Imaginário Dior

Menino e moço, entretinha-me com os passatempos dos jornais: palavras cruzadas, as sete diferenças, o enigma policial… Dividia a missão com a minha tia, cujo vício superava o meu. Ainda não há jornal que lhe escape. Nunca perdi este enlevo pelos passatempos. Quando não os encontro, invento-os. Por que não descobrir as sete semelhanças, ou homologias, numa série de anúncios de marca?
Saiu, há dias, um anúncio da Dior: Joy (A), o mais recente de uma extensa produção. Proponho uma breve comparação com três anúncios congéneres da Dior: B – Addicted Fragrance (2014); C- The Future is Gold (2015); D- The Absolute Femininity (2016). Os tópicos retidos são os seguintes:
1 – Opção por um ambiente específico;
2 – Eleição de um elemento;
3 – Recurso ao fabuloso
4 – Relevância de um gesto
5 – Transição entre mundos
6- Presença de uma diva
7- Emergência de uma aura.
No anúncio Joy (A), o ambiente é uma piscina (1) situada no topo de um prédio. A água é o elemento preponderante (2). Na água, o efeito da roupa evoca uma sereia (3), que transita, com mergulhos sucessivos, entre dois mundos: o sólido e o líquido (5). Na parte final, a roupa solta-se (4) e a protagonista assume-se como mulher de corpo inteiro. A figura feminina não se reduz a uma mulher bela nem tão pouco a uma mulher objecto, é uma diva (6), uma diva da moda e da publicidade, com uma aura (7) cujo perfume transborda do ecrã para público. Cumpre-lhe incorporar e, eventualmente, divinizar as diversas componentes do anúncio. A modelo é Jennifer Lawrence.
Na tabela seguinte, contemplamos os três anúncios restantes (para melhor visualização, carregue na imagem com a tabela).

Fraco passatempo aquele que termina tão depressa. Existem inúmeras informações nos quatro anúncios da Dior que escapam a este esquema. Por exemplo, na parte final do anúncio Addict Fragrance, a figura feminina mantém-se em pose de costas para o espelho; lembra as estátuas das poderosas vestais romanas, as mulheres mais desejáveis e mais inacessíveis de todo o Império. Por seu turno, no anúncio The future is gold, a ascensão lembra a Glória de Santo Inácio, na cúpula da Igreja de Santo Inácio, em Roma. Intertextualidades!
É compensador fazer coisas que parecem fáceis!
Humor policial
No anúncio Freeze!, a polícia neerlandesa anuncia, com franco humor, o recrutamento de pessoal. Se fosse no meu país, conhecido pelo seu excelente humor atestado em todos os rankings internacionais do riso, já se tinham demitido dois ou três ministros; e nos jornais, actualizados ao segundo, não haveria espaço para mais notícias. Representaria um relaxamento inadmissível dos valores pátrios que remontam à fundação da nacionalidade. Uma nódoa do poder num manto de cidadania impoluta.
Não exageremos! Nós também sabemos rir. Rir até não poder mais. Mesmo quando é proibido! Lembram-se dos anúncios da água Frize com o Pedro Tochas? Aquela que deus quize. Alguns até foram proibidos.
Marca: New Zealand Police. Título: Freeze!. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Damian Shatford. Nova Zelândia, Novembro 2017.
Frize. Slogan.
Frize. Tou que nem posso.
Anúncio proibido da Frize.
A Roda dos Alimentos
O número de anúncios dedicados à alimentação aumenta consideravelmente na época de Natal. Ajusta-se às circunstâncias. O nascimento do messias quer-se festejado à volta de uma mesa. É gula abençoada, em tempo de poucas colheitas e muitas bocas. Estes anúncios, autênticas coreografias com alimentos, fazem-nos crescer a água na boca como cãezinhos de Pavlov. São, de algum modo, herdeiros do Arcimboldo.
Marca: Cherkashin. Título: Dancer. Agência: Voskhod. Rússia, Dezembro 2013.
Marca: Premier Foods. Título: Get Flavour. Agência: McCann London. Direção: Igor Zimmerman. UK, Dezembro 2013.
Marca: Dunkin’Donuts. Título: Sabores Épicos. Agência: Lowe & Partners, Honduras. Dezembro 2013.


