Pompa e Circunstância 1
Cansado. Até dar aulas cansa. Dispenso letras e números. Talvez música. Um concerto de música clássica que pareça um concerto de música popular. Edward Elgar? A Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória), de 1901. Os ingleses têm destes arrebatamentos com carga nacionalista. Não desligue antes do segundo minuto.
Elgar. Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória). Proms 2012. BBC Synphony Orchestra. Royal Albert Hall, 8 de Setembro de 2012.
Personas mayores
Numa sociedade da eterna juventude, a publicidade não aposta em imagens de velhos. Mas existem! O anúncio paraguaio Una enfermedad que no tiene cura, do Club Cerro Portenho, mostra duas super abuelas gémeas nonagenárias locas por el fútbol. Desconheço a origem de tamanha vitalidade paraguaia. Se fosse em Portugal, apontava para as políticas de empreendedorismo e de envelhecimento activo, que transformam os velhos em seniores, em “personas mayores”. Se acabaron los chistes por hoy. Me duele la espalda.
Marca: Club Cerro Portenho. Título: Una enfermedad que no tiene cura… Agência: Oniria. Paraguai, Janeiro 2018.
A sorte e o azar
Tendências do Imaginário é um blogue ciumento. Por sua vontade, escrevia só para ele. Mas acontece-me escrever em página alheia. O Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) criou o Communitas (http://www.communitas.pt/), um Think Tank (círculo de reflexão), onde publiquei , no dia 3 de Janeiro, um artigo com o título: A sorte e o azar. Trata-se de um comentário a partir de quatro fotografias que estimei emblemáticas do ano 2017. Apresento o artigo deste modo:
Escolher e comentar quatro fotografias do ano 2017 é um desafio. Ademais, não é arte que cultive. As fotografias são de 2017, mas podiam ser de outros anos, mormente, dos anos que se aproximam. Os temas resumem-se a questões simples: como enfrentar calamidades sem preparar as populações? Como idolatrar e, simultaneamente, exorcizar a técnica? Em termos de identidade, pode-se ser e não ser? Por que persistimos em ser tão desiguais no apoio à miséria alheia?”
Para aceder ao artigo, carregar no endereço http://www.communitas.pt/ideia/a-sorte-e-o-azar/ ou na seguinte imagem.
Reciclagem. O conto na idade da técnica
Este é um tempo mágico, bondoso e generoso. Até os ímpios se comovem com um cântico de Natal. Os bodes ostentam cornos de rena e os bonecos de neve derretem pedagogia. Tudo é fantástico, inclusivamente este conto reciclado da Audi.
Marca: Audi. Título: For And Ever. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Dezembro 2017.
O Natal presta-se à recomposição e ao bricolage. Recordo as montras de Paris, mais a “cultura de massas” com paladar a Kitsch. Lembro, com respeito, a consoada dos emigrantes sem bacalhau, couves e broa. Apreciavam, nos anos setenta, a música de Demis Roussos.
“Era o cantor de Forever and ever, o companheiro de banda de Vangelis nos Aphrodite’s Child e uma das vozes (e rostos) mais populares do rock europeu da década de 1970” (Jornal Público, 26.01.2015: Morreu Demis Roussos, o cantor que ajudou a criar a banda-sonora dos anos 1970).
Todos temos o nosso gosto. O gosto é a estrela, o grande guia, do banquete da vida.
Demis Roussos. Forever And Ever. Forever And Ever. 1973.
Natal andróide
Num mundo disfórico entregue às máquinas, um andróide deixa-se cativar por alguns vestígios de vida humana num cartaz e num filme com a ceia de Natal. Começa uma odisseia da máquina em busca do humano. Simula a ceia de Natal com manequins, mas não resulta, falta o espírito. Acaba por reconhecer a paisagem numa fotografia de um jornal. Por vales e montanhas, encontra finalmente a família humana que o acolhe com generosidade.
Este anúncio lembra filmes tais como O Planeta dos Macacos (1968), Blade Runner (1982), Equilibrium (2002) ou WALL-E (2008). E convoca uma série de mitos mais ou menos contemporâneos:
– A superação e a dominação do homem, aprendiz de feiticeiro (Goethe, 1797), pelas suas próprias obras, nomeadamente computadores e andróides;
– As máquinas assumem-se mais humanas do que os humanos, propiciando um espelho, mais ou menos deformado, da condição humana;
– Uma ovelha negra redentora galga fronteiras e vence obstáculos contribuindo para a emancipação, mais ou menos fugaz e inconsequente, dos oprimidos.
Marca: Edeka. Título: Will we celebrate Christmas in 2117? Agência: Jung von Matt. Alemanha, Novembro 2017.
Festa batráquia
Para o Halloween, enquanto as bruxas e os zombies não chegam, recomendo a curta-metragem Garden Party. Fabulosa! Com sapos, animais associados ao mal, à morte e à bruxaria. O vídeo é longo (7 minutos) e lento. Mas tem uma estética e uma narrativa prodigiosas. O desfecho, cirurgicamente anunciado, é surpreendente. Trata-se de uma curta-metragem mega premiada: cerca de 30 prémios. Imagino quanto os autores se divertiram durante a produção.
Garden Party. Direcção: Florian Babikian; Vincent Bayoux; Victor Caire; Théophile Dufresne; Gabriel Grapperon; Lucas Navarro. MOPA, 2016.
Os sapos não são apenas criaturas do mal, são também beijoqueiros. No anúncio Water Frog, da Vitamin, um sapo anda à procura da princesa, mas não lhe serve uma qualquer, deve beber Vitaminwater Zero Glow. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/vitaminwater-frog/.
Marca: Vitaminwater. Título: Frog. Agência: CP+B. Direcção: Bryan Buckley. USA, 2011.
Coisa ruim
O anúncio Blood normal, da Libresse/Bodyform, é uma pedra no charco da publicidade de consciencialização. Contra o tabu da menstruação, com uma rara qualidade de orquestração simbólica, sensual e sentimental (vídeo 1). Remeto o comentário do anúncio para o artigo Não, a menstruação não é um líquido azul, de Paula Cosme Pinto no Expresso de 20/10/2017. Um manifesto a partir de outro manifesto.
Se o sangue é vermelho, por que o pintam de verde e azul? Por que se oculta com tanto empenho o sangue menstrual?
A nossa sociedade sofre de hemofobia. Século após século, passou-se do espectáculo do sangue, nos coliseus e nas praças de execução pública, ao desmaio à simples vista de uma gota. Para uma marca, mostrar sangue comporta riscos. Pode afastar clientes em vez de os cativar. Opta-se pelo eufemismo, pela alegoria, pela metáfora ou, simplesmente, pela omissão. Mas o anúncio Blood normal não aborda apenas o sangue, incide sobre um tipo específico, o sangue menstrual, uma realidade natural que, desde as primeiras sociedades, provoca transtorno e receio, senão pavor, mormente no homem. O fluxo menstrual é associado à poluição, à magia negra e ao sobrenatural. Noutros termos, a “coisa ruim”.
Quase todas as excreções, secreções e outras exportações corporais são vergonhosas e resguardadas dos sentidos: a mucosidade, a saliva, o suor, o vómito, a urina e os excrementos. Saem do corpo e ao corpo não regressam.
Salvaguardadas as devidas distâncias, vislumbra-se, ao nível da publicidade, uma certa homologia entre o sangue menstrual e as necessidades do bebé. O xixi e o cocó são como o Godot da peça de Samuel Beckett, nunca aparecem! Quando se alude ao xixi, ou este se escondeu (vídeo 2) ou foi absorvido pela fralda. À semelhança do fluxo menstrual, o xixi veste-se de verde ou azul. Nunca cor de xixi! A presença do cocó ou do xixi é indiciada por pistas indirectas: o cheiro, os trejeitos faciais, os sinais de desconforto… A censura dos excrementos e das excreções na publicidade tende a ser bífida: verbaliza sem visualizar.
Associar os anúncios a tampões e pensos higiénicos aos anúncios a fraldas é promíscuo e deselegante. Admito-o! Não obstante, o pensamento não é um desfile de cerimónia.
Hoje, permito-me abusar da incorporação de vídeos. Quatro! Para além do Blood Normal, da Libresse, Onde está o xixi?, da Dodot, uma versão da busca do xixi fantasma, bem como Baby faces (ready when you’re not), da Aldi, e Pampers wipes pooface, da Pampers, duas “versões” do mesmo tema: a expressão facial do “alívio” pueril.
Marca: Libresse. Título: Blood Normal. Agência: AMV BBDO. Direcção: Daniel Wolfe. Internacional, Outubro 2017.
Marca: Dodot. Título: Onde está o xixi?, Agência: Y&R MAD. Portugal / Espanha, Junho 2017.
Marca: Aldi. Título: Baby faces (ready when you’re not). Agência: BMF (sydney). Direcção: Scott Pickett. Austrália, 2012.
Marca: Pampers. Título: Pampers wipes pooface. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Reino Unido, 2015.












