Anúncios orientais contra o tabagismo

Existem campanhas antitabaco alternativas àquelas, previsíveis e molestas, a que estamos habituados. A Thai Health Promotion Foundation faz questão de ser imaginativa, raiando, amiúde, o fantástico. Seguem 5 anúncios.
Imagem: Smoking boys vintage photo. Por Karen Arnold
Momentos musicados
“La música es capaz de llevarse nuestras tristezas en su ritmo y melodía. Evoca recuerdos de amantes perdidos o de amigos fallecidos. Incita a los personajes que llevamos dentro: al niño a jugar, al monje a orar, a la vaquera a moverse al compás, al héroe a superar todos los obstáculos” (Don Campbell, 1998, El Effecto Mozart, Barcelona, Ediciones Urano, p. 7).
Regresso à música e às pressupostas afinidades emocionais. A Amazon criou um novo music streaming, do tipo Spotify ou Pandora. Chama-se Music Unlimited. Inicia com “40 milhões de canções, uma para cada momento”. O que significa que cada canção tem o seu momento próprio ou cada momento tem a sua canção própria. Cada momento é um concentrado único, de actos, palavras, sentimentos e emoções. A cada momento corresponde uma música em particular. E a fada Amazon sabe como os juntar.
Vai um déjà lu? Não resisto a repetir. Haja paciência!
A publicidade é omnívora. Não olha a conteúdos. No limite, qualquer serve. Os anúncios da Amazon dedicados a momentos musicados mostram um gato, um cão e bebés: numa casa de banho e num carro.
Na publicidade, para comunicar emoções, nada melhor do que animais, animações, objectos e crianças. Tudo indica que a comunicação de emoções agradece um ar de inocência.
Apetece fazer uma sondagem. Com quem se identifica mais? 1. O gato; 2. O cão; 3. Os bebés. Responda na parte reservada aos comentários.
Além de me repetir, sou teimoso. Não me calo! Hoje deparei com uma nova imagem no maço de cigarros. Vou pedir à Amazon uma música para cada imagem. Com música, talvez a caderneta das desgraças alcance maior efeito.
Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Rearranging the bathroom. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.
Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Road trip. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.
Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Sugar rush. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.
Com a morte no bolso
Insisto na ferida que nos últimos anos mais magoou a minha cidadania. O problema é que a falta de respeito pela dignidade das pessoas é algo que se pega e que se paga.
“Não há dúvida que na Idade Média se falava mais francamente e mais frequentemente do que hoje da morte e da agonia. A literatura popular da época comprova-o. Os mortos, ou a morte em pessoa, aparecem em numerosos poemas (…) A Vida queixa-se que a Morte espezinha os seus filhos. A Morte gaba-se das suas vitórias. Em comparação com a época contemporânea, a morte dos jovens e dos velhos era nesse tempo menos dissimulada, mais omnipresente e mais familiar (Elias, Norbert, La Solitude des Mourants, Paris, Christian Bourgois Ed, 1988, p. 26).
Norbert Elias engana-se, pelo menos, em parte. Mais de 20% da população actual vive sob permanente ameaça ou assédio de morte. Deve ser um retrocesso do “processo civilizacional” (Norbert Elias).
Todos os dias, José Fumega, o “sobretaxado”, compra o vício no lugar do costume: 4 euros e 20 cêntimos; cerca de três euros destinam-se ao Estado. O imposto sobre o tabaco é um dos mais elevados a nível mundial. Só de imposto sobre o tabaco, José Fumega paga mais do que muitos concidadãos pelo IRS. José Fumega, como a maioria dos fumadores, pertence às classes mais carenciadas. Em termos técnicos, chama-se a isto o princípio constitucional da progressividade da tributação. José Fumega paga e não protesta. Para além dos cigarros, compra o discurso de Estado. É um bónus.
Quando José Fumega era pequeno e se portava bem, o senhor abade dava-lhe santinhos. Agora, o Estado dá-lhe imagens sinistras de um futuro sinistro, uma catequese de bolso. É sempre bom saber, e ver, como vamos morrer! Aqueles corpos nos maços de cigarros são mais explícitos do que as fotografias postmortem da era vitoriana. José Fumega pensou em coleccionar embalagens. Ficaria com um catálogo da miséria e da morte anunciadas. Mas desistiu: ao contrário da revista La Redoute, não dá para escolher. Só para embrulhar.
José Fumega retira o maço do bolso, pisca o olho à fotografia e acende um cigarro. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Tenta recordar-se: como era a mensagem anterior? “O tabaco pode provocar uma morte lenta e dolorosa”? Deve ser isso. E a imagem? Outro cadáver… Duas passas. Fixa o olhar na ponta incandescente: cinzas, só cinzas. Até o fumo, “com mais de 70 substâncias causadoras de cancro”, tem um sabor macabro.

Mais duas passas. No meio da fumarada, José Fumega sonha, sonha com um funeral: o corpo jazente, dizimado por um rosário de doenças e mortes sucessivas, avança numa carruagem puxada por burros ajaezados a ouro. E sente-se justiçado. Pagou para isso! José Fumega sacode a nuvem de fumo. Por mais impostos e mortes que acumule, nunca terá direito a honrarias de Estado. Nome de rua é apanágio de quem governa vidas e impostos alheios.
José Fumega apaga o cigarro. Ele, que não gosta de beatas, sente-se uma beata num cinzeiro político. São muitos milhões os seres humanos abençoados a passear uma dança macabra até ao fim do vício. São os segredos da conversão. José Fumega guarda os cigarros e diz para com os seus botões: é um privilégio andar com um arroto do Estado no bolso. Erasmo falava em “ventosidade” (Erasmo de Rotterdam, De la urbanidad de las maneras de los niños (De civilitate morum puerilium, Ministerio de Educación y Ciencia, 2006, p. 33).
Enquanto caminha, José Fumega não consegue afastar uma dúvida: a ventosidade do Estado pode configurar uma atentado à dignidade humana? E a Constituição da República Portuguesa para que serve? Não estipula o artigo 1º que “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. E, segundo o artigo 26º, “A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação”. Quem são “todos”? E José Fumega afasta-se por entre os transeuntes soletrando uma máxima que o avô lhe ensinou: se não defender a tua liberdade, arrisco a minha.

Anúncio anti-tabaco
José Fumega recorda-se de um comentário: “as campanhas anti-tabaco visam dar a liberdade aos fumadores”. José Fumega rumina lentamente. Só pode dar liberdade quem a tem. Não, não é bem assim! José Fumega retoma a ruminação. A liberdade não se recebe, respira-se. Com ou sem mortalha. Acontece a liberdade parecer um albergue espanhol, a folle du logis, à semelhança da “imaginação” de Malebranche. Qual Zé Povinho, ao José Fumega apetece-lhe meter a mão no bolso, mas no bolso das calças repousa o cronómetro da morte, junto ao sexo condenado à impotência.
José Fumega acabrunha-se. Tosse um disparate estúpido. Durante a Segunda Guerra Mundial, do lado dos aliados, Franklin D. Roosevelt fumava; Winston Churchill fumava; Charles de Gaulle fumava; e Joseph Stalin fumava. Do lado do Eixo e dos neutros, Adolfo Hitler não fumava; Benito Mussolini não fumava; Francisco Franco não fumava; e António de Oliveira Salazar não fumava. Isto não quer dizer absolutamente nada. Como acudiu ao José Fumega tamanha falácia! De tanta pedrada, até aqueles que vivem para a morte aprendem a atirar pedras.
Outrora, para salvar a alma, prometiam o inferno. Agora, para salvar o corpo, prometem a morte.
José Fumega volta a lembrar-se do Zé Povinho. Tira o caixão do bolso e coloca uma bala nos beiços. Expira umas tantas caveiras. E enfia as mãos nas calças para não cruzar os braços.
Respeito
A maioria dos anúncios antitabaco fere a dignidade humana. Existem, felizmente, excepções. O anúncio One Breath, da Nicorette, não convoca bestas nem cadáveres. Esteticamente cuidado, irradia confiança: a capacitação em vez da humilhação, a esperança em vez do medo, numa parábola de salvação. A exclusão não é caminho para o chamamento. Com anúncios como o da Nicorette, apetece deixar de fumar. Como explicar a diferença? Será por o anunciante ser uma empresa privada que precisa cativar clientes?
Marca: Nicorette. Título : One Breath. Agência : AMV/BBDO London. Direcção: Toby Dye. Reino Unido, Outubro 2016.
Fumar é feio
As três parcas da higiene pública são o nojo, a culpa e a morte. Moram no jardim da publicidade degradante. Estes três anúncios, dois da Fundação Portuguesa de Cardiologia e o terceiro da Asociación Española Contra el Cancer, convocam o nojo, à boa maneira dos anúncios anti tabaco do início dos anos 2000. Estes vídeos são difíceis de encontrar. Desconhece-se o motivo.
A dignidade humana
Acompanho pouco, e mal, a política. O suficiente para sentir alguma apreensão. Sou do tempo em que se exigia a um político generosidade, encarada como atributo do poder. A magnanimidade era cognome de rei. Hoje, assevera-se ingénuo associar generosidade e poder. Emergem, em contrapartida, outros atributos. Espera-se que um político seja ambicioso, em termos pessoais. Melhora a imagem do poder e do político? Ganha-se em desempenho? Beneficiam os cidadãos? Do ponto de vista ético, entre generoso e ambicioso, não há que hesitar.
O respeito pela dignidade humana é um desígnio emblemático das chamadas democracias ocidentais. Conheceu interregnos dignos de memória. Setenta anos após a Segunda Grande Guerra e vinte e cinco anos após a queda do Muro de Berlim, continua a cair poeira sobre a dignidade humana. Nesta amnésia pragmática, inquietam-me mais os cidadãos do que os políticos. Esta deriva do poder e da sensibilidade social expressa-se na propaganda. A propaganda não é exclusivo do Estaline, do Hitler e demais ditadores. A propaganda não nos esquece. E nós esquecemos a besta que somos.
Seguem três anúncios de sensibilização da responsabilidade do Ministério da Saúde Canadiano, no âmbito da campanha Quit the Denial. O mínimo que se pode dizer é que atingem o alvo.
Anunciante: Canadian Health Ministry. Título: Social Farter. Agência: BBDO Toronto. Canadá, 2013.
Anunciante: Canadian Health Ministry. Título: Ear Wax Picker. Agência: BBDO Toronto. Canadá, 2013.
Anunciante: Canadian Health Ministry. Título: Social Nibbler. Agência: BBDO Toronto. Canadá, 2013.
Aqui há gato!

No tempo em que os gatos fumavam. Mainzer & Kunzli. Dressed Cats Postcards. Smoking Cats. Início anos 1950.
Há anúncios de sensibilização contra o consumo do tabaco que não são contra os fumadores. Pretendem ajudá-los. Há anúncios de sensibilização que têm sentido de humor, com ou sem gatos. Há anúncios de sensibilização em que as palavras, embora resumidas, não são cortantes. Este anúncio, Only cats have nine lives, é um exemplo. Uma paródia das compilações vídeo que circulam na Internet que lembra que nove vidas, só os gatos. Nove ou sete? Sete, na maior parte do continente europeu, nove, nos países anglo-saxónicos. E os gatos portugueses, quantas vidas têm? Os fumadores, esses, só têm uma vida! E os outros? Ambos têm uma vida e nenhuma eterna.
Anunciante: Quit. Título: Only cats have nine lives. Agência: Iris. UK, Dezembro 2013.
A Cruz do Tabaco
Arrastar todo o dia um gigantesco cigarro desgasta qualquer um, até mesmo um elefante. Parece haver uma ressonância bíblica neste anúncio francês. Cada fumador carrega uma cruz! Mas é uma associação abusiva. No nosso admirável e higienista mundo novo, atentar contra a saúde é pecado. Fumar é um ato poluidor e degradante, moralmente condenável. Esclarecedora é, no entanto, a mensagem guardada para o fim do anúncio. O consumo de tabaco é, afinal, encarado menos como um fardo pessoal e mais como um custo orçamental. O anúncio fecha com o seguinte alerta: “Não, o tabaco não compensa. Custa cada ano à França 47 mil milhões de euros. O tabaco é um peso para a sociedade”. Pelos vistos, a cruz tem forma de cifrão. Importa, portanto, rever o anúncio e reescrever o comentário. A cruz do tabaco é carregada por todos: pelos fumadores e, sublinhe-se, pelos não fumadores. O tabaco é um desperdício e uma injustiça social.
Marca: CNCT national commitee against tobacco. Título: The weight of Tobacco. Agência: Havas 360, Rennes, France. Direção: Stephane Barbato. França, Maio 2013.
Versão inglesa mais completa:











