O pastor, a cabra e o cordeiro

A ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet, baseia-se no romance homónimo de Anatole France (1889), que, por seu turno, se inspira nas vidas de São Paphnutius (Pafnúcio) de Tebas e Santa Thaïs (Taíde) de Alexandria, ambos de século IV, consagrados pelas igrejas católica, ortodoxa e copta, celebrados, respetivamente, nos dias 11 de setembro e 8 de outubro (para um resumo das suas vidas, consultar os seguintes links: Paphnutius of Thebes; e Santa Thais, Penitente).

No romance de Anatole France, o anacoreta Paphnutius, arrependido de sua juventude frívola, retira-se no deserto, onde acaba por se tornar abade de um conjunto de monges fundamentalistas egípcios. Uma visão impele-o a sair do deserto para “salvar a alma” de Thaïs, uma bela e rica cortesã, “prostituta de elite”, da cidade de Alexandria. Com imensa dificuldade, consegue convertê-la, convencendo-a a ingressar num convento. O pastor transforma a cabra em cordeiro.

Mas será a sua vez de cair em tentação. Apaixona-se por Thaïs, sofrendo mil atribulações, incluindo ciúme pelos seus antigos amantes. Não há oração nem ascetismo capazes de o redimir. A salvação amaldiçoa o salvador. Trata-se de um desenlace perverso atendendo que a resistência às tentações representa uma das maiores virtudes dos anacoretas. As investidas do mal costumavam aparecer menos como demónios horrendos (ver o painel de Matthias Grunewald) e mais disfarçados sob figuras belas e atraentes (ver a pintura de Pieter Coecke Van Aelst, o Velho).
Recomendo a leitura do romance Thaïs, de Anatole France. Junto duas cópias em pdf: a primeira do original em francês, a segunda da tradução inglesa.


Seja-me permitido, a despropósito e a contramão, efabular ou proverbializar sobre a ambivalência dos símbolos: o pastor não deixa de ser um zeloso guardador de rebanhos; a cabra, sobretudo a montesa, uma apreciadora da liberdade; e o cordeiro, um potencial lobo disfarçado. Não dá para jurar, tão pouco ignorar.
Mio violino caro: Maxim Vengerov
Nascido na Rússia em 1974, Maxim Vengerov consta entre os violinistas mais celebrados do século. Em 1997, foi nomeado embaixador da UNICEF na área de música. Segue a interpretação da Meditação, da ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet.
Mio violino caro: Joshua Bell

No que respeita à música, sou um guloso omnívoro. Agrada-me o que me agrada, sem precondições, tabelas ou conveniências. Aprecio música por vários motivos: composição, arranjo, orquestração, interpretação, mas também, colateralmente, os contextos e as memórias que convoca. Inaurugo uma mini série de artigos, intitulada mio violino caro, centrada em intérpretes de violino.
Comecemos com Joshua Bell. Violinista virtuoso, nasceu nos Estados Unidos em 1967. Em 2007, participou numa experiência curiosa: tocou durante cerca de quarenta minutos numa estação de metro no centro da cidade de Washington. O segundo vídeo mostra o resultado. Segue a interpretação de “O mio babbino caro”, de Giacomo Puccini.
Quando o negócio se oferece generoso
A vida e a morte aproximam-se, dão, aliás, frequentemente as mãos. Uma pressupõe a outra. No ciclo anual, esta proximidade é particularmente pronunciada no outono. “Salta-se” de uma comemoração da morte, dos que partiram, para uma celebração da vida, dos que nascem. A publicidade acusa esta viragem. Passa a aludir mais à vida e à esperança e menos à morte e à memória. A campanha natalícia começa na primeira metade de novembro, quase a seguir ao Dia dos Mortos. Os “anúncios de Natal” circulam, portanto, há já alguns dias.
A cadeia de lojas britânica John Lewis & Partners faz questão de publicar todos os anos anúncios de rara qualidade e criatividade. Extensos, convocam um universo mágico em que crianças desenvolvem uma relação inesperada e generosa com figuras fantásticas mais ou menos associadas ao espírito do Natal.
Segue o anúncio Snapper: The Perfect Tree, estreado no dia 9 de novembro. Aproveita-se o ensejo para recordar os anúncios de Natal da John Lewis dos anos 2019 e 2021.
E se regressasses antes de partir…

Jean-Jacques Goldman, ativo a solo desde os anos 1980, vendeu mais de 30 milhões de discos. Autor, compositor, intérprete, produtor e guitarrista é um dos músicos mais genuínos e populares da França. É mais avisado vê-lo e ouvi-lo do que comentá-lo. Segue o vídeo com a interpretação ao vivo da canção Puisque tu pars.
Geografia biográfica
Uma noite em Melgaço, a seguinte em Moledo, a próxima em Braga. Três ângulos do meu quadrilátero. Quadrilátero porque falta um recanto: Paris, leito se não do meu sono pelo menos dos meus sonhos. É esta a geografia de uma vida. Nostálgico, percorro os cds à procura de música francesa. Tropeço em Renaud, un mec à part, un banlieusard, un provocateur, surtout quelqu’un qui, mine de rien, chante “société tu m’auras pas”. Um desalinhado, a seu tempo, bem sucedido.
Te raconter, enfin, qu’il faut aimer la vie
L’aimer même si le temps est assassin et emporte avec lui
Les rires des enfants
J’déclare pas avec Aragon
Que l’poète a toujours raison
La femme est l’avenir des cons
Et l’homme est l’avenir de rien
Tu crois pas qu’on est déjà bien assez nombreux?
T’entends pas ce bruit c’est le monde qui tremble
Sous les cris des enfants qui sont malheureux
Allez viens avec moi, je t’embarque dans ma galère
Dans mon arche il y a d’la place pour tous les marmots
Avant qu’ce monde devienne un grand cimetière
Faut profiter un peu du vent qu’on a dans l’dos
La liberté, c’est l’enfer
Quand elle tombe sur un cœur prisonnier
O amor pode curar


A canção do último artigo (Quebrando as regras ao meu jeito) veio do extremo norte do País, onde participei hoje no encontro Contrabando de Letras, com minhotos (Eduardo Pires de Oliveira, Américo Rodrigues) e galegos (Aser Álvarez, Noemia Tato, Mar Varela, Mercedes Vázquez Saavedra). Dende arriba, das Rias Baixas, chegou-me outro vídeo musical: Love Can Heal, do Peter Gabriel. Acrescento, do mesmo cantor, Mercy Street, um dos meus videoclips preferidos.
Quebrando as regras ao meu jeito
So I’m taking the chance, walking away, breaking the rules
Nobody here can tell me what to do
I’m out on my own, making my way
Trying to be someone that I can be proud of one day
I’m out on my own, doing it my way
Doing it my own wa
Uma amiga enviou-me, lá do extremo norte do País (país que me lembra uma novela de Cervantes), entre outros, este vídeo musical. E pronto! Ganhei o dia, melhor, o mês.
As duas caras: A oliveira e o leão
Por António Amaro das Neves

“Tenho particular apreço pelos autores que ousam acrescentar novas camadas de sentido a realidades, designadamente do património histórico e cultural, cuja interpretação parece saturada ao nível do senso comum vulgar ou sábio. António Amaro das Neves consegue-o a propósito do Guimarães, o Homem das Duas Caras, estátua icónica dos vimaranenses, no texto surpreendente “As duas caras: A oliveira e o leão”, escrito para o livro Sociologia Indisciplinada. São obras como esta que costumo eleger como fonte de inspiração e me motivam, confesso, uma ponta de inveja.
Segue, em pdf, a versão a cores do capítulo “As duas caras: A oliveira e o leão”, da autoria de António Amaro das Neves, do livro Sociologia Indisciplinada (coordenado por Rita Ribeiro, Joaquim Costa e Alice Delerue Matos), Edições Húmus, 2022, pp. 55-68″ (Albertino Gonçalves).
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António Amaro das Neves, historiador, mestre em História das Populações, investigador do CITCEM. Foi presidente da direção da Sociedade Martins Sarmento e coordenador editorial da Revista de Guimarães. Autor, coautor e organizador de diversas publicações. Mantém ativo, desde 2007, o blogue Memórias de Araduca, dedicado à história, às tradições e à cultura de Guimarães e do Minho.
