A Super Avó
“Sejam realistas, peçam o impossível” (slogan de Maio 1968). Já não sou realista; contento-me com o desejável. Se rir é apanágio do homem (François Rabelais), partilhar é próprio de todos os animais, incluindo o homem. Dê, mas olhe a quem! Para salvar vidas, não precisa dos poderes da Super Avó (Super Gran), A fazer fé na Cruz Vermelha Francesa, basta vontade e dinheiro.
Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência : Altmann + Pacreau. Direcção : David Bertram. Junho 2017.
Super Gran. Reino Unido, 1985-1987.
Violência fraterna
Tudo espanta os olhos de criança. No anúncio Hermanos, da Car One, uma empresa de carros usados, assiste-se a uma escalada de violência, com ressonâncias bíblicas: “Abel” e “Caim” partilham, para o bem e para o mal, o mesmo quarto. Há quem sustente que o convívio duradouro de seres humanos num espaço exíguo pode gerar mal-estar e violência. Não são os seres humanos animais territoriais que necessitam de uma “muralha de honra” (Émile Durkheim) e de um “espaço vital” (Friedrich Ratzel)? Sem essa “distância pessoal” (Edward T. Hall), os riscos de violência são incalculáveis. Com poucas letras se descreve uma teoria de triste memória.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.
Na publicidade, o segmento automóvel consta entre aqueles que mais convocam a violência. A violência, mais as duas primas: a sexualidade e a morte. A violência cativa, “prende”. Parte dos grandes espectáculos da humanidade são espectáculos de violência, a começar pelas execuções públicas e a terminar nos atentados terroristas. As cenas mais hilariantes dos filmes mudos, e não só, são cenas de violência, mormente, gratuita.
Parte da violência quotidiana rola sobre rodas. Ao volante e nos demais assentos viajam vulcões adormecidos de agressividade. Até o pacifista mais ecuménico sente que com o pé no acelerador consegue derrubar a Muralha da China. O automóvel ergue-se, ao mesmo tempo, como uma cavalgadura e uma armadura (ver Bestas ao Volante: http://www.jn.pt/domingo/interior/bestas-ao-volante-983646.html). Realidade, ficção ou sonho, a violência activa o olhar, a alma e o corpo (Derrick de Kerckhove).
Quer vencer uma batalha e conquistar espaço vital? Compre um automóvel na Car One.
Marca: Car One. Título: Hermanos. Agência: Leo Burnett Argentina. Direcção: Javier Usandivaras / Miguel Usandivaras. Argentina, Junho 2017.
Notas de violência e sofrimento
Custa-me sair de um rio de pensamento. Torno-me chato! Regressemos, pois, à afinidade entre a música e a experiência, o sentimento e a emoção. Os anúncios Inspiración, da Billboard Argentina, enfatizam menos a ideia de que há sempre músicas apropriadas aos diversos momento de vida e mais a ideia de que há músicas que ganham em ser encaradas como resultado do próprio mundo da vida. Por outras palavras, há momentos que suscitam músicas. A diferença é ténue, mas existe. Os três vídeos que seguem são violentos, pior, crus. Se é sensível, não vale a pena ver.
“(Buenos Aires, viernes 9 de mayo de 2017, 16:15 hs. hora local) – La violencia familiar, el racismo o incluso la muerte son tragedias que, sin embargo, algunos músicos lograron traducir en algo positivo, al punto que muchas de sus canciones alcanzaron el primer lugar en el ranking Billboard. Los tres spots–“Sobredosis”, “Redada” y “Violencia”–, con escenas duras y con producción de Primo y dirección de Pantera (Brian Kazez), hacen referencia a esa capacidad de los músicos” (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cinspiraci%C3%B3n%E2%80%9D-preestreno-de-la-comunidad-para-billboard-argentina).
Anunciante: Billboard (Argentina). Título: Sobredosis. Agência: La Comunidad. Direcção: Pantera (Brian Kazez). Argentina, Junho 2017.
Anunciante: Billboard (Argentina). Título: Redada. Agência: La Comunidad. Direcção: Pantera (Brian Kazez). Argentina, Junho 2017.
Anunciante: Billboard (Argentina). Título: Violencia. Agência: La Comunidad. Direcção: Pantera (Brian Kazez). Argentina, Junho 2017.
Monstruosidade ready-made
Uma pessoa severamente queimada convive naturalmente com as pessoas que participam no Halloween, o dia em que a exclusão, as diferenças e os estigmas se apagam. Por um dia, o protagonista é uma imitação de si mesmo. Halloween, da Burns and Smiles, é um anúncio excelente com uma duração e um ritmo que permitem o afloramento de uma velha questão: afinal, quem são os monstros? Questão abordada, por exemplo, por Victor Hugo (Notre Dame de Paris, 1831), Tod Browning (Freaks, 1932) ou David Lynch (The Elephant Man, 1980).
Anunciante: Burns and Smiles. Título: Halloween. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Nicolas Galoux. França, Dezembro 2016.
A parte maldita
O Meco envia-me, de vez em quando, vídeos do outro mundo. Cáusticos e desconcertantes. Ameaçam a nossa “segurança ontológica”. A noção de estranhamento é complexa (Sigmund Freud; Wolfgang Kayser). Dizer que o estranho abala o nosso mundo familiar é pouco. Por um lado, existe familiaridade no estranho. Reconhecêmo-nos no que estranhamos. Uma parte de nós integra o monstro. Por outro lado, o estranho vive dentro de nós. É a nossa “parte maldita” (Georges Bataille). As nossas pulsões e os nossos fantasmas mobilizam-nos para o estranho. O monstro nunca está perfeito porque nós não paramos de o retocar. Estamos, assim, perante uma multiplicidade de vozes, uma polifonia, em diálogo interior e exterior, no sentido do dialogismo de Mikhail Bakhtin. A curta-metragem Cream, de David Firth, constitui um excelente exemplo: revemo-nos aqui e além, com maior ou menor incómodo, mas não desligamos.
Cream. Por David Firth. Brainfeeder films. Maio 2017.
Momentos musicados
“La música es capaz de llevarse nuestras tristezas en su ritmo y melodía. Evoca recuerdos de amantes perdidos o de amigos fallecidos. Incita a los personajes que llevamos dentro: al niño a jugar, al monje a orar, a la vaquera a moverse al compás, al héroe a superar todos los obstáculos” (Don Campbell, 1998, El Effecto Mozart, Barcelona, Ediciones Urano, p. 7).
Regresso à música e às pressupostas afinidades emocionais. A Amazon criou um novo music streaming, do tipo Spotify ou Pandora. Chama-se Music Unlimited. Inicia com “40 milhões de canções, uma para cada momento”. O que significa que cada canção tem o seu momento próprio ou cada momento tem a sua canção própria. Cada momento é um concentrado único, de actos, palavras, sentimentos e emoções. A cada momento corresponde uma música em particular. E a fada Amazon sabe como os juntar.
Vai um déjà lu? Não resisto a repetir. Haja paciência!
A publicidade é omnívora. Não olha a conteúdos. No limite, qualquer serve. Os anúncios da Amazon dedicados a momentos musicados mostram um gato, um cão e bebés: numa casa de banho e num carro.
Na publicidade, para comunicar emoções, nada melhor do que animais, animações, objectos e crianças. Tudo indica que a comunicação de emoções agradece um ar de inocência.
Apetece fazer uma sondagem. Com quem se identifica mais? 1. O gato; 2. O cão; 3. Os bebés. Responda na parte reservada aos comentários.
Além de me repetir, sou teimoso. Não me calo! Hoje deparei com uma nova imagem no maço de cigarros. Vou pedir à Amazon uma música para cada imagem. Com música, talvez a caderneta das desgraças alcance maior efeito.
Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Rearranging the bathroom. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.
Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Road trip. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.
Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Sugar rush. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.
Anúncios que nos dão música
Pode saltar o texto. Não presta! Mas os vídeos são excelentes.
Gosto do ensaio como forma de raciocínio e escrita. Gosto de discorrer sobre temas maiores, essenciais, a partir de temas menores, relativos (Lukacs, Georg, 1974, L’âme et les formes, Paris, Gallimard, 1ª ed. 1911; Goldmann, Lucien, 1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard). Abuso, deste jeito, do verbo “lembrar”: memória inquieta que não se senta no tempo. A publicidade presta-se ao ensaio. A publicidade é omnívora, não há assunto que lhe escape. Mais, aborda tudo de qualquer prisma, técnica ou recurso, desde que funcione. Lembra o anarquismo metodológico de Paul Feyerabend (Against Method,1975, London/New York, Verso). Para nós, hoje, flechas tensas no arco de Ulisses, atingir um objectivo é mais heróico do passar o cabo Bojador. Assemelha-se a tocar na santíssima trindade. Enfim, assim como o ensaio discorre sobre temas maiores a partir de temas menores, a publicidade contempla o que bem entende para alcançar o que muito pretende. A publicidade pode nem sequer falar do que interessa. Escrever sobre publicidade pode relevar de uma construção de segundo grau. Em termo de inspiração para o ensaio, apenas a arte rivaliza com a publicidade.
Vem esta leveza de espírito a propósito da comunicação de Júlia Durand, intitulada O elefante na sala de pós-produção: a library music em criações audiovisuais, dedicada aos repositórios musicais procurados para bandas sonoras de filmes, anúncios, vídeos institucionais… Estes reportórios estão categorizados por temas, conteúdos, contextos, emoções, mensagens, estilos… Limito-me a registar a ideia, que não me convence, de que existem pontes claras entre trechos musicais e emoções. Não obstante, acodem-me alguns anúncios em que a marca, a música e a emoção dançam na perfeição.
Marca: BMW. Título: Aesthetics. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Adrian de Sa Garces. República da África do Sul, Novembro 2006.
Marca: Audi A5. Título: A Rythm of Lines. Agência: BBH, London. Reino Unido, 2007. Música: Prelude 2, de Dustin O’Halloran.
Marca: BMW. Título: See How It Feels. Agência: WCRS, London. Direção: Warren Du Preez & Nick Thornton Jones. Reino Unido, Fevereiro de 2007. Música: UNKLE.
Marca: Nescafé. Título: Sunrise. Direcção: Derek Coutts. UK, 1988. Música: Johnny Nash.
A cerveja, o copo e o macho
Barbarian, la cerveza artesanal inspirada en la rudeza de los bárbaros ancestrales, no podía permitir que un dedo meñique avergüence a algunos hombres. Por eso crearon el Antipinky Pint, un vaso con un anillo fundido en hierro y testosterona para prevenir que ese dedo meñique se levante en contra de todo macho.
Reparou que quem bebe cerveja levanta o dedo mindinho? À publicidade nada escapa! No caso da cerveja, inclina-se para o machismo. Os bebedores de cerveja são homens muito homens, mas o dedo mindinho é um traidor; ergue-se, efemina e envergonha o “bárbaro ancestral”. Para que o macho bebedor de cerveja não veja a sua virilidade amesquinhada, a Barbarian inventou o “antipinky pint”, com um anel de ferro com testosterona destinado a segurar o dedo mindinho. Precisamente, o copo ideal para os machos que querem permanecer machos.
A Barbarian desafia-nos a beber cerveja num copo amigo da virilidade. O machismo servido com humor, bem caricaturado, é menos machista? E se for com classe e qualidade? E se possuir um fundo de misoginia e homofobia? Censura-se em nome dos altos valores e dos bons costumes? Mete-se o anúncio no anel? Liberdade e água benta, cada um bebe a que lhe deitam no copo.
Com humor, ironia, desenvoltura e imaginação, este tipo de anúncio, que associa a cerveja ao homem macho, tem um nicho de eleição: a América Latina. Este é peruano.
Marca: Barbarian. Título: The Antipinky Pint. Agência: Fahrenheit DDB, Lima. Peru, Maio 2017.
Fahrenheit DDB, Lima, Peru
Abrir as janelas
Após uma reunião, deixamo-nos conversar à porta de um edifício barroco. Falou-se de flauta e de flautim (piccolo). De Vivaldi e do concerto per piccolo em dó menor p. 78 – 2 Largo (ver https://tendimag.com/2012/01/08/relatorio-in-c-major-rv-443-largo/). Convocou-se Jean-Pierre Rampal, um intérprete de flauta incontornável. Falou-se, por último, de um vídeo com Jean-Pierre Rampal e Miss Piggy, na série Os Marretas. Arejar faz bem! Liberta o espírito.
Antonio Vivaldi. Concerto para flauta em lá menor. P.77 – 2. Jean-Pierre Rampal: Vivaldi, les concertos pour flûte-piccolo. 1988.
Jean-Pierre Rampal & Miss Piggy. The Muppet Show Ep. 106.










