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O feitiço das castanhas

O feitiço das castanhas

Projetava colocar hoje uma música do Mozart, mas fui a um magusto no Mosteiro de Tibães. Encontrei velhos amigos e até antigos alunos. Regresso jovial e prazenteiro, inebriado pela positividade simbólica das castanhas. Tenho vindo a colocar artigos que, por qualquer motivo, convocam a Alemanha. Pois lembrei-me dos Scorpions, o grupo rock alemão com maior reputação internacional no século passado, cujas baladas se prestam a uma dança com uma parceira imaginária.

Scorpions – Still Loving You. Love at First Sting, 1984. Live at Rock in Rio 1985
Scorpions – Wind Of Change. Crazy World, 1990
Scorpions – Send Me An Angel. Crazy World, 1990
Scorpions – You And I. Moment of Glory, 2000

Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).

Para a Sara

Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).

AFTER THE RAIN. Curta-metragem produzida pelos alunos da Escola de Animação Francesa MoPA Valerian Desterne, Juan Olarte Zuniga, Carlos Osmar Salazar Tornero, Lucile Palomino, Juan Pablo de la Rosa Zalamea, Celine Collin and Rebecca Black, 2019. Colocado por Omeleto no YouTube em janeiro de 2020.

Devagar sem avanços

Ana Popović, de origem sérvia, a residir atualmente nos Estados Unidos, é uma autora, compositora, guitarrista e cantora de blues, que se afirmou, sobretudo, na Holanda e na Alemanha na primeira década do novo milénio.

A canção Slow Dance fala, como o título indica, de uma dança vagarosa sem qualquer promessa de avanço. Apenas uma dança, nada mais!

Imagem: Ana Popović

Ana Popović – Slow Dance. Like It on Top. 2018

Amores humanos e lugares sagrados

O Canadá é um berço ímpar de intérpretes musicais: Neil Young, Leonard Cohen, Diana Krall, Celine Dion, Alanis Morissette… Chantal Chamberland destaca-se como um desses talentos. Ousa dar um toque pessoal, com um muito ligeiro sotaque québequois, a canções que nos convencemos ser indissociáveis das celebridades que as imortalizaram, tais como Joséphine Baker, Charles Trenet, Jacques Brel ou Yves Montand.

Imagem: No Mosteiro de Tibães. Fotografia de Maria Fátima Machado Martins

Guimarães também é berço. Da Nação e de excelentes artistas visuais.

Antigo emigrante em França, adoro entreter-me a faire des bricoles. Desta vez, deu-me para sobrepor duas séries relativamente extensas: uma lista com canções interpretadas pela Chantal Chamberland e uma galeria com fotografias da Maria Fátima Machado Martins. Preguiçoso, confinei a seleção às fotografias partilhadas que tirou no Mosteiro de Tibães, um recanto privilegiado para atividade e retiro. A Chantal Chamberland tanto canta em inglês como em francês. Por agora, abracei a segunda língua. Condiz mais com a minha cara. Quando se produz um regalo, importa assiná-lo!

A cada fotografia corresponde uma canção, identificada na respetiva legenda. Insinua-se uma certa dissonância entre ambas: as canções prendem-se com amores humanos e as fotografias com lugares sagrados. Na verdade, amores humanos e lugares sagrados não são de todo incompatíveis.

Chantal Chamberland – J’ai deux amours (Joséphine Baker, 1930). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Que reste-t-il de nos amours? (Charles Trenet, 1943) Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Les feuilles mortes (Yves Montand, 1949). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Dis moi (The Beatles, 1966). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Je l’aime à mourir (Francis Cabrel, 1979). Autobiography, 2015. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Mon mec à moi (Patricia Kaas, 1988). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins

Imitar ou igualar?

“Gostamos muito mais daqueles que tendem a imitar-nos do que daqueles que se empenham em igualar-nos. Porque a imitação é um sinal de estima e o desejo de ser igual aos outros um sinal de inveja” [Madeleine de Souvré, marquise de Sablé (amiga de Blaise Pascal). Maximes, 1678].

Imagem: Daniel Dumonstier – Portrait of Magdeleine de Souvre (1599-1678) Marquise de Sablé, 1621

O sucesso dos anúncios da John Lewis justificou “efeitos colaterais”. Tem inspirado versões alheias, autodenominadas Alternative John Lewis Adverts, que parodiam o seu estilo tradicional, independentemente do conteúdo da mensagem. Embora não pertençam à marca, criativas e esmeradas, evidenciam um sentido apurado de oportunidade. A invocação e eventual confusão com a marca oferecem uma embalagem deveras compensadora.

Seguem três exemplos: Send Me a Sign (2024); The GoKart (2022) e, mais antigo, Give Yourself (2019), que possui a virtude de enaltecer a reciprocidade.

Sam Clegg – Send Me a Sign. Send Me a Sign. 2024. Videoclip. 01.11.2024
Seam Tale Productions – The GoKart. UK, dezembro 2022
Give Yourself. Producede by Marky Scott. Directed by Tony Ogunyinka. 2019

Arrumar sombras

Se te apetece

Vem
limpa as lágrimas.

Se te apetece gritar, grita
Não cales a dor que te rompe a alma
nem a tempestade que te mareja os olhos.
Não temas ventos esquivos que te derrubam
nem ondas que te rasguem a pele.

Vem
eu ensino-te a arrumar as sombras
e a disfarçar as feridas
que vagabundeiam pelo teu corpo
amotinado.

©Fátima Guimarães in A VOZ do Nó

Não consigo resistir ao prazer de partilhar um pequeno mas generoso poema, uma espécie de carícia reconciliadora, da Fátima Guimarães

Inspirado no encontro entre Alexandre o Grande e Diógenes, costumo alertar para a sombra que difundimos sobre os outros, mormente quando nos consideramos iluminados.

A propósito das comemorações do 25 de Abril, escrevi recentemente: ” A defesa da democracia requer alguma humildade (democrática), mormente ponderação na sombra que se projeta sobre os outros. Amarga ironia seria regar cardos com a água dos cravos. Convém não esquecer o provérbio alemão: “As árvores grandes dão mais sombra do que fruta”.

“Arrumar sombras”. Surpreende-me e seduz-me esta magnífica expressão. Representa, aliás, algo de que estou a precisar. Ressoa a apaziguamento e disponibilidade. Quando muito, uma ou outra reticência quanto ao alcance desta jardinagem do sombrio. Paradoxalmente, as nossas sombras, embora nos estejam vinculadas, resultam difíceis de controlar. Talvez a poesia possa ajudar!

Passei uma década a envelhecer precocemente. Nos últimos três anos, tenho recuperado. Como que rejuvenesço. “Recuo”, agora, meio século recordando-me dos Camel. Sombras lunares no mar da memória! Talvez esteja a aprender a arrumar sombras.

Camel – Selections From The Snow Goose. 1975 (Live At The BBC, London – 1975 – Medley)
Camel – Preparation. The Snow Goose. 1975

Incomparável. Sinéad O’Connor

Tenho o hábito, por vezes disfórico, de acompanhar a carreira dos artistas que, a um dado momento, me surpreenderam e marcaram. Sinéad O’Connor compunha músicas e tinha uma voz de sonho; contudo, desde a infância, a sua vida, instável e atribulada, frisou frequentemente o pesadelo. Foi encontrada morta em 26 de julho de 2023 na sua residência em Londres, com 56 anos de idade, devido a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica).

Seguem cinco canções da Sinéad: Drink Before the War (1987); Feel So Different (1990); The Last Day of Our Acquaintance (1990); Something Beautiful (2007); e, por último, Nothing Compares 2 You (1990).

Sinéad O’Connor – Drink Before the War. The Lion and the Cobra. 1987
Sinéad O’Connor – Feel So Different. I Do Not Want What I Haven’t Got. 1990
Sinéad O’Connor – The Last Day Of Our Acquaintance. I Do Not Want What I Haven’t Got. 1990. Live in Rotterdam. 1990
Sinead O’Connor – Something Beautiful. Theology. 2007
Sinéad O’Connor – Nothing Compares 2 U (Live). I Do Not Want What I Haven’t Got. 1990. Live in Rotterdam. 1990

A fada madrinha e o gato borralheiro

Existem anúncios que embalam o coração com música, imagens e narrativas singelas. Conseguem encantar,sonhar a realidade. É o caso de “Midnight Opus”, da Amazon. Abusa do dourado, que, pelo menos desde o início da cristandade, da arte bizantina, significa divindade. O algodão não engana, está aberta a época para este tipo de publicidade assente no reconhecimento, na partilha e na elevação.

Lembra-me um texto da Fátima Marinho que anexo. Com algumas pequenas diferenças: neste último, com a música das palavras, dança-se, não se canta; num parque de estacionamento e não numa sala de espetáculos; e, sobretudo, sem o efeito Gata Borralheira, que a Amazon convoca.

Marca: Amazon. Título: Midnight Opus – Holiday 2024. Agência: Amazon. Produção: Hungry Man. Direção: Wayne McClammy. USA, 04 novembro 2024

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Fátima Marinho – Que coisa fundamental nos escaçou?. TERRAS de BASTO. 31 de outubro 2024. TERRAS de BASTO, 31 de outubro 2024 (pdf)

Inspiração Ardente (IA)

Marc Chagall (1887) – Moses with the Burning Bush, c. 1963

A inteligência artificial define-se como o contrário da estupidez natural (atribuído a Woody Allen)

O Tendências do Imaginário sempre almejou estar atento à mudança e à inovação. Nada se ganha em virar-lhes as costas, a não ser vulnerabilidade e ilusão anestésica. As redes neuronais e a inteligência artificial são crianças com barba crescida.

Segue o videoclip com a canção “Have a Cigar”, dos Pink Floyd, realizado recentemente com recurso à Inteligência artificial. As sequências de imagens, impressionantes, sugerem que fumar é aspirar fogo, com um final gélido, embora mais irisado do que cinzento.

A inteligência artificial pode não ser moral, o que não a impede de resultar moralista. Enfim, presta-se a IA ao psicadélico?

Imagem: Ruínas de Pompeia

Pink Floyd – Have a Cigar (2024 AI Visuals). Wish You Were Here. 1975. Vídeo realizado por Hueman Instrumentality com recurso à Inteligência Artificial (Gen-3 AI Video Tool), colocado em 04.09.2024

Como de costume

Herman Brood. Arena. 1985

Uma vez é um erro; duas vezes é um mau costume (Provérbio do Quebec).

A Almerinda Van Der Giezen teve a generosidade de me enviar a versão de My Way interpretada por Herman Brood, canção que nos habituámos a associar a Frank Sinatra. Herman Brood, ator e poeta, mas sobretudo músico e pintor, com um percurso singular, multifacetado e controverso, tornou-se uma figura emblemática da Holanda, bastante consolidada após o seu suicídio em 2001, com 54 anos. My Way é uma das suas interpretações mais bem-sucedidas.

Herman Brood, , His Wild Romance – My Way. Cover. My Way – The Hits, 2001

O que poucos conhecerão, creio, é que a canção original que está na base de My Way é francesa: Comme D’Habitude, de Claude François, estreada em 1967 e contemplada na abertura dos jogos olímpicos de Paris. Creio, também, que poucos conhecem porque poucos o assumem. Acontece algo semelhante com a canção Autumn Leaves, cujo original, Les Feuilles Mortes, também é francês, com música de Joseph Kosma e letra de Jacques Prévert.

Claude François – Comme D’Habitude. Single, 1967

Em ambos os casos, a Inteligência Artificial não se engana:

A canção “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, é uma adaptação da música francesa “Comme d’habitude”, composta em 1967 por Claude François e Jacques Revaux, com letra de François e Gilles Thibaut. A versão original conta a história de um casal cuja rotina diária se torna monótona e sem paixão.
Paul Anka, cantor e compositor canadense, adquiriu os direitos da música em francês e escreveu uma nova letra em inglês, transformando-a em “My Way”. A nova versão foi feita sob medida para Frank Sinatra e se tornou uma das músicas mais emblemáticas da sua carreira. Apesar de ter mantido a melodia da versão original, a letra em inglês é completamente diferente e fala sobre uma reflexão de vida e realizações pessoais (ChatGPT, 05.11.2024).

A canção “Autumn Leaves” é originalmente francesa. Ela foi composta por Joseph Kosma, com a letra original em francês escrita pelo poeta Jacques Prévert. A canção se chamava “Les Feuilles Mortes” e foi lançada em 1945. Tornou-se popular através de performances de cantores franceses como Yves Montand.
Mais tarde, a canção foi traduzida para o inglês por Johnny Mercer e recebeu o título “Autumn Leaves”. A versão em inglês ganhou popularidade em todo o mundo e foi interpretada por diversos artistas famosos, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Édith Piaf. A melodia melancólica e as letras poéticas em ambas as línguas tornaram “Autumn Leaves” um clássico atemporal no repertório de jazz e música popular (ChatGPT, 05.11.2024).