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Riso e ridículo sem fronteiras

Digamos algumas palavras prévias acerca da natureza complexa do riso carnavalesco. É antes de mais um riso de festa. Não é, portanto, uma reação individual perante um qualquer fato “engraçado” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar propriedade, do conjunto do povo (…) todo o mundo ri, é o riso “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge tudo e toda a gente (incluindo aqueles que participam no Carnaval), o mundo inteiro manifesta-se cómico, é apercebido e conhecido sob o seu aspeto risível, na sua alegre relatividade; enfim, em terceiro lugar, o riso é ambivalente: é feliz, transbordante de alegria, mas ao mesmo tempo trocista, sarcástico, tanto nega como afirma, tanto enterra como ressuscita (Mikhail Bakhtin, L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, 1970, p. 20).

Mas nem todo o riso é carnavalesco. Se tudo é risível, nem todos têm sentido de humor ou, por desventura, eventualmente nem sequer riem. Por seu turno, a publicidade oferece-se como uma espécie de Carnaval sem fronteiras e sem data marcada. Ontem como hoje, da França até à Austrália. Segue o disparatado anúncio Ecographie, da Eurosport (1999), mais o delicioso Four Legged Friends e o delirante Mirror Mirror, ambos da Telstra e acabados de sair (abril de 2025).

Eurosport – Écographie. Agência: Enjoy Scher Lafarge. Direção: Hervé Hiolle. França, 1999
Telstra – Silent Films – Four Legged Friend. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025
Telstra – Silent Films – Mirror Mirror. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025

Alpercatas emancipatórias

Mais um anúncio tailandês.

Marca: Gambol. Título: The Violent Ape. Agência: YDM Thailand. Direção: Teerapol Suneta. Tailândia, abril 2025

Aqui há gata!

À Sushi

Em França existem mais lares com gatos do que com cães desde há cerca de uma década. A urbanização tende a favorecer os felinos. Na Península Ibérica ainda predominam os caninos, o que não impede o anúncio espanhol “Get Apprrrrroved!” de apostar nos felinos, em conformidade, aliás, com o nome da marca: Lynx.

Marca: Lynx. Título:  Agência: Catnip. LOLA MullenLowe. Direção: Andreas Nilsson. Espanha, março 2025

Higiene digital

“The real danger is not that computers will begin to think like men, but that men will begin to think like computers” / O verdadeiro perigo não é que os computadores venham a pensar como os homens, mas que os homens comecem a pensar como computadores” (pensamento atribuído ao jornalista Sydney Harris).

A revolução informática tem limites? Talvez…

Imagem: Computer man, by GigachadUndertaleFan. DeviantArt

Marca: Emma. Título: Le Trèfle. Agência: Leo Burnett Paris. Direção: Bart Timmer. França, 2013

Cola Transcendente. Humor Tailandês

Estou mergulhado numa fase de aprendizagem. Comunicar, fica para mais tarde. Para já, um adeus aos refrigerantes, incluindo a coca-cola. Infusões, por favor e sem excessos. Resiste, contudo, um prazer: o consumo de disparates. Seguem três, com borbulhas.

Marca: RC Cola. Band. Tailândia, 2020
Marca: RC Cola. Family. Tailândia, 2020
Marca: RC Cola. Himala (Milagre). Tailândia, 2024

Transições e variações

“Mas, para além da figura do puzzle, o movimento de “decomposição de uma ordem e composição de uma desordem” comporta, ainda, a ideia de descentramento, se não de uma fragmentação policêntrica. Esta cosmogonia, este modo de estar e de sentir o mundo, remonta aos tempos de Giuseppe Arcimboldo abalados pela revolução Kepleriana que tanto influenciou a mundividência barroca. Com Johannes Kepler (1571-1630), o centro, que Copérnico deslocara da Terra para o Sol, perde-se no infinito: “Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, 1609, citado por Severo Sarduy, Barroco, Paris, Ed. de Minuit, 1975: 89). Um sentimento partilhado por Blaise Pascal (1623-1662) que confessava: “O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me” (Pensamentos, 1ª ed. 1670).

Este descentramento marca também a nossa experiência. Deambulamos sem ponto fixo. Filhos da compressão do tempo e do espaço, comprazemo-nos com o simulacro, o zapping e o flash. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, atirados de um lado para o outro”, o que é um jeito de navegar numa “esfera cujo centro está em toda a parte, a circunferência em parte nenhuma (Blaise Pascal, Pensamentos, 1ª ed. 1670). Nada, porém, que uma boa publicidade não possa contemplar. Por exemplo, o anúncio Worlds da Ford (Ford S-Max, Velocity Films, República da África do Sul, 2006). Um homem pega numa maçaneta, atravessa uma parede e entra num cenário de deserto; novo golpe de maçaneta, e passa para uma paisagem de neve; de porta em porta, segue-se um observatório, o oceano e, por último, um automóvel, que, num ápice, o transporta para uma estrada de montanha. O mundo da vida surge, assim, associado a um zapping numa espécie de origami japonês, dobrado e desdobrado à velocidade de um flash.” (Albertino Gonçalves, “Dobras e Fragmentos: A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, Vertigens: Para uma Sociologia da Perversidade, Grácio Editora, 2009, pp. 47-63).

Recordo este excerto a propósito do anúncio All it takes is a Yes, da Lufthansa, lançado este mês. Qualquer semelhança com os anúncios Worlds, da Ford, The Dream, da Motorola ou Sony makes believe it’s everywhere, da Sony, é mera coincidência. Apenas, homólogos, partilham o mesmo modelo ou conceito: transição mágica disruptiva entre mundos ou momentos distintos.

Estive para intitular este artigo “Mais do mesmo”. Não seria justo! Constituem versões que valem por si, variações que acrescentam valor. Como escreve João Capela: “Haverá sempre um antes, e um antes do antes. Melhor é sempre o que vem depois, enaltecendo ou divergindo, acrescenta sempre”. E, como costume, os gostos dividir-se-ão, para enriquecimento geral.

Seguem os quatro anúncios, do mais recente para o mais antigo. Para acompanhar, o Adagio das Variações Goldberg, de J. S. Bach, interpretadas por Keith Jarrett.

Marca: Lufthansa. Título: All It Takes Is a Yes. Agência: Serviceplan Germany. Direção: Niclas Larsson. Alemanha, fevereiro 2025
Marca: Sony. Título: Sony makes believe it’s everyshere. Agência: 180 Amsterdam/LA. Direção: Noam Murro, 2009
Marca: Motorola Razr2. Título: The Dream. Agência: Cutwater San Francisco. Direção: Michel Gondry, USA, 2007
Marca: Ford S-Max. Título: Worlds. Produção: Velocity Filmes. República da África do Sul, 2006
J.S. Bach: Goldberg Variations, BWV 988: Var. 25. a 2 Clav. Adagio. 1741. By Keith Jarrett, 1989

Cenas

Fotografia de Álvaro Domingues. Habituei-me a chamá-la A Catedral

Entretive-me a procurar anúncios da Sony nos ficheiros do computador. Encontrei algumas relíquias. Dedico estes dois, com sequências de cenas quase fotográficas, ao Álvaro Domingues e à Almerinda Van Der Giezen. Lembranças do Natal, lembranças de sempre.

Imagem: Fotografia de Almerinda Van Der Giezen. Chamo-lhe Ofélia ou Rosa sobre Azul

Marca: Sony HD. Título: Beauty. Agência: Y&R, Singapore. Direção: Sam Tootal, 2010
Marca: Sony. Título: Soundville. Agência: Fallon London. Direção: Juan Cabral. UK, 2009

O Regresso de E.T.

O E.T. regressa 37 anos depois, em 2019, para visitar Elliot, não num filme do ainda ativo, e colaborador, Steven Spielberg, mas num anúncio natalício da Sky.

Marca: Sky. Título: E.T. Came Home For Christmas. Agências: Sky Creative Agency & Goodby, Silverstein & Partners (GS&P). Reino Unido, dezembro 2019

Auscultadores atléticos

Pelos resultados de exames, os médicos estimam que já tive um episódio cardíaco, mesmo sem dar conta (afinal, o que é que não tive) e algum canal parece estar algo entupido. Por um lado, receitaram uma aspirina crónica (alcancei a dúzia de comprimidos por dia), por outro, recomendam deixar de fumar e exercício físico quanto puder. Para já, vou adquirir uns auscultadores da marca Beats by Dr. Dre. Conseguem milagres!

Marca: Beats by Dr. Dre / Apple. Título: Nothing Ordinary. Agência: Uncommon, London. Produção: Love Song. Direção: Elliot Power. U.K., novembro 2024

Imitar ou igualar?

“Gostamos muito mais daqueles que tendem a imitar-nos do que daqueles que se empenham em igualar-nos. Porque a imitação é um sinal de estima e o desejo de ser igual aos outros um sinal de inveja” [Madeleine de Souvré, marquise de Sablé (amiga de Blaise Pascal). Maximes, 1678].

Imagem: Daniel Dumonstier – Portrait of Magdeleine de Souvre (1599-1678) Marquise de Sablé, 1621

O sucesso dos anúncios da John Lewis justificou “efeitos colaterais”. Tem inspirado versões alheias, autodenominadas Alternative John Lewis Adverts, que parodiam o seu estilo tradicional, independentemente do conteúdo da mensagem. Embora não pertençam à marca, criativas e esmeradas, evidenciam um sentido apurado de oportunidade. A invocação e eventual confusão com a marca oferecem uma embalagem deveras compensadora.

Seguem três exemplos: Send Me a Sign (2024); The GoKart (2022) e, mais antigo, Give Yourself (2019), que possui a virtude de enaltecer a reciprocidade.

Sam Clegg – Send Me a Sign. Send Me a Sign. 2024. Videoclip. 01.11.2024
Seam Tale Productions – The GoKart. UK, dezembro 2022
Give Yourself. Producede by Marky Scott. Directed by Tony Ogunyinka. 2019