O feitiço das castanhas
O feitiço das castanhas
Projetava colocar hoje uma música do Mozart, mas fui a um magusto no Mosteiro de Tibães. Encontrei velhos amigos e até antigos alunos. Regresso jovial e prazenteiro, inebriado pela positividade simbólica das castanhas. Tenho vindo a colocar artigos que, por qualquer motivo, convocam a Alemanha. Pois lembrei-me dos Scorpions, o grupo rock alemão com maior reputação internacional no século passado, cujas baladas se prestam a uma dança com uma parceira imaginária.
Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).
Para a Sara
Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).
Devagar sem avanços

Ana Popović, de origem sérvia, a residir atualmente nos Estados Unidos, é uma autora, compositora, guitarrista e cantora de blues, que se afirmou, sobretudo, na Holanda e na Alemanha na primeira década do novo milénio.
A canção Slow Dance fala, como o título indica, de uma dança vagarosa sem qualquer promessa de avanço. Apenas uma dança, nada mais!
Imagem: Ana Popović
Imitar ou igualar?

“Gostamos muito mais daqueles que tendem a imitar-nos do que daqueles que se empenham em igualar-nos. Porque a imitação é um sinal de estima e o desejo de ser igual aos outros um sinal de inveja” [Madeleine de Souvré, marquise de Sablé (amiga de Blaise Pascal). Maximes, 1678].
Imagem: Daniel Dumonstier – Portrait of Magdeleine de Souvre (1599-1678) Marquise de Sablé, 1621
O sucesso dos anúncios da John Lewis justificou “efeitos colaterais”. Tem inspirado versões alheias, autodenominadas Alternative John Lewis Adverts, que parodiam o seu estilo tradicional, independentemente do conteúdo da mensagem. Embora não pertençam à marca, criativas e esmeradas, evidenciam um sentido apurado de oportunidade. A invocação e eventual confusão com a marca oferecem uma embalagem deveras compensadora.
Seguem três exemplos: Send Me a Sign (2024); The GoKart (2022) e, mais antigo, Give Yourself (2019), que possui a virtude de enaltecer a reciprocidade.
Arrumar sombras
Se te apetece
Vem
limpa as lágrimas.Se te apetece gritar, grita
Não cales a dor que te rompe a alma
nem a tempestade que te mareja os olhos.
Não temas ventos esquivos que te derrubam
nem ondas que te rasguem a pele.Vem
eu ensino-te a arrumar as sombras
e a disfarçar as feridas
que vagabundeiam pelo teu corpo
amotinado.©Fátima Guimarães in A VOZ do Nó
Não consigo resistir ao prazer de partilhar um pequeno mas generoso poema, uma espécie de carícia reconciliadora, da Fátima Guimarães
Inspirado no encontro entre Alexandre o Grande e Diógenes, costumo alertar para a sombra que difundimos sobre os outros, mormente quando nos consideramos iluminados.

A propósito das comemorações do 25 de Abril, escrevi recentemente: ” A defesa da democracia requer alguma humildade (democrática), mormente ponderação na sombra que se projeta sobre os outros. Amarga ironia seria regar cardos com a água dos cravos. Convém não esquecer o provérbio alemão: “As árvores grandes dão mais sombra do que fruta”.
“Arrumar sombras”. Surpreende-me e seduz-me esta magnífica expressão. Representa, aliás, algo de que estou a precisar. Ressoa a apaziguamento e disponibilidade. Quando muito, uma ou outra reticência quanto ao alcance desta jardinagem do sombrio. Paradoxalmente, as nossas sombras, embora nos estejam vinculadas, resultam difíceis de controlar. Talvez a poesia possa ajudar!
Passei uma década a envelhecer precocemente. Nos últimos três anos, tenho recuperado. Como que rejuvenesço. “Recuo”, agora, meio século recordando-me dos Camel. Sombras lunares no mar da memória! Talvez esteja a aprender a arrumar sombras.
Incomparável. Sinéad O’Connor
Tenho o hábito, por vezes disfórico, de acompanhar a carreira dos artistas que, a um dado momento, me surpreenderam e marcaram. Sinéad O’Connor compunha músicas e tinha uma voz de sonho; contudo, desde a infância, a sua vida, instável e atribulada, frisou frequentemente o pesadelo. Foi encontrada morta em 26 de julho de 2023 na sua residência em Londres, com 56 anos de idade, devido a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica).
Seguem cinco canções da Sinéad: Drink Before the War (1987); Feel So Different (1990); The Last Day of Our Acquaintance (1990); Something Beautiful (2007); e, por último, Nothing Compares 2 You (1990).
A fada madrinha e o gato borralheiro
Existem anúncios que embalam o coração com música, imagens e narrativas singelas. Conseguem encantar,sonhar a realidade. É o caso de “Midnight Opus”, da Amazon. Abusa do dourado, que, pelo menos desde o início da cristandade, da arte bizantina, significa divindade. O algodão não engana, está aberta a época para este tipo de publicidade assente no reconhecimento, na partilha e na elevação.
Lembra-me um texto da Fátima Marinho que anexo. Com algumas pequenas diferenças: neste último, com a música das palavras, dança-se, não se canta; num parque de estacionamento e não numa sala de espetáculos; e, sobretudo, sem o efeito Gata Borralheira, que a Amazon convoca.
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Fátima Marinho – Que coisa fundamental nos escaçou?. TERRAS de BASTO. 31 de outubro 2024. TERRAS de BASTO, 31 de outubro 2024 (pdf)
Inspiração Ardente (IA)

A inteligência artificial define-se como o contrário da estupidez natural (atribuído a Woody Allen)
O Tendências do Imaginário sempre almejou estar atento à mudança e à inovação. Nada se ganha em virar-lhes as costas, a não ser vulnerabilidade e ilusão anestésica. As redes neuronais e a inteligência artificial são crianças com barba crescida.

Segue o videoclip com a canção “Have a Cigar”, dos Pink Floyd, realizado recentemente com recurso à Inteligência artificial. As sequências de imagens, impressionantes, sugerem que fumar é aspirar fogo, com um final gélido, embora mais irisado do que cinzento.
A inteligência artificial pode não ser moral, o que não a impede de resultar moralista. Enfim, presta-se a IA ao psicadélico?
Imagem: Ruínas de Pompeia
Como de costume

Uma vez é um erro; duas vezes é um mau costume (Provérbio do Quebec).
A Almerinda Van Der Giezen teve a generosidade de me enviar a versão de My Way interpretada por Herman Brood, canção que nos habituámos a associar a Frank Sinatra. Herman Brood, ator e poeta, mas sobretudo músico e pintor, com um percurso singular, multifacetado e controverso, tornou-se uma figura emblemática da Holanda, bastante consolidada após o seu suicídio em 2001, com 54 anos. My Way é uma das suas interpretações mais bem-sucedidas.
O que poucos conhecerão, creio, é que a canção original que está na base de My Way é francesa: Comme D’Habitude, de Claude François, estreada em 1967 e contemplada na abertura dos jogos olímpicos de Paris. Creio, também, que poucos conhecem porque poucos o assumem. Acontece algo semelhante com a canção Autumn Leaves, cujo original, Les Feuilles Mortes, também é francês, com música de Joseph Kosma e letra de Jacques Prévert.
Em ambos os casos, a Inteligência Artificial não se engana:
A canção “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, é uma adaptação da música francesa “Comme d’habitude”, composta em 1967 por Claude François e Jacques Revaux, com letra de François e Gilles Thibaut. A versão original conta a história de um casal cuja rotina diária se torna monótona e sem paixão.
Paul Anka, cantor e compositor canadense, adquiriu os direitos da música em francês e escreveu uma nova letra em inglês, transformando-a em “My Way”. A nova versão foi feita sob medida para Frank Sinatra e se tornou uma das músicas mais emblemáticas da sua carreira. Apesar de ter mantido a melodia da versão original, a letra em inglês é completamente diferente e fala sobre uma reflexão de vida e realizações pessoais (ChatGPT, 05.11.2024).A canção “Autumn Leaves” é originalmente francesa. Ela foi composta por Joseph Kosma, com a letra original em francês escrita pelo poeta Jacques Prévert. A canção se chamava “Les Feuilles Mortes” e foi lançada em 1945. Tornou-se popular através de performances de cantores franceses como Yves Montand.
Mais tarde, a canção foi traduzida para o inglês por Johnny Mercer e recebeu o título “Autumn Leaves”. A versão em inglês ganhou popularidade em todo o mundo e foi interpretada por diversos artistas famosos, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Édith Piaf. A melodia melancólica e as letras poéticas em ambas as línguas tornaram “Autumn Leaves” um clássico atemporal no repertório de jazz e música popular (ChatGPT, 05.11.2024).








