Anúncios que nos dão música
A comunicação nos anúncios publicitários é plural, “orquestral” e “polifónica”. Para além da “racional”, convoca múltiplas vias e dimensões: sensações, sentimentos, emoções, memórias, valores, símbolos… Por acréscimo, parte do efeito costuma ser subliminar. O que importa é que no momento oportuno o comprador, ou quem o influencia, faça a escolha desejada. Neste quadro, o fundo sonoro, especialmente a música, é particularmente relevante.
O segmento automóvel é, porventura, o mais proeminente em quantidade, recursos mobilizados e qualidade. O alcance do(s) anúncio(s) a um (novo) modelo é decisivo. Contratam-se, normalmente, os realizadores mais conceituados e as melhores agências de criatividade e produção.
Um anúncio a um automóvel não atende apenas às propriedades reais ou imaginárias do modelo; considera também as caraterísticas do público alvo a envolver e cativar. Para conseguir que este adira e nele se reconheça, convém conhecê-lo, designadamente as suas prioridades, aspirações e visões do mundo.
Embora bastante esbatida, esboçam-se correspondências entre o tipo de automóvel, as propriedade sociais dos potenciais compradores e o género musical. Ilustra-o, até certo ponto, o vídeo “Anúncios que nos dão música”, apresentado no dia 18 de março de 2026 na segunda parte de uma conferência A Música na Publicidade durante a Semana Aberta da Academia Sénior do Município de Braga.
Coco do mar. Anúncios para adultos

“Cascata erótica” (06.01.2015) foi o artigo mais consultado na semana passada (108 visualizações). Não o recordava. O anúncio “X” é uma enxurrada de “vagas de luxúria na pele do desejo”. O texto também é apelativo. Entretive-me a procurar outros anúncios da Coco de Mer. Encontrei vários remoinhos eróticos, todos iguais, todos diferentes. Y mui raros!
Imagem: Coco-de-mar
Recoloco o anúncio “X”, precedido do comentário que então escrevi. Acrescento quatro, com destaque para o espanhol “Tickles”.
Consta que o homem médio pensa em sexo cada seis minutos. Bom sinal, sinal que pensa. Esta obsessão percorre o anúncio X da Coco de Mer. Ao nível dos conteúdos, o peito é a parte do corpo que se destaca, seguindo-se as nádegas, as pernas e a boca, acompanhados por cascatas vertiginosas de símbolos sexuais. Tantos, que parecem esgotar os livros de Carl Jung e Gilbert Durand. Vislumbra-se um toque pavloviano neste anúncio: uma cavalgada de maçãs que fazem salivar o animal antes de o deixar trincar. A lingerie e os sex toys não são corpo mas fazem corpo. Pixel a pixel, desenham o limiar da interioridade. Vagas de luxúria na pele do desejo (Cascata erótica).



Super Bock, Super Bom

A Ana Paula enviou-me o link do anúncio “Sabor Autêntico”, da Super Bock, filmado em Guimarães. Em boa hora: por um lado, tenta-me reanimar a ligação com os vimaranenses; por outro, inicio na próxima quinta, 8 de janeiro, uma série de 5 aulas dedicadas à publicidade na disciplina de Sociologia da Arte e do Imaginário. Aproveito ainda para prestar tributo à Super Bock com um belo ramalhete de anúncios.
A reincidência do grotesco

A publicidade parece desinibir-se, revisitando uma vocação excêntrica algo esmorecida. Seguem 4 anúncios exemplares: uma metamorfose (Bing your saturday to live), uma disformidade (Chocolate Like Nobody’s Watching), uma paródia (Beers To Come True) e uma alegoria (Care You Can Count On).

Loura e pura
A cerveja, como o tabaco, pode ser um vício de estimação. Uma loura, o outro moreno. Surpreendentemente, ambos podem ser “puros”. Se não é alérgico ao prazer, à beleza, à fantasia e ao disparate, convido-o a saborear estes três anúncios da marca Pure Blonde. Divirta-se! Hoje, domingo, é dia de oração mas também de recreação.
Animação
Tenho em casa um nipófilo adepto dos animes. Costuma prendar-me com novidades e curiosidades. No passado mês de abril, estreou a série Kaiju. No. 8. O genérico de abertura é deslumbrante. Ao contrário da generalidade dos animes, quase dispensa o figurativo. Formas, movimentos, sons e cores insinuam-se, esboçam-se e atropelam-se a um ritmo estonteante, para antecipar sensações e emoções em vez de conteúdos, narrativas e significados. Uma aposta original e arriscada que tudo indica ter resultado.
As caraterísticas do genérico de abertura de Kaiju. No. 8 lembram-me um vídeo com anúncios a automóveis que produzi há décadas (Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, 2007). Resultou uma colheira “bem apanhada”. Destaco, especialmente, o anúncio See How It Feels, da BMW (2007). Tempos em que bibia a beleza do mundo!
Seguem o anúncio See How It Feels, da BMW; o vídeo Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade; e o texto homónimo correspondente ligeiramente ligeirament diferente do publicado no livro Vertigens (mais imagens e a cores).
Cinderela Oriental
O Tendências o Imaginário funciona como um arquivo onde guardo textos, músicas, vídeos e imagens. À procura do anúncio Thai Love Story, deparo com um aviso frequente: vídeo indisponível. Confrontado com esta contrariedade, vejo se encontro outros links disponíveis. Alcancei, mais do que o mero anúncio, um vídeo com uma série de spots da respetiva campanha: a história, em vários episódios, de uma maria rapaz (gata borralheira) que, com recurso a um creme facial (varinha mágica), se transforma numa beldade feminina, acabando por encontrar, graças a uma tatuagem (sapatinho), o noivo verdadeiro e definitivo (príncipe). A marca tailandesa Smooth propicia, destarte, um efeito Cinderela. Há males que vêm por bem!
As crianças na escola

Contar histórias curtas é uma arte. Os anúncios Clean Conscience, da Usa, e Love Note, da Protection Environnement, constituem um bom exemplo. Duas pérolas do arquivo culturepub. Mas outros anúncios parecem requerer mais tempo como que para uma maior abertura ou massagem do espírito. É o caso do anúncio The Lunchbox, da Bufdir.


Imaginário Dior
Menino e moço, entretinha-me com os passatempos dos jornais: palavras cruzadas, as sete diferenças, o enigma policial… Dividia a missão com a minha tia, cujo vício superava o meu. Ainda não há jornal que lhe escape. Nunca perdi este enlevo pelos passatempos. Quando não os encontro, invento-os. Por que não descobrir as sete semelhanças, ou homologias, numa série de anúncios de marca?
Saiu, há dias, um anúncio da Dior: Joy (A), o mais recente de uma extensa produção. Proponho uma breve comparação com três anúncios congéneres da Dior: B – Addicted Fragrance (2014); C- The Future is Gold (2015); D- The Absolute Femininity (2016). Os tópicos retidos são os seguintes:
1 – Opção por um ambiente específico;
2 – Eleição de um elemento;
3 – Recurso ao fabuloso
4 – Relevância de um gesto
5 – Transição entre mundos
6- Presença de uma diva
7- Emergência de uma aura.
No anúncio Joy (A), o ambiente é uma piscina (1) situada no topo de um prédio. A água é o elemento preponderante (2). Na água, o efeito da roupa evoca uma sereia (3), que transita, com mergulhos sucessivos, entre dois mundos: o sólido e o líquido (5). Na parte final, a roupa solta-se (4) e a protagonista assume-se como mulher de corpo inteiro. A figura feminina não se reduz a uma mulher bela nem tão pouco a uma mulher objecto, é uma diva (6), uma diva da moda e da publicidade, com uma aura (7) cujo perfume transborda do ecrã para público. Cumpre-lhe incorporar e, eventualmente, divinizar as diversas componentes do anúncio. A modelo é Jennifer Lawrence.
Na tabela seguinte, contemplamos os três anúncios restantes (para melhor visualização, carregue na imagem com a tabela).
Fraco passatempo aquele que termina tão depressa. Existem inúmeras informações nos quatro anúncios da Dior que escapam a este esquema. Por exemplo, na parte final do anúncio Addict Fragrance, a figura feminina mantém-se em pose de costas para o espelho; lembra as estátuas das poderosas vestais romanas, as mulheres mais desejáveis e mais inacessíveis de todo o Império. Por seu turno, no anúncio The future is gold, a ascensão lembra a Glória de Santo Inácio, na cúpula da Igreja de Santo Inácio, em Roma. Intertextualidades!
É compensador fazer coisas que parecem fáceis!
Marca: Dior. Título: Joy by Dior. Agência: Dior Inhouse USA. Direcção: Francis Lawrence. Estados Unidos, Setembro 2018.
Marca: Dior. Título: Addict Fragrance. 2014.
Marca: Dior. Título: The Future is Gold. Direcção: Jean Baptiste Mondino. Internacional, 2014.
Marca: Dior. Título: The Absolute Femininity. 2016.



