Resgate sobre rodas
Y.M.C.A. é uma música dos Village People. IMCA é uma instituição internacional cristã, criada no século XIX, que promove a juventude, a saúde, o exercício físico e a responsabilidade social. No vídeo dos Village People aparece várias vezes o logótipo da IMCA, instituição que chegou a processar os Village People. O anúncio Tornado está muito bem concebido. O quadro e as imagens não podiam ser mais depurados: uma ciclista no fio de um horizonte alvoroçado por um tornado. Pedala sem qualquer hesitação ao longo do fio que separa a terra e do céu. Sai do furacão como entrou: determinada. Entretanto, resgatou um cão. Missão cumprida. Lembra alguns vídeos dos Pink Floyd (e.g. High Hopes, The Division Bell). A protagonista resgatou um cão preso no furacão. A nós, ninguém nos resgata. À mínima lufada de ar fresco, logo vêm os embaixadores da razão fóssil com não sei quantas exigências. Votar, votamos, como os nossos “parceiros”, só não votamos nos nossos donos. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Marca: Twin Cities IMCA. Título: Tornado. Agência: Preston Kelly. Direcção: Joe Schaak/Field. USA, Janeiro 2016.
Não resisto a adicionar o vídeo dos Village People. Uma banda gay cujos vídeos evidenciavam figuras e símbolos másculos. Era o seu jeito de comunicação. O vídeo Y.M.C.A. contempla vários símbolos da masculinidade: um polícia, um índio, um cowboy, um soldado… Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
A dança dos carneiros
O anúncio Commence Operation Boomerang, para o Australia Day Lamb 2016, é uma paródia descomedida de filmes e séries de aventuras. Os australianos radicados no estrangeiro são “ajudados” a regressar à Pátria para comemorar o dia do carneiro. Até a princesa da Dinamarca, australiana, não escapa ao apelo. Várias vedetas integram o elenco do anúncio: Lee Lin Chin, Stephen Moore, Mitch Johnson, Sam Kekovich e, naturalmente, o MasterChef George Calombaris. Tanto espalhafato suscitou polémica, sendo a iniciativa contestada pelos aborígenes, pelos vegetarianos e pelos defensores dos animais.
Tudo me serve de pretexto para dizer um disparate. Conhece a expressão “carneiros de Panurge”? É internacionalmente proverbial. No Quart Livre, de François Rabelais, Panurge, companheiro de Pantagruel, desentende-se, a bordo de um barco, com o dono do rebanho de carneiros em carga. Diplomático, Panurge presta-se a comprar um carneiro. Após um interminável regateio, mal adquire o carneiro, atira-o ao mar. Todos os carneiros, sem excepção, seguem. Na tentativa de segurar o rebanho, o dono e os pastores também caíram à água. Em suma, estamos perante carneiros de Panurge quando, enquanto seguidores compulsivos, para onde vai um, vão todos.
Na Austrália, não há só carneiros. O país foi o berço dos Dead Can Dance, formação marcada por uma sonoridade própria e pela voz de Lisa Gerrard. O grupo tem, entre outras, uma costela medieval e renascentista. Yulunga é uma canção do álbum Into the Labyrinth, editado em 1993.
Violência e humilhação
Repórteres sem Fronteiras denuncia imagens de exaltação da guerra, de morte, sofrimento e humilhação, no âmbito da edição do 50º álbum 100 photos pour la liberté de la presse, consagrado ao fotógrafo Robert Capa. Fundador da Magnum, Robert Capa consta entre os maiores fotógrafos do século XX. As suas fotografias fazem parte, saibamos ou não, do nosso imaginário. Seleccionei quatro fotografias, todas sobre o mesmo assunto. Não são as mais famosas, captam, porém, uma actividade humana que não convém menosprezar: a humilhação pública. Nos dias imediatos ao fim da Segunda Guerra Mundial, os franceses entregaram-se à caça aos colaboracionistas. Rapavam, por exemplo, o cabelo às mulheres e expunham-nas em cortejos degradantes. Porque tiveram um filho com um alemão ou por outra culpa qualquer.
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Anunciante: Reporters sans frontières. Título: Reporters de guerre. Agência: BETC. Direcção: Owen Trevor. Janeiro 2016.
Galeria: Humilhação das mulheres colaboracionistas no fim da Segunda Guerra, em França
Sem limites
Estapafúrdio, bizarro… ou, com palavras mais elegantes, fabuloso e exuberante… O cúmulo da performance, da filosofia de cordel e da reflexividade expressiva. Limites, será que ainda existem limites? Sinto-me parodiado, gozado. E você? Também se sente parodiado? Não pelo que somos, mas pelo que significamos. Uns heróis cómico-lendários. Uns disparates perfumados.
Carregar nas imagens para aceder aos anúncios.
Marca: Old Spice. Título: Whale. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Steve Rogers. USA, Janeiro 2016.
Marca: Old Spice. Título: Rocket Car. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Steve Rogers. USA, Janeiro 2016.
Piropos, galanteios e tromboflebites

Quino. Hombres de Bolsillo
Cara
Proibidos os piropos? A alteração do Artigo 170 do Código Penal, uma nova pérola legislativa, acorda fantasmas de outras eras, tais como a interdição da Coca-cola; o controlo dos isqueiros; as regras de decoro balnear que condenavam o andar descalço fora da praia sob pena de cinco coroas. Zelo do Estado Novo! Zelo renovado com a intenção de proibição do arroz de cabidela, não sei se por iniciativa do governo português ou da comunidade europeia (cada vez os destrinço menos). Acresce a vetusta pragmática de D. João V (1749) que decretou a proibição das rendas no vestuário.
Somos um país de grandes legisladores. Ressalvando um Marquês de Pombal, vislumbramos minúsculo e irrisório. No código penal, consta ou não a figura da agressão verbal? Existe ou não legislação sobre o assédio sexual?
O Artigo 181.º (Injúrias) do Código Penal estipula:
“ 1- Quem injuriar outra pessoa, imputando-lhe factos, mesmo sob a forma de suspeita, ou dirigindo-lhe palavras, ofensivos da sua honra ou consideração, é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 120 dias”.
Constitui o piropo uma agressão verbal tão específica que justifique legislação adicional?
A regulamentação do piropo lembra o artista que compõe uma espiral “à maneira” para uma coluna virtual. Importa ponderar a relevância deste tipo de pérolas. A interpretação e a aplicação da lei agradeciam.
Proibiram os piropos. E os galanteios? Como categorizar um ato verbal como um piropo? Ou como um galanteio? Ou como outra coisa qualquer? Não se trata de mera retórica. Um piropo só é um piropo quando, pelo menos, duas pessoas assim o entenderem. E as frases não saem das cordas vocais com rótulos. Dependem da definição da situação e das linhas de conduta adoptadas pelos intervenientes. Quando ele, ou ela, profere um piropo, este agrada ou ofende, estimula ou inibe. Em suma, ser ou não ser piropo depende dos interlocutores, da interacção e dos “jogos de linguagem”. A Justiça tem manifestado alguma dificuldade em lidar com os crimes de violação. Como vai abordar os piropos ou o que quer que seja? Dava jeito um Índex de piropos. Sempre achei que era o que nos faltava! Aguardo, com expectativa, a polifonia dos piropos nos tribunais. A proibição do piropo afigura-se-me relevar mais de um manifesto, por sinal, ideológico, do que de uma lei do Estado a pensar na Nação.
Alguém na esfera do poder entendeu legislar contra os piropos. São as estreitezas e os horizontes que temos. Proibir assemelha-se, no entanto, à receita de antibióticos: usar com parcimónia. O delírio suscita delírio. Por que não candidatar o piropo a património da humanidade? É tão absurdo quanto concebível, com argumentos sólidos estribados numa análise SWOT.
Para concluir este primeiro exercício de provocação, uma anedota.
No meu tempo de estudante em Braga, os artistas do piropo encostavam-se ao edifício do Turismo. Aproxima-se uma jovem elegante, andar seguro e nariz empinado.
Um jovem lança o piropo:
– Tem cuidado que não te caia a virgindade!
A visada responde de imediato:
– Se me cair a virgindade, apanha-a e mete-a no rabo, que precisas tu mais dela do que eu.
Quando este país estiver completamente depurado de violência simbólica, teremos, fatalmente, saudades dos piropos.
Coroa
Tive, como prenda natalícia, uma tromboflebite. Castiga o corpo e tolda o espírito.
Este texto devia ter começado com o Artigo 170 do Código Penal, designadamente a alteração recente avessa ao piropo:
“Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal”.
Nenhuma menção aos piropos! Adivinha-se que cabem nas “propostas de teor sexual” “importunas”. Importunas, repita-se. Nesta base, qual a razão do alarido na comunicação social? Como emergiu e se tornou viral a notícia da “proibição do piropo”? Será apenas mais uma jogada na miragem das audiências?
A teoria do two step flow, formulada por Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet (The People’s Choice, New York, Columbia University Press, 1948) numa investigação dedicada a uma eleição presidencial releva o papel dos leaders locais de opinião. Entre o primeiro e último elo interpõem-se várias mediações. A influência pública é tudo menos directa e linear. Entre faróis e nevoeiros, entretecem-se diversas versões da “realidade”.
A alteração do Artigo 170 do código penal foi, “discretamente” aprovada, no dia 05 de Agosto de 2015. Coube ao Diário de Notícias, de 28 de Dezembro de 2015, introduzi-lo na esfera pública numa notícia de intitulada “Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos”. O mote está dado. Seguem-se os ecos na comunicação social, a febre nas redes sociais, os esclarecimentos dos políticos e a perplexidade dos públicos. Temos faróis e tradutores. As “propostas de teor sexual” podem ser vulgarmente interpretadas como “piropos”, assim como os “contactos de natureza sexual” eram associados aos “apalpões”, inclusivamente, pelos próprios protagonistas políticos (“Piropo com teor sexual é crime e dá pena de prisão até três anos”, Esquerda.net, 29 de Dezembro de 2015). É o destino, quiçá desejado, da legislação abstracta, abrangente e vaga. Presta-se ao parecer e à interpretação. A segunda chave é a seguinte: para além da Convenção de Istambul, a proposta avançada pelo PSD foi precedida por iniciativas, de inspiração feminista, por parte da UMAR e do Bloco de Esquerda. Terceira chave, a alteração resume-se à aplicação de decisões assumidas na Convenção de Istambul. Chave gasta. Os nossos legisladores assumem-se cada vez mais como tradutores de medidas deliberadas alhures, o que engrossa um rio de responsabilidade sui generis. Quando, por acréscimo, as medidas “passam despercebidas, “varridas para debaixo do tapete”, as águas tornam-se turvas.
Multiplicam-se os faróis, os nevoeiros e as chaves, que lembram um canivete suíço: servem para abrir e para fechar, para entrar ou sair, para trazer no bolso ou no cérebro. O aditamento referente às “propostas de teor sexual” constitui um bom húmus para a excitação da esfera pública.
Mulheres e meninas
Em crónica no jornal Expresso, de 29 de Dezembro, Paula Cosme Pinto rebate estas chaves de interpretação da alteração do Artigo 170 do Código Penal. Primeiro, considera o artigo no seu conjunto. É uma perspectiva legítima. Uma entre outras. A novidade permanece, contudo, o aditamento, a nova parte do todo. Segundo, importa não confundir piropos, formulação de propostas de teor sexual e assédio sexual:
“diz o dicionário que um piropo é uma “palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; forma de galanteio”. Já no que toca ao assédio sexual, é um “conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa”. Para quem não conseguia chegar lá pela sua própria cabeça, talvez estas definições dos dois termos ajudem a que se faça luz”. Convocar a palavra piropo é uma tradução despropositada. Terceiro, “a lei não se refere à mulher, refere-se à ‘pessoa’ (…) Refere-se explicitamente à vítima enquanto “pessoa”. Mulheres, homens, meninos, meninas. Aliás, convém que não se desvalorize o assédio sexual a que tantos homens e garotos também estão sujeitos”.
O artigo do Código Penal fala, efectivamente, em “pessoas”. Literalmente, nada a acrescentar. Convocar a relação esfíngica entre a letra e o espírito da lei seria terrorismo intelectual, no sentido atribuído por Henri Lefebvre. Mas…
Os próprios protagonistas da alteração do Artigo 170 , como a deputada Carla Rodrigues, não resistem à elipse do género masculino: o aditamento aplica-se
“em qualquer circunstância: no local de trabalho, na rua, em grupos sociais, em qualquer situação em que um agressor pratique qualquer desses atos. Acho que as mulheres e as meninas estão muito mais defendidas com esta formulação. Praticamente todas as coisas que são ditas na rua para importunar as mulheres, tudo aquilo que é ordinarice, fica assim criminalizado. Agora é preciso é que tenham consciência disso e denunciem. É preciso divulgar a existência deste novo crime” (Diário de Notícias, 28 de Dezembro de 2015).
Apesar das aparências, a questão está longe de ser inócua. É grave!
Homens e meninos
Remontando ao combate à violência doméstica, segundo a Lei nº112/2009, de 16 de Setembro, as medidas destinam-se à
“prevenção da violência doméstica, à protecção e à assistência das suas vítimas (…) Para efeitos de aplicação da presente lei, considera -se: a) «Vítima» a pessoa singular que sofreu um dano, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um dano moral, ou uma perda material, diretamente causada por acção ou omissão, no âmbito do crime de violência doméstica previsto no artigo 152.º do Código Penal”.
A lei relativa à violência doméstico tão pouco fala em homem ou em mulher mas apenas em vítima e em pessoa. O combate à violência doméstica foi acompanhado por uma apreciável campanha de sensibilização. Sendo a pessoa o alvo do programa, por que motivo muitos homens se sentiram, de facto, excluídos? Pressentiram que o dispositivo não lhes era dedicado. Os poucos dos muitos homens vítimas de violência doméstica que recorreram às instituições tenderam a ficar pelo primeiro contacto. Vários estudos confirmam esta tendência. Não é uma vergonha nacional? Uma não discriminação que discrimina? Neste caso, a “pessoa”, o “ser humano”, é vítima de agressão física e simbólica: pela Família, pela Sociedade e pelo Estado. São pessoas… Na Quinta dos Animais, há pessoas que são mais pessoas do que outras.
“Das mais de 26 mil vítimas de violência doméstica em Portugal que pediram ajuda no ano passado, cerca de 15,5% são homens, segundo números oficiais da Direcção-Geral da Administração Interna, referidos nesta segunda-feira durante a apresentação de um estudo universitário sobre o tema. A psicóloga Andreia Machado, da Universidade do Minho aplicou um inquérito cujos resultados indicam que embora 70% dos inquiridos afirmem ter sido vítimas de um comportamento abusivo nos últimos 12 meses, apenas 9% deles se afirmem vítimas de violência. Ainda existe uma relutância masculina em se admitir ser vítima de violência e o preconceito social é o principal motivo.
O inquérito incidiu sobre indivíduos de sexo masculino com mais de 18 anos e com relações heterossexuais. 60% dos inquiridos admitiu ser vítima de agressões psicológicas com impacto para a sua saúde mental, mas apenas 23% procurou ajuda. Destes, 83% relatam que os profissionais das forças de segurança “nada ajudaram”. Para Andreia Machado, o estudo da violência contra os homens está no patamar em que estava o estudo da violência contra as mulheres nos anos 70. A “feminização do fenómeno e a invisibilidade de outras faces do problema” conduz a que esta seja uma violência ainda não reconhecida socialmente no nosso país. Socialmente mas não só.
A psicóloga foi uma das oradoras presentes no seminário-debate As outras faces da violência doméstica, promovido pela Associação de Apoio à Vítima (APAV). João Paiva foi uma voz activa apresentando um caso de violência doméstica, o seu. “As pessoas desatam-se a rir na nossa cara, mesmo quem está destacado na esquadra para tratar de assuntos de violência doméstica”, disse.
Para esta testemunha na primeira pessoa, quando um homem pretende apresentar queixa por violência, é quase certo que esbarra num “comportamento estranho”. Diz ser necessário lutar contra a invisibilidade e a passividade das forças de segurança e da justiça e afirma ser difícil avançar-se para formalizações de processos. A razão, no seu entender, é uma: “sou homem”. (Público, 18 de Novembro de 2013).
Discriminar ou não discriminar, eis a questão, tão antiga quanto a humanidade. Mais próximo da modernidade é o seguinte paradoxo: discriminar sem discriminar.
Escrever com dores faz mal às letras. Escrever à pressa sobre matéria não urgente é um atentado ao pensamento.
Kama Sutra
Muitos anúncios encenam anedotas seguindo um formato próximo do cartoon. Incidem sobre os tópicos do costume: o sexo, a religião, o poder, a desgraça e a estupidez. O anúncio Kama Sutra, da Fiat, convoca o sexo e a desgraça. Num ambiente de voyeurismo de bairro, a desgraça é pública. O percurso do casal lembra uma passerelle.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.
Marca: Fiat. Título: Kamasutra. Agência: Leo Burnett Milan. Itália, 2002.
Andróides
O Halloween já passou, mas o próximo ano vai ter andróides como nunca. Convém dar-lhes as boas vindas.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.
Marca: Nike. Título: Johnny The Angry Android. G Agência: Goodby, Silverstone & Partners. Direcção: Michael Bay. USA, 1999.
O anúncio The Angry Android, da Nike, centra-se numa cabeça associada a uma máquina. O director , Michael Bay, realizou, entre outros, os seguintes filmes: Bad Boys (1995), A Rocha (1996), Armageddon (1998), Pearl Harbor (2001), The Island (2005), Transformers (2007), Pain and Gain (2013) e The Last Ship (2014).
No vídeo musical Dare, dos Gorillaz, também sobra uma cabeça com queda para a música.
Gorillaz. Dare. 2005.
Os dois vídeos lembram-me o livro de ficção científica I Will Fear no Evil, de Robert H. Heinlein (1970): o cérebro de um homem é transplantado no corpo de uma mulher. Ficção por ficção, se o cérebro masculino transplantado num corpo feminino acaba por pensar e agir como uma mulher, será que uma cabeça ligada a numa máquina também poderá pensar como uma máquina? E o Leviatã (1651), de Thomas Hobbes, sobreviveria sem corpo?
Acima das possibilidades
Estes anúncios polacos do Pekao Bank são inquietantes. Configuram um apelo a “uma vida acima das possibilidades”. Datam de 2007. Se tivessem circulado em Portugal, se calhar, começava a crise antes da crise (financeira global de 2008) e, se calhar, os bancos não faliam a conta-gotas. Agora, as famílias não têm a possibilidade de viver acima das suas possibilidades. Mas, “aguentando”, sobra sempre a possibilidade de sobrealimentar o Estado, com cortes e impostos. Por seu turno, o Estado acode ao sector financeiro, que, por sua vez, empobrece e endivida o país. É a “lei da vida”. O fado e a fava de um povo que Rafael Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou. Diógenes (413-323 a.C.) “procurava o homem” com uma lanterna. Antes procurasse o sentido de vergonha das elites.
Há quem confunda solução e causa. A última crise não teve origem no endividamento das famílias nem nas “gorduras” da função pública. Em Portugal, como nos demais países, a crise foi financeira, afectando, sobretudo, os bancos e as seguradoras. Que podia fazer o governo? “De mãos atadas”, a solução óbvia foi concentrar o aumento de impostos e a redução das despesas nos funcionários públicos, nos pensionistas e, de um modo geral, nas famílias. Os cortes nos salários e nas pensões, bem como o aumento de impostos, fazem parte de “solução” e não da causa. Existe uma forma eficaz de confundir causa e solução. Chama-se propaganda.
Carregar nas imagens para aceder aos anúncios.
Marca: Bank Pekao. Título: Fresco. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.
Marca: Bank Pekao. Título: Cameras. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.
Pelos pulmões
As férias prestam-se ao disparate. De que morreram os meus autores favoritos? A maioria de doenças pulmonares:
– Samuel Beckett, enfisema pulmonar;
– Jacques Prévert, cancro do pulmão;
– Jacques Brel, cancro do pulmão;
– Pierre Bourdieu, cancro do pulmão;
– Dmitri Shostakovich, cancro do pulmão;
– Max Weber, pneumonia;
– Marcel Proust, pneumonia;
– Jacques Tati, pneumonia.

Mikhail Bakhtin. Caricatura.
Eis o “obituário”. Outros autores, como o Erving Goffman, morreram de outras causas. Quanto a Mikhail Bakhtin, fumador, não consegui apurar a causa da morte (ver caricatura). As doenças do coração e cardiovasculares rivalizam com as pulmonares. Enfim, os demais autores também não estão vivos.
Este anúncio brasileiro distingue-se pela estética e pela ética, qualidades raras na publicidade contra o tabagismo.
Anunciante: Unimed. Título: War. Agência: F. Nazca Saatchi & Saatchi São Paulo. Direcção: Airton Camignani. Brasil, 2008.





