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O Canto das Crianças do Inferno

Para acompanhar os filhos, os pais ganham em aprender com eles

Quando aquilo que deveria estar longe está perto e o que deveria a estar perto está longe, dá vontade de mudar de lugar, de se deslocar para outras coordenadas espaciotemporais, mesmo que seja esporadicamente. Demandar, por exemplo, o rock japonês do início dos anos setenta ou os cânticos da Grécia Antiga de há dois milénios. Comecemos pelo rock progressivo e psicadélico japonês.

O Fernando mostrou-me uma pérola rara. “É a tua cara! A música e a letra.” Adoro quando me surpreendem adivinhando os meus gostos.

Quando era jovem, acompanhava artistas estrangeiros no rock, mas depois de ouvi-los novamente depois de muitos anos, descobri que artistas e bandas japonesas como J.A. Caesar, Jax e Happy End, que enveredam por um gênero um pouco diferente, alcançam muito mais profundidade e um nível mais alto do que as bandas britânicas e americanas da mesma época. (Comentário no YouTube: @blueearth5000).

J. A. Seazer (…), às vezes ortografado Julious Arnest Cesar ou Julious Arnest Caesar, batizado Terahara Takaaki (寺原 孝明?), é um músico e compositor de bandas sonoras japonês nascido a 6 de outubro de 1948. Alcançou alguma popularidade entre os estudantes japoneses nos anos sessenta e colaborou com o realizador Shuji Terayama (…) Adquiriu notoriedade com a composição da banda sonora da adaptação animada do manga de Suehiro Maruo, Mr. Araxhi’s Amazing Freak ShoW (Wikipedia, 16.06.2025).

Retive quatro vídeos. O primeiro, “When Everybody’s Going to Die” [Quando todos estiverem a morrer], foi o que o Fernando me deu a conhecer [coloco a letra no fim”. Pertence a um EP lançado em 1970, que inclui a canção do segundo vídeo: “Hanging Tree” [árvore da forca]. Segue a canção “Wasan” do álbum Kokkyou Junreika, de 1973. Estas músicas namoram o rock progressivo e psicadélico. O quarto vídeo contempla sete músicas da banda sonora do filme Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country), realizado por Shuji Terayama em 1974. Embora todas sejam notáveis, deste conjunto destaco as duas últimas canções: “Hymn of Praise” (12:53) e “Everyone Suddenly Disappears” (17:08). Já que se fez tão rara viagem, vale a pena atardar-se.

 J. A. Seazer – すべての人が死んで行く時に / Quando todos estiverem a morrer, EP, CBS Sony.1970
J.A. Seazer – Hunging Tree 首吊りの木 / Árvore da Forca. EP, CBS Sony. 1970
J.A. Seazer – Wasan. Kokkyou Junreika, 1973
J.A. Seazer – Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country). Dir. Shuji Terayama! Pastoral Hide and Seel, song selections. 1974

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Quando todos estiverem a morrer
(When Everybody’s Going to Die)


Quando todos estiverem a morrer,
cantarei um hino de amor

Quando todos estiverem a morrer,
alguém cantará uma canção de embalar

Os pássaros negros que se aglomeram nas árvores mortas
Gritarão na escuridão

Quando todos estiverem a morrer,
Gritarão na escuridão

Quando todos estiverem a morrer,
ouço a voz de uma mãe

Quando todos estiverem a morrer,
há risos e choros

Das profundezas de uma garrafa enegrecida,
A voz das crianças do inferno a cantar

Quando todos estiverem a morrer,
A voz das crianças do inferno a cantar

Quando todos estiverem a morrer,
quando todos estiverem a morrer

(J. A. Seazer, 1970)

Tempos de Amor e Ódio

A uma refugiada em Paris durante a Guerra
Civil Libanesa iniciada em 1975

Thanatos, a pulsão de morte e a violência, aqui tão perto e Eros, a partilha e o Live Aid, já tão longe…

Seguem dois excertos da histórica prestação dos Queen no Live Aid 85 com as canções: Bohemian Rhapsody; We Will Rock You; e We Are The Champions.

Queen – Bohemian Rhapsody. A Night at the Opera, 1976. Live Aid 1985, Wembley Stadium, London, 13th July, 1985
Queen – We Will Rock You & We Are The Champions. News of the World, 1977. Live Aid 1985, Wembley Stadium, London, 13th July, 1985

Repassagem

Si vis vitam, para mortems. Si tu veux pouvoir supporter la vie, soit prêt à accepter la mort [Se queres poder suportar a vida, está pronto a aceitar a morte] (Sigmund Freud, Essays de Psychanalyse, Payot, 1927, p. 264)

Sem despedidas protocolares, mergulha-se, subitamente, mais resignado que resistente numa plataforma mais despojada que desolada. Deambula-se, letargicamente, numa estranheza que não se estranha. Talvez um providencial sopro ínfimo conduza a um portal de escape. Uma experiência insólita, que nem os muitos fantasmas da psicanálise conseguem elucidar. Um resgate despoletado por um caprichoso motivo insuspeito. Por exemplo, o cheiro apelativo a frango frito desossado.

Imagem: Francisco Goya. O Cão. 1819-23. Museu do Prado

Marca: Chicken Licken. Título: The Homecoming. Agência: Joe Public/Johannesburg. Direção: Peter Pohorsky. África do Sul, maio 2025

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Profundo e insuperavelmente leve!
“Já alguém sentiu a loucura de vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
….
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação


Almada Negreiros (excerto de “Reconhecimento à loucura”)
Dizem que o cheiro é a nossa primeira memória, assim o cheiro a casa queima barreiras. Regressa-se. Não importa se um perfume ou frango frito. É a maravilhosa ironia do estar vivo.

(Almerinda Van Der Giezen, 14/06/2025)

Memorial

Existem momentos em que é muito importante recordar; nos outros, também! Agradeço à Almerinda Van Der Giezen a partilha deste dois links respeitantes ao espiritual “Wade in the Water”.

Imagem: Peter Lely. Elizabeth Murray (1626–1698)with a Black Servant. C. 1651

“Wade in the Water” é um dos espirituais afro-americanos mais conhecidos e carregados de significado histórico, cultural e religioso. A canção remonta ao século XIX e está profundamente ligada à experiência dos escravizados nos Estados Unidos e ao movimento de libertação por meio da Underground Railroad (Rede de Fuga). (…)
Interpretação religiosa:
• Faz alusão ao episódio bíblico de João 5:4, onde um anjo “agitava as águas” e quem entrasse primeiro seria curado. A ideia é que Deus está presente e ativo, oferecendo livramento e cura.
• O uso da palavra “trouble” (perturbar/agitar) sugere que algo milagroso está prestes a acontecer.
Interpretação codificada:
• Acredita-se que essa música também tinha função prática na fuga de escravizados. “Wade in the water” era um conselho literal: entrar na água para mascarar o rastro e confundir os cães farejadores dos caçadores de escravos.
• Harriet Tubman, uma das principais líderes da Underground Railroad, teria usado canções como essa para comunicar rotas e perigos de forma velada. (…)
Legado
“Wade in the Water” é mais que uma canção: é um símbolo de resistência, fé e inteligência coletiva dos povos escravizados. Faz parte de um legado musical e cultural que influenciou o gospel, o blues, o jazz e o soul, sendo até hoje cantada em contextos religiosos, educacionais e artísticos. (ChatGPT, 29/05/2025)

Wade in the Water (Spiritual) – A Cappella Academy Choir. A Capella Academy. Arranged and directed by Rob Dietz. Soloist: Shakale Davis. Video: Ryan Parma. Posted: 21/09/2016
Harris, K. & Harris, R. (1997). Wade in the Water. On Steal Away: Songs of the Underground Railroad [c.d.]. Morristown, NJ: Brooky Bear Music. (1984)

Morte Social e Sorte Grande

A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).

A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.

Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay

No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”!  Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!

Johannes Brahms – Waltz No. 15 in A-Flat Major, Op. 39 (Remastered). Piano: Philippe Entremont. Entremont Plays Best-Loved Piano Pieces, 2019

Mágua

I’ve always felt that the quality of the voice is where the real content of a song lies. Words only suggest an experience, but the voice is that experience (Jeff Buckley)

Cantor, compositor e guitarrista norte-americano, Jeff Buckley foi uma das maiores revelações dos anos noventa. Não sei se me é permitido, mas arrisco afirmar que “bastante louvou Quem cedo o levou”. Faleceu afogado, em 1997, com 30 anos de idade, quando nadava, entoando uma música dos Led Zeppelin, num afluente do rio Mississipi. Seguem quatro canções com inspiração religiosa: Grace; Corpus Christi Carol; Satisfied Mind; e, incontornável, a versão de Hallelujah, do Leonard Cohen.

Jeff Buckley – Hallelujah. Grace. 1994. Ao vivo no Cabaret Metro, Chicago, 13 de maio de 1995
Jeff Buckley – Corpus Christi Carol. Grace. 1994
Jeff Buckley – Satisfied Mind. Sketches for My Sweetheart the Drunk. 1998
Jeff Buckley – Hallelujah. Grace. 1994. Ao vivo no Cabaret Metro, Chicago, 13 de maio de 1995

Dar a volta por baixo

Se ao meio-dia o rei te diz que é noite, deves procurar as estrelas?

A beleza costuma ser diurna, solar. Brilha ao ponto de se tornar ofuscante! Mas pode dar-se-lhe a volta e torná-la noturna, ou seja, perigosa e mortal, fazê-la, por exemplo, descer do pódio para o túmulo (anúncio “Dress for the moment”). Parece, aliás, que nos anúncios da New Yorker a noite tem tendência a instalar-se. Em “Closet”, a inversão prossegue; agora, do masculino para o feminino. Perturbador!

Marca: New Yorker. Título: Dress for the moment. Produção: TwinFilm. Alemanha, 2009
Marca: New Yorker. Título: Closet. Produção: TwinFilm. Direção: Eric Hillenbrand, Alemanha, 2008

Morte Encalhada

Algumas fealdades são mais atraentes do que a beleza comum (Juliette Benzoni).

Testar um sentimento não é namoro que se evapore num ápice. Arrisca agudizar-se ou alastrar-se. A disforia das fragâncias do inferno de Sharon Kovacs pode ressoar, por exemplo, no videojogo Death Stranding, uma deambulação entre a vida e a morte num mundo catastrófico, com forças ocultas, ameaças assombrosas e seres disformes, embalado numa estética épica do feio e do mal, apostada em ambientes deslumbrantes e músicas envolventes.

A estreia do videojogo Death Stranding 2: On the Beach está anunciada para o próximo mês de junho. Segue um trailer.

Death Stranding 2: On the Beach – Pre-Order Trailer | PS5 Games. Colocado em 9 de março de 2025.

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Sim, há seres disformes, ameaças assombrosas, mas estas novas gerações o que esperam do mundo afinal? Creio serem metáforas de tudo o que vivemos e do que receamos. É recriado um mundo apocalíptico, mas onde ainda peŕsiste o bem e o mal. Nem as asas são dispensadas, as brancas e as negras. E sobretudo, o amor tem o seu lugar incondicional, com novos heróis e heroínas a combater o mal. Ou o combatem ou são aniquilados. Tudo, pareceu-me, para salvar uma inocência renascida, o bebé protegido a todo o custo, ou seja, o fruto do amor e da vida. Um recomeço.
Não sou fã deste tipo de alegorias mas entendo a necessidade destes novos jovens que, na sua maioria, só vêem desalento, incertezas, guerras e genocídios aceites tacitamente, solidão e não pertença, o horizonte não é mais o mesmo. Necessitam cruzar portas imaginárias onde conseguem ver beleza, amor e uma verdadeira luta, não com o invisível das suas vidas, mas monstros e morte personificadas. Porque a vida só tem sentido encarando toda a obscuridade dos demónios, os de dentro e os de fora, e a morte só é vencida quando a vida faz sentido.
Faz sentido? (Almerinda Van Der Giezen, 22.03.2025)

Fragâncias do Inferno

De Adriano Celentano para Sharon Kovacs. Do verso para o reverso, do segundo para o terceiro milénio, do luminoso para o sombrio, de Itália para Holanda. A música e as letras tornam-se mais tensas, pesadas e disfóricas. Estranha-se e custa a entranhar, mas acaba-se por saborear, senão venerar, como se aprecia o molho de alho ou o sumo de limão bem feitos.

Kovacs & Till Lindemann – Child Of Sin (Official Video). Child of Sin, 2023
Kovacs – My Love (Official Video). EP, 2014. Shades of Black, 2015
Kovacs – The Devil You Know (Official Video). Shades of Black, 2015
Kovacs & Metropole Orkest – Night of the Nights. Shades of Black, 2015. Metropole Session in Muziekcentrum van de Omroep, Hilversum, 2017
Kovacs – Cheap Smell (Live at Wisseloord). Cheap Smell, 2018

Degenerescência

Vejo pouco televisão. O meu ecrã é o do computador e os canais são o YouTube ou o Prime. Mas ontem cedi à conjuntura: jogos em Camp Nou e São Bento. O Benfica perdeu e Portugal não ganhou. Mais valia ter fechado os olhos e reouvir o Ezio Bosso, compositor, pianista e maestro italiano que faleceu com 48 anos de doença neurodegenerativa diagnosticada aos 39 (ver Quando a alma fecha a porta).

Io li conosco I domani che non arrivano mai
Conosco la stanza stretta
E la luce che manca da cercare dentro
Io li conosco i giorni che passano uguali
Fatti di sonno e dolore e sonno
per dimenticare il dolore
Conheço os amanhãs que nunca chegam

Conheço o quarto exíguo
E a luz que não logra penetrar

Conheço os dias que se repetem
Repletos de sono e dor e sono
para esquecer as dores
Ezio BossoEzio Bosso (tradução livre)

Anch’io ho fatto questa esperienza, ma la luce insisteva ad entrare da una fessura.

Ezio Bosso – Following a Bird. The 12th Room, 2015. Live in Sanremo, 2016
Ezio Bosso – Smiles for y… Seasong 1 To 4 and Other Little Stories, 2011. Sydney Theater, 2011
Ezio Bosso – Emily’s Room “Sweet and Bitter”. The 12th Room, 2015.