondel de lama de Covas, em Vila Nova de Cerveira; de Romarigães, em Paredes de Coura (https://www.youtube.com/watch?v=3DPqOsEFfQY; este vídeo foi, entretanto, removido pelo YouTube provavelmente para proteger a imagem dos humanos); ou de S. Julião, em Valença (https://www.youtube.com/watch?v=geibjf60xOE). Temo, porém, que, adubados e enlameados, revigorem o assédio e a impertinência.

Lavra da Praça e Dança do Cego. Festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado (excerto), CECS Uminho, 2017

Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira.

Nos momentos sedentos de paz interior, costumo trautear uma canção, pouco conhecida, dos Doors: The mosquito (1972)!

The Doors – The Mosquito. Circle, 1972

 

Máscaras: Bugiada e James Ensor

01. Bugiada

01. Bugiada

Apeteceu-me revisitar a Bugiada de Sobrado. Desta vez, via Internet. As máscaras lembram James Ensor (Bélgica, 1860-1949). Não têm qualquer ligação, mas, ressalvando a obsessão de Ensor pelo tema da morte, é uma tentação ensaiar um diálogo. A cor, a fantasia e a exuberância justificam-no. Segue uma miscelânea de imagens da Bugiada e da obra de James Ensor.

19. Bugiada

19. Bugiada

A Bugiada de Sobrado é caracterizada por uma riqueza, uma originalidade, uma ancestralidade e uma participação popular notáveis. Chamo a atenção para a fotografia com o burro montado ao contrário. Tal como na Idade Média, durante a missa do burro (ver Figura 20, na página da direita, em baixo). Outrora como agora, o burro montado ao contrário significa a inversão do mundo, um mundo às avessas (sobre a missa do burro, ver http://tendimag.com/2015/02/19/tolos-e-burros/).