Peixes voadores

Há anúncios que fazem cócegas no diafragma, regalam a vista e desafiam o raciocínio. Humor, estética e imaginação. FlyBoardFishing, da Fishersman’s Friend, surpreende uma sequência de voo em flyboard e pescaria de mergulho. Tudo graças ao sopro de um velho com pulmões invejáveis. De perder o fôlego! Fish, da Johnnie Walker, estreado em 2003, é uma obra-prima da publicidade. “Antes do primeiro passo”, os seres humanos nadam, entre saltos e mergulhos, como golfinhos, num movimento semelhante ao do pescador do anúncio FlyBoardFishing. De suster o fôlego! No anúncio Fish, carregar em HD.
Marca: Fisherman’s Friend. Título: FlyBoardFishing. Agência: Walker Zurich. Direcção: Axel Laubscher. Suíça, Fevereiro 2016.
Marca: Johnnie Walker. Título: Fish. Agência: BBH London. Direcção: Daniel Kleinman. Reino Unido, 2003.
Nem apocalípticos, nem integrados

Chris Cunningham
Retomando o artigo precedente, as cabeças boquiabertas grotescas do vídeo Magma,dos Dvein, lembram muitas outras obras. Por exemplo, o vídeo musical Come To Daddy (1997), de Chris Cunningham, para os Aphex Twin. Desconcertante. Trata-se de um vídeo musical que se tornou um clássico, tal como outros vídeos dirigidos por Chris Cunningham: Only You (1998) dos Portishead, Frozen (1998) da Madonna e All is Full of Love (1999) da Bjork.

Umberto Eco
Por um tempo, convém distrair a memória para dar oportunidade a outros pensamentos. Para não cair na vertigem das listas (Umberto Eco, 2009). Gosto do Umberto Eco. Autor de uma obra vasta e diversificada. Felizmente, não se deixou seduzir pela moda de se concentrar em uma ou duas ideias. Apesar de ser um grande erudito, não cita apenas autores germânicos. Frequentava os arquivos, mas não dispensava observar o mundo da vida (ver, por exemplo, Viagem na Irrealidade Quotidiana, de 1983). Perdemos um sábio! Não faltam, porém, escritores de artigos e mestres em infografia burocrática. A minha mulher ofereceu-me, há anos, A Vertigem das Listas e o meu filho ofereceu-me, há meses, o último livro do Umberto Eco: O Número Zero (2015). Conhecem bem as minhas taras.
Aphex Twin. Come To Daddy. Dir. Chris Cunningham. 1997.
Dvein: Imaginar a Moda

“Formed in Barcelona in 2007, Dvein is a collaborative collective that pushes the limits of live action and CGI storytelling, helmed by creative directors Teo Guillem and Carlos Pardo. With a background in fine art and design, the collective merges the physical with the digital world to craft sleek visual effects infused with their own distinctive, organic aesthetic. With an experimental, design-driven culture at its core, Dvein combine live action with animation to pursue a unique visual language in all their work across cinema, broadcast, music video, art and installation” (http://www.dvein.com/info/about).
Admiro o trabalho, extenso, dos Dvein. O que mais impressiona é a construção, tecnicamente apurada, de objectos e imagens disformes em compulsiva mutação. Omar Calabrese diria “monstruosidades”.
Estes três vídeos são dedicados à moda.
O primeiro, Factory, para Jean Paul Gaultier, estreado em Janeiro de 2016, comporta uma negociação entre estilos: dos Dvein e de Jean Paul Gaultier. Inovar na tradição, eis a questão.
Marca: Jean Paul Gaultier. Título; Factory. Agência: Melle nöi. Direcção: Dvein. França, Janeiro 2026.
O segundo, o anúncio Purity, para a Dorna, presta-se mais ao jeito dos Dvein, mormente a apetência pela estetização de fluídos.
Marca: Dorna. Título: Purity. Agência: Ogilvy Frankfurt. Direcção: Dvein. 2015.
O terceiro vídeo regista uma projecção de hologramas durante um desfile da Diesel (Liquid Space). O final com a imagem a entrar na garrafa é genial.
Dvein. Diesel’s Liquid Space fashion show. Florença. 2007.
Regressaremos noutros artigos à obra dos Dvein.
Humildade

Wim Mertens
Tenho andado ocupado com actividades que não me vão ficar na memória. Lixo biográfico! Retive, isso sim, um concerto de Wim Mertens. Há longos anos. Seguem duas músicas: uma ao vivo e a outra ilustrada.
Wim Mertens. Often a bird. Tenerife. Tenerife Symphony Orchestra. 2008.
Wim Mertens. Humility. After Virtue.1988.
O que é nacional é bom
O anúncio Resources, da WeatherTech, incita os norte-americanos a consumir norte-americano. O anúncio Not Backing Down, da Budweiser, destaca como qualidade da cerveja a não importação (NOT IMPORTED). São anúncios votados a uma audiência gigantesca, dentro e fora dos Estados-Unidos.
Marca: Budweiser. Título: Not backing down. Agência: Anomaly New York. USA, Fevereiro 2016.
Lembram-se do slogan de uma marca de bolachas: “o que é nacional é bom”? Foi antes do euro.
Marca: Nacional. Slogan: O que é nacional é bom. 1988.
A questão do proteccionismo é complexa. Tem várias faces. A Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores apresenta as seguintes reivindicações ao Ministro da Agricultura:
4. Solicitar que o senhor ministro pressione a Comissão Europeia no sentido de iniciar no imediato reuniões técnicas com as autoridades russas, de forma a pôr término ao embargo russo à carne de porco europeia;
5. Exigir a assinatura urgente do contrato de exportação de carne de porco portuguesa para a China e Coreia do Sul;
8. Incentivar o consumo da carne de porco, exigindo que todas as cantinas públicas comprem carne de porco proveniente de animais criados e abatidos em Portugal (http://www.suinicultura.com/fpas2013/index.php?nid=401, 08 de Fevereiro de 2016)”.
Perfilhando o espírito da lusofilia mercantil, a Associação Empresarial de Portugal e o Ministério da Agricultura lançaram, no âmbito de um protocolo celebrado em 2011, o programa, pouco discreto, “COMPRO o que é nosso”. O que é nacional é tão bom!
Renascimento mecânico
Alguns profetas proclamaram o fim das narrativas. Entretanto, as narrativas continuam, algumas colossais, tais como o (neo)liberalismo e o terrorismo. Este anúncio indiano é uma narrativa de morte e renascimento, cujos protagonistas são objectos técnicos. O equivalente dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann. O heróico porta-aviões Vikrant renasce, por transmutação, no motociclo Bajaj V. A aura dos símbolos também se transfere.
Marca: Bajaj V. Título: Rebirth. Agência: Leo Burnett. Direcção: Rajesh Saathi. Índia, Fevereiro 2016.
Comprar o que é nosso
There’s a huge natural resource right here in America.It’s not the land, water, or power sources – it’s the people.At WeatherTech®, we celebrate American workers.
Marca: WeatherTech. Título: Resources. Agência: Pinnacle Advertising. USA, Fevereiro 2016.
Mais um anúncio para a Super Bowl. A WeatherTech, uma empresa norte-americana de acessórios de automóveis, desafia os norte-americanos a consumir norte-americano. Porque a gente merece. Trata-se de uma iniciativa de pendor proteccionista. Nada que a tradição do país não justifique. Nem todos são paladinos do mercado livre como a Comunidade Europeia, adepta da política da abertura recíproca dos mercados. De qualquer modo, atendendo ao objectivo, o anúncio está bem conseguido. A oportunidade cria o ladrão: não resisti a fazer um gráfico com as taxas de crescimento do produto interno bruto da União Europeia (a 19), dos Estados-Unidos e de Portugal. Só para exercitar a vista. Curiosamente, e com alguma perversidade, esta apologia do trabalho e do trabalhador norte-americanos traz-me à memória o elogio do trabalho nos selos de correio dos países da União Soviética.
Gráfico: Evolução da taxa do PIB da União Europeia (19 membros), dos Estados-Unidos e de Portugal, entre 2004 e 2014.

Fontes: http://ec.europa.eu/eurostat/tgm/download.do?tab=table&plugin=1&language=en&pcode=tec00115 e http://www.multpl.com/us-gdp-growth-rate/table/by-year.
A técnica e a arte
Na era da aceleração técnica, o projecto tecnológico aproxima-se da obra de arte. Não porque a técnica se converta aos cânones da arte (não faz pinturas, esculturas ou instalações), mas porque a própria técnica se assume como arte, apostando na forma tanto quanto na função. O maneirismo que envolve nos anúncios os objectos técnicos é um sinal claro dessa tendência. Tendência que não se cinge à publicidade. Atente-se nos mistos de arquitectura e técnica que albergam museus, fundações e outras construções congéneres. A forma abraça a função. O edifício rivaliza com a colecção ou a exposição. É arte sobre arte. O público assim o entende, demandando os novos roteiros das maravilhas estéticas da técnica. Falar da técnica como arte é insensato e imprudente. É certo que o assunto se entrevê nas páginas do livro de Jürgen Habermas: A Técnica e a Ciência como “Ideologia” (1968). O que não impede que Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Georg Lukacs ou Lucien Goldmann se indignem no paraíso. Paciência! Se Deus morreu, não é o intelectual que o vai substituir.
O anúncio italiano Mechatronic Harmonies, da Wittenstein, é um exemplo desta aspiração estética. Depurado, estilizado, a marca só no fim aparece discreta e fugidia. Lembra E.C. Escher, Wenzel Jamnitzer e outros gravuristas maneiristas dos séculos XVI e XVII. Estranho? Nem por isso. A inovação e o arcaísmo costumam encontrar-se nas dobras do destino.
Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Marca: Wittenstein. Título: Mechatronic Harmonies. Agência: Negrini & Varetto. Direcção: Luigi Pane. Itália, Janeiro 2016.






Em jeito de contraste, acrescento uma pequena amostra de música barroca italiana. Tomaso Albinoni (1671-1751) não compôs apenas o célebre Adágio em sol menor para violino, cordas e orgão, T. Mi 26. Escreveu outros adágios de que são exemplo estes dois excertos.